Universidade do Futebol

Gefir

18/01/2011

Formação do atleta de futebol: treinamento e preparação cultural

Nas décadas de 1960 e 1970, as concepções da educação física influenciavam diretamente o esporte no Brasil. Nesse período, a ênfase da Educação Física estava relacionada aos interesses militares e políticos da época (BRASIL, 1997; BRASIL, 1998; DARIDO; RANGEL, 2005; RAVAGNANI, 2010).

Na década de 1980 houve um aumento das críticas em relação ao conteúdo esportivo da Educação Física na escola, levando ao surgimento de inúmeras abordagens da Educação Física Escolar. Além disso, os profissionais envolvidos com esporte passaram a questionar o seu papel social e sua dimensão política, valorizando além da área biológica, também as dimensões sociais, psicológicas, cognitivas e afetivas do ser humano. Isso levou estes profissionais a repensarem as metodologias que estavam sendo aplicadas tanto na escola como nas escolinhas esportivas especializadas (MALDONADO, 2009).

A partir deste período, surgiram novas abordagens pedagógicas do esporte, dentre as quais podemos destacar inúmeros autores como, Bayer (1994), Bunker e Thorpe (1986), Dietrich et al., (1994), Greco (1988), Greco e Benda (1998), Graça e Oliveira (1995), Garganta (1985), Scaglia (1999), Paes (2001), Freire (2003) e outros.

As características e a metodologia utilizada por estas abordagens são apresentados no quadro a seguir.

Quadro 1: abordagens metodológicas do esporte que se destacaram no Brasil.

Adaptado Scaglia (2009)
 

A análise das diferentes abordagens pedagógicas, tanto da pedagogia do esporte como da educação física, revelam que as mesmas convergem na ideia de que o conteúdo esporte não pode ser tratado de forma mecânica e simplista (RAVAGNANI, 2010).

Neste sentido, o primeiro passo para traçarmos objetivos pedagógicos da prática esportiva, seja esta nas escolas ou em clubes e escolinhas, é conceituarmos e diferenciarmos esporte educacional e esporte rendimento “performance”.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997-1998), o esporte educação “é aquele que deve ser praticado de forma não sistematizada, evitando a seletividade, a hipercompetitividade e tendo como objetivo alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e sua formação para o exercício da cidadania”.

Já o esporte rendimento “visa o êxito e vitória sendo muitas vezes antidemocrático, preocupando-se com o método de treinamento especializado que prioriza os componentes físico, técnico e tático e supervaloriza o esporte espetáculo” (DARIDO; RANGEL, 2005; SANTANA, 2005).

A análise conceitual do esporte revela que o esporte educação encontra-se em oposição ao rendimento. Mas a grande questão é: dá para unir esporte rendimento com esporte educação?”.

Sob meu ponto de vista, antes de pensarmos no rendimento, temos que pensar no atleta que rende! Trata-se de um indivíduo inserido em um ambiente social, político, econômico e cultural. Sob esta ótica, a formação do ser humano passa a ser justaposta à formação do atleta, ou seja, esporte educação e esporte rendimento devem ser indissociáveis do ponto de vista da formação do atleta.

Nesta perspectiva, todos os responsáveis pela formação dos nossos atletas que trabalham nas categorias de base deveriam fazer a seguinte pergunta: “para que estou formando esse atleta?” A resposta deveria ser: “primeiramente para vida e posteriormente para ser talvez um futuro profissional de futebol”.

Ter como principal objetivo o esporte rendimento no período de formação do atleta não é a melhor opção. De acordo com Gallahue (2005) trabalhar com as crianças e jovens prematuramente pode acelerar o processo de desgaste físico e favorecer alguns problemas psicológicos, que, inevitavelmente, terão consequências na sua vida adulta e principalmente nos seus resultados esportivos futuro.

Neste sentido, o futebol, assim como as diversas modalidades esportivas, deve ter tratamento pedagógico que respeite os estágios de crescimento e desenvolvimento das crianças, adolescentes e jovens (VERARDI, 2008).

Corroboro com Scaglia (2009) quando afirma que:
 

“falar sobre iniciação esportiva e iniciação ao futebol é a mesma coisa, pois tanto na forma quanto no conteúdo só me salta aos olhos as semelhanças, sendo que as teorias que sustentam minha afirmação me permitem desconsiderar as diferenças”.
 

Os modelos atuais referentes à “iniciação esportiva”, expostos no quadro 1, vem ao encontro dos objetivos da formação integral do indivíduo pelo esporte. Esse período de iniciação esportiva que vai dos 7 aos 16 anos aproximadamente é muito importante para a formação do ser humano, pois valores educacionais podem e devem ser trabalhados concomitantes a prática esportiva, independente do objetivo a ser alcançado “educação ou rendimento” (RAVAGNANI, 2010).

De acordo com Santana (2005) a iniciação esportiva deve ser entendida como um período de aprendizado que tem como característica a ausência de posicionamento definido, a participação de todos os jogadores, a valorização de atividades simples e lúdicas, a aquisição e desenvolvimento dos fundamentos de múltiplas formas de movimentos, tendo como preocupação a formação motora, intelectual, social e esportiva.

Embora as metodologias da iniciação esportiva e da ciência do esporte tenham evoluído cientificamente, o processo de formação dos atletas de futebol no Brasil parece ter modificado muito pouco ao logo dos anos. Ainda hoje, o que vemos é que o responsável por recrutar e formar os futuros atletas profissionais de futebol, em geral, são pessoas sem formação técnica ou acadêmica, na grande maioria ex-jogadores.

A maioria dos jovens brasileiros, principalmente os mais pobres, investe a vida inteira no sonho de ser jogador de futebol. Todas as suas escolhas de vida estão, ou serão relacionadas ao seu grande sonho, deixando de lado coisas importantes como os estudos, família e até mesmo a saúde. Damos (2005) confirma esse interesse quando observa em seu estudo que um em cada três alunos da escola pública deseja tornar-se jogador de futebol.

Alguns filmes como “GINGA: A alma do futebol brasileiro” e outros descrevem o caminho percorrido por jovens e adolescentes que sonham em ser jogador de futebol e suas frustrações nesta busca.

Talvez, esse grande sonho tenha relação direta com um dos símbolos de poder da sociedade “dinheiro”, ou seja, pensamentos e desejos como, “ser rico, ter mulheres, comprar coisas para mim e para os outros” dentre outros aspectos ligado à questão financeira (DANTAS, 2009).

Dantas (2009) em seu estudo intitulado “Vivências e discussões sobre tornar-se jogador de futebol” nos mostra relatos de ex-jogadores que evidenciam esses desejos materialistas.
 

“O menino da categoria de base, ele vê o cara do profissional chegando de carro importado, ele também pensa um dia ter um tênis bom igual ao do profissional, quer ter um carro bom. Ele se espelha no cara do profissional que tem um salário relativamente alto e quer tentar ao máximo se nivelar ao cara que ele se espelha” (Guilherme, 22 anos).
 

Ao observarmos as estatísticas nacionais percebemos uma grande contraposição entre o que se deseja e o que de fato se obtém na carreira de jogador de futebol. Apenas 3% do total de jogadores brasileiros ganham mais de 20 salários mínimos por mês, enquanto que a maioria (73%) ganha apenas de um a dois salários mínimos mensais (DAMOS, 2005).

Damos (2005) revela também que a maioria dos jovens inicia a sua formação no futebol por volta dos 12 anos e muito destes em regime de albergamento, no qual o treinamento consiste em muitas horas de trabalhos corporais, voltados principalmente ao treinamento específico da modalidade.

Nota-se que, no Brasil, ser jogador de futebol é muito mais que aprimorar componentes físicos, técnicos e táticos, mas sim superar dificuldades de ordem financeira, familiar e social.

O relato de um ex-jogador, descrito por Dantas (2009), evidencia outra dificuldade extra-campo relacionada ao futebol:
 

“Várias vezes eu me pego chorando, porque eu vejo que muitos atletas não têm tanto potencial para estar em clube grande, mas estão por terem bons empresários”. (Fábio, 24 anos).
 

Acredito que essas dificuldades administrativas e outras descritas acima apresentem raízes culturais e históricas que dificilmente serão modificadas em curto prazo. A educação seria um possibilidade de transformar esta realidade por meio da formação de cidadãos ou, quem sabe, atletas cidadãos.

Para finalizar, considero que a falta de preocupação e qualificação dos profissionais que trabalham com a iniciação esportiva do futebol prejudicam muito a modalidade no aspecto formativo. A capacitação técnica e a formação acadêmica dos profissionais envolvidos com a modalidade no Brasil devem ser estimuladas.

Discussões por parte dos professores, técnicos, dirigentes e outros profissionais, acerca do papel e da necessidade do futebol na formação de atletas e cidadãos, são profundamente oportunas e necessárias, particularmente neste momento esportivo em que o Brasil se encontra: o “país do futebol” sediará a Copa do Mundo e as Olimpíadas!

Referência

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