Universidade do Futebol

Ceaf

03/06/2008

Formar atletas ou ser campeão no futebol de base?

No meio futebolístico não é incomum ouvirmos falas do tipo: “queremos formar mais que um atleta, um cidadão” ou ainda: “futebol é uma escola para a vida”. Contudo, sabemos que não é trivial tornar essas frases realidade e fica a dúvida: Será que isso realmente acontece na prática ou não passa do plano do discurso, ou seja, uma falácia?

O contexto da sociedade atual pode ser resumido de forma simplista em um mundo globalizado no qual as ferramentas de obtenção de informações aumentaram exponencialmente a velocidade com que o conhecimento é adquirido. Além disso, podemos dizer que a busca incessante por bens materiais e pelo lucro regem a essência da humanidade capitalista. Dada essa realidade, será que é possível dar uma verdadeira educação e uma formação holística para os nossos atletas?

Sob o meu ponto de vista, depende de nós educadores (técnicos), concretizarmos a formação desse cidadão-atleta que tanto ouvimos falar. O problema jaz no fato de que os técnicos (aqui se entenda “técnicos” não de forma isolada, mas dentro da filosofia de trabalho de um clube, instituição) deixam de se preocupar com a formação desses jovens em detrimento dos seus interesses próprios, para conseguirem uma ascensão meteórica com as respectivas vantagens que isso possa lhes trazer. Isso na prática traduz-se em títulos, afinal, em nosso país o que vale é ser campeão (nem mesmo o segundo lugar é valorizado!).

Se essa lógica prevalecer, vamos continuar vendo esse futebol de chutão (ou o famoso “chutobol”), sem padrão tático nenhum, em que garotos fisicamente muito fortes são as grandes “armas” das equipes. Essa realidade é tão triste que muitas vezes durante uma partida esses times não dão cinco passes seguidos sem perder a posse de bola, mas atuando na postura de tirar a bola de perto da área de defesa e chutar em direção ao atacante forte e rápido, quase sempre vencem.

Essa constatação pode ser evidenciada nos jogadores de 12, 13 anos que se autodenominam “mini-craques”, com salários e contratos mais altos do que seu educador (técnico). Como serão esses atletas quando chegarem ao profissional, se desde a infância foram tratados como tal? No momento em que deveriam se capacitar para a modalidade (e para a vida), aprendendo a jogar em várias posições; vivenciar diversas variações táticas; estar num esquema e mudar para outro com os mesmos jogadores; chutar com ambos os pés; fazer leitura de jogo; ter espírito de equipe; ser humilde; respeitar o próximo e saber o real valor de uma vitória assim como aprender com a derrota, não fazem nada disso porque já são “craques”!

Talvez por isso, vemos tantos profissionais de contratos milionários que não fazem metade do que citamos acima. Isso é extremamente triste, uma vez que no Brasil essa é a modalidade mais praticada e existem tantos profissionais desqualificados atuando. Talvez seja por isso que nossos jovens estão indo casa vez mais cedo para Europa.

Fico imaginando se no voleibol (modalidade pouco difundida se comparada ao futebol) fosse assim também: com certeza não teríamos a hegemonia adquirida hoje! A “sorte” (ou melhor, azar na minha visão) é que as proporções do nosso país e a massificação do futebol permitem que ainda sejamos os maiores campeões mundiais.

Penso que não devemos perder de foco que estamos tratando aqui de categorias de base. A própria denominação já diz: “base”, que segundo o dicionário Aurélio significa: “tudo o que serve de fundamento ou apoio”. É justamente disso que eles precisam: de um sustento, ou seja, de um alicerce. Assim, dar a liberdade pra que possam errar sem medo de represália (muitas vezes carregadas de palavras de baixo calão) afinal, são jovens em formação e os erros são comuns em qualquer processo de aprendizagem.

Aliás, em tese, sob certo aspecto é até interessante que esses atletas errem quando em formação, para que no futuro, não cometam mais esses erros. Por isso da importância de se criar um ambiente de aprendizagem adequado, coibindo o medo de errar, principalmente quando estão tentando fazer aquilo que o seu educador (técnico) passou nos treinamentos diários.

Para finalizar, colocamos uma pergunta para o leitor: então quer dizer que não é importante ganhar? Sim, não sejamos hipócritas. É importante ganhar quando pensamos em competição, caso contrário não estaríamos formando atletas bem preparados para o mercado de trabalho. Contudo, com atletas em formação, a vitória deve estar como um meio e não como o fim. Devemos ser competitivos e exigir que façam aquilo que julgamos mais importante naquele momento, cobrando empenho e dedicação. Dessa forma, teremos um atleta-cidadão para a vida e se ele não vir a se tornar um jogador profissional de sucesso, (sabemos que poucos vingarão) será como ser humano. Se isso ocorrer, o papel da base está cumprido.

Comentários

  1. Giorgio Santos disse:

    Excelente artigo, é uma pena que poucos profissionais seguem essa linha de raciocínio.

  2. Alan disse:

    sensacional…

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