Universidade do Futebol

Biomec

16/08/2007

Formas de análise de ações e posicionamentos de atletas de futebol e suas respectivas utilidades

Resumo:

O objetivo deste manuscrito é realizar uma breve revisão sobre o estudo da análise do posicionamento de atletas de futebol e suas respectivas ações durante a partida, procurando compreender como essas informações são favoráveis a técnicos, preparadores físicos, fisiologistas e todos aqueles que aprimoram o rendimento desses atletas. Para tal propósito, foram analisados, na literatura nacional, artigos originais e livros sobre o assunto em questão, procurando sempre entender de que maneira a análise automática do deslocamento dos jogadores e as anotações das ações podem beneficiar a evolução e periodização do desenvolvimento tático, técnico e físico das equipes de futebol. Através desse diagnóstico pode-se detectar a variabilidade das distâncias percorridas e a diferença do número de ações efetuadas por cada atleta, com seus respectivos posicionamentos táticos.

Palavras-chaveE: Futebol, Análise de jogo e Deslocamento.

Introdução

Jogadores considerados de alto nível e que militam em grandes clubes de futebol profissional brasileiro jogam mais de 60 partidas por ano (Silva, 2006). Em categorias de base, atletas de futebol Junior (sub-20) chegam a jogar 80 partidas por temporada (R.F.C.B,2006), justapondo, atletas de futebol Juvenil (sub-17) jogam mais de 64 partidas oficiais por ano (R.F.C.B, 2006). Na copa de 1970 a média da distância percorrida era de seis a oito quilômetros e as maiores participações técnicas dos jogadores eram de 55 a 60 toques na bola. Na Champions League de 2004, a competição que reúne os melhores times europeus, a média da distância percorrida foi de dez a 14 quilômetros. Similarmente, as maiores participações técnicas dos jogadores no Campeonato Brasileiro de 2006, por exemplo, foram de 90 a 110 toques. Saraiva (2006), relata que a alternância de períodos de recuperação (baixa velocidade) com esforços curtos de grande intensidade, e realizados à máxima velocidade, é cada vez mais freqüente.

Conforme Jeans Bangsbo(2002), o jogador de futebol de primeira divisão dinamarquesa executa aproximadamente 1,1 mil trocas de intensidade de exercício. Corroborando, Weineck (2004) relata que a cada 5/6 segundos ocorre uma mudança de ritmo ou de direção e, a cada 90 segundos o jogador tem que executar um sprint de aproximadamente 15 metros. Dados que mostram um aumento do ritmo de jogo não só na distância total percorrida, mas também na maior ocorrência de situações próxima da intensidade máxima, as quais são determinantes e decisivas para o futebol. Por isso, recaem sobre os atletas solicitações físicas, muitas vezes inesperadas, intensas e de mais variada forma durante a partida, exigindo elevados níveis de aptidão física, assimilação tática, maestria técnica e estabilização emocional. Diante de inúmeras situações que requerem consciência, razão e uma tomada de decisão rápida (Costa, 2002), para suportar a imprevisibilidade dos fatos no jogo.

Devido ao aumento dessa gama de exigências, o futebol, como desporto, vem se tornando cada vez mais um instrumento de investigação científica. Por isso, existe a necessidade de se ter conhecimento dos reais movimentos realizados durante uma partida. Por isso, a análise sobre o posicionamento e ações técnicas dos jogadores (scout) durante a partida se constitui uma ferramenta importante, pois os dados fornecidos por essa análise se caracterizam por sustentar e possibilitar uma adequada evolução tática, técnica, física e psicológica de cada atleta (periodização do treinamento). Informações como velocidade, aceleração, distância percorrida, bolas roubadas e passe errado-certo, são tidos como base para a elaboração dos treinamentos. Gomes (2002) sustenta que a preparação desportiva compreende todos os fatores relacionados com a preparação do atleta, levando ao desenvolvimento de uma performance ótima na modalidade praticada. O futebol necessita de uma preparação física especializada, não só com relação às demandas energéticas, valências físicas, etc., mas também embasada em meios que se identificam, ou são idênticos às ações praticadas durante o jogo.

Sistema scout

Scout representa a análise de determinadas ações do atleta no transcorrer da partida de futebol. Um exemplo de scout foi desenvolvido por Barros et al (2002), para anotar as ações realizadas pelos jogadores durante uma partida. O sistema constitui uma boa ferramenta de análise dos fundamentos do jogo, pois permite que sejam avaliadas de diversas maneiras as ações dos atletas. Por exemplo, que jogador possui maior índice de erros de passe e em que momento do jogo acontece, ou talvez identificar quem efetua mais desarmes na partida. Informações que são de grande valia à comissão técnica de forma a corrigir defeitos na equipe, sempre buscando otimizar o desempenho da equipe.

O programa pode registrar as seguintes ações: passe, cruzamento, drible, desarme, finalização, falta, domínio, gol e condução de bola. O software proporciona as seguintes possibilidades: análise de determinado período do jogo; análise de diferentes jogadores; análise por fundamentos; análise por resultado da ação (certo-errado). A coleta de dados pode ser feita em tempo real ou por imagens gravadas. O sistema possui uma interface que fornece ao operador a opção de passar os dados usando o mouse ou o touch screen. Essa interface apresenta um campo de jogo, ao lado o nome dos jogadores e um outro quadro o nome das ações que podem ser realizadas, sendo que a metade do quadro é verde (ações certas) e a outra é vermelha (ações erradas). Quando uma ação é realizada o operador marca na tela o local onde aconteceu a jogada, depois o nome do jogador e por fim se a ação teve sucesso, ou não. Os deslocamentos com a bola são marcados com o mouse. O operador clica no lugar onde ele começou a conduzir a bola e solta o botão no momento que ele não possui mais a mesma. Segundo Barros o sistema é eficiente e flexível para a coleta de ações durante o jogo. Quanto à posição dos jogadores o sistema mostrou-se adequado aos objetivos do estudo, porém não deve ser usado para estimar localidades exatas dos atletas no campo de futebol.

Análise da tática através de sistemas de filmagens

O fator tático inclui a melhoria da estratégia estudando o “comportamento da equipe” de futuros adversários (Bompa, 2002). Menezes et al (2005) propõem a análise por componentes principias, podendo assim representar de forma “reduzida” os deslocamentos dos jogadores. Esse método permite a identificação da formação tática, devido à visualização do posicionamento de todos os jogadores em campo. O método por componentes principais pode tornar-se um grande aliado de treinadores no estudo de equipes adversárias, basta que os dados cheguem de uma forma simplificada nas mãos do treinador para que ele possa fazer uma avaliação do adversário e de seus jogadores. O processamento dos dados bem como a obtenção das posições dos atletas por sistemas dedicados como, por exemplo, o Sistema Dvideow. O Sistema Dvideow, desenvolvido na Unicamp, consiste basicamente de um software que permite reconstrução da situação espacial original a partir de um filme digital. Em outras palavras, é possível, a partir da filmagem do jogo, saber a posição de cada jogador no campo ao longo de toda a partida, e conseqüentemente calcular a distância total percorrida, velocidade média (ou instantânea) ao longo da partida, entre outras variáveis cinemáticas. É claro que as condições metodológicas para a obtenção destes resultados passam por rigorosos critérios como, por exemplo, a filmagem do ambiente de jogo por várias câmeras que permanecem estáticas ao longo de toda a partida, o conhecimento de distâncias específicas no campo para a calibração das imagens, além de um grande esforço humano na operação do sistema. Obviamente a grande maioria dos clubes de futebol brasileiro não possui o material necessário para fazer as filmagens, digitalizações e análises dos dados. Mas as agremiações que possuem maiores possibilidades financeiras poderiam fazer um investimento nesse tipo de sistema.

Durante o desenvolvimento deste tipo de sistema Misuta et al (2001) realizou a análise do deslocamento de jogadores em um espaço reduzido, devida a grande complexidade de se rastrear todos durante os 90 minutos da partida. Neste estudo inicialmente três atletas realizam as trajetórias sozinhos no campo de jogo, após o caminho é feito em dupla, com as trajetórias se cruzando no decorrer do percurso. O Sistema Dvideow foi utilizado para rastrear a trajetórias dos mesmos. Misuta coloca que quando os sujeitos corriam sem ocorrência de cruzamento em suas trajetórias os resultados mostraram-se satisfatórios. Quando ocorreu o cruzamento nas trajetórias, o resultado mostrou-se satisfatório quanto a obtenção das trajetórias, mas insatisfatório quanto a decisão e sentido correto das mesmas após o momento de cruzamento dos indivíduos.

Com o intuito de aprimorar o sistema, Misuta et al (2003) sugerem a validação do método para a análise automática de deslocamento de jogadores de futebol baseado em videogrametria. Para tal, são realizados três testes: Teste Estático; Teste Dinâmico; Aplicação do método em situação real. Este método pode ser dividido em filmagens, medições, calibração e reconstrução. Os dados obtidos através desse trabalho seriam uma excelente forma para os preparadores físicos analisarem as reais exigências físicas dos atletas de diferentes posições, pois os números nos mostram que os jogadores de diferentes posições táticas não percorrem distâncias iguais. A partir, dessas informações, periodizar treinos mais específicos de acordo com cada movimentação.

Figueroa et al (2003) utilizaram um método que se divide em três partes: aquisição de seqüências de imagens, segmentação e rastreamento de jogadores. Neste, são utilizadas no mínimo quatro câmeras, sendo que foram colocadas duas câmeras adicionais focando a grande e pequena área, para auxiliar nos momentos de escanteios e faltas próximas do gol. Após a filmagem deve ser feita a sincronização das câmeras podendo ser utilizado um evento em comum para o sincronismo. Por fim, realiza-se a segmentação de jogadores, para que se possa realizar o rastreamento. Este método também relata a distância total percorrida e suas trajetórias durante a partida. Demonstrando, novamente, a existência de diversas formas de analisar os deslocamentos dos atletas. Através dos dados obtidos realizar planejamentos e periodizações com maior precisão buscando sempre o desenvolvimento tático, técnico e físico dos atletas.

Considerações finais

Pretende-se através desta breve revisão demonstrar que cada vez mais o futebol vem sendo objeto de investigação científica, e que com o passar dos anos os clubes estarão utilizando esses novos métodos de análises de ações e deslocamento de atletas, para que seus resultados sejam otimizados. Sugere-se que clubes de futebol invistam em pesquisas que ajudem a encontrar formas cada vez melhores de se obter o máximo rendimento de seus atletas. Assim, comissões técnicas poderiam realizar amplos estudos de suas equipes e seus futuros adversários, desenvolvendo cada vez mais o atleta, para se alcançar, verdadeiramente, um desportista de alto rendimento.

Bibliografia

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* Jefferson Fagundes Loss é Ph.D. pela ESEF/ UFRGS e membro do Biomec

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