Universidade do Futebol

Entrevistas

05/12/2014

Francisco Coelho, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Um grupo de estudos capaz de discutir e produzir conhecimento sobre as questões da fisiologia do futebol e do treinamento esportivo. Esse é o mote do nascimento do GEFFUTE/UFRB (Grupo de Estudos em Fisiologia do Futebol e do Treinamento Esportivo). O projeto, nascido há pouco mais de um ano e meio, passou a oferecer aos clubes de futebol do interior da Bahia uma infraestrutura adequada para uma preparação mais qualificada para o Campeonato Estadual.

“Apesar de hoje já contarmos com esteiras, analisador metabólico de gases, lactímetros, tapetes de contato, fotocélulas, refratômetro e analisador de variáveis bioquímicas como, por exemplo, creatina quinase, a falta de recurso financeiro dos clubes e de conhecimento dos dirigentes das equipes sobre a diferença que a fisiologia pode fazer na preparação de uma equipe, ainda é uma dificuldade que temos enfrentado”, revela Francisco Teixeira Coelho, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Licenciado e mestre em Educação Física pela UFMG, ele passou a aprofundar a leitura de trabalhos que investigam os aspectos motores e fisiológicos de uma partida de futebol e em algumas situações esporádicas. E nesta semana , entre os dias 5 e 6 de dezembro, capitaneia o I Simpósio de Fisiologia do Exercício Aplicada ao Futebol de Campo na UFRB.

“Esse é um simpósio que foi demandado pelos alunos que integram o GEFFUTE/UFRB. Considerando que aqui na Bahia há poucos eventos que se propõem a discutir a fisiologia aplicada ao futebol de campo, decidimos dar esse passo à frente e proporcionar aos professores, estudantes de Educação Física e pessoas que lidam com o futebol da Bahia a oportunidade de se aproximarem de fisiologistas que atuam nos grandes clubes de futebol brasileiro e conhecerem o que há de novo sendo utilizado pelas equipes em suas preparações”, revela o Professor Assistente do Centro de Formação de Professores da instituição de ensino baiana.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, o pesquisador fala mais sobre o perfil das ações motoras realizadas no futebol de campo em equipes de excelência e qual é a real importância dos marcadores sanguíneos na indicação de nível de lesão, estado de hidratação, condição de fadiga e desgaste muscular de um futebolista.

Universidade do Futebol – Em primeiro lugar, fale um pouco sobre sua formação acadêmica e a sua relação no futebol.

Francisco Coelho – Sou Licenciado e mestre em Educação Física pela UFMG e atualmente curso o doutorado em Ciências do Esporte. Desde a época da graduação me interesso pela leitura de trabalhos que investigam os aspectos motores e fisiológicos de uma partida de futebol e em algumas situações esporádicas estive em equipes como o América/MG, Cruzeiro/MG e Ceará/CE auxiliando os fisiologistas na realização dos testes nas pré-temporadas.

Essas experiências aumentaram ainda mais o meu interesse pela área e, após ingressar na UFRB como docente de Fisiologia do Exercício, percebi que era o momento de criar um grupo de estudos capaz de discutir e produzir conhecimento sobre as questões da fisiologia do futebol e do treinamento esportivo.

A partir daí, em junho de 2013 criamos o GEFFUTE/UFRB (Grupo de Estudos em Fisiologia do Futebol e do Treinamento Esportivo) com o objetivo de oferecer aos clubes de futebol do interior da Bahia uma infraestrutura adequada para uma preparação mais qualificada para o campeonato baiano. Apesar de hoje já contarmos com esteiras, analisador metabólico de gases, lactímetros, tapetes de contato, fotocélulas, refratômetro e analisador de variáveis bioquímicas como, por exemplo, creatina quinase, a falta de recurso financeiro dos clubes e de conhecimento dos dirigentes das equipes sobre a diferença que a fisiologia pode fazer na preparação de uma equipe, ainda é uma dificuldade que temos enfrentado.

Universidade do Futebol – Na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, haverá o I Simpósio de Fisiologia do Exercício Aplicada ao Futebol de Campo. Qual é a expectativa em relação ao evento?

Francisco Coelho – Esse é um simpósio que foi demandado pelos alunos que integram o GEFFUTE/UFRB. Considerando que aqui na Bahia há poucos eventos que se propõem a discutir a fisiologia aplicada ao futebol de campo, decidimos dar esse passo à frente e proporcionar aos professores , estudantes de Educação Física e pessoas que lidam com o futebol da Bahia a oportunidade de se aproximarem de fisiologistas que atuam nos grandes clubes de futebol brasileiro e conhecerem o que há de novo sendo utilizado pelas equipes em suas preparações. Portanto, estamos com uma grande expectativa de que o evento alcance seus objetivos de difundir um conhecimento de excelência na área, contemplar os anseios dos profissionais da área que atuam no futebol baiano e no futebol brasileiro e se consolidar como um evento de referência no interior da Bahia.


 

Universidade do Futebol – Qual é o perfil das ações motoras realizadas no futebol de campo em equipes de excelência?

Francisco Coelho – Várias ações motoras são realizadas durante uma partida de futebol, como por exemplo, chutes, cabeceios, “carrinhos”, dribles, saltos, passes, mudanças no ritmo de corrida com bola e sem bola, mudanças de direção, entre outras ações. Em média, jogadores de linha percorrem entre 8 e 12 km (essa distância varia conforme as posições dos jogadores) e os goleiros aproximadamente 4 km em uma partida. Entretanto, em função da imprevisibilidade do jogo, há uma grande variação nas ações realizadas e na intensidade dessas ações.

Estudos mostram que no alto rendimento cerca de 1200 mudanças de atividade ocorrem ao longo da partida, o que representa uma mudança de ação a cada 3 a 5 segundos, com uma pausa de 3 segundos a cada 2 minutos de jogo. Jogadores de alto nível chegam a correr 2 a 3 km em alta intensidade (entre 15 e 20 km/h) e cerca de 600 m em velocidades superiores a 20 km/h (sprints). Comparado com jogadores moderadamente treinados, os jogadores de alto nível conseguem manter as atividades de alta intensidade por um maior tempo ao longo da partida, em função da maior velocidade de recuperação entre as corridas de alta intensidade, muitas vezes refletido pelo maior VO2máx desses jogadores.

A literatura mostra que a distância percorrida em alta intensidade por jogadores de excelência foi 28% maior que jogadores de nível moderado. Em relação à distância percorrida realizando sprints, essa diferença aumenta para 58%. Isso é observado, pois equipes medianas exibem maior redução na distância total percorrida nos sprints durante uma partida em função dos efeitos cumulativos da fadiga. Portanto, fica claro que no futebol atual que a capacidade de realizar atividades de alta intensidade ao longo de todo o jogo é fundamental àquelas equipes que almejam o topo.



Universidade do Futebol – A monitoração dos trabalhos no futebol deve considerar o tipo de exercício intermitente, no qual períodos curtos de alta intensidade são entremeados com períodos mais longos de recuperação ativa ou passiva. Como você o fisiologista atua nesse sentido e controla as variáveis apresentadas?

Francisco Coelho – Realmente a característica intermitente do futebol pode influenciar a interpretação de algumas variáveis fisiológicas, subestimando ou superestimando os resultados e não refletindo o efeito da sessão de treino sobre o organismo. O lactato, por exemplo, sendo medido ao final de uma sessão de treino não refletirá fidedignamente o que foi aquela sessão de treino para o atleta, principalmente quando consideramos a quantidade de ações motoras de diferentes intensidades que são realizadas nessa seção. O mesmo acontece quando se expressa a frequência cardíaca de uma sessão simplesmente a partir da média da frequência cardíaca da sessão.

O ideal é, em modalidades intermitentes, registrar as alterações agudas em determinadas variáveis ao longo de toda a atividade. Em sessões de treino é comum os fisiologistas monitorarem os trabalhos através do GPS, que registra as ações motoras realizadas, e de cardiofrequencímetros que armazenam os dados para o registro das frequências cardíacas ao longo de todo o treino. No caso do registro da frequência cardíaca ao longo de toda a sessão, o fisiologista pode utilizar esses dados para estimar a carga interna de treino sentida pelo jogador a partir do método de Edward, no qual a carga interna de treino leva em consideração o volume total da sessão de treino e a intensidade total da sessão de exercício classificada em cinco fases de intensidade.

Ou seja, uma pontuação para cada sessão de treino será calculada multiplicando o tempo gasto em cada zona de frequência cardíaca por uma constante atribuída a cada zona (50-60% FCmáx= 1, 60-70% FCmáx= 2, 70-80% FCmáx= 3, 80-90% FCmáx= 4 e 90-100% FCmáx= 5).

Um segundo método que pode ser utilizado é o de TRIMP proposto por Banister (1991) cujo cálculo leva em consideração a duração da sessão de treino e os valores da frequência cardíaca média da sessão de treino, de repouso e máxima. Complementando essas estratégias mais precisas, alguns clubes ainda utilizam escalas de percepção subjetiva do esforço através das quais o atleta informa o quão intenso ele percebeu a sessão de treino.

Realizando o cruzamento dessas informações para cada atleta, é possível controlar com maior precisão o que representou a sessão de treino para cada jogador, tornando o trabalho do fisiologista fundamental para subsidiar o trabalho do preparador físico.

Universidade do Futebol – A potência aeróbia reflete a qualidade de funcionamento dos sistemas respiratório, cardíaco e muscular esquelético – pré-requisito para uma boa performance esportiva. A construção de uma base aeróbia boa se inicia no departamento de formação de atletas? Se um atleta se apresenta com déficit na categoria principal, que tipo de trabalho deve ser realizado com ele?

Francisco Coelho – Costumo brincar com meus alunos dizendo que uma boa base aeróbia talvez se inicie a partir do momento em que herdamos os genes dos nossos pais. Partindo dessa herança genética, é possível aumentá-la através do treinamento físico bem estruturado e planejado. Acredito que o departamento de formação de atletas dos grandes clubes brasileiros tem toda a infraestrutura e todas as possibilidades não apenas de construir uma boa base aeróbia, mas também uma boa base de força, de potência, de coordenação motora, de tática e de técnica.

Algo que tenho sentido falta nos clubes brasileiros é de uma abertura maior desses departamentos para que os vários grupos de estudos do futebol no Brasil possam realizar pesquisas cujos resultados poderão qualificar ainda mais o processo de formação desses atletas. No que tange ao atleta que apresenta um déficit na base aeróbia, a literatura tem mostrado que o treinamento intervalado de alta intensidade tem apresentado maior eficácia no aumento do VO2máx.

Um interessante estudo realizado por Helgerud et al (2007) comparou 4 protocolos de treinamento sendo: 1) corrida contínua a 70% da FCmáx durante 45 minutos; 2) corrida contínua no limiar de lactato (85% FCmáx) da durante 24,25 minutos; 3) corrida intervalada com 47 repetições de 15 segundos (90-95% FCmáx) e 15 de recuperação ativa (70% FCmáx); 4) corrida intervalada de 4 séries de 4 minutos a 90-95% FCmáx com 3 minutos de recuperação ativa (70% FCmáx) entre cada intervalo. Após serem submetidos a esses protocolos três vezes por semana durante oito semanas apenas os grupos que foram submetidos à corrida intervalada aumentaram o VO2max em 5,5% (protocolo 3) e 7,2% (protocolo 4). Os demais protocolos não modificaram o VO2max dos indivíduos. Outro estudo que utilizou o protocolo 4 realizado apenas duas vezes por semana no início da temporada encontrou aumentos de 10,8% do VO2max demonstrando que esse tipo de intervenção pode ser bastante eficaz para reduzir o déficit aeróbico de atletas nas categorias principais.

Universidade do Futebol – Qual a real importância dos marcadores sanguíneos na indicação de nível de lesão, estado de hidratação, condição de fadiga e desgaste muscular de um atleta de futebol?

Francisco Coelho – A dosagem de marcadores sanguíneos na previsão de possíveis lesões tem sido bastante aceita pelo meio científico e muito utilizada pelos grandes clubes do futebol brasileiro. O fato de o futebol exigir uma grande produção de forças excêntricas, principalmente nas aterrissagens dos saltos e nas constantes mudanças de direção realizadas ao longo do jogo, torna o músculo mais suscetível à microtraumas.

Com esses microtraumas há uma maior permeabilidade da membrana plasmática e/ou da vascularização intramuscular provocando o extravasamento de algumas enzimas presentes no interior das células musculares para o sangue. Entre essas enzimas, a mais comumente dosada pelos clubes de futebol é a creatina quinase (CK) embora a dosagem da lactato desidrogenase (LDH) e da mioglobina também possam ser utilizadas como indicadores de microlesões. Portanto, quanto maior a concentração dessas enzimas no sangue 24-48 horas após uma partida de futebol, maiores as chances desse atleta apresentar um desgaste muscular e condição de fadiga que, se ignoradas, poderão evoluir e provocar lesões nos músculos que estão sofrendo esses microtraumas.

É importante frisar que juntamente com esses marcadores sanguíneos, o “feeling” da comissão técnica sobre os atletas e o acompanhamento diário nos treinos permitirão confirmar a existência de uma condição de fadiga e desgaste muscular.

Universidade do Futebol – No pós-jogo ou treino, deve-se utilizar a técnica da crioterapia com os atletas? Ou você crê que a imersão em água gelada possui benefícios apenas subjetivos?

Francisco Coelho – Fisiologicamente tenho visto que a crioterapia apresenta benefícios reais principalmente após a realização de jogos de alta intensidade. A literatura mostra que os benefícios para o dia seguinte (redução de edema, de dor muscular, da concentração de CK e mioglobina, de inflamação aguda provocada pelo dano muscular) são maiores quando a crioterapia é realizada imediatamente após a atividade de alta intensidade.

Além disso, a imersão em água gelada proporciona um efeito analgésico de curto prazo associado a uma diminuição da velocidade de condução do nervo, da atividade do fuso muscular e da resposta do reflexo de alongamento inibindo assim o ciclo espasmo-dor. Talvez, uma contraindicação da crioterapia seja a possibilidade de uma redução no fluxo sanguíneo muscular induzido pela vasoconstrição proporcionada pela água gelada e que poderia reduzir a disponibilidade de glicose e, consequentemente, síntese de glicogênio muscular, durante a recuperação.

Entretanto, essa ainda é apenas uma especulação baseada em teoria. Assim, acredito que os benefícios da crioterapia superam a ideia da subjetividade legitimando a utilização dessa técnica pelos clubes.

Universidade do Futebol – De que modo vêm sendo conduzidas as detecções de talento com base em análise genômica? No atual momento em que a ciência genética se aplica ao esporte, é possível ter um parâmetro seguro sobre isso?

Francisco Coelho – Essa é uma questão delicada que muitas vezes perpassa questões éticas. Acho fantástico que a ciência esteja evoluindo e nos possibilitando investigar quais fatores genéticos possam estar associados ao rendimento dos atletas de futebol de alto nível.

Tenho visto estudos sugerindo que o ACNT3, o gene que expressa a α-actinina-3 nas fibras de contração rápida e é conhecido como o “gene da velocidade”, possa ser um candidato que influencie a capacidade do músculo de gerar contrações rápidas influenciando na capacidade de produzir velocidade máxima e aceleração. Inclusive, acredito que no Brasil já haja clubes que estão mapeando esse gene em seus jogadores para verificarem se jogadores de alto nível em determinadas posições apresentam maior expressão da α-actinina-3. Entretanto, me preocupa como as pessoas utilizarão esse conhecimento de uma forma a não substituir a seleção natural pela seleção artificial.

A partir do momento em que forem identificados os genes que maximizam a potência aeróbica, a potência muscular e a força muscular, acredito que a manipulação genética será uma constante no meio do futebol e a descoberta de escândalos será cada vez maior como já acontece em outras modalidades esportivas que se utilizam de recursos ilícitos para maximizar a potência aeróbica, por exemplo.

Acredito que será possível construir um parâmetro seguro para lidar com essas questões, mas apenas quando isso começar a aparecer é que saberemos como lidar de forma efetiva com essa questão.

Universidade do Futebol – Atualmente, pode-se dizer que a fisiologia do esporte aplicada ao futebol ultrapassou as ações laboratoriais e tem atuação direta no cotidiano das agremiações? Qual é o novo papel do fisiologista?

Francisco Coelho – Não tenho dúvidas de que a fisiologia do esporte está presente nos campos de treinamento e no cotidiano das maiores agremiações do país e que isso é uma realidade que veio para ficar. Em minha opinião além de dar subsídios à preparação física através do controle da carga de treino, o fisiologista deve atuar também na recuperação dos atletas pós-jogo e na transição de jogadores que saem do departamento médico, mas que ainda não possuem a estrutura muscular apta para suportar uma sessão de treino juntamente com os demais jogadores do elenco.

Acredito que o maior desafio que se apresenta aos fisiologistas é o número cada dia maior de lesões proporcionadas pelo excesso de jogos imposto pelo calendário do futebol brasileiro. Aqueles fisiologistas que conseguirem reduzir o excessivo número de lesões que ocorrem ao longo da temporada com certeza se sobressairão comprovando que a atuação desse profissional é condição básica para uma equipe que almeja não apenas participar de competições, mas buscar títulos nos campeonatos que disputa.

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