Universidade do Futebol

Entrevistas

16/08/2013

Francisco Navarro Primo, treinador da base do Valencia

Não é somente por causa de Real Madrid e Barcelona que a Espanha atualmente dita o ritmo do futebol mundial.

Desde a Copa do Mundo de 2006 que muitos clubes espalhados pela terra do rei Juan Carlos têm revelado craques e jovens jogadores com enorme potencial para as suas seleções nacionais.

Com isso, o trabalho realizado nas categorias de base espanholas é reconhecidamente considerado um dos melhores do mundo e tem gerado bons frutos dentro de campo. O último feito das canteras, por exemplo, foi a conquista do campeonato europeu sub-21, no último mês de junho.

"A qualidade dos cursos para técnicos de futebol em nosso país é excelente e muito completa, sem querer menosprezar o trabalho de formação realizado em outros países. Na Espanha, temos uma abordagem desde a gestão de grupo até o profissional do scouting, passando pela formação em programas de informações, que nos ajudam a controlar melhor todos os aspectos da equipe e com ele melhorá-los continuamente", justifica Francisco Navarro Primo, treinador da base do Valencia, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Treinador de futebol desde 1992, Francis Primo, como é popularmente conhecido no meio do esporte, afirma sempre focar a sua metodologia de treinamento no aspecto tático da equipe.

Ele aponta que a integração das atividades em uma metodologia global de treino e o fato de fazer os jogadores a vivenciarem nos treinamentos aquilo que posteriormente vão enfrentar nas partidas são algumas das razões para o sucesso espanhol no futebol.

"As equipes iniciantes não jogam no modo 11 contra 11, jogam apenas em campos reduzidos e com, no máximo, 8 jogadores por equipe. O resultado não deve ser o fundamental, penso que se deva primar pela formação do jogador. Mas, nos jogos 11 contra 11, que acontecem a partir das categorias infantis de 12 e 13 anos, o jogador deve ir tomando consciência do resultado, tornando-se uma parte importante dessa formação", completa.

Nesta entrevista, concedida por e-mail diretamente de Valência, Francisco Primo ainda falou sobre seus métodos de trabalho e as diferenças entre o futebol brasileiro e o jogo praticado na Europa.

Confira a íntegra: 

Universidade do Futebol – Como foi sua trajetória profissional até chegar às categorias de base do Valencia?

Francisco Primo – Em primeiro lugar, gostaria de comentar que a escola na qual eu tenho treinado nestas duas últimas temporadas é a Escola Crack de Futebol, a segunda Escola do Valencia CF SAD.

Cheguei em novembro de 2011 para assumir o comando de um projeto que me parecia muito interessante como era treinar uma equipe de jogadores chineses que, por meio de um intercâmbio com o clube chinês Dalian Shide, estavam em Valência durante toda a temporada. Isso fez que, nesta última temporada, eu tenha continuado na Crack dando treino no sub-18, a segunda equipe da escola.

Nesta temporada, não vou permanecer ali, quero trabalhar em outros projetos. Comecei a treinar no ano de 1992, desde o sub-18 até as equipes profissionais, conseguindo três acessos em campeonatos regionais com equipes desta última categoria.

Cheguei a ser eleito o melhor treinador pelo Comitê Regional de Treinadores Valencianos. Aqui na Espanha, realizam-se três cursos para poder ter o título de treinador nacional.

Meu trabalho como treinador é conseguir que cada um dos jogadores tenha claro sua importância dentro do grupo, para que, semana a semana e partida a partida, a equipe saia beneficiada, revela
 

Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação sobre o nível dos jogadores do Valencia e em relação à estrutura de trabalho?

Francisco Primo – Como de costume, a Escola do Valencia CF SAD tem um grande nível, é uma das melhores da Espanha. O alto nível de seus jogadores faz com que, anos após ano, tanto a nível regional quanto nacional, suas equipes ocupem as primeiras posições nas respectivas competições que participam.

Em termos de estrutura, ultimamente, sempre está sujeita a mudanças contínuas, produzidas pelo Conselho de Administração do Valencia, que têm limitado a direção da escola com estas contínuas trocas que dificultam um melhor trabalho.

Universidade do Futebol – Como você avalia a evolução do seu trabalho com o grupo de atletas do Valencia?

Francisco Primo – Meu trabalho à frente desta equipe tem sido muito produtivo. No começo de temporada, marquei, desde a escola, alguns objetivos que tenho conseguido atingir de sobra, fora os objetivos que eu como treinador sempre me marcam e que me ajudam a ser sempre o mais competitivo possível e a conseguir de meus jogadores que deem sempre o máximo, pelo seu bem e pelo bem do clube.

O treinador tem de preparar os jovens, pois ao se transformarem em jogadores profissionais em um curto espaço de tempo, as exigências mudam muito. Por isso, eles devem estar preparados física e mentalmente, aponta

 

Universidade do Futebol – Fale um pouco sobre sua metodologia de treinamento com os jovens e os objetivos traçados. De que maneira o aspecto psicológico está presente em sua filosofia de trabalho?

Francisco Primo – Como havia falado anteriormente, as equipes da base que eu sempre treinei foram das categorias sub-18 e, na metodologia de meu trabalho, tudo é marcado pelo aspecto tático, todos os meus treinamentos estão pautados no aspecto tático da equipe. As tarefas a serem realizadas estão todas integradas em uma metodologia global, ou seja, sempre tento fazer com que o jogador vivencie nos treinamentos aquilo que posteriormente ele vai viver nas partidas.

Evidentemente, como treinador, a primeira coisa que tem de saber é com quem está trabalhando. Ao tratar-se de equipes sub-18, trabalhamos com jogadores que estão, todavia, em fase de formação como pessoas e com tudo o que os afeta, ou seja, estudos, amizades, separação dos pais, etc.

Por isso, deixando de lado a figura do treinador, nestes momentos você tem de ser pai, amigo, psicólogo, etc, mas sempre devendo saber que primeiramente você é o treinador deles.

Tem de prepará-los para que se deem conta de que, a maioria deles, irá se transformar em jogadores profissionais em um curto espaço de tempo e as exigências vão mudar muito, devendo estar preparados física e mentalmente.

Universidade do Futebol – E a percepção tática do jogo de futebol: como isso se insere nos treinamentos do Valencia?

Francisco Primo – Em todo o meu trabalho, a marca é o aspecto tático da equipe. As tarefas que realizamos são encaminhadas ao conhecimento exaustivo por parte de todo o grupo, do sistema que utilizamos e de suas variantes tanto ofensivas quanto defensivas, que fazemos quando temos a posse de bola.

Mas, dependerá muito da qualidade técnica dos jogadores. E também o que fazemos quando não temos a temos, fatores como onde, quando e como vamos pressionar a equipe adversária para roubar-lhes a bola ou provocar um erro da mesma e, assim, seguir atacando.

Universidade do Futebol – Qual é a grande diferença do que ocorre em um treinamento e em um jogo nesta etapa da formação?

Francisco Primo – Procuramos que esta diferença seja a mais insignificante possível, que todas as tarefas que se realizam em um treinamento, se pareçam, ao máximo, ao jogo real, ao que o jogador vai viver em uma partida. Para conseguir isso, porém, o nível de concentração dos jogadores deve ser o máximo.

Obviamente, há a questão dos campos, árbitros, pais, etc, aspectos que não se pode dominar 100% e que, por isso, não merecem que se perca muito tempo com eles. O mais importante e, por conseguinte, o que trabalhamos, é tudo aquilo que nós vamos ser capazes de fazer para ganhar um jogo.

Uma das grandes promessas do futebol espanhol atual, o meia Isco, recém-contratado pelo Real Madrid, foi revelado nas categorias de base do Valencia

 

Universidade do Futebol – Como você costuma gerir o grupo pensando de modo coletivo, em especial no tratamento aos atletas reservas e/ou menos utilizados nos jogos?

Francisco Primo – Todo o grupo deve saber o que é que o treinador quer deles, como quer que ataquem, como quer que defendam, qual é, em definitivo, a sua ideia de futebol e de equipe. Deve existir um conceito geral e inalterável, que deve dominar todo o que fazemos e que cada jogador vai identificar de uma maneira distinta.

Cada um deles tem características e qualidades distintas, não são todos iguais tecnicamente nem têm a mesma inteligência tática ou estão dentro de um processo formativo.

Meu trabalho como treinador é conseguir que cada um dos jogadores tenha claro sua importância dentro do grupo, para que, semana a semana e partida a partida, a equipe saia beneficiada.

No entanto, é difícil e complicado conseguir isso. Mas, temos de convencer o jogador que atua vinte minutos atuar sempre ao máximo nível. Com isso, na próxima partida, em vez de vinte, o técnico poderá dar quarenta minutos a este mesmo atleta.

Universidade do Futebol O resultado deve ser preponderante no processo de formação?

Francisco Primo – Nas equipes iniciantes, já que aqui na Espanha a base começa com crianças entre 4 e 5 anos, depois há categorias de 6 e 7 anos, outra de 8 e 9 anos, e, por fim, 10 e 11 anos, todas elas não jogam no modo 11 contra 11, jogam apenas em campos reduzidos e com, no máximo, 8 jogadores por equipe.

O resultado não deve ser o fundamental, penso que se deva primar pela formação do jogador. Mas, nos jogos 11 contra 11, que acontecem a partir das categorias infantis de 12 e 13 anos, também na que chamamos de cadetes de 14 e 15 anos, e na juvenil, que é entre 16 e 18 anos, o jogador deve ir tomando consciência do resultado, tornando-se uma parte importante dessa formação.

De todo modo, aqui na Espanha, as escolas geralmente têm várias equipes dentro da mesma idade, nas quais há espaço para todos, isto é, você pode ter três equipes sub-18 e fazer que, dentro da filosofia da tua escola, uma delas esteja composta com aqueles que a direção considera os mais capacitados; que a outra equipe seja uma mescla e que a última seja formada com aqueles jogadores que se sabe que não tem nível e que o resultado não terá nenhuma importância. O mais importante, neste caso, é praticar esporte e desfrutar dos companheiros.

É claro que o técnico trabalha a tomada de decisão em seus jogadores, como comentamos, todas nossas tarefas nos treinamentos estão direcionadas para que essa tomada de decisão seja a mais acertada possível pelo jogador, em particular, e, em consequência, pela equipe.

O resultado não deve ser o fundamental, penso que se deva primar pela formação do jogador, afirma o treinador da base do Valencia

 

Universidade do Futebol – Você acredita que a Espanha, atualmente, está à frente dos demais países em relação à formação de técnicos de futebol? Por quê?

Francisco Primo – Eu acredito que sim. A qualidade dos cursos para técnicos de futebol em nosso país é excelente e muito completa, sem querer menosprezar o trabalho de formação realizado em outros países.

Na Espanha, temos uma abordagem desde a gestão de grupo até o profissional do scouting, passando pela formação em programas de informações, que nos ajudam a controlar melhor todos os aspectos da equipe e com ele melhorá-los continuamente.

Neste cenário, talvez o pior seja a grande quantidade de treinadores que somos na Espanha, cerca de 78 mil. Com isso, encontrar um clube, um projeto interessante, está cada vez mais difícil.

Estive em outros países, Marrocos e China mais recentemente, e quando se vê o trabalho das equipes, você se dá conta que a qualidade dos treinamentos é bastante deficiente.

É preciso termos o conhecimento que, atualmente, os nossos sistemas de treinamento e nossas metodologias estão sendo estudadas exaustivamente pelos outros países, o que pesa muito a favor do treinador espanhol e, em consequência, das diferentes escolas que existem em nosso país.

Outra coisa é que essa cultura futebolística nos obriga a ir melhorando-a e até nós mesmos estamos em contínuo processo de reciclagem para tentar estar semre ao máximo nível. E isto faz com que nossos treinamentos tenham maior qualidade.

Os nossos sistemas de treinamento e nossas metodologias estão sendo estudadas exaustivamente pelos outros países, o que pesa muito a favor do treinador espanhol, avalia Francis Primo

 

Universidade do Futebol Qual a sua opinião sobre o futebol que se pratica no Brasil? Quais as principais diferenças em relação ao jogo que ocorre na Europa?

Francisco Primo – Em minha modesta opinião, desde sempre, o futebol praticado no seu país tem sido um futebol de “jogo bonito”, um futebol muito técnico e bastante desprovido de um rigor e disciplina tática.

Mas, sobre a principal diferença em relação ao jogo exibido na Europa, acredito que seja a velocidade e o ritmo de jogo, que normalmente estão presentes nas equipes do Velho Continente.

Porém, é grande a quantidade de jogadores da seleção brasileira que atua na Europa e isso faz que seja muito distinto o jogo da equipe nacional do jogo que praticam as equipes brasileiras em seus respectivos campeonatos.

Universidade do Futebol – Xavi Hernández, considerado "um cérebro" do futebol europeu nos últimos tempos, deu a seguinte declaração recentemente: "Não sou forte, nem rápido, nem habilidoso. Sou um jogador da rua. Simbolizo o jogo de equipe e, por isso, me elegeram o melhor da Eurocopa". O que você extrai deste depoimento? É possível “nascerem novos Xavis”?

Francisco Primo – Falamos de um ícone, não somente do futebol espanhol, mas do futebol mundial. Um jogador que, ao longo de toda a sua carreira profissional, tem mostrado não ser somente um enorme jogador, mas também uma excelente pessoa.

Não é forte fisicamente, mas é mentalmente. Não é veloz, mas é rápido de pensamento. Não é habilidoso, mas é extremamente eficaz. Como ele disse, é um jogador de equipe, um desses que, qualquer treinador, amante do bom futebol, desejaria ter no seu elenco.

Agora, espero que, com o trabalho que todos os treinadores fazem, sejamos capazes de continuar formando muitos Xavis em nossas escolas. 

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Especial: a importância da formação do treinador de futebol – parte II
Especial: a importância da formação do treinador de futebol – parte III
Especial: a importância da formação do treinador de futebol – parte IV
Especial: a importância da formação do treinador de futebol – parte final
Felipe Ximenes, superintendente de futebol do Coritiba
Pedro Boesel, gestor financeiro
Emily Lima, treinadora da seleção brasileira sub-17
João Burse, técnico do Mogi Mirim sub-20
Mariano Moreno, diretor da escola de técnicos da Espanha
Núcleo de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana
Baltemar Brito, ex-auxiliar de José Mourinho
Kemal Alispahic, treinador da seleção do Tadjiquistao
Maurice Steijn, treinador do ADO Den Haag
Hidde Van Boven, treinador do sub-13 do VV De Meern
Wim van Zeist, instrutor técnico do De Graafschap
Reinier Robbemond, treinador da equipe sub-13 do AZ Alkmaar
Jefta Bresser, ex-treinador da academia de jovens do PSV Eindhoven
Ron Jans, treinador do SC Heerenveen
Aleksandar Rogic, assistente técnico da seleção principal de Gana
João Aroso, treinador adjunto da seleção portuguesa de futebol
Roberto Landi, treinador da seleção da Libéria
Gustavo Almeida, técnico do Red Bull sub-15
Cláudio Roberto Silveira, treinador do Sri Lanka

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