Universidade do Futebol

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06/04/2019

Futebol: como atacar o último terço do campo de jogo? – PARTE 1

“Contra as equipes ultradefensivas, perguntei-me várias vezes: “Como é que posso encontrar espaços? Não existe nenhum”. Mas, há sempre alguns. Deves mover a bola de um lado para o outro, mover-se, mover-se novamente, e finalmente encontras o espaço. Eu passei a minha vida a procurando por ele, encontrando maneiras. Onde há espaço? Como fazê-lo aparecer?” Xavi Hernandéz

 

Escrever sobre “ataque” ou “sistema ofensivo” no futebol é sempre uma grande oportunidade. É um assunto rico, mesmo que por vezes negligenciado enquanto conteúdo de treino e de jogo.

A perspectiva de que defender bem requer treino e de que atacar bem requer talento vem contribuindo faz muito tempo para um congelamento de ideias no que diz respeito ao desenvolvimento do “bom ataque”.

Obviamente que não pretendo aqui desconsiderar ou minimizar o “jogador excelente” e a vantagem que a qualidade individual nos dá no confronto entre ataques e defesas, entre quem marca e quem tem a bola.

No fim das contas é a ação individual que vai fazer a bola chegar onde tem que chegar; e é o jogador que num arremate certeiro vai coloca-la dentro do gol.

Muitas vezes, no entanto, mesmo com jogadores de qualidade técnica vantajosa, têm ficado difícil para as equipes que atacam conseguir desequilibrar e desestruturar sistemas de marcação.

A boa estratégia defensiva e a disciplina tática, aliadas ao empenho, determinação e concentração dos jogadores que marcam têm contribuído para formação de defesas cada vez mais sólidas.

É claro que a evolução dos processos de treino no futebol (no mundo todo, por uma série de motivos) ajudou muito no desenvolvimento de melhores repertórios para marcar bola, adversários e espaços.

Não é segredo para ninguém que hoje o jogador que está com bola num jogo, possui menos tempo e menos espaço para agir, e que há mais jogadores adversários próximos a bola do que antes. Há pesquisas publicadas sobre isso.

É claro que não precisava nem escrever, no jogo de futebol a defesa sobressai ao ataque com ampla vantagem histórica.

Mas hoje o “ataque do passado” enfrenta a “defesa do presente”… e está ficando cada vez mais a cargo de contra-ataques e bolas paradas a missão de romper com os sistemas de marcação adversários. E o que há de errado nisso? Absolutamente nada. Não é essa a questão.

A ideia aqui é que pensemos em possibilidades. Ou seja, se uma equipe precisa de espaço para atacar e não tem, o que tende a fazer hoje? Estrategicamente acaba transferindo a bola para o adversário (quando isso não afeta a cultura do clube) para atraí-lo ao seu campo, e ao retomar a bola tentar com toda velocidade chegar ao gol. Mas por que não encontrar o espaço quando já se tem a bola?

Além do mais há equipes que não querem transferir a bola para o adversário, mas acabam transformando o jogo em um “perde e ganha” da posse, até que uma delas se aproveite dos desequilíbrios gerados por ele (pelo “perde-ganha”) e faça um gol.

Nesse momento devemos concordar então, que encontrar o espaço vantajoso para chegar ao gol adversário não é nem elementar e nem fácil. Mas é fundamental.

Portanto, tendo jogadores de alta qualidade ou não para atacar, quanto mais e melhor for a contribuição da organização coletiva da equipe para o desempenho dos indivíduos, maiores as chances de conseguirmos superar a representatividade das lacunas técnicas (que claro, continuarão sendo determinantes) e otimizarmos o desempenho ofensivo de cada um (potencializando o que tiverem de melhor).

Pois bem. Poderíamos nos perguntar agora, qual o ponto de partida, pensando em “ataque”, para construção de uma organização ofensiva vantajosa?

Vou propor aqui que olhemos do final para o começo.

Há o que dizer sobre “ataque” desde a fase inicial de construção do jogo, até o momento crucial de desfecho. Mas é no terço (ou quarto) final do campo de jogo que o espaço e o tempo parecem faltar mais para a equipe que tem a bola.

Na Copa do Mundo FIFA de futebol de 2018 pudemos observar algo que vem acontecendo faz um bom número de anos: equipes marcando com todos os seus jogadores no campo de defesa, trazendo a linha de atacantes para bem perto da área defensiva. Isso não é algo exclusivo das seleções. Está nos campeonatos pelo mundo todo, está no nosso Campeonato Brasileiro, nos nossos Estaduais.

O espaço está cada vez mais escondido. O gol cada vez mais protegido. Há equipes que nem fazer gol querem; apenas afastam a bola para longe e tentam quebrar o ritmo ofensivo do adversário.

Então nosso ponto de partida está em responder a duas perguntas antes de qualquer coisa:

a) Onde está espaço?
b) Como fazer ele aparecer?

Vejamos nas imagens que seguem (Figuras “A”, “B” e “C”). São referentes a uma partida da Copa de 2018 – e são sequência da mesma jogada.

Na Figura “A” a equipe que ataca tem pela frente os 11 jogadores adversários – todos empenhados em não “dar luz” ao gol.

Se a circulação da bola, o posicionamento e a movimentação dos jogadores que atacam permitirem conforto à defesa, o máximo que conseguirão é um deslocamento tranquilo de lado a lado dos defensores adversários. Talvez um ou outro momento de quase desequilíbrio; mas não muito mais do que isso.

Pois bem. O espaço que se quer possuir (dinamicamente) é aquele que está nas costas da linha de defesa de quem marca. E não é de qualquer jeito. Tem que oportunizar finalização. Tem que “dar luz” ao gol.

O espaço está ali – mas aparentemente inacessível. Não basta lançar a bola nele e correr para a disputa – muito aleatório…

Para ter o domínio do espaço desejado é preciso que a configuração de jogadores que atacam permita melhor e mais rápido acesso a ele (ao espaço) do que dos defensores.

Se repararmos a projeção da linha do último defensor da equipe vermelha, e a distância dos jogadores da equipe branca em relação ao espaço amarelo, perceberemos que apesar de desejar o espaço, a equipe branca não está pronta para usufruir dele antes dos defensores adversários.

Outro aspecto importante é que o jogador que tem a bola, ao movimentá-la conduzindo, driblando ou passando precisará causar desconforto e desequilíbrio no adversário.

E isso na prática quer dizer forçar os jogadores que marcam a mudarem o ritmo das suas ações, terem dúvidas, saírem dos espaços que estão tentando sustentar e proteger.

Vejamos: se o homem da bola da Figura “A” passar ao jogador indicado pelo holofote de luz, do ponto de onde está na imagem, ou três passos à frente em direção ao marcador, ou 2 metros para a esquerda, além do tempo da ação o que mais isso mudaria na prática?

Se queremos atacar melhor, temos que entender o que mudaria. Imaginar as possibilidades… Garantir que os jogadores compreendam o que desencadeia cada mudança.

Da mesma maneira, o que os jogadores da equipe branca que servem de apoios mais próximos ao homem da bola poderiam fazer para criar linhas de passe vantajosas?

Vantajosas? Sim! Que incomodariam o adversário (como descrito acima: gerar dúvida, mudar ritmo, etc.) e dariam ao ataque mais espaço para agir em direção ao desfecho da jogada!

Que espaços poderiam ocupar, ou para onde poderiam se projetar para que a próxima ação pós o primeiro passe aumentasse os desequilíbrios e fosse dando cada vez mais benefício para a sequência ofensiva que se constrói?

Na sequência das Figuras (“A”, “B” e “C”), a jogada se encaminha para as proximidades do escanteio. Notemos que a equipe branca não chega nem perto de ter o espaço que deseja.

É claro! Apesar dele estar ali, ele não aparece para os jogadores – os defensores não deixam… Mas os atacantes não contribuem para que isso mude.

Claro que o jogo de futebol não é um tabuleiro de 22 peças. Não é disso que se trata!

Mas se não conseguirmos a partir dos treinamentos fazer com que cada jogador compreenda o significado de cada pedaço de campo a ser ocupado, de cada movimento que pode fazer para interferir na posição do adversário, a ação com bola precisará ser muito mais contundente, o tempo todo, para alcançar algum desequilíbrio defensivo.

Mas se ao contrário, a ação de cada jogador quando estiver atacando carregar um propósito – ganhar espaço vantajoso – é possível que mesmo ações com bola menos elaboradas se transformem em algo contundente.

E nesse contexto, o “jogador excelente” vai poder realmente “brincar de futebol”.

No recorte da imagem ampliada está claramente visível que a posição corporal do homem que recebe a bola não é promissora no domínio – porque não se conecta nem com o objetivo macro da equipe, de conquistar o espaço atrás das costas da linha de defesa, e também especialmente porque não se conecta com as opções que sua equipe lhe dá – muito pobres espacialmente falando.

O futebol é um esporte no qual tens de ver o que está acontecendo ao teu redor para encontrar a melhor solução possível. Se não te relacionas com os outros, não sabes nada e não podes fazer nada” (Xavi em entrevista para– SO FOOT Magazine – 154.).

Isso se aplica a todos, não só a quem está com a bola.

Afinal, só há uma bola no jogo, e 10 jogadores da equipe que a possui não estão com ela.

Por enquanto é isso…

Comentários

  1. marcelo vitor froeder chrispiniano disse:

    Excelentes explicações !!!

  2. Alexandre Chemello disse:

    Seria uma grande contribuição para desenvolver novas ideias e ações táticas no futebol se os treinadores e técnicos observassem as técnicas de movimetação dos jogadores de basquete. O que o autor Rodrigo propõe, se vê muito no basquete, e evidentemente guardada as devidas proporções, especificidades e regras do jogo, as soluções poderiam ser transferidas para o futebol.

  3. Deiviti Cremonezi disse:

    ótima reflexão, deixar as movimentações e tomadas de decisões ofensivas ao aleatório, sera acreditar em um futebol decisivo jogado e decidido pela qualidade individual.
    Criar jogadas combinadas ( movimentações) para cada tipo de jogo, ou momentos dentro de uma partida, não engessando os atletas ou futebol, mas sim proporcionando subsídios e alternativas para as tomadas de decisões deixando para o atletas optar pela melhor ação momentânea.
    Porem o mais importante na minha visão em uma equipe de futebol, é todos os atletas lerem o mesmo jogo.

  4. Eduardo Luis disse:

    “No recorte da imagem ampliada está claramente visível que a posição corporal do homem que recebe a bola não é promissora no domínio” .

    A citação acima é com certeza o ponto de partida para que possa ser gerado um mínimo de desequilíbrio, pois com um corpo bem perfilado e um domínio orientado pode gerar o famoso “desconforto defensivo”, porém ainda falta conhecimento para desenvolver essas ações individuais que fará em futuro próximo uma diferença grande para o sucesso coletivo.

    Mas como sempre digo, precisamos que os clubes deem tempo e não sejam resultadista no período de formação, até quando???

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