Universidade do Futebol

Gief

14/08/2007

Futebol, Cultura e Patrimônio Cultural

Atualmente reconhecemos o futebol como um dos mais importantes fenômenos da cultura brasileira. Mas nem sempre foi assim. Políticos, militantes e intelectuais protagonizaram, na década de 70, um amplo debate sobre o lugar do futebol na sociedade brasileira. Algumas das idéias que ancoram nossa perspectiva atual sobre o esporte foram produzidas neste período. Dentre elas destacam-se as do antropólogo Roberto Damatta que renovou e ampliou o espectro de discussões sobre o assunto. Seus estudos revelaram que o futebol não era um fenômeno extrínseco à cultura, “… uma atividade em oposição ou competição [com ela]”, mas uma atividade da sociedade e, portanto, da cultura. Não era o ópio do povo de que falava certa linha de pensamento.

Tal perspectiva reservou um outro lugar ao futebol no campo das ciências humanas Passamos a reconhecer, conforme a sugestão do próprio DaMatta, que “o futebol praticado, vivido, discutido e teorizado no Brasil seria um modo específico, entre tantos outros, pelo qual a sociedade brasileira fala, apresenta-se, revela-se, deixando-se, portanto, descobrir.”

Contudo, ainda hoje, há um aspecto/face do futebol pouco explorado pelas ciências humanas: o futebol como patrimônio cultural.

A chegada do futebol no Brasil significou a introdução/construção de uma série de práticas sociais que mobilizam não somente seus admiradores. Basta observar, por exemplo, o quanto nossa linguagem expressa e incorpora expressões futebolísticas à vida cotidiana, “deu na canela”, “entrou com bola e tudo”, “acertou em cheio”, são alguns exemplos dessa transposição que envolve qualquer falante da língua portuguesa no Brasil.

Neste sentido, falar de futebol e cultura é referir-se a uma experiência construída e fruída por qualquer sujeito social, mesmo por aqueles que não praticam, torcem ou acompanham nenhuma das manifestações futebolísticas. Não se trata, portanto, da cultura futebolística, que reúne especificamente os admiradores do futebol e seus conhecimentos sobre ele. Mas de um conceito próximo ao que DaMatta sugere: “… o futebol poderia ser visto como uma instituição capaz de juntar muitas esferas da vida social e agentes.” Ora, seria preciso verificar quais são as conseqüências desse fato para a vida cotidiana do brasileiro. Contudo, se há estudos neste sentido, eles são raros.

Por outro lado, é forçoso reconhecer que grande parte das representações e das práticas sociais relativas ao futebol tem sido fundamentalmente controlada por empresas, clubes, patrocinadores, imprensa, entre outros. Nossa experiência cultural tem sido marcada pela dinâmica do mercado. E ainda que o mercado também faça parte da cultura precisamos nos perguntar sobre a dimensão pública deste esporte. Em outras palavras, há práticas culturais relativas ao futebol que são reconhecidas e preservadas pela sociedade brasileira como um bem público?

O futebol deveria ser defendido como patrimônio cultural, pois se enquadra no que prevê a Constituição brasileira em seu artigo 216: “constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira…” “… o poder público, com a colaboração da comunidade tem a responsabilidade de promover e proteger tal patrimônio”. Mas, por enquanto, não existem centros de documentação, arquivos, espaços culturais destinados à preservação da memória dessas práticas.

É preciso notar que os clubes, as federações e a confederação brasileira de futebol deveriam cumprir parte deste papel. Documentar e preservar tudo o que se relaciona à prática esportiva em si e às relações que a sustentam, estaria entre as tarefas.

Esperamos que o Museu do Futebol, a ser inaugurado no Pacaembu, em 2008, seja parte de uma resposta a esse problema e que dê ao esporte um tratamento não mercantilizado (ou que sua parcela seja reduzida). Esperamos que o futebol seja tratado como bem cultural voltado aos interesses de toda a população, seja ela interessada especificamente ou não no esporte.

Bibliografia de apoio

DAMATTA, Roberto (Org.). Esporte na sociedade: Um ensaio sobre o futebol brasileiro. IN: DAMATTA, Roberto. Universo do Futebol. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.

______________ O direito à Memória. Patrimônio Histórico e Cidadania. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura. Departamento do Patrimônio Histórico: 1992.

* Diana Mendes é historiadora, membro do Gief

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