Universidade do Futebol

Grupos de Estudos

19/07/2017

Futebol – dificuldades e oportunidades para crianças e adolescentes

Futebol é cultura e esporte. Neste contexto, onde milhares de crianças e adolescentes buscam realizar o sonho de se tornar jogador de futebol profissional, muitos têm o futebol como prioridade na vida e investem tempo, energia e dinheiro. Muitas pesquisas demonstram a relação entre escolaridade e formação esportiva (SOARES et al., 2011; BOSSLE; LIMA, 2013; MARQUES; SAMULSKI, 2009) e nos revelam a formação escolar como um “Plano B” e a formação como atleta de futebol, prioritária. Muitos desses jovens de classes sociais baixas, movidos pela “indústria” do mercado de futebol, o consideram uma grande oportunidade de ascensão social e uma forma de ajudar financeiramente sua família (ROCHA et al., 2011).

Vale ressaltar alguns dados, dos quais 84,8% dos jogadores brasileiros recebem até dois salários mínimos (CBF). Mas a mídia tem dado destaque as carreiras de sucesso financeiro e esportivo que, como vimos, são minoria dentre aqueles que pretendem a carreira profissional.

Dentre as chamadas “peneiras”, os dados indicam que 1% em média dos candidatos a testes são aproveitados pelos grandes clubes brasileiros. Ainda assim, milhares de crianças e adolescentes se lançam em busca da tal sonhada carreira de jogador de futebol.

Para alcançar esse sonho muitos deixam seus estudos em segundo plano, isso quando não o abandonam. Para estarem vinculados ao processo de formação de atletas nos clubes, muitos deixam sua cidade natal, o que, certamente, ocasiona um distanciamento da convivência familiar em idades precoces para viverem em regime de albergamento (alojamento oferecido pelos clubes), expostos a atividades físicas extremas com uma alta carga horária de treinamento – muitas vezes não compatíveis ao seu nível de desenvolvimento- e, ainda, ministradas por profissionais não qualificados, levando-os a altos riscos de lesões – o que se torna uma ameaça a sua integridade física. A exploração sexual é outro assunto que merece atenção porque, ainda hoje, muitos jovens estão expostos ao abuso sexual dentro da realidade do ambiente futebolístico e, ainda, muito de suas vítimas se refugiam no silêncio.

Se não bastasse todos esses fatos, a questão é: O futebol continua sendo frente a todas as outras possibilidades do projeto de vida de muitos jovens brasileiros.

É direito da criança e do adolescente praticar esporte e ao lazer, e está previsto em lei. Sabemos ainda que o esporte é, sem dúvida, instrumento socioeducativo, relacionado à saúde, melhor qualidade de vida, enfim, de inúmeras contribuições na formação humana dos indivíduos. O esporte tem sido estratégia universal de instituições e comunidades para dirimir as desigualdades sociais e a vulnerabilidade as drogas, entre outros males.

O texto nos reflete a discutir o papel de todos os envolvidos nesse processo de formação de jovens atletas, desde os órgãos públicos e privados a gestores responsáveis por dignificar os direitos de crianças e adolescentes. Nesta discussão, os representantes (políticos, confederação, federações, clubes, dirigentes, treinadores, entre outros), do Sistema de Garantia dos Direitos, têm papel fundamental para que não só o legado dos megaeventos esportivos, mas que os programas de formação esportiva, passem a vislumbrar melhores mecanismos de formação de interesses educativos para propiciar maiores e melhores oportunidades além do futebol.

O que fazer? Recomenda-se o diálogo conjunto e não isolado entre todos para que o esporte – particularmente o futebol – traga benefícios e desenvolvimento aos seus praticantes.

“Se as pesquisas e leis mostram-nos os riscos de um futebol onde a regra não é clara ou não a respeita, devemos repensar o seu aspecto social e educacional”.

A reflexão que fica é: Porque, diante de tal cenário, clubes e federações ainda insistem em promover campeonatos oficiais/estaduais em idades cada vez mais precoce? O que promove a “indústria do mercado do futebol”, mas que não propicia, de forma alguma, a garantia de formação de novos talentos?

Referência:

Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan. A infância entra em campo: riscos e oportunidades para crianças e adolescentes no futebol. – Salvador: CEDECA, 2013. 72 p.: il.

 

 

*Fabrício Moreira é atualmente Mestrando do Programa de Pós-Graduação da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP-USP) e Especialista em Futebol pela Universidade Federal de Viçosa-UFV.

 

 

Comentários

Deixe uma resposta