Universidade do Futebol

Entrevistas

30/03/2015

Geraldo Delamore, treinador de futebol

“A maior motivação que um jogador pode ter é saber que ele vai evoluir sob o seu comando como treinador”. Essas palavras foram proferidas por um dos grandes treinadores do futebol mundial. E quem as ouviu, em um bate-papo bem descontraído e elucidativo, foi Geraldo Delamore.

Profissional da área do futebol há duas décadas, o brasileiro teve há duas temporadas um contato com Àrsene Wenger. O grande manager do Arsenal, clube que disputa a Premier League Inglesa e caiu nas oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa, foi um dos pontos referenciais em um período de intercâmbio pelo Velho Continente.

“Em relação ao jogo ofensivo, ele me disse que ‘não dispondo da qualidade de jogadores que dispomos no Brasil’, o trabalho dele era criar várias opções de passe dentro do campo adversário para se ter um jogo ofensivo mais criativo”, relembra Delamore que, por aqui, quer se firmar como gestor técnico de campo de uma equipe profissional.

Mestre em Ciências do Movimento, o mineiro sempre teve calma o suficiente para esperar o tempo das coisas do futebol. Já foi preparador físico, treinador, passou por categorias de base e pela esfera do futsal. Mas na função de auxiliar técnico que ele conquistou o mundo.

Componente do staff técnico de Tite, ele foi campeão brasileiro (2011) e entrou para a história ao conquistar a Libertadores e o Mundial (2012). Em 2013, Delamore ainda faturou o Paulistão.

“Além da compreensão da ideia de futebol do treinador, o processo teve um comando muito íntegro, uma liderança muito proativa, tanto do treinador, como da direção”, aponta. “O sucesso daquele trabalho foi a combinação de competência técnica com qualidade pessoal de jogadores, comissão técnica e direção”.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Delamore, que é professor do curso de treinadores da CBF, fala mais sobre a sua carreira, traça as diferenças mais significativas entre o futebol brasileiro e o europeu, e elenca as principais características do “novo velho” comandante do Corinthians.

Universidade do Futebol – Em primeiro lugar, fale um pouco sobre sua formação acadêmica e o ingresso no ambiente profissional do futebol.

Geraldo Delamore – Sou formado em Educação Física pela UFMG, pós-graduado em Treinamento Desportivo pela PUC-MG e mestrado em Ciência do Movimento Humano pela UFRGS.

Comecei minha carreira, trabalhando com futsal e futebol/júnior (preparação física). Estive na Seleção Brasileira de Futsal como auxiliar técnico de 1989-1992 o que me proporcionou uma experiência internacional riquíssima quando foi contratado como consultor técnico da Federação Australiana de Futsal (1993-1996). Neste período, trabalhei diretamente com o Instituto Australiano de Esportes, onde residi por um ano, seguindo os outros dois em contato permanente com esta instituição.

Minha primeira experiência no futebol profissional foi como auxiliar de preparação física no América Mineiro em 1989. Posteriormente (1998) eu trabalhava com futsal em Caxias do Sul e foi convidado para assumir a preparação física da equipe profissional da SER Caxias do Sul.

Permaneci na preparação física até 2005, passando pelas equipes profissionais de Grêmio, São Caetano e Atlético-MG. Na sequência, trabalhei como treinador de equipes da segunda divisão do RS e como treinador da equipe B do Al Ain, Emirados Árabes.

Em 2010 assumi como auxiliar técnico da equipe profissional do Corínthians, permanecendo até 2013. De novembro de 2013 a março de 2014 dirigi a equipe profissional do Juventude-RS.

Universidade do Futebol – Como você se preparou para se tornar treinador? Como se atualiza em relação às novas demandas de treinamento e ideias de futebol?

Geraldo Delamore – Fiz o curso da ABTF em 2005. Participei do Footecon em 2005 e 2010. Fiz dois estágios: um com o PC Gusmão em 2005 (Cruzeiro) e outro com o Geninho em 2006 (Goiás). Fiz o curso International Football Coaching License da FA em 2011. Em 2014 participei do Encontro de treinadores da Associação Nacional dos Treinadores de Futebol em Maia, Portugal.

A troca de informações com outros profissionais da área também é fundamental. Encontrei com o André Villas Boas na época treinador do Tottenham (2012) quando tive a oportunidade de visitar o novo centro de treinamento do clube.

Em 2013 visitei o Arsenal em Londres e tive a oportunidade de conversar com o Arsenè Wenger. Estava curioso em saber como era estar à frente de uma equipe por tanto tempo, como ele fazia para motivar os seus jogadores e como ele preparava a sua equipe em termos ofensivos.

Ele me explicou que “a maior motivação que um jogador pode ter é saber que ele vai evoluir sob o seu comando como treinador”. Como relação ao jogo ofensivo, ele me disse que “não dispondo da qualidade de jogadores que dispomos no Brasil, o trabalho dele era criar várias opções de passe dentro do campo adversário para se ter um jogo ofensivo mais criativo”.

Na sequência, tive também a oportunidade de acompanhar um treinamento do Milan, muito embora não tive contato com o treinador Allegri.

 

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Universidade do Futebol – Você é um dos professores do curso de treinadores oferecido pela CBF, na Granja Comary. A boa qualificação e os estudos, aliados ao intercâmbio com outras culturas esportivas, é o caminho para se ter sucesso neste ofício?

Geraldo Delamore – Além da busca do conhecimento em cursos qualificados, é fundamental a experiência prática. Treinador tem de estar dentro do campo de treinamento e na área técnica de jogo para transformar as suas ideias em convicções.

Universidade do Futebol – Hoje em dia se discute muito a eficácia de se usar uma metodologia de treinamento que parta do modelo de jogo pretendido pelo treinador, ou seja, preparar a equipe (nos aspectos físicos, técnicos, táticos e até psicológicos) a partir das ações táticas, sem fragmentar muito os treinamentos. O que você acha dela?

Geraldo Delamore – Hoje só consigo conceber a preparação de alto nível dentro desta perspectiva. Não só pelo estabelecimento de uma alta intensidade de treinamento, como também pela especificidade do treino e pelo adequado aproveitamento do tempo de trabalho.
 


 

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Universidade do Futebol – Com tantos profissionais necessários hoje numa comissão técnica, como conseguir realizar um trabalho integrado? Quais são os grandes desafios de um auxiliar técnico, função que você desempenhou durante tanto tempo?

Geraldo Delamore – Para se fazer um trabalho integrado, dentro da perspectiva da periodização tática, é preciso que todos os membros da comissão técnica comunguem do mesmo conceito. Caso contrário, você não consegue estabelecer um treinamento realmente com base nas ações táticas.

Como auxiliar técnico, você tem que seguir a linha que o treinador estabelecer, tentando agregar valor ao processo de trabalho.

Universidade do Futebol – O Corinthians foi reconhecido como uma das equipes mais organizadas do futebol brasileiro nos últimos anos. Você esteve diretamente relacionado àquele departamento profissional. Relembre sua passagem pelo clube paulista e quais foram os elementos na construção daquela organização?

Geraldo Delamore – A construção daquele trabalho teve como base a participação concreta de todos os membros da comissão técnica. A partir da ideia de futebol do treinador e do seu comando, buscou-se o engajamento de todos os integrantes da comissão técnica para fazer ressonância a esta ideia.

Além da compreensão da ideia de futebol do treinador, o processo teve um comando muito íntegro, uma liderança muito proativa, tanto do treinador, como da direção.

O sucesso daquele trabalho foi a combinação de competência técnica com qualidade pessoal de jogadores, comissão técnica e direção.


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Universidade do Futebol – Qual é o diferencial do Tite em comparação com os treinadores de elite do futebol brasileiro? Ele teria condições de obter sucesso no cenário internacional?

Geraldo Delamore – Acredito que temos alguns treinadores no Brasil em condição de fazer sucesso no exterior. Além do Tite, citaria o Muricy, o Abel, o Levi Culpi, Oswaldo de Oliveira.

Para mim o diferencial do Tite é o seu estilo de liderança que leva todos, jogadores e comissão técnica, a estarem mobilizados constantemente.

Como exemplo, citaria uma reunião realizada após a primeira partida do Mundial de Clubes no Japão em 2012. Havíamos feito uma partida abaixo do nosso potencial, apesar da vitória de 1 a 0 contra o Al Ahli do Egito.

Com a certeza de que o aspecto emocional do primeiro jogo influenciou o nosso rendimento, uma vez que a equipe do Egito jogou sem nenhuma responsabilidade, ele buscou reforçar a confiança no grupo, com a convicção de que a equipe apresentaria uma performance bem diferente, dentro dos padrões que esperávamos para a final da competição.

O que se viu no jogo contra o Chelsea foi uma equipe madura e convicta das suas capacidades.


Para mim o diferencial do Tite é o seu estilo de liderança que leva todos, jogadores e comissão técnica, a estarem mobilizados constantemente.

 

Universidade do Futebol – Em que medida a formação de uma equipe de futebol coesa, com uma inteligência de jogo bem desenvolvida e um padrão de jogo definido, depende do comando ou da liderança do treinador?

Geraldo Delamore – Padrão de jogo bem definindo passa pela ideia de jogo do treinador e pelo seu comando. Já a inteligência de jogo bem desenvolvida passa pelo comando do treinador e pela qualidade dos jogadores (por qualidade entenda-se nível técnico e cultura tática).

Uma equipe coesa passa pela qualidade de comando do treinador, pela qualidade pessoal da sua equipe de trabalho (jogadores e comissão técnica) e passa também pelo respaldo diretivo.

Universidade do Futebol – Levando-se em conta que estes padrões são construídos no dia a dia do trabalho, em sua opinião, qual o tempo mínimo necessário para que estes objetivos sejam alcançados?

Geraldo Delamore – Difícil você precisar, pois depende acima de tudo da qualidade técnica e da cultura tática do grupo de jogadores que você tem à disposição.

Concordo com Jesualdo Ferreira, treinador português, que diz que acima de tudo no futebol o que conta são as decisões que os jogadores tomam a cada segundo da partida. Assim sendo, uma equipe com jogadores com uma bagagem tática mais ampla, sustentada por uma boa qualidade técnica, irá dar uma resposta mais imediata.

De qualquer forma, não consigo ver uma equipe criar uma identidade coletiva, reproduzindo comportamentos táticos específicos com menos de três meses de treinamento e competição.

Universidade do Futebol – Hoje em dia, em sua opinião, quais os principais fatores que definem o resultado de uma partida?

Geraldo Delamore – Qualidade técnica individual e organização tática.

Universidade do Futebol – Você percebe diferenças significativas entre o futebol brasileiro e europeu? Poderia elencá-las, de maneira geral?

Geraldo Delamore – No futebol europeu vemos equipes mais organizadas taticamente. De maneira geral, elas marcam por zona e reproduzem muito bem os princípios de jogo, ofensivos e defensivos, com 50% das ações técnicas realizadas a um ou dois toques.

No futebol brasileiro ainda vemos uma dependência grande do improviso, do lance individual, muito embora algumas exceções vêm aparecendo.

Acredito que, descontando-se as diferenças climáticas e de calendário, poderíamos ter jogos mais intensos (com a bola andando mais!) e uma marcação mais inteligente (zonal), tanto com a bola em jogo, como na bola parada.


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Universidade do Futebol – Na sua avaliação, o que é um jogador de futebol inteligente? E de que maneira os jovens podem ser estimulados a exercer o processo de autonomia e tomada de decisão nas atividades de treino e nos jogos oficiais?

Geraldo Delamore – Jogador inteligente é aquele que encontra as soluções para as situações de jogo de forma eficiente, aliando boa técnica (consegue fazer o jogo fluir) com adequada velocidade de execução (criação de tempo) e visão de jogo (criação de espaço).

O treinamento inteligente é a peça-chave para desenvolver os jogadores nas suas qualidades físicas, coordenativas e cognitivas. Acrescento a orientação assertiva por parte dos treinadores para encorajar e desenvolver os aspectos relacionados à personalidade do jogador (plasticidade e imposição do seu jogo!) e respaldo diretivo para evitar a pressão prematura na busca por resultados.

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