Universidade do Futebol

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04/01/2013

Gol: o ‘cara’ do futebol!

Caros leitores, após um período de "estiagem" em minhas produções, retorno em busca de abordar um tema que me provoca, a cada dia, maior necessidade de respostas em sessões de treino: como criar um comportamento voltado em busca do ato de marcar um gol.

Para tentar encontrar os caminhos que me permitam errar menos na construção de uma ideia em prol do “tento”, estabeleci um roteiro (juntamente com amigos de profissão) para tentar alcançar esta busca.

Vamos lá: vejo que a importância do assunto se dá, pois, além de ser um dos componentes da "lógica do jogo", o ato de construir ações que resultem em gol, me parece mais complexo se comparado com o intuito de destruir, desarmar, recuperar e etc (estes possuem muito valor também, porém, apresentam menos dificuldades do que o ato de criar).

Partindo deste pressuposto podemos estabelecer algumas "invariâncias" dentro da construção do jogo e da lógica do mesmo. Isso quer dizer que, para conseguirmos fazer a bola ultrapassar, por inteiro, a linha de fundo, dentro da meta adversária, temos de:

– ter a posse de bola;

– progredir até uma distância passível de finalização (através de condução, passe ou assistências);

– finalizar, no sentido mais amplo possível, à meta adversária.

Com isso, tentei, através de análises dos gols da última Uefa Euro 2012, encontrar alguns comportamentos que podem aumentar a chance de êxito no momento de fazer um gol. A ideia é traçar alguns padrões e tentar, por meio dos treinos e de intervenções visuais, sinestésicas e auditivas (mostrar em vídeos, fazer e falar), conseguir aumentar o aproveitamento de uma equipe.

Sustento que este não realizei nenhum estudo científico e, por isso, posso sim sofrer algumas influências que deturpem minhas conclusões, porém, sigo no intuito de tentar.

Independente de serem ofensivas ou defensivas, as ações envolvidas no jogo respondem, em sua grande parte, às diferentes culturas e modelos de jogo emergentes. Logo, não fico surpreso em encontrar padrões bem diferentes em seleções oriundas do mesmo continente.

Como exemplo, temos:

– gols construídos através de circulação/manutenção de posse curta e assistências no espaço entre goleiro e última linha defensiva (Espanha);

– ações ofensivas efetivadas com jogo pelo solo, porém, com características, predominantemente, verticais, conciliando passes para frente e desmarques/projeções em direção ao gol (Alemanha);

– formas de criar ações ofensivas mais pragmáticas, através de obtenção de profundidade lateral e posterior cruzamento para a grande área (Suécia, Grécia, Croácia, Inglaterra).

Além disso, algumas surpresas foram, a meu ver, muito gratas.
Dentre elas, destaco a Itália, com um jogo paciente, buscando tirar, sempre que possível, a bola de setores pressionados e construir/definir com ações limpas e verticais (a Juventus de Turim pode ser um reflexo ou uma causa dessa mudança, vale analisá-la).

Influências culturais e coletivas à parte, alguns comportamentos (como comportamentos entendo a observação, interpretação e ação diante de um problema imposto pelo jogo) individuais chamaram minha atenção e mostraram-se como possíveis meios de ação no intuito de potencializar a busca pelo gol.

Conclusão: selecionei algumas ações táticas individuais que podem auxiliar o contexto coletivo e facilitar a construção do gol (procurei ilustrar com alguns vídeos que, nem sempre, serão da Eurocopa 2012).

São elas:

– ações de 1×1, efetivas: fonte de desequilíbrio, em qualquer setor do campo, que está muito vinculado ao surgimento de vantagem numérica setorial. Normalmente são mais efetivas quando realizadas na metade, ofensiva, da equipe que tem a bola e quando geram progressão no campo de jogo;

 

– Alta concentração de jogadores frequentando a grande área ofensiva, em situações reais de assistência do homem da bola (normalmente, portador da bola com o gol em seu alcance visual e sem pressão do adversário) ou em momentos de cruzamento;

– Ações sem bola, mesmo com sua equipe em posse, em direção ao gol ou espações vazios (facões), seguidas de oportunidade de finalização;

 

– Passes que buscam tirar a bola da pressão e, ao mesmo tempo, ganhar profundidade dentro do campo adversário;

 

– Rápida definição para finalizações.

Além do modelo ou ideia proposta pelo treinador, nota-se uma ânsia muito grande em conquistar o território adversário, ou seja, independente da característica de construção coletiva (passes curtos velozes, passes curtos lentos, bolas aéreas, bolas longas no espaço vazio ou outro qualquer), os jogadores apresentam uma capacidade muito grande de jogar para frente.

Isso não quer dizer que não se permite a possibilidade de passes e/ou conduções para o lado ou para trás, porém, o comportamento primordial é posicionar o corpo de modo a aumentar seu raio de visualização e ação no campo de jogo em direção ao gol adversário, ou seja, ficar de frente!

A partir dos padrões de ação apresentados, é possível filtrar informações que sejam úteis ao contexto coletivo ao qual o treinador está inserido e desenvolver "provocações" dentro das sessões de treinamento para que tenhamos respostas similares. Ou seja, visualizamos situações de jogo para que as mesmas sejam desenvolvidas e se apresentem no "nosso" jogo.

Visto tais comportamentos, penso que, como treinadores e responsáveis pela implementação de um "jeito de jogar", é possível que possamos absorver algumas destas informações e criar métodos de estímulo (exercícios, feedback, vídeos, etc…) para que consigamos uma resposta efetiva dentro de nossas equipes.

A obtenção de conhecimento é válida, tenha ela a origem que tiver. O objetivo maior é conseguir um repertório amplo de ações e alcançar a efetividade vista em algumas das melhores equipes do mundo.

Portanto, penso que a observação de comportamentos também pode ser uma ótima fonte de informações que, somadas a fatores como filosofia do treinador, cultura do clube e condições do elenco, auxiliam no desenvolvimento de ideias de jogo a serem implementadas nas sessões de treinamento.

Espero ter podido contribuir com a abordagem de mais uma forma de se estudar o futebol.

Deixo meu email abaixo para qualquer esclarecimento, obrigado!
gondim.leonardo@gmail.com.

*Bacharel em Esporte pela Universidade de São Paulo e treinador de futebol

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