Universidade do Futebol

Alcides Scaglia

29/11/2009

Gols sagrados ou as lições de Phil Jackson aos treinadores de futebol

Cada jogo é uma charada que tem que ser
resolvida, e não existe resposta no manual

Phil Jackson

Meus alunos do curso de Bacharelado em Educação Física e eu findamos uma missão neste semestre. Nós nos propusemos a desenvolver, durante o ano todo, duas disciplinas que tinham objetivos muito claros: os conhecimentos necessários à formação de treinadores de jogos coletivos.

Nessas disciplinas, no primeiro semestre, desenvolvemos conteúdos referentes aos aspectos metodológicos. Ou seja, como desenvolver metodologias eficazes e eficientes para se alcançar os objetivos de treinamentos técnicos e táticos previstos na especialização, respaldados pelos recentes conhecimentos produzidos pelas novas tendências em pedagogia do esporte.

Para o término desse semestre, os alunos produziram um dossiê: uma pesquisa bibliográfica e de campo sobre uma modalidade esportiva, ressaltando seus expoentes e, principalmente, as metodologias que se aplicam nestes locais.

Já no segundo semestre, a disciplina tirou o foco dos aspectos metodológicos para enfatizar o planejamento e a gestão. Desse modo, entra em cena a didática.

Os conhecimentos desenvolvidos nesse período do ano abarcaram leituras sobre planejamento estratégico, logística e, sobretudo, gestão. Estudamos as diferentes teorias sobre liderança, encerrando com seminários que se caracterizaram um autêntico curso sobre liderança em jogos coletivos.

Como trabalho final, em substituição às tradicionais provas, os alunos produziram durante todo o semestre um portfólio sobre um treinador escolhido por eles, e o apresentaram.

Para um melhor entendimento, o conceito de portfólio, segundo os autores portugueses Jones & Shelton, seria: “Portfolios são documentos personalizados do percurso de aprendizagem, são ricos e contextualizados. Contêm documentação organizada com propósito especifico que claramente demonstra conhecimentos, capacidades, disposições e desempenhos específicos alcançados durante um período de tempo. Os Portfolios representam ligações estabelecidas entre acções e crenças, pensamento e acção, provas e critérios. São um meio de reflexão que possibilita a construção de sentido, torna o processo de aprendizagem transparente e a aprendizagem visível, cristaliza perspectivas e antecipa direcções futuras.”

O objetivo específico do portfólio era investigar a carreira de um treinador, destacando os aspectos de sua formação, de sua vida esportiva, de suas conquistas e episódios pertinentes ao nosso estudo. Mas o mais importante foi a reflexão que cada aluno fez ao ter que apresentar as lições que aprendeu com esse treinador, além dos aprendizados acrescidos em seus respectivos processos de formação.

Contudo, escrevi esse preâmbulo para contextualizar a crônica pedagógica, pois motivado pelo portfólio de um grupo de alunos, os quais investigaram a vida e a obra (conquistas esportivas) do consagrado treinador de basquete da NBA, Phil Jackson, que comandou o imbatível time do Chicago Bulls, com Michael Jordan e companhia, e hoje está à frente do Lakers, também conquistando títulos.

Isso me fez sentir novamente a necessidade de voltar a ler o livro “Cestas Sagradas”, e confirmar o que sempre disse em aula, quando algum aluno me perguntava sobre a formação de treinadores: “Ninguém pode querer ser um treinador diferenciado sem ler o livro ‘Cestas Sagradas'”.

O livro todo é especial, carregado de lições a treinadores, mas gostaria de destacar um excerto do tópico “Dando poder ao time”, somente para instigar os pretensos jovens treinadores do século XXI a estudar o livro.

“Um dos pontos centrais em minha visão era conseguir que os atletas pensassem por si mesmos. Doug Collins mantivera os jovens jogadores, especialmente Scottie Pippen e Horace Grant, na rédea curta, frequentamente gritando com eles quando erravam. Durante o jogo, ficavam olhando para o banco, tentando nervosamente adivinhar o que ele estava pensando. Quando começaram a fazer isto comigo, tratei de cortar logo: ‘Por que estão olhando para mim? – perguntei. Vocês já sabem que erraram’.

Se os homens iam aprender a atacar, tinham que ter confiança suficiente em si mesmos para tomarem suas próprias decisões. Isto nunca aconteceria se estivessem sempre seguindo as minhas diretrizes. Queria que se desligassem de mim, para que pudessem se ligar aos colegas e ao jogo.

Poder contar com o Jordan na quadra ajudou muito. Ele muitas vezes juntava os jogadores por alguns segundos, no meio de um jogo, para dar-lhes conselhos improvisados. Este tipo de resolução de problemas em cima da hora, na prática, era extremamente valioso, não apenas porque acelerava o processo de aprendizagem, mas também porque fortalecia a mente grupal. Alguns técnicos sentem-se ameaçados quando seus jogadores começam a firmar sua independência, mas eu acho que esta é uma forma muito melhor de tornar o processo decisório acessível a todos em um grupo. Cada jogo é uma charada que tem que ser resolvida, e não existe resposta no manual. Os jogadores, em geral, conhecem o problema melhor do que a equipe técnica, porque estão no meio dos acontecimentos e podem sentir intuitivamente as forças e as fraquezas dos adversários.

Para chegar a este ponto, eu tinha que dar aos jogadores a liberdade de descobrir o que funcionava e o que não funcionava. Isto significava colocá-los na quadra em combinações diferentes, e deixá-los lidar com situações traiçoeiras sem resolver o problema para eles.”

A transposição destas palavras ao futebol são óbvias, mas cada treinador deve entendê-las e transpô-las respeitando os seus respectivos contextos. Porém, nas lições do “Big Phil”, fica evidente que é possível treinar jogadores de modo que, pela metodologia aplicada, seja possível formar jogadores inteligentes, autônomos e vencedores.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

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