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09/07/2015

Governança Corporativa: a próxima fronteira

Existem pressões vindas de todos os lados, diversas empresas de vários setores da economia estão adotando, a redução do dinheiro disponível no mercado do futebol e com isso a concorrência acirrada, pressão das entidades patrocinadoras com a exigência de novas regras e controles confiáveis, a sociedade e agora recentemente dos jogadores através do Bom Senso FC e também a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Mas para a maioria dos clubes passa longe algo que se assemelhe ao menor controle necessário ou que evidencie boas práticas de governança que servem para o mercado como referência, pois apesar de ainda serem obviamente necessários, os títulos e histórias de glórias, não são suficientes para avalizar e garantir um bom uso e o retorno do dinheiro investido e a perenidade do clube. Os modelos de governança nos clubes ainda são empíricos e sujeitos a pressões políticas, de resultados imediatos e interesses.

Parece que não haverá saída, não é só um modismo, à medida que as somas do mercado envolvidas aumentam e as receitas e títulos diminuem, não dá para administrar como se fosse um boteco ou quitanda como se fazia com o lápis atrás da orelha, tudo mudou, ou melhor, está mudando. Mas o que significa esta tal de Governança Corporativa?

“A Governança Corporativa é o sistema pelo qual as empresas são dirigidas e monitoradas, com o objetivo de valorizá-las como entidades econômicas sustentáveis. As boas práticas de governança corporativa convertem princípios éticos em recomendações objetivas que orientam os relacionamentos entre sócios, administradores e órgãos de controle, com vistas a harmonizar os interesses de todos os stakeholders.”
(Lélio Lauretti)

Alguns objetivos da Governança e pontos relacionados para facilitar o entendimento são:

  • Valorizar a empresa (rentabilidade e valor de mercado) – Nos deparamos cada vez mais com diversos rankings, sejam de tamanho de torcida, renda, transparência, sócios e cotas de TV e isso influencia diversos fatores para todos os stakeholders.
  • Melhorar o desempenho operacional – gestão de riscos, definição de limites em relação à separação dos poderes no clube, melhores controles com a criação de indicadores, etc.

Facilitar o acesso ao capital a custos menores – Dificuldade de obter patrocínios e renegociação de dívidas, pois o risco é imenso pela falta de garantias ou já estão utilizadas, pagam-se juros altíssimos em antecipações. Ampliar as condições de sustentabilidade – os clubes são reféns em muito do contrato de TV, não controlamos os nossos contratos com fornecedores, logo, os clientes (torcedores e sócios) que vivem de emoção ficam praticamente vulneráveis a conquista de títulos, sem falar do orgulho que é intangível, merece atenção e prioridade a relação dos clubes com o torcedor. De futebol.

Vantagem competitiva – O foco são títulos, mas além da importância de se ter uma visão, missão e direção clara, que proporciona uma filosofia e identidade que deve tomar conta de todos no clube, funcionários e atletas, conhecer todos os seus limites e capacidades, facilita o planejamento, aumenta a autoestima e sem dúvida a motivação para as conquistas.

A implementação de princípios e de boas práticas de governança corporativa são extremamente necessárias e poderá potencializar o ambiente de negócios relacionados ao clube e principalmente a estratégia. É óbvio que isto passa pela adoção de práticas algumas simples e outras nem tanto, que vão desde a excelência e transparência no processo de associação, da revisão e adequação do estatuto dos clubes para a sustentação do Conselho de Administração ou Consultivo e até a criação de novas faixas de sócios estatutários, da Ouvidoria, da disponibilização dos relatórios financeiros e de prestação de contas não só por serem mandatórios, inclusive os aspectos negativos, a implementação do código de ética, transparência de contratos para que não só os sócios, mas também os investidores tenham visibilidade e controle adequado do relacionamento, projetos bem embasados, e fundamentalmente, a melhoria da estrutura organizacional do clube, a profissionalização inclusive, também não podemos esquecer os conflitos de interesses quando acontecem empréstimos ou investimentos por parte de dirigentes e conselheiros do clube, só para citar alguns. Vale aqui um adendo; quando falo de profissionalização, ela tem que vir acompanhada de metas e o estabelecimento de mecanismos de avaliação periódica da atuação dos gestores, diferente do que existe hoje com os diretores remunerados.

Afinal, associar-se a entidades com endividamento excessivo, inadimplência junto a empregados, à Receita à previdência social, sem a mínima estratégia de recuperação, não é algo que muitos gostariam de fazer, mesmo sendo estes, empresários torcedores.

Fica evidente também que para termos equipes competitivas e bem remuneradas de forma recursiva e perene, fazem-se necessários recursos financeiros significativos, o que torna este aspecto como fundamental para a implementação da gestão e governança.

Muitos dizem que não podemos nos comparar com clubes do exterior, as barreiras são bem maiores, isto é fato, estes praticamente se tornaram empresas, foram adquiridos por mecenas, o que facilita em demasia este processo, mas não vejo muita diferença para clubes não empresa de aspectos associativos, como o que temos hoje, baseado na colocação a seguir “Os princípios e práticas da boa Governança Corporativa aplicam-se a qualquer tipo de organização, independente do porte, natureza jurídica ou tipo de controle” (IBGC). O importante no nosso caso é a vontade e o compromisso das pessoas que dirigem o clube, em fazer a mudança, competência e não somente poder político.

Além de ajudar a reestruturação administrativa, financeira e operacional do clube e facilitar não só a recuperação e consolidação da imagem, a atração de novos investidores e parceiros (fornecedores, torcedores, sócios, etc.), é importante avaliar também que é um fator estratégico e competitivo fundamental. Não dá para ficar só vendendo jovens valores (ainda fatiados percentualmente) a toda hora, para tapar buracos de péssimas conduções gerencias e administrativas, como a contratação de jogadores em final de carreira, de qualidade duvidosa com salários inflacionados e que ainda por cima não são cumpridos. Os associados precisam saber onde é aplicado o valor da sua mensalidade.

Este texto não tem o intuito de esgotar o assunto, somente trazer a discussão para comparação e reflexão; não só eu mais outros profissionais creem na necessidade da criação de um órgão norteador e regulador; pretendemos discorrer mais em outras oportunidades, sobre áreas específicas, sempre alinhando com a nossa realidade.

É necessário mudar nosso caminho.

* Wagner de Andrade Pedro Administrador de Empresas, Pós-Graduado em Análise de Sistemas e Didática de Ensino Superior pela UNESA com MBA em Marketing pela COPPEAD-UFRJ, certificado pela FGV/FIFA/CIES em Gestão, Marketing e Direito no Esporte e executivo da área de Tecnologia da Informação, foi membro do Conselho Deliberativo (2011-2014) do CRVG.

Comentários

  1. Guilherme disse:

    Ótimo texto. O tema é fundamental apesar de infelizmente ser recebido com temor por parte dos defensores do atual modelo de amadorismo-dependência dos Clubes. Ao invés de estudar o tema, preferem rebater com argumentos rasos e ignorantes.

  2. CARLOS disse:

    concordo Guilherme, se depender de algumas mentes o atraso na gestão do futebol Brasileiro irá bem longe, realmente os 7 x 1 não afetou a esse grupo de pessoas ultrapassadas.

  3. Foto de perfil de Wagner Pedro Wagner Pedro disse:

    Concordo senhores, é necessário ser muito resiliente.

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