Universidade do Futebol

Artigos

09/05/2015

GPS e a Dallas Cup: a importância da visão sistêmica na interpretação dos dados e na conduta da comissão técnica – Parte 2

Caros amigos,

Venho por meio deste dar continuidade à discussão iniciada no primeiro manuscrito. A ideia nesse momento é agregar novos dados e acontecimentos inerentes ao contexto. Então vamos lá!

Uma das principais preocupações da comissão técnica antes do início da Dallas Cup era o curto tempo de recuperação entre os jogos. A primeira fase consistiu em 3 grupos de 4 equipes que jogaram entre si dentro do grupo, classificando-se a primeira colocada de cada grupo e a segunda melhor colocada da classificação geral. As quatro equipes classificadas fizeram semi-final e final em jogos únicos. Dessa forma, as equipes finalistas fizeram 5 partidas em um intervalo de 7 dias (Domingo, Segunda, Quarta, Sexta e Domingo). Somado a isso, outro agravante era o fato de não termos controle absoluto sobre as refeições e o tempo de descanso dos atletas, já que os mesmos dormiam e jantavam em casas de família e apenas almoçavam no hotel onde estávamos concentrados. Essa conduta é norma da competição e visa propiciar um intercâmbio sócio-cultural, algo importante dentro do processo de formação de atletas. Dado esse contexto, partimos do Brasil preparados para fazermos rodízio entre os atletas, visto que provavelmente teríamos lesões musculares, fadiga acumulada e seria muito difícil iniciarmos todos os jogos com a mesma equipe.

Para nossa surpresa, nosso desempenho físico na competição foi acima das expectativas, já que conseguimos repetir a mesma escalação em todos os jogos sem a ocorrência de lesões musculares ou câimbras, impressionando a velocidade de recuperação dos atletas e o desempenho dentro de campo (nos sagramos campeões com 100% de aproveitamento!). Mais do que enaltecer esse bom desempenho, precisamos entender quais são os fatores que podem ter contribuído para esse fenômeno e uma vez identificados, procurar reproduzi-los em outras situações. Em um primeiro momento explicitarei algumas condutas adotadas pela comissão que provavelmente corroboraram para estes resultados e em um segundo momento como a análise cinemática dos jogos pode ser inserida neste contexto. Vamos aos fatos.

Realizamos o controle da percepção subjetiva de dor e cansaço antes dos treinos e jogos, como habitualmente fazemos na rotina diária de treino. Essa conduta se mostrou interessante, pois a partir da mesma pudemos ter um feedback do nível de recuperação dos atletas, o que refinou as tomadas de decisão acerca da escalação da equipe. O controle do peso corporal pré e pós-jogos também foi uma medida adotada pela comissão técnica, uma vez que uma possível dificuldade de adaptação dos atletas à alimentação local, bem como a não-recuperação entre os jogos, poderia levar a um processo catabólico que poderia ser detectado com esta ferramenta. Os dados por nós coletados mostraram que alguns atletas chegaram a perder 3kg após o jogo e que alguns não conseguiram recuperar totalmente o peso entre os jogos, ficando até 1kg abaixo do peso de chegada.

A suplementação foi uma ferramenta fundamental dentro do processo de recuperação. Nos organizamos juntamente com o departamento de nutrição do clube para administrar no momento pós-jogo 60g de carboidrato e 20g de proteína para cada atleta, com o intuito de otimizar a recuperação muscular e de substratos energéticos (principalmente glicogênio muscular). Para tal, disponibilizamos barras de proteína, bolo e suco. Além disso, foi administrado um comprimido de poli vitamínico por dia, visando principalmente o suprimento de antioxidantes, fundamentais dentro do processo de recuperação. Uma ferramenta comum para otimizar a recuperação a qual abrimos mão em virtude da dificuldade logística foi a imersão no gelo (crioterapia). Nos dois primeiros jogos, não tínhamos vestiário à nossa disposição e isso inviabilizou a utilização da ferramenta, já que estávamos a céu aberto e julgamos não ser pertinente expor os atletas ao frio (as temperaturas estavam amenas e ventava muito). Nos demais jogos, optamos por não utilizar a ferramenta (até pela falta de consenso da mesma na literatura) e preferimos enfatizar a alimentação, suplementação e o descanso.

Se analisarmos as condutas mencionadas até aqui, veremos que boa parte delas (senão todas!) já estão bem elucidadas na literatura científica e são largamente utilizadas. Ou seja, apesar destes fatores terem contribuído para o bom desempenho físico, provavelmente não foram os diferenciais, uma vez que boa parte das equipes da competição adotaram condutas semelhantes. O que mais pode ter contribuído?

Na opinião da comissão técnica, outros fatores que podem ter contribuído de forma significativa para uma boa recuperação entre os jogos e o bom desempenho físico foram:

o Não termos saído atrás no placar em nenhum dos jogos;

o Temperaturas amenas, não levando a graus severos de desidratação;

o Equipe organizada, o que minimizava desgastes desnecessários;

o Gramados padrão Fifa, não jogando em campos pesados;

o Comprometimento dos atletas em relação ao descanso e alimentação;

o Elevado grau de envolvimento emocional com a competição, o que levou os atletas a superarem seus limites e, inclusive, discriminarem bons valores de recuperação;

Mas e o controle cinemático? Onde entra? Até agora ele não apareceu! Para colocarmos a cereja do bolo, fizemos a mesma análise do primeiro manuscrito, ou seja, quantificamos a distância média percorrida em metros por minuto e também o número de ações em alta intensidade. Todavia, diferentemente do primeiro gráfico quando analisamos cada atleta de forma individual (e fizemos uma média da competição), fizemos a análise da equipe em cada jogo de modo a comparar todas as partidas. Vejamos o gráfico:

O que podemos concluir baseado neste gráfico? Será que podemos dizer que a equipe foi mal fisicamente no terceiro jogo (quando apresentou a menor média de ações de alta intensidade por minuto) em virtude do acúmulo de jogos? Ou será que a equipe se desgastou menos no terceiro jogo pois foi para o intervalo vencendo a partida por 3×0 e soube administrar o placar com a classificação praticamente garantida? Vejam como a interpretação do gráfico muda de acordo com a história (e análise complexa!) do jogo e da competição. Assim, para interpretar o gráfico e incluir a análise cinemática como um dos fatores responsáveis pelo desempenho da equipe, precisamos levar em consideração o contexto de cada jogo, caso contrário, poderemos incorrer em conclusões precipitadas.

Desta forma, podemos observar que o primeiro jogo foi o mais intenso e apresentou o maior número de ações em alta intensidade, o que é fisiologicamente esperado pois os atletas estavam mais aptos fisicamente quando comparados com os demais jogos. Além disso, apesar de terminarmos vencendo o primeiro tempo por 3×0, na segunda etapa nos desorganizamos e apresentamos uma maior distância percorrida (lembra do primeiro artigo?), perdendo o segundo tempo por 1×0, o que também contribuiu para estes dados. O segundo jogo foi no dia seguinte, com menos de 24 horas de descanso, ou seja, com uma recuperação incompleta. Podemos observar que tanto a distância percorrida como as ações de alta intensidade diminuíram em relação à estreia, mas esse foi o segundo jogo com o maior número de ações intensas da equipe. Vencemos por 1×0 em uma partida muito equilibrada até o seu término.

O terceiro jogo foi um divisor de águas. Isso porque enfrentamos uma equipe que já estava eliminada, mantivemos a posse de bola, controlamos o ritmo da partida e não sofremos contra ataques, que têm alta relação com ações de alta intensidade. Além disso, terminamos o primeiro tempo vencendo por 3×0 (um empate garantia nossa classificação) e isso nos permitiu substituir cinco atletas titulares. Ou seja, esse foi um jogo no qual os atletas puderam “descansar” quando comparado com os demais, o que possibilitou uma melhor recuperação para a semi-final. O fato da equipe ter apresentado a segunda maior distância percorrida na competição neste jogo, se deve ao fato desta média ser fortemente influenciada pela distância percorrida no primeiro tempo já que cinco atletas de linha foram substituídos no intervalo. Já no quarto jogo aumentou o número de ações em alta intensidade em virtude do nível do adversário que se defendia muito bem (com linha baixa) e tinha uma transição ofensiva rápida com diagonais longas. Esse modelo obrigou nossa equipe a procurar uma rápida recuperação da posse de bola no campo de ataque, com o intuito de evitar as diagonais longas, o que culminou em um grande desgaste. Nosso gol foi marcado aos 35 minutos da primeira etapa e o jogo foi aberto até o seu término, visto que a equipe adversária levou perigo em bolas alçadas em nossa área.

Na grande final, tivemos a maior distância percorrida da competição e provavelmente o número de ações intensas não foi tão elevado em virtude da fadiga acumulada por ambas as equipes. Nesse jogo fomos para o intervalo vencendo por 2×1 e fizemos o terceiro gol aos 30’ da 2ª etapa. Logo após tivemos um jogador expulso e baixamos nossa linha de marcação. A partir deste momento até o término da partida sofremos com bolas alçadas na área e cruzamentos laterais.

Assim, baseado no que foi exposto podemos dizer que a análise cinemática de um atleta ou de uma equipe é bastante complexa e exige a consideração de diversos fatores para uma análise mais apurada. Espero que tenha ficado claro para o leitor que a distância percorrida e o número de ações em alta intensidade no jogo é consequência do confronto entre dois sistemas dinâmicos (equipes) e que não é possível isolar um único fator como responsável pelos números finais. Nesse contexto, cai por terra aquela velha história de que a equipe perde ou ganha o jogo porque ela está mal ou está bem fisicamente. A análise é muito mais complexa do que isso. A análise é sistêmica!

Para terminar, se eu fosse treinador e tivesse que escolher entre a equipe A, B ou C (apresentadas no manuscrito anterior) definitivamente escolheria a equipe que melhor se adapte às circunstâncias do jogo e consiga cumprir sua lógica com maior eficácia, pois provavelmente ela será vencedora na maior parte dos jogos, independente da distância percorrida ou do número de ações de alta intensidade. Assim, mais vale uma equipe organizada do que uma equipe que esteja “voando” fisicamente. A organização coletiva pode suprir alguma possível carência física (basta olharmos a grande quantidade de zagueiros lentos jogando em alto nível!) mas dificilmente o aspecto físico vai sobrepujar ou compensar erros de tomada de decisão e leitura de jogo de uma equipe desorganizada…

Forte abraço e até a próxima!

*Bacharel e Especialista em Treinamento Desportivo – UNICAMP; Mestre em Biologia Funcional e Molecular – UNICAMP; Preparador Físico Sub-19 Coritiba Foot Ball Club

 

Comentários

Deixe uma resposta