Universidade do Futebol

Entrevistas

12/09/2014

Gustavo Barbosa, treinador do sub-17 do Social Olímpico Ferroviário

Quais são os benefícios do treinamento da técnica buscando uma variação complexa centrada na tarefa e não na ação em si? A resposta desta pergunta está diretamente relacionada ao que queremos propor na formação de novos talentos esportivos no país. E o futebol está inserido nesse processo.

O jogador desenvolvido para ser um solucionador de problemas, adaptando-se às circunstâncias do jogo e respondendo com as ações técnicas mais adequadas para o momento do embate é cada vez mais valorizado – e necessário – no ambiente profissional. E Gustavo Barbosa tem noção disso.

Graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais, ele buscou no intercâmbio metodológico na Faculdade de Desporto do Porto as referências para trazer à prática uma teoria consumada e vitoriosa. Lá, pôde acompanhar aulas com professores como Vitor Frade, Júlio Garganta e José Guilherme, onde se aprofundei bastante.

Na Escola de Educação Física da UFMG, o atual treinador do time sub-17 do Social Olímpico Ferroviário teve grandes influências na forma de pensar o treino. Daquele berço, saíram treinadores importantes, como Ricardo Drubscky, hoje no Goiás, e Enderson Moreira, comandante principal do Santos.

“Quando um treinador chega com determinadas ideias e referências para o jogo daquela equipe, determinado esquema tático, e procura modular o contexto através do treino, o produto que vai emergir depende dos conceitos e entendimento do jogo por parte dos jogadores, vivências e sensações em relação a este, depende da metodologia empregada, da cultura de jogo enraizada, das influências externas como direção, torcida, imprensa e até do tipo de piso em que se treina e joga”, avalia Barbosa, em entrevista concedida à Universidade do Futebol.

Atualmente Coordenador Técnico do PROESP BH, ele considera que a formação no Brasil está defasada. Para o gestor, conceitos e comportamentos importantes que os jogadores deveriam dominar, muitas vezes não aparecem inclusive em equipes maiores. E cita um exemplo do próprio Social Ferroviário, onde ele trabalha.

“Em menos de 10 meses, tivemos quatro jogadores convidados a treinar em uma equipe de topo na categoria Juvenil e um deles, contratado. Ou seja, os mesmos jogadores que antes não geravam interesse, foram agora selecionados. A pergunta é: passaram a ter ‘talento’ aos 16 anos? Provavelmente não. Já tinham este potencial, o que precisavam era um ambiente facilitador e potencializador de suas capacidades. Talentos se constroem”, finaliza.

Universidade do FutebolFale sobre a sua formação e como se deu o ingresso no ambiente profissional do futebol (trajetória, etc.).

Gustavo Barbosa – Sou graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG com intercâmbio metodológico na Faculdade de Desporto do Porto, FADEUP onde pude acompanhar aulas com professores como Vitor Frade, Júlio Garganta e José Guilherme e me aprofundei bastante. Na Escola de Educação Física da UFMG, tive grande influência alemã na forma de pensar o treino, devido à composição do corpo docente, e a oportunidade de me formar onde também estudaram treinadores importantes como Ricardo Drubscky, Enderson Moreira, Marcelo Vilhena entre outros que são referências.

Meu ingresso no ambiente profissional se deu anteriormente à função de treinador, ainda em graduação. Fiz estágio durante um ano nas categorias Pré-mirim e Mirim do Cruzeiro Esporte Clube. Através do Dr. Rodrigo Leitão e de Leandro Zago, que me influenciaram muito, a oportunidade de por duas vezes fazer estágio de observação no Sport Clube Corinthians Paulista nas equipes Juvenil e Júnior, e duas vezes auxiliar na análise de desempenho durante a disputa do Future Champions BH 2010 e BH CUP 2012 com as equipes Juvenil e Infantil respectivamente. Também trabalhei com análise de desempenho para o professor Marcelo Vilhena na época de Cruzeiro Esporte Clube categoria Infantil pelo Campeonato Mineiro juntamente com outro profissional, que hoje é auxiliar no projeto, o treinador Marcelo Padilha. Em suma, tive privilégio de acompanhar profissionais de alto nível e aprender bastante. Foi durante o intercâmbio em Porto que tive minha primeira oportunidade como responsável.

Fui auxiliar técnico da equipe pré-infantil do Boavista FC de Portugal e após meu regresso ao Brasil, assumi como treinador principal da categoria Juvenil do Social Olímpico Ferroviário BH objetivando a classificação para os campeonatos no final de 2013 e disputa em 2014 – entre eles, o Campeonato Mineiro Juvenil. Recentemente, assumi responsabilidades de Coordenador Técnico do PROESP BH.


Gustavo relembra oportunidade de ter trabalhado em Portugal, onde foi auxiliar técnico da equipe pré-infantil do Boavista FC
 

Universidade do FutebolQuais são os benefícios do treinamento da técnica buscando uma variação complexa e centrada na tarefa e não na ação em si?

Gustavo Barbosa – É preciso primeiramente entender a diferença entre ‘gesto técnico’ (centrada na ação em si) e ‘ação técnica’ (centrada na tarefa). Ação técnica é complexa, livre de estereótipos e tem como alvo a resolução do problema. Gesto técnico é um fim em si mesmo, se prende à execução e não ao problema sendo resolvido. Ora, é claro que um gesto mais apurado resolve provavelmente, em média, mais problemas. Mas o olhar deve estar voltado para a ação que serve o jogo, e não o contrário. E há muitas formas de treinar gestos em ambiente aberto. Muitas vezes os treinadores se preocupam como os jogadores conseguirão realizar os fundamentos do futebol se eles não tiverem perfeição no gesto técnico, mas perfeição no jogo de futebol é ser eficaz, é resolver o problema.

Posso dar um exemplo da minha realidade: temos cinco zagueiros no elenco e dentre eles, um chama atenção relacionada ao tema. Se fizermos um teste padronizado de fundamentos específicos defensivos e ofensivos, numericamente ele perde em todos para os concorrentes, porém no jogo ele é estatisticamente o mais eficaz. Possui maior capacidade de adaptação, ganha mais confrontos de 1×1 defensivo e menor média de bolas perdidas na primeira fase de construção, mesmo com gesto técnico abaixo dos demais. Portanto, sob o ponto de vista do jogo, ele tem os fundamentos melhor treinados! Mas como ressaltei, se o mesmo jogador tivesse o gesto técnico mais apurado, provavelmente seria ainda melhor, mas o que convido a pensar é que o olhar deve estar voltado para a tarefa e não a ação estereotipada.

Obviamente, há um processo que vai de estabilização a variação objetivando a automatização, conforme discute o professor Pablo Greco e há momentos em que na aprendizagem ações centradas na tarefa do gesto técnico em si podem ter lugar. Diante da complexidade do jogo e das soluções que podem ser encontradas, o treino voltado para o gesto pode trazer muitas respostas importantes, mas vale ressaltar que a técnica serve o jogo e não o contrário.

Portanto, os benefícios do treinamento da técnica buscando uma variação complexa centrada na tarefa e não na ação em si está em preparar o jogador para ser um solucionador de problemas, adaptando-se às circunstâncias do jogo e respondendo com as ações técnicas mais adequadas para o momento.


Qual é a relevância do gesto técnico? Gustavo entende que a perfeição no jogo de futebol é ser eficaz: "resolver o problema"
 

Universidade do FutebolHá muitas distinções, peculiaridades, em aplicar essa teoria a equipes de base e em equipes principais?

Gustavo Barbosa – Sim, sem dúvidas. Primeiramente se trata de mexer com algo enraizado na cultura futebolística. Na base é normalmente aceito que o treino analítico é insubstituível, no profissional vemos certa pressão, mas se acentua na formação. Então começa a partir daí, de entender o contexto. Em relação a aplicação, é preciso entender que em equipes de base estamos formando jogadores que antes de mais nada são crianças e adolescente.

Estamos lidando com fases determinantes de seu desenvolvimento cognitivo e físico. Em categorias menores, ainda há a fase mais sensível do desenvolvimento coordenativo, por exemplo. Portanto, a distinção está aí, nos conteúdos, na adequação da dificuldade da tarefa e na propensão adequada que garanta este desenvolvimento. Ir do mais fácil para o mais difícil em uma progressão complexa.

Entra aqui a importância do entendimento de zona de desenvolvimento proximal, desenvolvimento real e potencial de Lev Vygotsky. Em equipes principais, supostamente temos um grau maior de refinamento de ações técnicas, mas que não torna obsoleto o treino sistemático.

Universidade do FutebolO que é o Modelo de Jogo em sua visão? Os treinadores de futebol “de elite” no país têm uma percepção clara sobre esse conceito?

Gustavo Barbosa – Gosto da analogia que faz o professor José Guilherme. Imagine que em uma sala de 50 pessoas, um palestrante peça para que todos pensem na cor azul e apenas essa informação é dada e após isto, cada um é convidado a dizer qual azul pensou. Alguns vão dizer azul marinho, outros ciano, talvez alguns dirão azul comum, outros azul celeste, etc. Em suma, provavelmente teremos 50 diferentes formas de pensar o azul, se não em tons diferentes, coloridos em lugares diferentes. Cada um pensou em função de suas experiências, vivências, conhecimentos sobre, etc.

Modelo de jogo é algo que emerge, é produto complexo de inúmeras variáveis. Quando um treinador chega com determinadas ideias e referências para o jogo daquela equipe (e é bom que sejam referências subjugadas ao jogo), determinado esquema tático entre outras e procura modular o contexto através do treino (azul), o produto que vai emergir depende dos conceitos e entendimento do jogo por parte dos jogadores, vivências e sensações em relação a este, depende da metodologia empregada, da cultura de jogo enraizada, das influências externas como direção, torcida, imprensa e até do tipo de piso em que se treina e joga! Portanto, é algo intransferível que acontece no plano prático, e não teórico e que se torna único, exclusivo.

Não posso jogar como o Barcelona ou o Chelsea, porque são contextos muito distintos. Podemos trazer referências para a equipe mas como esta vai operacionalizar em função da resolução dos problemas do jogo, que deve ser supremo, é algo de certa forma imprevisível, assim como os azuis pensados. E hoje já discutimos que estas referências deve ser a do jogo, e não do treinador. O que sabemos é que será azul, mas qual, isto é difícil.

Podemos fazer um experimento mental em que aplicamos os mesmos exercícios, com as mesmas referências objetivando, por exemplo, progredir ao alvo adversário. A forma como uma equipe na Escócia e uma equipe espanhola irá resolver as situações problema à partir desde contexto, muito provavelmente será diferente. Não se trata de algo rígido, e sim de regularidades que a equipe apresenta em função do jogo, e nunca ao contrário.

A melhor definição em nossa opinião é do autor Teodurescu. Ele considera que o Modelo de Jogo é uma referência, construída a partir de outras referências de ordem de rendimento superior, que postulam um conjunto de ações individuais e coletivas dos jogadores e da equipe.

A partir desta análise e pelo que observamos nas declarações e discussões, a percepção dos treinadores de elite precisa ser relativizada. No plano teórico talvez poucos, mas no prático eu diria que muitos. Observando vários treinadores em seus diferentes clubes e trabalhos por onde passam, percebe-se que suas equipes apresentam interações com o jogo, muitas vezes, distintas. Esta capacidade de entendimento no plano prático provavelmente é consequência de suas vivências e experiências e assim, se adaptam em função do contexto. Não se pode generalizar e há muito conhecimento na prática.


"Modelo de jogo é algo que emerge, é produto complexo de inúmeras variáveis", avalia treinador do Social Ferroviário
 

Universidade do FutebolEm se pensando o futebol no aspecto humano e social, você acredita que a influência da cultura condiciona um determinado tipo de comportamento? É possível se falar em escolas regionais de futebol?

Gustavo Barbosa – Sem dúvidas, a influência condiciona e muito o comportamento, a interação com o jogo e até mesmo o aprendizado deste. Tive experiência de treinar em Portugal uma equipe sub-14 e há consideráveis diferenças de comportamento provenientes de aspectos sociais. Nível de linguagem que se pode utilizar, tempo de aprendizado e principalmente percepção do que é jogar com qualidade. É possível sim falar em escolas regionais porque se observar, a cultura local em um país continental como o nosso, influencia o jogo.

Há uma faceta que compõe a cultura, informalmente, que poderia ser definida como "o que nós fazemos por aqui" ou também "o que nós esperamos que seja feito por aqui". É tudo sobre expectativas, comportamentos e atitudes que são julgadas como apropriadas. Tudo isso condiciona muito a forma como o jogo no Brasil se desenvolve. A cultura resulta de valores, normas e percepções comuns. Isso encoraja os membros desse contextos a cooperarem com uma visão similar de racionalidade. E isso pode encorajar o aparecimento de "pontos cegos", de forma negativa, às vezes é preciso transcender pra outro nível de análise.

Cabe a nós, enquanto responsáveis pelo desenvolvimento do futebol brasileiro, identificar essas normas e expectativas, promovendo-as ou impedindo-as. Mas o contrário também ocorre: mudanças culturais só conseguem começar aos poucos, a partir da mudança de comportamentos. Dessa forma, para melhorarmos nosso cenário cultural, é melhor construir em cima daquilo que a nossa cultura já tem como fortalezas e aos poucos ir mudando aqueles elementos que são os elos fracos. O comportamento no futebol é nada mais que uma extensão da sociedade.


Para treinador, mudanças culturais só conseguem ser efetuadas aos poucos, a partir da mudança de comportamentos
 

Universidade do FutebolQual a importância do erro no processo de ensino-aprendizagem (em especial a jovens atletas em formação)?

Gustavo Barbosa – Esta é uma questão pedagógica muito importante. Muito vem sendo discutido nas novas abordagens do ensino e aprendizagem que o erro deveria ter um peso diferente. Errar é parte importante de qualquer processo de ensino aprendizado e o treino é isto, processo de ensino-aprendizagem-treinamento, EAT.

O jogo tem erro, tem ruído, tem estresses e diminuir isto talvez seja uma reduzir aquilo que é complexo. Errar é uma prática humana desde tempos mais remotos. Mas, no processo, é preciso entender por que se erra, facilitar o caminho para correção, dar pistas aos jogadores – se trata de utilizar o erro como ferramenta e não como pecado capital.

Algumas vezes nos deparamos com processos em que o atleta não pode errar, e a ironia está em que esta atitude geralmente provoca mais erros. O treino é onde o jogador deve errar, porque só vai ter noção do que é uma ação de sucesso, somente terá consciência do que é certo quando se depara com o errado. Esta perspectiva traz ao processo de ensino-aprendizagem a oportunidade de, ao cometer erros, se auto organizar reajustando as ações e decisões que tende a levar o praticante a níveis maiores de desenvolvimento. Jogador que "pode" errar é jogador livre, autônomo, em que é estimulado o pensamento divergente, base da criatividade e o treinador deve ser um facilitador, sempre.

Quando pensamos isto na formação, ganha ainda mais dimensão porque se trata de proporcionar ao jogador um ambiente, com o qual irá interagir, extremamente rico sob o ponto de vista do desenvolvimento de suas capacidades físicas, técnicas, táticas e psicológicas.


"Jogador que ‘pode’ errar é jogador livre, autônomo, em que é estimulado o pensamento divergente", diz Gustavo, um "facilitador" do processo
 

Universidade do FutebolQue lição o Brasil, técnica e futebolisticamente falando, deveria tirar da Copa do Mundo?

Gustavo Barbosa – Acredito que precisamos no nosso futebol entender que "A Bola Não Entra Por Acaso", que é um título de um excelente livro de Ferran Soriano. De fato não entra! Como discutido acima, o futebol é uma extensão da sociedade e a nossa, tem certos valores que são muito contraproducentes. A maior lição é entender que para se fazer futebol, a mudança tem que começar ao inverso, é de cima pra baixo. A Alemanha, campeão do mundo, fez uma reformulação enorme de seu modelo de gestão de futebol desde financeiro à metodologia de treinamento, formação de corpo técnico, etc.

Tecnicamente falando, as lições são claras, mas que às vezes nos parece intencionalmente não percebidas. Nossa escola de futebol levou e leva grandes contribuições para qualquer outra no mundo inteiro e precisamos valorizar muito do que se faz aqui. Mas em outra mão, também se faz necessária uma reflexão profunda para perceber que, em muitos tópicos, estamos ficando para traz e muito provavelmente iremos jogar cada vez pior. Ficou o legado de que se faz imprescindível uma reformulação política, econômica e metodológica em nosso futebol através de mais profissionais com alto nível de conhecimento.

Universidade do FutebolEm seu blog, você chegou a falar sobre o comportamento de algumas equipes quando se utilizam de três zagueiros na plataforma de jogo inicial. Poderia aprofundar um pouco o tema, por gentileza?

Gustavo Barbosa – Primeiramente, gostaria de ressaltar que não sou adepto de um ou outro esquema tático. Como diversos especialistas vêm defendendo são muitas as variáveis que devem guiar a escolha da plataforma de jogo como, por exemplo, as características dos jogadores do elenco.

O objetivo deste assunto no blog foi discutir sobre o entendimento da formação complexa do jogador que não pode ser limitada a uma referência de ocupação de espaços em campo, o esquema tático ou plataforma de jogo. O centro foi discutir até quando jogar com linha de 3 limita a formação de laterais. Em outras palavras, a formação de jogadores deveria ser pautada no entendimento do jogo em sua complexidade e lógica que proporcionaria ao atleta a capacidade de ser adaptar e resolver problemas circunstanciais, seja jogando de lateral em uma linha de 4 ou de ala em uma linha de 3.

Nossa proposta foi levantar questões sobre esta formação e suposta limitação na formação pelo fato de se jogar com determinado esquema tático.

Em relação a equipes utilizando 3 zagueiros, a Copa do Mundo 2014 mostrou excelentes estratégias e equipes com alto nível de organização fazendo uso da linha de 3. Uma delas, a Holanda.

Várias equipes e seleções apresentaram nas últimas temporadas excelente resultados com variações do 1-3-5-2. A Juventus, com o treinador Antonio Conte, por exemplo. No Brasil, vem caindo em desuso devido a alguns pressupostos. Citando dois, um destes é que o esquema supostamente limitaria a formação de algumas posições, como citado no parágrafo acima, e outro consequente do mal entendimento do esquema.

No Brasil, sempre foi entendido como um esquema tático que proporcionaria superioridade numérica na defesa, onde sempre haveria uma sobra (contra ataques de 2 homens), assim como igualdade ou superioridade numérica no meio-campo e dois atacantes em cima dos dois zagueiros adversários. Por estas indicações, percebe-se que no nosso futebol sempre foi entendido como um esquema tático defensivo, em que as posições "se encaixam" proporcionando uma marcação ao homem mais facilitada e com sobras em linhas mais urgentes.

Normalmente, nos esquemas com "linha de 3" no Brasil, nota-se marcação homem a homem, ou defesa individual (H-H), com derivações chamadas de marcação por função onde os zagueiros marcam os atacantes, os volantes são responsáveis pelos meias adversários, os alas pelos laterais do oponente e os meias e atacantes cuidando da saída de bola curta.

Aos poucos, essa marcação foi evoluindo se tornando marcação individual por setor. Porém é realmente diferente de uma marcação zonal pressionante bem realizada, que é o método defensivo que o citado Juventus fez uso com o italiano Conte.


Até quando jogar com linha de três na defesa limita a formação de laterais? Tema foi debatido no blog do professor Gustavo
 

Universidade do FutebolEm outra postagem, você abordou a questão da gestão do espaço – um dos problemas que garantem mais discussões sobre o jogo de futebol. É possível mensurar o valor do metro quadrado em campo?

Gustavo Barbosa – Em termos objetivos talvez não, para uma analogia sem dúvidas. A ideia da postagem foi mostrar que a produto entre comprimento x largura vem diminuindo ao longo do tempo o que deixa cada metro quadrado teoricamente mais disputado, mais povoado. Isto traz implicações para o treino que são de extrema importância. Se nossos jogadores têm cada vez menos espaço para jogar, em média, deveria ser treinado também assim. Então, em termos de analogia o metro quadrado está sim valendo cada vez mais! Então a proposta é que, talvez seja interessante pensar a elaboração dos exercícios levando em consideração a relação comprimento x largura (m² a nível individual, setorial, intersetorial e coletivo) e dos propósitos de densidade de ações que queremos alcançar. O espaço do exercício tem uma relação direta com o tipo de problema pretendido, então, se queremos preparar os jogadores para o jogo, que olhemos para ele.
 

 

Universidade do FutebolQual é a sua avaliação, de maneira geral, sobre o nível de formação do jogador de futebol brasileiro? E quais são os principais pecados cometidos no processo de prospecção, seleção e captação de talentos?

Gustavo Barbosa – De uma maneira geral baseado em alguns anos de observação, análises, estudos e conversas com demais profissionais, considero que a formação está defasada no Brasil. Conceitos e comportamentos importantes que os jogadores deveriam dominar, muitas vezes não aparecem inclusive em equipes maiores. Claro que há profissionais de alta qualidade envolvidos em excelentes projetos de formação e estão obtendo grandes resultados, mas esta defasagem é sentida e muito. Um país continental como o nosso, deveria fazer chegar ao profissional um número muito maior de jogadores, com maior qualidade e mais mercado tanto interno quanto externo.

Podemos fazer uma analogia da água para a captação, prospecção e seleção de talentos. Um país onde a água é escassa, trata-se cada gota com valor de ouro. Somos um país com grande volume hídrico, então não nos preocupamos tanto. O mesmo acontece com jogadores. A percepção que tenho é que por termos tanto, nos damos ao luxo de desperdiçar. Os processos de formação muitas vezes não parecem preocupados em formar e sim em selecionar quem já tem determinada capacidade e descartar os demais. Mas como diria o professor Julio Garganta, só se melhora naquilo que se treina. Logo, grandes talentos poderiam chegar se na base, a atenção estivesse voltada também para este sentido. Sempre importante ressaltar que ganhar é algo que considero extremamente importante na base e entendo como algo que a mentalidade de formação deve sempre ter, mas ganhar tem muitos sentidos e a formação centrada a levar jogadores para o profissional talvez seja tão ou mais importante. Portanto, os "pecados" estão em uma captação, seleção e prospecção altamente predatória através de métodos obsoletos de filtragem ou peneiradas que lançam fora potenciais grandes jogadores.

Outro aspecto a se pensar é no termo "talento" não como algo inato. Cada vez mais se percebe que a medida que o nível de especialização aumenta, maior peso tem o treino. Como cita o professor Júlio Garganta, "o treino tem o papel de validação. Predisposição e talento podem vir antes, mas o jogador só vem com o processo".

Obviamente, o genótipo é importante, mas a interação com o meio e as v’ivências que vão ser determinantes. Um exemplo que podemos dar é que após nosso trabalho no S.O Ferroviário BH. Em menos de 10 meses, tivemos quatro jogadores convidados a treinar em uma equipe de topo na categoria Juvenil e um deles, contratado. Ou seja, os mesmos jogadores que antes não geravam interesse, foram agora selecionados. A pergunta é: passaram a ter "talento" aos 16 anos? Provavelmente não. Já tinham este potencial, o que precisavam era um ambiente facilitador e potencializador de suas capacidades. Talentos se constroem.

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