Universidade do Futebol

Entrevistas

01/05/2015

Gustavo Brasil, treinador do Florida Rush

Imagine um clube do futebol brasileiro que atenda crianças e adolescentes de 2 a 19 anos de idade, sendo cerca de 35 mil atletas registrados em todo o país. Se este cenário ainda é bastante distante atualmente no Brasil, nos Estados Unidos já é uma realidade colocada em prática.

É o caso do Florida Rush Soccer, time da Flórida e que tem investido muito forte nas categorias de base atualmente para, daqui a seis anos, lançar uma equipe profissional para disputar a MLS (Major League Soccer).

E o projeto não é um caso isolado por lá, mas sim fruto da evolução que o futebol tem registrado nos últimos anos na Terra do Tio Sam. Após um empresário brasileiro comprar o Orlando City, astros como o Kaká migraram para os gramados norte-americanos. O público nos estádios e o interesse pela TV também aumentaram pela modalidade e há um planejamento para que a MLS alcance reconhecimento mundial até 2022.

“A liga universitária americana é uma grande fonte de talentos e de desenvolvimento de jogadores, assim como uma provedora de chances de se conciliar estudos com a prática esportiva de alto nível. Como resultado, a maioria dos jogadores profissionais de futebol nos EUA possui diploma universitário. Isso dá a esses atletas a chance de ter um futuro garantido quando a carreira esportiva termina”, aponta o brasileiro Gustavo Brasil, treinador das categorias de base do Florida Rush Soccer.

Para ele, os principais fatores que têm alavancado o futebol nos Estados Unidos são a organização desportiva e tratamento profissional de suas ligas, além da forma como é estruturado o futebol por lá.

“Aqui, diferentemente do Brasil, as categorias de base não estão compreendidas com idades dobradas. No futebol brasileiro, existe a categoria infantil 14-15 anos, enquanto que, nos Estados Unidos, cada ano representa uma categoria diferente, separando sub-14 e sub-15. Ou seja, se o clube tem quatro níveis de time em cada categoria, isso significa que só o sub-4 terá quatro comissões diferentes”, explica.

Nesta entrevista, concedida por email diretamente dos Estados Unidos, Gustavo Brasil ainda fala sobre qual a importância dos treinadores e jogadores estrangeiros no processo de profissionalização do futebol naquele país. Confira:  

 

Universidade do Futebol – Gustavo, fale um pouco sobre sua formação acadêmica e o início de sua trajetória no futebol.

Gustavo Brasil – Estudei Educação Física e possuo certificação de todos os níveis como treinador de futebol profissional. Iniciei minha carreira esportiva nas categorias de base do Clube de Regatas do Flamengo, no Rio de Janeiro, onde joguei por 10 anos. Já no ano de 1995, na categoria juvenil, fui artilheiro do campeonato carioca defendendo o Bangu e, após uma passagem pelo Palmeiras, em São Paulo, encerrei minha carreira como jogador devido a uma lesão enquanto jogava pelo time de futsal adulto do Flamengo.

Minha carreira como treinador de futebol iniciou-se em 1998 no Centro de Futebol do Zico (CFZ), onde dediquei 15 anos de trabalho a esta instituição. Durante 12 anos, também participei ativamente da organização de um dos maiores torneios internacionais de futebol das categorias de base do Brasil, a Copa Internacional da Amizade Brasil-Japão. Além disso, recebi e orientei equipes internacionais de atletas como ingleses, japoneses e americanos nos Camps anuais que o CFZ oferecia.

Trabalhei também como treinador e coordenador em todos os projetos sociais do clube, como por exemplo, o projeto Zico nas Praças, o projeto Gol de Placa e o projeto Escola Zico 10.

O Rush Soccer é o maior clube de base dos Estados Unidos atualmente e atende crianças e adolescentes de 2 a 19 anos de idade, sendo cerca de 35 mil atletas registrados em todo o país. O clube tem planos de lançar um time profissional em seis anos, diz o brasileiro Gustavo Brasil

Universidade do Futebol – Como é a formação do treinador de futebol nos Estados Unidos?

Gustavo Brasil – Para obter uma das cinco certificações (A, B,C, D, E ou F) da US-Soccer, a federação americana de futebol, você tem de participar de cursos presenciais com provas teóricas e práticas, compostas de módulos parecidos com os cursos de licenças certificadas pela CBF em nosso país. Além disso, é preciso destacar que para uma pessoa seja capaz de tirar essas licenças, o seu inglês deverá ser fluente.

Universidade do Futebol – Como se dá a integração entre as equipes de base e o departamento de futebol profissional no Florida Rush Soccer?

Gustavo Brasil – O Rush Soccer é o maior clube de base dos Estados Unidos atualmente e atende crianças e adolescentes de 2 a 19 anos de idade, sendo cerca de 35 mil atletas registrados em todo o país. O clube tem planos de lançar um time profissional em seis anos (aqui tudo é feito e programado com muita organização). Então, por enquanto, não existe esse link categoria de base- time profissional.

Para os atletas americanos, o principal objetivo de um jogador da categoria de base é conquistar uma bolsa de estudos em uma universidade, pois como sabemos o preço médio de uma faculdade aqui gira em torno de U$ 60 mil por ano, revela o treinador

Universidade do Futebol – De que maneira você avalia a evolução do futebol nos Estados Unidos e que importância têm os treinadores e jogadores estrangeiros nesse processo de profissionalização?

Gustavo Brasil – Os Estados Unidos já vêm investindo há um bom tempo no futebol. Muitas coisas não são passadas pela imprensa, mas podem acreditar que o nível do futebol por aqui está muito competitivo.

Sem dúvida, os brasileiros (tanto jogadores quanto treinadores) têm uma grande parcela em toda essa evolução. Independentemente do que falam (sobre o efeito dos 7 a 1 sofridos na Copa do Mundo de 2014), nós somos a maior referência do futebol mundial. Um exemplo disso são os resultados que trouxemos para o clube em dois anos. Desde que chegamos aqui, participei de cinco categorias diferentes, sendo campeão 28 vezes em diversas ligas e torneios.

Os jogadores americanos são naturalmente competitivos e por isso amam esportes. Eles são jogadores muito disciplinados, fortes fisicamente e cada vez mais se aperfeiçoam técnica e taticamente, compara Gustavo Brasil

Universidade do Futebol – Os Estados Unidos têm uma tradição secular de organização desportiva e tratamento profissional de suas ligas. De maneira geral, como é estruturado o futebol nos Estados Unidos? Há uma diferenciação muito grande entre a categoria profissional e as categorias de base?

Gustavo Brasil – Realmente você tem razão. Em minha opinião, essa estratégia vem dando muito certo pois o futebol aqui é estruturado no nível em que o atleta pode jogar, desde a categoria de base até o profissional, e também cursar uma faculdade paralelamente. Por exemplo, na categoria sub-15 do meu clube, nós temos quatro times de níveis diferentes. Os primeiro nível se inicia no recreativo, passando pelos outros, até o nível mais alto de competição.

Aqui, diferentemente do Brasil, as categorias de base não estão compreendidas com idades dobradas. No Brasil, existe a categoria infantil 14-15 anos, enquanto que, nos Estados Unidos, cada ano representa uma categoria diferente sub-14 e sub-15. Ou seja, se o clube tem quatro níveis de time em cada categoria, isso significa que só o sub-4 terá quatro comissões diferentes.

Essa estratégia vem dando muito certo pois o futebol aqui é estruturado no nível em que o atleta pode jogar, desde a categoria de base até o profissional, e também cursar uma faculdade paralelamente. Por exemplo, na categoria sub-15 do meu clube, nós temos quatro times de níveis diferentes. Os primeiro nível se inicia no recreativo, passando pelos outros, até o nível mais alto de competição, afirma o treinador

Universidade do Futebol – É possível se dizer que já há uma "escola estadunidense de futebol", assim como há um modelo de jogo tipicamente inglês, italiano, brasileiro e argentino, por exemplo? Ou acredita que a globalização estabeleceu parâmetros e aproximou esses estilos?

Gustavo Brasil – Sim. Apesar de a globalização estabelecer parâmetros, a aproximação de todos os estilos de se jogar aqui nos Estados Unidos ainda não aconteceu. Por exemplo, a maioria dos treinadores americanos costuma seguir o modelo de jogo do futebol inglês.

No meu ponto de vista, a globalização é muito importante para todos nós treinadores. Após identificar as habilidades dos atletas americanos, conseguimos criar uma metodologia eficaz de treinamento que integrou as melhores características de cada estilo de jogar do Brasil e dos Estados Unidos. Os resultados obtidos através dessa conexão só vêm a confirmar os benefícios de uma metodologia integrada.

O mercado ainda é muito restrito. O americano não costuma abrir espaço para ninguém e realmente para se trabalhar em um clube daqui e conquistar a confiança de todos não é uma tarefa fácil. Os principais desafios e dificuldades, além da fluência na língua, são o volume de trabalho intenso (7 dias por semana), tirar as licenças, e conseguir um “sponsor” disposto a lhe dar o suporte na obtenção do visto de trabalho, explica

Universidade do Futebol – As crianças e adolescentes praticantes do futebol nos EUA pretendem, de forma geral, se tornar jogadores ou jogadoras profissionais?

Gustavo Brasil – Não. Para os atletas americanos, o principal objetivo de um jogador da categoria de base é conquistar uma bolsa de estudos em uma universidade, pois como sabemos o preço médio de uma faculdade aqui gira em torno de U$ 60 mil por ano.

Apesar disso, a liga universitária americana é uma grande fonte de talentos e de desenvolvimento de jogadores, assim como uma provedora de chances de se conciliar estudos com a prática esportiva de alto nível. Como resultado, a maioria dos jogadores profissionais de futebol nos EUA possui diploma universitário. Isso dá a esses atletas a chance de ter um futuro garantido quando a carreira esportiva termina.

Apesar de a globalização estabelecer parâmetros, a aproximação de todos os estilos de se jogar aqui nos Estados Unidos ainda não aconteceu. Por exemplo, a maioria dos treinadores americanos costuma seguir o modelo de jogo do futebol inglês, aponta

Universidade do Futebol – Qual é o perfil atual do jogador de futebol nos Estados Unidos?

Gustavo Brasil – Os jogadores americanos são naturalmente competitivos e por isso amam esportes. Eles são jogadores muito disciplinados, fortes fisicamente e cada vez mais se aperfeiçoam técnica e taticamente.

Os Estados Unidos já vêm investindo há um bom tempo no futebol. Muitas coisas não são passadas pela imprensa, mas podem acreditar que o nível do futebol por aqui está muito competitivo.
Sem dúvida, os brasileiros e os estrangeiros (tanto jogadores quanto treinadores) têm uma grande parcela em toda essa evolução, diz

Universidade do Futebol – Como é o mercado de trabalho para profissionais do futebol brasileiro que queiram trabalhar nos EUA? Quais são os principais desafios e dificuldades a serem superados?

Gustavo Brasil – O mercado ainda é muito restrito. O americano não costuma abrir espaço para ninguém e realmente para se trabalhar em um clube daqui e conquistar a confiança de todos não é uma tarefa fácil. Os principais desafios e dificuldades, além da fluência na língua, são o volume de trabalho intenso (7 dias por semana), tirar as licenças, e conseguir um “sponsor” disposto a lhe dar o suporte na obtenção do visto de trabalho, uma vez que eles possuem profissionais da área com alto nível de graduação e conhecimento.

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Comentários

  1. Rafael Tardelli disse:

    Gustavo Brasil é um excelente profissional, sempre focado e determinado, com uma vasta experiência nas categorias de base. Com toda certeza, é muito merecedor de tudo que está acontecendo em sua vida profissional e o sucesso não ficará restrito aos títulos já conquistados. Muitos outros ainda virão.

  2. jose roberto disse:

    gostaria de poder participar do projeto tenho 38 anos e gostaria de trabalhar na área de esportes como posso fazer

  3. TONY LO BIANCO disse:

    GUSTAVO, BOA TARDE
    MEU FILHO JOGA E ESTUDA NOS EUA. ELE FOI SEU ALUNO NO CFZ DEPOIS FOI PARA O FLAMENGO E BOTAFOGO DO RIO.

    ELE IRA COMPLETAR O 3 ANO EM AGOSTO, COMO FAÇO PARA TER ACESSO AS UNIVERSIDADES. VC PODE AUXILIAR?

    ABS
    TONY LO BIANCO MAHET

  4. Eliete Ferraz disse:

    Bom dia Gustavo! Como faço para inscrever um garoto, para ser avaliado? Ele já joga nas categorias de bases, de grandes clubes aqui no Brasil, agradeço um retorno.

  5. JUliano disse:

    Alguém tem p contato do Gustavo para me passar?

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