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22/06/2011

Gustavo Bueno, treinador das equipes sub-16 e sub-17 do Nacional, do Uruguai

Gustavo Bueno foi treinador nas categorias de base dos atacantes do AFC Ajax e da seleção uruguaia Nicolas Lodeiro e Luís Suarez. No centro de treinamento do Nacional, o mais antigo e famoso clube do Uruguai, ele explica em entrevista à Soccer Coaching International, parceira da Universidade do Futebol, por que Suarez atuou tão bem na Holanda. “Um atacante deve ser ousado e duelar.”
 

“Grandes jogadores têm de ser capazes de vencer seus oponentes diretos”
 

O complexo do Nacional lembra o de um clube amador holandês que possui um déficit de voluntários. Existem cinco campos, dois destes muito bem cuidados. O prédio parece privado de manutenção e necessita de tinta. A grande diferença entre este CT e o holandês amador é a existência de palmeiras ao redor dos gramados. Foi neste local que Suarez e Lodeiro deram seus primeiros passos rumo ao futebol profissional. Gustavo Bueno treinou ambos – Lodeiro por dois anos e Suarez sempre que este não era chamado para o time principal. Quando Suarez fez sua estreia pelo Uruguai, ele ainda não era conhecido como um artilheiro. “Isso significava que ele jogava regularmente com a equipe sub-20”, diz Bueno.

Lodeiro foi comandado pelo treinador de 47 anos por duas temporadas. “Um grande número dez,” conta o treinador. “Eu acredito que o mundo ainda vai ouvir falar muito sobre ele nos próximos anos. Ele é um grande armador de jogadas.” O preparador físico Julio Moreno completa: “Lodeiro é um legítimo camisa 10 sul-americano, mas possui um diferencial: ele trabalha muito duro. Nos treinamentos ele sempre está à frente, seja em trabalhos físicos ou voltas ao redor do campo. Eu nunca vi algo parecido com um camisa dez.”
 


 

Pelé

Também observo um treinamento da equipe sub-16/sub-17. Os times treinam juntos nas quartas-feiras, pois a seleção da categoria treina ao mesmo tempo e muitos dos titulares de ambas também fazem parte da seleção uruguaia de base. “Chegamos a um acordo com o treinador da seleção de base, em que ele selecionaria nossos atletas de maneira rotativa, pois se ele convocar todos nós só poderíamos trabalhar com os reservas de segunda-feira até quarta-feira.”

Por casa desse acordo, há 24 jogadores no campo treinando, incluindo quatro que estão ‘a prueba’ (sendo testados). Isso significa que estes atletas têm permissão para treinar com o time uma vez, para ver se eles são capazes de jogar neste nível. Estar ‘a prueba’ na América do Sul não é tão divertido como pode parecer. Para muitos jogadores futebol é a única esperança de um futuro melhor. Então jogadores que estão sendo testados não são tidos como uma melhora em potencial para a equipe, mas como um risco em potencial para os que lá já estão. Assim sendo, jogadores em teste raramente recebem a bola. Isso fica evidente assim que o treinamento começa.

Gustavo Bueno comenta: “isso é muito sul-americano e impossível de mudar. Por essa mentalidade, clubes frequentemente desperdiçam grandes talentos. Diego Forlán, por exemplo, foi testado pelo Peñarol e por outros clubes menores no Uruguai, mas não foi aprovado. Seu pai o levou para a Argentina, onde ele rapidamente fez seu nome. Hoje em dia, ele ganha milhões no Atlético de Madri e foi o vencedor da Bola de Ouro. O Nacional é o maior rival do Peñarol, então sempre rimos deste fato, mas eu sei que irá acontecer conosco mais cedo ou mais tarde.”

“Isso não acontece apenas no Uruguai”, diz Bueno, “Eu joguei pelo Noroeste de Bauru no Brasil. O clube não possui muita expressão, mas ficou famoso por ter rejeitado Pelé. Eles o testaram, mas o treinador não o considerou bom o bastante. Pelé então foi para o Santos e eles o aceitaram com prazer e são muito orgulhoso disso até hoje.”

Treinamento

O campo é seco, desigual e a grama é muito alta, na maioria dos locais chega até 20 centímetros. “No Uruguai você tem que lidar com as circunstancias que te são dadas,” diz Bueno. “Tome os treinamentos de hoje, por exemplo. Só podemos utilizar seis bolas.” Estas bolas são todas de diferentes modelos e fabricantes, além de duas delas serem tão duras que chega a ser um milagre que os atletas não quebrem seus pescoços quando as cabeceiam.

Isso não afeta a seriedade e o esforço dos atletas treinando. Os novos Suarez e Lodeiros estão prontos para mostrar o que podem fazer. Gustavo ‘Zorro’ Bueno também é muito presente. Durante o treinamento ele continuamente insiste para que os atacantes busquem o “mano a mano” e vençam seu marcador.

Os atacantes estão voando apesar das condições ruins do gramado, vencendo constantemente os zagueiros nos seus duelos um contra um. Sempre que um ala tem uma situação assim e recua a bola para um meio-campista, Bueno para o jogo. “Você está a 70 ou 80 metros do seu próprio gol! Quando você perde a bola aí, ninguém dirá nada. Se você vencer seu adversário, você ou criará uma chance, ou sofrerá uma falta. Então assuma o risco!”.


 

Os alas entendem o recado de Bueno e os laterais não conseguem mais segurar as investidas. “Infelizmente eu tenho de dizer a ele isso toda vez,”. Bueno me diz após o treinamento. “Ele precisa saber fazer isso sem instruções técnicas neste ponto. Como o atacante.”

Amor próprio

Bueno: “Grandes jogadores têm de ser capazes de vencer seus oponentes diretos. Para alcançar este nível, você tem de praticar repetidamente. Então fazemos isso de maneira diária. Jogadores precisam conseguir reconhecer quando eles estão em uma situação de um contra um e como eles podem vencer aquele marcador. Suarez é um grande exemplo do que você pode alcançar. Suarez inclusive conversou com estes jogadores uma vez, para dizer isso a eles pessoalmente. Eu gosto muito disso sobre ele.”

Bueno aponta que este método é diferente do utilizado pelos clubes europeus. “Quando eu vejo a seleção holandesa ou alguns clubes da Holanda existe algo sul-americano neles. Eles possuem o desejo de tornar aquilo em algo belo. E os jogadores são capazes de grandes feitos. Olhe para Arjen Robben, Robin Van Persie ou Wesley Sneijder. Você não vê isso em grande escala em muitos dos outros países europeus. Neles, tudo é mais baseado em força e defesa.”

“A diferença com sul-americanos é que nós temos amor próprio em vencer e marcar gols. Assim sendo, nós queremos jogadores que estejam próximos da área e assumam o risco que assumiriam com oito anos de idade. Você quer marcar o gol, então marque. Essa é a chance do sucesso que Luís Suarez e Diego Forlán possuem.”

*Contribuição da revista Soccer Coaching International - www.soccercoachinginternational.com

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