Universidade do Futebol

Entrevistas

03/01/2014

Gustavo Ferreira, do Departamento Odontológico do Botafogo

Há 17 anos, o Botafogo disputava pela última vez a Libertadores da América. Muito por conta disso, a temporada de 2014 se apresenta de modo especial para o clube carioca. Com mudanças na comissão técnica, o elenco já se reapresentou, e se prepara para encarar a primeira fase do principal torneio do continente.

A diretoria decidiu que o elenco do Botafogo não realizará um período de treinamentos no Equador visando o primeiro duelo com o Deportivo Quito. Os jogadores, inclusive, seguirão para Quito, cidade do jogo, apenas horas antes do início do confronto.

A equipe chegará em Guayaquil em 28 de janeiro, véspera do confronto. No dia seguinte, os jogadores seguem o palco do duelo, que tem uma altitude de aproximadamente 2.800 metros acima do nível do mar. A coordenação de todo esse processo ficará a cargo de Gustavo Campos, novo coordenador médico alvinegro.

Xará de Campos, Gustavo Ferreira está inserido no clube de General Severiano, também. E tem como missão cuidar de uma área especial, que muitas vezes passa despercebida nos departamentos de futebol das agremiações brasileiras: a da saúde bucal.

Presidente da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte, Gustavo Ferreira é coordenador do Departamento Odontológico do Botafogo. O trabalho, vanguardista, tem uma importância ímpar para o desempenho dos jogadores.

"O suporte odontológico para atletas em formação é fundamental para que eles alcancem condições ideias na sua preparação como atleta. Quando um atleta possui desde a base uma orientação, conscientização e o suporte odontológico propriamente dito, além de aumentar as chances se tornar um profissional por estar melhor preparado, os riscos de focos infecciosos são reduzidos quase que em sua totalidade", indica o Presidente da Comissão de Odontologia do Esporte e Membro da American Academy for Sports Dentistry.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Gustavo Ferreira fala ainda sobre as barreiras enfrentadas no cenário nacional e qual é a relevância dos protetores bucais para os esportistas de alto rendimento.

Universidade do Futebol – Explique como funciona o trabalho da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte.

Gustavo Ferreira – A Academia Brasileira de Odontologia do Esporte (ABROE) foi idealizada após um encontro dos dentistas do esporte que aconteceu em Setembro de 2012 no Conselho Regional de Odontologia do Rio de Janeiro. Nesse encontro foi detectada a necessidade de se criar uma entidade que representasse esse novo e tão importante segmento da odontologia, a odontologia do esporte. A Academia Brasileira de Odontologia do Esporte (ABROE) foi inaugurada em Setembro de 2013 Brasil e tem por finalidade promover com intenções científicas, acadêmicas, políticas e sociais a Odontologia do Esporte.

Universidade do Futebol – Quais os seus principais desafios e metas à frente da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte?

Gustavo Ferreira – Como presidente da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte (ABROE) entendo que o momento é de promover a odontologia do esporte para que alcance o seu devido lugar de respeito e destaque na classe odontológica e na sociedade. Não podemos mais considerar que um atleta de alto rendimento tenha um suporte odontológico convencional.

Em todas as outras áreas que circundam e cuidam da saúde do atleta, existem especialidades específicas voltadas para o esporte, como a medicina do esporte, psicologia do esporte, fisioterapia esportiva, nutrição esportiva, entre outros, e a odontologia não pode ficar fora deste contexto, por isso precisamos informar e esclarecer quais as especificidades, limitações e importância de um suporte odontológico realizado por um dentista do esporte.

Atualmente a ABROE tem representantes em quase todos os estados do Brasil e o nosso foco inicial é: comprovar cientificamente que o atleta de alto rendimento necessita de um suporte odontológico específico.
 


"Não podemos mais considerar que um atleta de alto rendimento tenha um suporte odontológico convencional", diz Gustavo Ferreira


Universidade do Futebol –
As categorias de base do Botafogo tem acompanhamento odontológico? Na sua opinião, qual a importância?

Gustavo Ferreira – O Departamento Odontológico do Botafogo de Futebol e Regatas está localizado no Estádio Olímpico João Havelange (Engenhão) e promove atendimentos especializados em Odontologia do Esporte a todos os atletas de todas as modalidades do clube: futebol profissional, futebol de base (sub 13, sub 15, sub 17 sub 20 e sub-23), natação, polo aquático, vôlei, basquete, futsal, fut7society, remo, futebol de areia, voleibol de areia, futebol americano e futevôlei. A atuação é mais intensa no futebol (Profissional e base), onde estamos inseridos no departamento médico do clube.

Semanalmente participamos de uma reunião do futebol onde a medicina, fisiologia, fisioterapia, preparação física, psicologia, nutrição e a odontologia discutem as necessidades de cada atleta individualmente, fazendo com que a interdisciplinaridade seja posto em prática.

Além de oferecermos todos os tratamentos odontológicos no Departamento Odontológico do Botafogo FR, ministramos frequentes palestras para todas as categorias de base do clube para promover a saúde bucal e esclarecer quais são os malefícios de uma saúde bucal inadequada, benefícios da utilização do protetor bucal e as vantagens de um suporte odontológico realizado por um dentista do esporte.

O suporte odontológico para atletas em formação é fundamental para que eles alcancem condições ideias na sua preparação como atleta.

Quando um atleta possui desde a base uma orientação, conscientização e o suporte odontológico propriamente dito, além de aumentar as chances se tornar um atleta profissional por estar melhor preparado, os riscos de focos infecciosos são reduzidos quase que em sua totalidade, pois além dos tratamentos oferecidos nós fazemos reavaliações frequentes e constantes.
 


Eduardo Oliveira e Guilherme Torres, coordenadores da Escola de Futebol do Botafogo, falam sobre o projeto de um trabalho sistêmico e interdisciplinar no clube

 

 

Universidade do Futebol – Os clubes brasileiros, em sua maioria, tem departamento de odontologia do esporte abrangendo as categorias de base e o profissional?

Gustavo Ferreira – Hoje ainda não é uma realidade encontrarmos departamentos odontológicos exclusivos e integrados aos departamentos médicos em todos os clubes. O departamento odontológico do Botafogo de Futebol e Regatas está na vanguarda e atualmente é referência nacional na sua atuação.

Alguns clubes já possuem este tipo de benefício, como por exemplo, o Atlético MG que tem o seu departamento odontológico coordenado pelo Dr. Marcelo Lasmar, que é diretor comercial da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte (ABROE), e também faz um excelente trabalho com seus atletas profissionais e de base.

Outro clube que faz um trabalho muito interessante com seus atletas de MMA é o Corinthians. O Dr. Alexandre Barberini, integrante da comissão científica e pesquisa da ABROE, é o coordenador do departamento de odontologia do esporte.
 

 

Alexandre Barberini, especialista em odontologia do esporte, fala sobre a importância do tratamento dentário contínuo

 

 

Universidade do Futebol – Quais as principais barreiras que os profissionais da Odontologia enfrentam para cuidar de atletas?

Gustavo Ferreira – O principal obstáculo que os dentistas do esporte encontram é a falta de conscientização por parte dos profissionais que dirigem entidades esportivas, principalmente quando a gestão ainda não passou pelo processo de profissionalização.

Os benefícios de um suporte odontológico especializado em odontologia do esporte estão comprovados por publicações científicas e experiências práticas. É inadmissível que um clube com recursos milionários não se atente para completa formação e preparação de seus atletas.

A odontologia do esporte surgiu para complementar e contribuir com o trabalho de todo departamento médico dos clubes visando a saúde do atleta, que resultará diretamente na sua atuação em campo.
 



Principal obstáculo que os dentistas do esporte encontram é a falta de conscientização por parte dos profissionais que dirigem entidades esportivas

 

Universidade do Futebol – Qual a importância da saúde bucal para o rendimento do atleta dentro de campo?

Gustavo Ferreira – É extremamente importante que um atleta de alta performance esteja com sua situação bucal devidamente controlada e que faça constantes avaliações realizadas por um dentista do esporte. Foi constatado que o rendimento de um atleta pode ser reduzido se tiver algum distúrbio em sua saúde bucal.

Existem diversos fatores que relacionam a odontologia com a saúde geral do atleta. A presença de focos infecciosos na boca do atleta traz um prejuízo imenso na sua preparação e na recuperação de lesões musculares e articulares. Outro exemplo são as doenças periodontais (Tecido de suporte – gengiva e osso alveolar), que além de também serem focos infecciosos, contribuem para algumas doenças coronarianas, como a endocardite bacteriana.

Problemas muito comuns são alterações na posição dos elementos dentários que resulta em uma oclusão (encaixe dos dentes) inadequada, tendo como consequência uma alteração na respiração e na postura corporal do atleta.

Existe uma placa otimizadora de rendimento que compensa esses distúrbios, resultando em um equilíbrio oclusal, relaxamento muscular e correção postural.

A odontologia do esporte possui diversas particularidades que a diferem de uma odontologia convencional, como por exemplo, a escolha de alguns medicamentos e materiais odontológicos, que devem ser cuidadosamente analisados devido ao risco de doping positivo.

O dentista do esporte deve estabelecer protocolos de atendimentos e saber exatamente a programação de jogos e treinos para adequar e planejar, ao longo da temporada, quando e quais serão os tratamentos odontológicos indicados. Toda avaliação e planejamento devem ser estabelecidos na pré-temporada com exames clínicos, exames de imagem, exames laboratoriais e análises posturais (oclusão e corporal).

Os traumas dentários e faciais estão cada vez mais presentes no esporte, principalmente no futebol, e possuem uma particularidade, os tratamentos aos traumatismos devem ser iniciados imediatamente após o acidente, por isso a necessidade do dentista do esporte acompanhar treinos e jogos para uma intervenção imediata.

O protetor bucal personalizado e individualizado, que é confeccionado pelo cirurgião-dentista, não pode ficar de fora deste contexto, já que reduz, segundo alguns estudos, em até 80% os riscos de injúrias aos elementos dentários e outras estruturas. Cabe ao dentista do esporte indicar e esclarecer quais são os benefícios e vantagens do uso do protetor bucal.

Possuímos no clube diversos casos onde a odontologia do esporte se fez fundamental no tratamento e recuperação dos atletas de alta performance. Em 2012 um atleta do Botafogo quase ficou fora da final do Campeonato Estadual. De maneira silenciosa, um foco infeccioso se instalou na região anterior da mandíbula através de um processo de necrose pulpar devido a um traumatismo dentário ocorrido há 5 anos atrás. Na realização da radiografia panorâmica de controle na pré-temporada, observamos uma reabsorção óssea extensa, ativa e sem sintomatologia.

Esse atleta era figura certa no departamento médico do clube com lesões musculares recorrentes e por fim uma ruptura do ligamento cruzado anterior. Após a eliminação do foco infeccioso através do tratamento de canal (endodontia) de três elementos dentários, o atleta se recuperou da cirurgia em um período mais curto do que o esperado e se livrou definitivamente das lesões musculares.

 

 


 

Universidade do Futebol – Conte-nos como tem sido realizado o trabalho junto ao departamento odontológico do Botafogo? Quais os resultados obtidos?

Gustavo Ferreira – O presidente do Botafogo de Futebol e Regatas, Dr. Maurício Assumpção, é cirurgião-dentista e um profissional extremamente dedicado aos benefícios da classe. De acordo com as necessidades, os benefícios e especificações da Odontologia do Esporte, decidimos oferecer aos atletas do clube um tratamento odontológico especializado em odontologia do Esporte.

Em janeiro de 2010 foi inaugurado o Departamento Odontológico do Botafogo de Futebol e Regatas situado no Estádio Olímpico João Havelange (Engenhão). A equipe é formada pelos cirurgiões-dentistas Gustavo Ferreira, Leandro Freitas, Leandro Fernandes, Luis Daniel Yavich e Roberto Prado e por uma técnica de saúde bucal, Danielle Rodrigues.

Em 2010, quando efetivamente chegamos no clube, tínhamos muito receio de como seria encarada a presença de cirurgiões-dentistas integrando o departamento médico do futebol profissional, já que não era comum esse tipo de assistência a atletas. A nossa aceitação por parte da comissão técnica, departamento médico e principalmente os atletas foi incrível, todos no clube entenderam e apoiaram a nossa presença e atuação.

Esse reconhecimento foi fundamental para que pudéssemos mostrar o nosso trabalho e comprovar o quanto que a nossa atuação contribui para uma ideal preparação do atleta de alta performance.

O Botafogo de Futebol e Regatas alcançou nos últimos anos números expressivos e importantes em todas as categorias, inclusive no futebol profissional. Além de conquistarmos alguns títulos e posições acima do alcançado em anos anteriores, tivemos marcas importantes como, o clube em que os atletas menos se lesionaram e o clube em que os atletas se recuperam mais rápido de lesões.

Logicamente que apenas o suporte odontológico não foi responsável por esses números, mas com certeza contribuímos. Esse sucesso é resultado de uma comissão técnica e um departamento médico competente, integrado e com um trabalho interdisciplinar.

Em setembro de 2013 fizemos um levantamento de todos os atendimentos realizados no Departamento Odontológico do Botafogo de Futebol e Regatas e os resultados foram:

De fevereiro de 2011 até setembro de 2013 realizamos 3.214 atendimentos odontológicos, uma média de 97,4 atendimentos por mês, 5,14 atendimentos por dia, um resultado muito acima da nossa projeção inicial.

É importante frisar que nessa estatística não incluem os nossos atendimentos e serviços fora do departamento odontológico, como por exemplo, atendimentos em dias de jogos, atendimentos em outras sedes do clube, palestras educativas, entre outros.

 

 


Universidade do Futebol – Alguns autores apontam que para tratar de uma respiração bucal é necessária uma equipe multidisciplinar que baseie o tratamento em reeducação da musculatura oral, melhorando a postura dos lábios, língua e complexo maxilo-mandibular, adequando assim a mobilidade e motricidade, o vedamento bucal e a oclusão, aumentando a capacidade pulmonar e automatizando a respiração nasal. Qual a sua visão a respeito dessa corrente?

Gustavo Ferreira – Todos nós sabemos que uma correta respiração é fundamental para que o atleta de alta performance alcance o seu máximo de rendimento desejado. O atleta respirador bucal deve ser analisado cuidadosamente e tratado de forma interdisciplinar, com a odontologia, medicina, fisioterapia e a fonoaudiologia trabalhando em conjunto para que o atleta tenha absoluto sucesso em seu tratamento.

O respirador bucal apresenta diversas alterações e características físicas que comprometem a sua saúde e, se tratando de um atleta, o seu desempenho.

As alterações podem ser vistas no sistema estomatognático: protrusão mandibular, apinhamento dentário, músculos depressores da mandíbula hipertrofiados, músculos elevadores da mandíbula hipotrofiados, aumento do terço médio da face, gengivites de repetição, mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior, palato profundo, copressão maxilar, distorrelação mandibular, mesiorrelação mandibular, cáries principalmente as de evolução rápida, ronco e sialorréia noturnos, lábio superior curto e lábio inferior evertido.

Alterações otorrinolaringológicas: amidalites de repetição, rinites, faringites, otites catarrais, audição diminuída, nariz sempre entupido, alteração do olfato e alteração do paladar.

Alterações esqueléticas: ombros propulsados e caídos, escoliose, hiperlordose, hipercifose, abdômen proeminente, pés planos, mamas caídas e escapulas salientes.

Alterações do aparelho ocular: conjuntivites de repetição, olheiras, olhar vago e visão turva.

Alterações neurológicas: distúrbios de comportamento, distúrbios de aprendizado escolar, sono inquieto (apneias noturnas de sono), falta de concentração, falta de memória, irritabilidade, percepção alterada, dificuldades no desenvolvimento da linguagem, hipersonolência diurna, depressão, choro copioso, inquietação, ansiedade, impaciência, medo de realizar tarefas, cansaço rápido, sono agitado com pesadelos frequentes e imagem corporal deturpada.

As crianças que respiram pela boca acabam respirando mais rápido que as demais, se expondo mais às impurezas do ar. O nariz aquece, umidifica, filtra e limpa o ar que respiramos o que não acontece quando o ar entra pela boca.

Em consequência, as amígdalas e adenoides e todo o trato respiratório ficam irritados, abrindo caminho para crises de asma, bronquite, rinites, otites de repetição, resfriados frequentes, sono agitado, entre outros.

Se o hábito de respirar pela boca não for identificado anos primeiros anos de vida, a criança altera e compromete o padrão do corpo como um todo, o céu da boca se estreita, os lábios ficam entreabertos de forma a deixar a musculatura da face flácida, aumentando a incidência de caries.

Também são verificados problemas de deglutição dos alimentos, sendo comum a preferência pelos líquidos e pastosos ao invés de alimentos sólidos. Numa reação em cadeia, até o posicionamento da língua se altera, prejudicando a fala e levando a uma mudança no posicionamento da mandíbula.

Essas alterações favorecem a postura da criança, com ombros caídos, retificação da coluna cervical (O pescoço fica esticado para frente) e o diafragma fica com o tônus aumentado. Isso desorganiza e desestrutura a postura, favorecendo os desequilíbrios, aumentando o risco de lesões.

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