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25/02/2019

Hierarquia

Tive um chefe que identificava na lógica salarial uma das razões de o futebol ser um ambiente profissional tão propenso a desgastes. Afinal, como aplicar qualquer métrica ou procedimento comum em empresas de outros segmentos numa seara em que um funcionário posicionado nas regiões mais inferiores do organograma ganha milhões a mais do que qualquer superior? Como estabelecer relação de hierarquia entre técnicos ou dirigentes que são sempre o elo mais fraco em discussões com um jogador, mais remunerado, mais assediado pelo mercado e mais relevante para todas as instâncias envolvidas no esporte? O time depende de seus atletas para ter desempenho, as federações e confederações dependem dos atletas para venderem campeonatos, os parceiros de mídia dependem dos atletas para vender direitos de transmissão e até os torcedores dependem de atletas para construírem relação de idolatria e se sentirem impelidos a frequentar eventos esportivos e/ou consumir produtos relacionados ao tema.

O atleta não é o ponto mais alto da hierarquia em uma equipe, mas é sempre o protagonista. Além disso, num esporte coletivo é mais fácil mudar o comando (técnicos ou dirigentes, por exemplo) do que fazer alterações realmente significativas no dia a dia da operação. Se Neymar comprar uma briga com qualquer superior no Paris Saint-Germain ou Lionel Messi se indispuser com alguém no Barcelona, apenas algo irrefutável faria esses clubes se voltarem contra eles. E se isso acontecesse, o impacto no vestiário poderia destravar outras questões – como o restante do grupo reagiria, afinal, se tivesse de dividir as responsabilidades hoje concentradas nesses jogadores?

No último domingo (24), o espanhol Kepa Arrizabalaga, 24, protagonizou um episódio propício para discutir hierarquia no futebol. Contratado pelo Chelsea em abril de 2018 por 80 milhões de euros (mais de R$ 339 milhões na cotação atual), em negociação que fez dele o goleiro mais caro de todos os tempos, o titular da equipe londrina se recusou a ser substituído nos minutos finais da prorrogação contra o Manchester City, na decisão da Copa da Liga Inglesa. Permaneceu em campo a despeito da evidente revolta do técnico, o italiano Maurizio Sarri, 60, e defendeu a meta do Chelsea na disputa de penalidades – os citizens venceram por 4 a 3.

Pense agora em outro ramo profissional: o que aconteceria com você ou com qualquer conhecido se resolvesse ignorar em público uma determinação de um superior e o fizesse assim, sem qualquer argumentação ou demonstração de respeito?

“Kepa nunca mais deveria jogar pelo Chelsea. Esse deveria ter sido seu último compromisso com a camisa do clube. É uma desgraça”, disse Chris Sutton, ex-jogador do time inglês, ao site “Goal.com”. “Por um lado, o goleiro que mostrar sua personalidade e sua confiança. Mas quando ele faz isso, deixa seu técnico e as outras pessoas em situação frágil”, complementou José Mourinho, ex-treinador da equipe, à plataforma “DAZN”.

No Brasil, o caso similar mais chamativo nos últimos anos aconteceu no Campeonato Paulista de 2010, quando o meia Paulo Henrique Ganso se recusou a sair de campo. Era o segundo duelo daquela decisão, e o técnico Dorival Júnior pretendia tirar seu camisa 10 para fechar mais a equipe. Em vez de acatar a decisão, uma vez que era o principal responsável por reter a bola e reduzir o ritmo da partida, o jogador gesticulou para anunciar que seguiria no campo.

O caso de Ganso é tratado até hoje como demonstração de personalidade forte. O próprio Dorival Júnior, anos depois, admitiu que estava errado ao pensar naquela substituição e agradeceu. No entanto, retomo o questionamento anterior: o que teria acontecido em outro ambiente profissional?

Em relação à geração dos treinadores e dos dirigentes, os jogadores que estão em atividade atualmente têm uma dinâmica absolutamente diferente com hierarquia. São pessoas formadas em ambientes mais abertos e mais esclarecidos – alguns anos antes, por exemplo, era aceitável que um pai ou uma mãe batesse em seus rebentos como forma de repreensão; hoje, felizmente, essa solução física deu lugar a uma necessidade cada vez maior de diálogo.

Reside nessa diferença entre gerações uma das principais explicações para alguns treinadores simplesmente não funcionarem durante muito tempo. Alguns nomes tinham mais êxito na relação com atletas mais preparados para uma relação hierárquica e militarizada. Falar com quem tem autonomia e segurança para responder é sempre um processo mais complicado.

É por isso que tem tanta relevância a criação de processos internos de comunicação no esporte. Um dos motivos para Sarri ter ficado tão exposto no Chelsea é que o clube não tem um protocolo para lidar com esse tipo de insubordinação – e claramente não está disposto a comprar briga com um jogador que custou tanto e tem tanta importância esportiva.

Para qualquer instituição esportiva, é premente definir linhas de comunicação interna – por que os jogadores precisam respeitar publicamente as decisões de superiores, por exemplo – e estabelecer canais para contestações. A atitude de Kepa não estava necessariamente errada. O errado, no caso, foi a manifestação pública e desrespeitosa.

Enquanto preferirem tratar seus jogadores como estrelas que podem tudo e não se preocuparem com a disseminação interna de mensagens específicas, porém, os clubes seguirão sujeitos a esse tipo de debate.

O que aconteceria com Kepa se tivesse tomado essa atitude em outro contexto profissional? Numa organização eficiente, a resposta é “nada”. A atitude do goleiro simplesmente não teria acontecido.

 

 

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