Ícone, Democracia Corintiana não foi exceção a seu momento

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Até hoje, nenhum movimento de atletas brasileiros teve tanta representatividade histórica quanto a Democracia Corintiana. Esse foi o nome dado pelo publicitário Washington Olivetto ao período em que os jogadores do time paulista participavam de todas as decisões relacionadas ao futebol, que se estendeu de 1981 a 1984. No entanto, apesar de ser o grande ícone da libertação política dos esportistas, a Democracia não foi um evento isolado. Em vez disso, refletiu o cenário que existia em todo o Brasil.

“A Democracia aconteceu devido à reunião de muitas cabeças brilhantes naquele Corinthians. O elenco tinha jogadores diferenciados, como o Sócrates, o Casagrande e o Wladimir. Além disso, eles encontraram respaldo no diretor de futebol Adílson Monteiro Alves, que propiciou a liberdade para o florescimento do movimento”, lembrou o professor José Paulo Florenzano, doutor em ciências sociais e diretor do Museu da Cultura da PUC-SP, durante o curso Movimentos Culturais no Esporte, que ele ministra no Sesc Vila Mariana.

Florenzano contou que a Democracia surgiu em um momento de abertura política no Brasil, que vivia os últimos anos da ditadura militar. O ponto de partida foi uma greve de trabalhadores no ABC paulista, em 1978. Esse movimento fomentou a revolta com a situação política do país e muitas categorias profissionais se mobilizaram em prol da campanha “Diretas Já!”, que pedia a realização de eleições.

“Todo regime precisa de hegemonia na sociedade para sobreviver. Nessa época, o povo rompeu com o poder e começou a procurar um novo caminho. Isso causou transformações em toda a sociedade e o maior ícone no futebol foi a Democracia Corintiana”, ressaltou Florenzano.

Contudo, a Democracia Corintiana não foi um movimento isolado no futebol brasileiro. Na década de 60, os jogadores do Santos tomaram a iniciativa de estabelecer treinos às segundas-feiras (sem a presença do técnico Lula). Segundo Florenzano, essa foi a primeira manifestação de força dos atletas: “Eles resolveram que esse era o melhor caminho para a equipe e se aglutinaram para que as coisas funcionassem”.

Ainda na década de 60, o Palmeiras viveu um período de democracia. Em 1964, a diretoria do Palmeiras promoveu o treinador Mário Travaglini (o mesmo que comandou a Democracia Corintiana) das categorias de base para o time profissional. Quando ele chegou, resolveu se cercar dos jogadores mais experientes para ter base de comando.

“O Palmeiras tinha como grandes líderes o Valdemar Carabina, o Júlio Botelho e principalmente o Djalma Santos. Os três trabalhavam junto com o Mário Travaglini e compunham a comissão técnica da época. Isso já era um esboço do que aconteceu no Corinthians depois de alguns anos. Mas o modelo só durou dois meses e caiu quando o Palmeiras não conquistou o Campeonato Paulista”, disse Florenzano.

As manifestações de atletas para a democratização do futebol perseguiram na década de 70. Foi assim na seleção brasileira que conquistou a Copa do Mundo do México, em 1970. Aquele time, de acordo com Florenzano, mudou o trabalho do treinador para o futebol.

“O Zagallo deixou de ser treinador para trabalhar como um coordenador naquele time. Isso é reflexo das características do elenco, que tinha muitos líderes. Foi por isso, por exemplo, que o Pelé e o Tostão jogaram juntos. O Zagallo achava que isso não podia acontecer, mas foi convencido em uma reunião com os atletas”, explicou o professor.

A situação foi ainda mais contundente no Tupã Futebol Clube de 1977. Em crise, diretores e o treinador se demitiram. Com isso, 17 jogadores e o massagista assumiram o comando da equipe na terceira divisão do Campeonato Paulista.

“Eles mostraram que a auto-gestão funcionava, mas em uma equipe que tinha jogadores com capacidade para isso. Foi o que aconteceu também na Democracia Corintiana. Que sobreviveu até à saída do treinador Mário Travaglini. Quando isso aconteceu, o Zé Maria, que era lateral-direito, foi eleito pelos jogadores para assumir a função de treinador”, disse Florenzano.

O sistema democrático de gestão só deixou de ser o modelo mais utilizado pelos clubes quando o futebol assumiu uma postura mais profissional. Florenzano lembrou que isso inviabilizaria o retorno desse modelo no atual cenário: “É difícil juntar democracia e a visão empresarial. Além disso, a evolução científica tirou muito do conhecimento das mãos dos atletas. Isso mudou a característica do futebol e fez aquela idéia, que era um reflexo social, ficar só no passado”.

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