Universidade do Futebol

Nupescec

11/09/2013

Identidades fluídas em tempos líquidos: onde se apoiar?

É possível dizer que o futebol expõe vários traços das sociedades e culturas nas quais é praticado. No Brasil, podemos ver demonstrações de religiosidade e fé, manifestações culturais como danças e músicas e até aspectos econômicos como as marcas, slogans e altas cifras que envolvem este esporte.

Vale destacar que não são somente essas amostras presentes neste jogo, mas nos ateremos aos pontos destacados. O futebol mostra aos olhares mais atentos, outras coisas que não estão na superfície social. Ficam camufladas pela aura do esporte, as disputas por poder e riqueza, se é que da para separar, o jogo político, a fragilidade e os limites do homem que tanto as pessoas teimam em não admitir, entre outras sublimes e infinitas nuances do comportamento humano, e que talvez digam muito mais do que é perceptível dentro das quatro linhas.

O conceito de modernidade líquida apresentada por Bauman (2003) cabe bem neste contexto, no qual a sociedade torna-se cada vez mais descentralizada e a identidade individual mais fluída e volátil, o que é reforçado por Hall (2006). Isto é atribuído em parte ao fenômeno do cosmopolitismo que é simbiótico à globalização e estes se derivam de tempos antigos .

O que há de novo é a velocidade em que isso ocorre hoje. Atualmente, praticamente tudo é feito para expandir-se para além do local, inclusive o ser humano. No ocidente existe implicitamente, um senso de que tudo que é bom pertence ao todo, tem de estar em toda parte, tem de ser conhecido e reconhecido, visto e na lógica do mercado, adorado e consumido.

Como Canclini (2006) menciona, o consumo passa a balizar as relações sociais e a nortear as identidades, o sujeito deixa de ser cidadão para ser tornar consumidor.

A adaptação do ser humano a essas novas demandas parece não ser tão rápida como é a informação como seus códigos binários, seus bytes e processadores. O homem talvez tenha tecido uma teia tão entrelaçada que ele próprio se prendeu.

Essa rapidez alcança direta ou indiretamente, todas as áreas nas quais o ser humano está envolvido, seja a econômica, a social, o trabalho, o lazer e até a afetiva. Uma servidão velada, na qual a mão invisível do mercado regula tudo e trata de recompensar a quem mais faz por ele, ou seja, quanto mais o sujeito produz (lucro financeiro) maiores são suas chances de projeção, o ser conhecido e reconhecido do qual falamos.

O intuito aqui não é fazer juízo se isso é bom ou mal, mais sim mostrar uma lógica a qual todos estamos expostos, incluindo os jogadores de futebol. Aliás, esses talvez sejam o retrato vivo desse sistema que suga tudo pelo ralo global.

Esse sentimento de não pertencimento é sentido de maneiras diferentes pelos atores sociais. Alguns sucumbem à pressão exercida sobre eles, mergulham na lógica proposta buscando um sentido no consumir e deixar-se consumir. Outros a ignoram totalmente, seriam como hippies, mas sem a ideologia e sem o glamour, seres errantes.

Por outro lado, existem aqueles que tentam contrabalancear o aqui dentro como o lá fora. O local mesmo em tempos de liquidez resiste e talvez desempenhe uma função ainda mais importante do que quando prevalecia. A cultura, a religião, a família, a comunidade e etc., passam a ser mais do que realmente são, tornam-se um canalículo que guia as identidades líquidas por entre o universal, o homogêneo, o igual.

Voltando ao futebol, podemos ver neste, as características da contemporaneidade que não percebemos no dia a dia. O espetáculo futebolístico, muito além do jogo, nos propicia um olhar distanciado. Lá, não somos nós, são eles os jogadores, os técnicos, os torcedores, que comandam um mundo à parte, que na verdade é uma fração reduzida do real, uma espécie de amostragem.

Ao comemorar um gol o jogador expressa muito mais que uma simples felicidade, ele coloca para fora o que faz parte de sua identidade, e ali o local se manifesta em meio às transmissões de TV, a especulação do mercado e aos patrocinadores. A música cantada, a coreografia, o molejo, a sambadinha, representam a cultura, as raízes do esportista. Da mesma forma o beijo para a câmera, a frase escrita na camisa que "manda um salve" para a comunidade, a oração.

A religiosidade merece um destaque, não é somente uma demarcação de origem, na verdade está mais ligada ao mercado lato sensu. Esse conceito não quer dizer estritamente ao lucro, mais sim a vida, um mercado que cobra e recompensa os esforços, e é nessa lógica que as religiões se edificaram.

Sendo assim, como se destacar e ter visibilidade dentro das quatro linhas com tantos jogadores bons e também havidos para serem conhecidos e reconhecidos? É através da proteção divina que se busca a ajuda para conseguir os objetivos.

Para o atacante o gol, para o goleiro a defesa de um pênalti, para desempregado um emprego, para o apostador o prêmio. O agradecimento pela graça alcança talvez venha do reconhecimento que a probabilidade aponta para múltiplos atores, mas, que a interseção divina faz a sorte escolher um lado, um currículo ou um bilhete.

Mas, surge ai outro problema, se Deus é por todos, como ele escolherá a quem ajudar? A interconexão passa então a ter um papel fundamental, a relação como os níveis superiores transforma-se também em um mercado.

A religião que melhor providencia um contato imediato passa a ser mais seguida, pois oferece melhores condições para se alcançar o sucesso, o velho ser conhecido e reconhecido. Em tempos de esporte globalizado, a fé além de representar as raízes é também uma espécie de esteróide para a alma, não que isso seja ruim, muito pelo contrário.

O ponto negativo é quando a religião encontra no esporte um meio para se promover, deturpando o real valor deste. A prática esportiva vira uma vitrine onde são expostos os vitoriosos, aquele jogador que ganha altas quantias em dinheiro, ganha campeonatos e joga nos melhores times é exposto como um troféu. E em um país majoritariamente cristão, o atleta de Cristo é o sinônimo de sucesso.

Outras religiões, cultos ou doutrinas são menosprezadas e atuam "nas sombras" devido à intolerância. Se o esportista fracassa ou sofre alguma intempérie, isso é atribuído à sua religião. Se o mesmo acontece a um "atleta abençoado" isto é creditado à provação divina, um teste de fé.

Novamente, não que isso não seja legítimo, a questão é quando isso serve a interesses outros do que apoiar emocionalmente o jogador. Isto realmente sugere reflexões em um Estado que se diz laico mais não é laicista.

O futebol pode nos mostrar as questões que também fazem parte "da vida real" e que com a velocidade que nos cega, não conseguimos ver. Todo espetáculo tem em sua concepção o entreter, mas outra função é nos fazer refletir, portanto pensar o futebol como ópio do povo é algo ultrapassado.

Na verdade, este seria para a sociedade brasileira um palco de teatro no qual a vida é representada, criticada e justificada, cabendo a cada um tirar suas próprias conclusões.

Portanto, a religião, como as outras matrizes culturais, são desejáveis e bem-vindas desde que não limitem a explicação do mundo nem legitimem preconceitos, posições que segregação e que deturpam outros campos como o esporte.

Em tempos de não lugar, essas matrizes podem ser a salvação como também a alienação final do homem.

Bibliografia

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. 258p.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro; DP&A Editora, 2006.

CANCLINI, Néstor Garcia. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Traduzido por: Maurício Santana Dias. 6. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ,2006.

 

* Mestrando em Comunicação e Identidades pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), graduado em Publicidade e Propaganda

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