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23/09/2013

Impopularidade, virtude, excentricidade… e um breve (re)pensar futebolístico!

Sócrates, o filósofo, era um homem incontestavelmente original. Assim como retratado por Alain de Botton (2012), em sua existência septuagenária não se apegou a bens materiais (vivia descalço, usava a mesma túnica durante todo o ano…), nutria pouco interesse por status social e demonstrava relevante preocupação com o outro, mais especificamente com os motivos que levavam os homens a aceitarem crenças populares e o status quo sem quaisquer indagações racionais.

Sua atividade filosófica se dava nas ruas atenienses, sem formalidades nem distinções sociais: interpelava os cidadãos em busca de respostas sobre seu estilo de vida e convicções subjetivas, mesmo sendo recorrente uma boa dose de ignorância dos interlocutores nestes colóquios. Embora fosse um homem virtuoso (seu carcereiro lhe definiria como "superior", "generoso" e "gentil"), sua excentricidade lhe custaria a vida.

"Três atenienses – o poeta Melito, o político Ânito e o orador Licon – chegaram à conclusão de que ele era um homem estranho e pernicioso. Afirmaram que não adorava os deuses, havia corrompido a estrutura social de Atenas e instigado a juventude a se rebelar contra seus pais. Na opinião dos acusadores, a atitude correta seria silenciá-lo e até mesmo matá-lo". (DE BOTTON, 2012, p.36)

Foi o que, de fato, ocorreu. Levado ao Júri dos Quinhentos (de nome relativo à quantidade de votantes), Sócrates foi condenado, vitimado pela impopularidade. Ainda lhe foi dada a chance de viver, desde que abandonasse suas convicções filosóficas e se adequasse aos padrões sociais impostos pelo senso comum. Mas, sem titubear, preferiu a morte.

A mesma impopularidade que delineou o destino do filósofo se retirou discretamente das pautas futebolísticas nacionais. Vinhetas remasterizadas e flashes do Olodum, aliados ao advento de hashtags infanto-juvenis, marcam o reencontro triunfal entre a seleção brasileira e o povo.

Se, ao início da Copa das Confederações, o distanciamento entre torcedores e selecionados era preocupante, a aproximação pós-título se torna igualmente amedrontadora, a despeito da (aparente) incoerência aqui explícita. O triunfo se tornou sinônimo de virtude (Sócrates fatalmente questionaria esta afirmação), sendo convertido em chamariz para a aceitação da massa. Mas a essência líquida das sociedades modernas (como nos dirá Zygmunt Bauman), faz com que a vitória de ontem seja facilmente refutada pela derrota de hoje. Talvez aí, resida o perigo de ligações tão próximas com os resultados, apenas.

Ainda na perspectiva supracitada, De Botton oferece um novo caminho:

"A verdadeira respeitabilidade não se origina da vontade da maioria e sim de uma argumentação adequada. Quando estamos fazendo vasos, devemos ouvir os conselhos daqueles que sabem transformar o verniz em Fe3O4, a uma temperatura de oitocentos graus; quando estamos construindo um navio, é o veredicto dos que constroem trirremes que deve nos preocupar; e quando estamos considerando temas éticos – como ser feliz e corajoso, justo e bom – não devemos nos intimidar por julgamentos inapropriados, mesmo que provenham dos lábios de professores de retórica, generais poderosos e aristocratas bem-vestidos da Tessália." (DE BOTTON, 2012, p.43)

Se os resultados são mensuráveis apenas efêmeras e que quantificam (não necessariamente qualificam) a performance, cabe ao profissional do futebol refletir repetidamente em busca de argumentos adequados ao contexto social moderno. No caso da seleção brasileira, talvez um debate sólido se dê na organização de seu modelo de jogo, que, independentemente de vitórias ou derrotas, possa conferir direção e sentido ao jogo que se quer jogar.

Assim sendo, é perfeitamente válido questionar se o otimismo pós-título se justifica plenamente ou não. Se a organização ofensiva iniciada por Thiago Silva, David Luiz e Luiz Gustavo pode ser mais objetiva, dando fluidez ao jogo; se a mobilidade ofensiva é a ideal ou ainda carece de muito trabalho coletivo para desorganização defensiva adversária; se o Brasil saberia se desvencilhar organizadamente da mesma marcação pressionante que impusera à Espanha; se a repetição massiva de crenças populares (tais como às relativas ao "peso da camisa" e adjacentes) é benéfica ou não à cosmovisão de atletas e comissão técnica; se a vitória, em dados momentos históricos, representa virtude ou é apenas uma armadilha… Enfim, talvez aqui ficasse evidente que o futebol do devir é permeado pelas dúvidas, não pelas certezas.

Da mesma forma, argumentos adequados não devem caminhar de mãos dadas à arrogância e autossuficiência que tanto maculam o futebol brasileiro (daqui surgiram várias das crenças hoje questionadas pela excentricidade dos que organizam a quebra de paradigma).

Uma reflexão sobre o pensamento socrático levaria, sim, à necessidade de convicção posterior à construção argumentativa, mas pediria, antes disso, que fossem ouvidos do cientista ao torcedor, do teórico ao prático, do (pretenso) sábio ao (dito) ignorante, como estratégia coerente para entendimento do jogo através da complexidade entranhada nas relações dos fenômenos técnicos, táticos, físicos, psicológicos, sociais, lúdicos, espirituais, enfim… fenômenos humanos impossíveis de serem ignorados! Ainda há considerável margem de crescimento, o que denota que deitar eternamente em berço esplêndido seria, novamente, um erro grotesco.

O resultado, por si só, faz com que alguns milhões de técnicos (outra crença?) caminhem rumo ao paraíso que, reza a lenda global, estaria eternamente reservado ao futebol brasileiro. A busca pela virtude futebolística move outros milhares (já somos tantos?), que questionam as fábulas literárias da bola, ainda que sejam vitimados pela impopularidade, sobretudo neste meio tão hermético.

Talvez, em algum lugar deste interlúdio, esteja o caminho para a descoberta de verdades ainda ocultas, que clamam pelas luzes que as colocarão em pauta. Assim, debates sobre modelos de jogo, metodologias de treinamento, formação de cidadãos (que precede a de atletas), gestão esportiva, (im)popularidade e outros temas mil, ganharão conteúdo e trarão palavras que não mais reproduzam o senso comum, mas sucedam um processo de (re)pensar cujas ressonâncias serão, certamente, tão assustadoras quanto prazerosas.

Bibliografia

DE BOTTON, Alain. As Consolações da filosofia. Tradução de Eneida Santos. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2012.

*Bacharel em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Graduando em Ciências do Esporte pela Unicamp, FCA-Limeira.

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