Imprensa teve papel decisivo na profissionalização do futebol

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Logo após a Revolução Constitucionalista de 1932, o Presidente da República, Getúlio Vargas buscava a solidificação do poder que, aliás, fora obtido com um golpe de Estado que derrubou o então presidente Washington Luís, em 1930. A Rádio Record, “encampada” pelo governo ditatorial, passou a transmitir jogos de futebol nas tardes de domingo para agradar o povo e melhorar a imagem de Vargas.

Naquele período o futebol passava por um processo de transição entre o amadorismo e o profissionalismo, algo que era considerado irreversível, apesar das correntes contrárias, como a do presidente do Flamengo, Rivadávia Meyer. Somente no ano de 1931, 39 jogadores brasileiros se transferiram para o exterior, seduzidos por contratos atraentes que somente os campeonatos profissionais poderiam oferecer.

A imprensa, por sua vez, acompanhava a efervescência daqueles tempos com atenção. Alguns jornais se posicionavam a favor, ao passo que outros, mais conservadores, relutavam em aceitar que os jogadores de futebol deveriam receber dinheiro para mostrar seu talento.

O jornalista Mário Filho, então trabalhando no jornal O Globo, conhecia como ninguém tudo o que se passava nos bastidores do esporte mais popular do país e queria aproveitar a força do jornal para ser um dos porta-vozes da profissionalização.

Mário Filho empenhou-se nesta luta de forma intensa: freqüentava treinos dos times e participava de acontecimentos sociais nos clubes para mostrar sua posição a respeito do assunto. Também encontrava-se com dirigentes e jogadores em locais mais populares, principalmente próximos à sede de O Globo, no centro do Rio de Janeiro.

Segundo RIBEIRO (2007), Mário Filho não entrou à toa nessa disputa política. Sabia que a vitória do profissionalismo poderia trazer um novo futuro ao jornalismo esportivo, ainda mais quando observou que os principais jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro entraram na briga e passaram a defender pontos de vista diferentes nessa polêmica. Em 1933, jornais como O Imparcial, Rio Sportivo, Jornal dos Sports, O Dia, A Noite, Diário Popular e Diário da Noite chegaram a fazer enquetes com os jogadores para saber se eram favoráveis ou não ao profissionalismo, enquanto os cartolas travavam uma autêntica batalha jurídica pela melhor forma de administrar o futebol brasileiro.

Os dirigentes da CBD (entidade que comandava o futebol do país à época) não viam com bons olhos a profissionalização dos jogadores e devem ter ficado assustados quando os jornais O Globo e A Noite estamparam em suas respectivas capas de 21 de janeiro de 1933, o telegrama enviado por jornalistas, dirigentes e jogadores de São Paulo em que declaravam apoio ao profissionalismo.

Para mostrar que estavam falando sério, vários desses personagens viajaram ao Rio alguns dias depois para prestigiarem a criação da Liga Carioca de Futebol na sede do Fluminense e o fim do amadorismo. A imprensa foi bastante decisiva em toda a evolução desse processo, tanto é que durante a reunião nas Laranjeiras, vários jornalistas assinaram o documento como testemunhas: Mário Filho (O Globo), Teixeira de Carvalho (Jornal do Commercio), Carlos Alberto de Magalhães (Revista Olympia) e José da Silva Rocha (A Noite), entre outros.

No entanto, nem todos os clubes concordavam com a atitude dessa ala “progressista”. O Botafogo preferiu permanecer na Amea, federação a qual contava com o reconhecimento oficial da CBD.

Livro-bomba

Ainda de acordo com RIBEIRO, (…) exatamente no momento crítico da briga entre profissionais e amadores foi lançado no mercado um livro-bomba, denunciando as mazelas que corriam soltas nos bastidores do futebol brasileiro. A repercussão tornou-se ainda maior pelo fato de o livro ser o primeiro relato escrito por um jogador de futebol.

O jogador em questão é Floriano Corrêa, que lançou Grandezas e Misérias do Nosso Futebol, em que denunciava as condições precárias que viviam diversos jogadores do país, principalmente aqueles que eram oriundos de classes mais humildes.

O livro logo encontrou aliados à causa da profissionalização, como o jornalista Max Valentim, do Rio Sportivo, e seu irmão e também colega de profissão, Paulo Várzea, que trabalhava em São Paulo, no jornal O Imparcial. Ambos foram contundentes na defesa do profissionalismo, pois sabiam de muita sujeira existente no futebol, depois de conversarem com muitos jogadores que os procuravam, tanto em São Paulo, quanto no Rio de Janeiro.

Pelas atitudes desses jornalistas, é possível verificar o grau de envolvimento deles na luta pelo profissionalismo. O próprio Paulo Várzea declarou que indicou vários jogadores para equipes do Rio de Janeiro, sem intenção de obter algum rendimento com sua atitude. Várzea, inclusive, fazia questão de ressaltar sua independência como jornalista esportivo e que não bajulava jogadores ou dirigentes de clubes, apesar de haver profissionais da imprensa que gostavam de receber favores.

Esse tipo de prática condenada por Várzea revela um outro lado da imprensa esportiva, o qual esclarece RIBEIRO: se o futebol brasileiro tornava-se profissional, a imprensa esportiva precisava acompanhar seus passos. Antes de tudo, teria de acabar com a figura do repórter “amigo de clube ou jogador”. Um nova profissão estava nascendo e o jornalista esportivo passara a fazer parte do dia-a-dia das redações dos principais jornais do Brasil. Sua presença era ainda mais fundamental no momento em que a presença de jogadores famosos nas redações virava rotina.

Bibliografia

André Ribeiro. Os donos do espetáculo: histórias da imprensa esportiva do Brasil. Editora Terceiro Nome, 2007.

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