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21/07/2015

Incidência de lesões no futebol para cegos

O futebol para cegos, também conhecido como futebol de cinco ou five – a – side football, é baseado no futebol de salão, praticado por quatro atletas na linha e um no gol. Os primeiros relatos dessa modalidade são da década de 20 em pátios de instituições para cegos, sendo praticado de maneira arcaica e improvisada. O primeiro campeonato entre clubes aconteceu na Espanha em 1986 e a estreia em Paraolimpíadas se deu em Atenas, 2004, vencida na ocasião pelo Brasil.

Alguns conceitos oftalmológicos são importantes para caracterização do futebol para cegos. Cegueira é uma deficiência física que envolve perda parcial ou total da visão. Acuidade visual é o grau de aptidão do olho para distinguir forma e contorno dos objetos ( proporcionada por células fotossensíveis da retina). Os atletas praticantes dessa modalidade são divididos em três categorias de acordo com o grau de perda visual, levando – se em conta a sigla B (Blind em inglês) em :B1 – cegueira total ou quase total, não reconhece a forma de uma mão; B2 – visão parcial, reconhece a forma de uma mão, com acuidade visual de 2/ 60 ou campo visual de menos de 5 graus; B 3 – visão parcial, reconhece a forma de uma mão com acuidade visual de 2/60 a 6/ 60 ou campo visual de 5 a 20 graus. Baseado nesses dados temos a sub – divisão do futebol de cegos em duas categorias ( B1 e B2/B3).

Os atletas de linha utilizam camisetas, shorts, meias esportivas, caneleiras, tampões oftalmológicos e vendas feitas de material com superfície interna absorvente devido ao suor. O calçado esportivo (com ou sem cravas no solado, dependendo do piso da quadra) deve ser sempre na cor branca e o goleiro é o único atleta que pode fazer uso opcional de calças se assim o desejar.

A quadra pode ser de cimento, grama natural ou sintética tem 18 a 22 metros de largura e 38 a 42 metros de comprimento e apresenta uma banda lateral (conjunto de compensados de madeira de 1,5 metros de altura que margeiam a quadra no seu comprimento). A bola tem 60 a 62 cm de diâmetro, apresenta gomos na superfície externa e guizos costurados no sua face interna. Os quatro atletas de linha são deficiente visuais ( B1 ou B2/B3) e os goleiros são videntes (enxergam normalmente) porém têm área de atuação restrita a uma área triangular de 2x 5 metros próxima as metas para não influírem tanto na partida. Além disso, temos as figuras dos guias (chamadores) que ficam atrás da meta da equipe adversária orientando os atletas de linha da sua equipe e do locutor (profissional que fica ao lado do mesário), e avisa sobre as várias situações correntes durante a partida (faltas, substituições,gols, tempos técnicos e cartões). As partidas são disputadas em dois tempos de 25 minutos com intervalo de 10 minutos e a bola só sai de jogo nas linhas de fundo e não nas laterais com forma de conferir mais dinamismo ao jogo.

Quanto às lesões decorrentes da prática de futebol para cegos devemos separar as mesmas em dois grupos principais: lesões por sobrecarga (microtraumatismos repetitivos decorrentes da sequência de treinos e jogos) e lesões por acidente esportivo (agudas e resultantes de traumatismos maiores em jogos ou treinos). Assim temos maior incidência estatística de lesões no sexo feminino se comparadas ao sexo masculino, principalmente para lesões de sobrecarga, sendo que para os homens há maior ocorrência de lesões por acidentes esportivos . Quanto à topografia temos lesões em ordem decrescente de incidência nos membros inferiores (coxas e joelhos), membros superiores (ombros , punhos e mãos), tronco (colunas cervical, torácica, lombar e tórax) e cabeça (face e couro cabeludo).Quanto à natureza das lesões temos predomínio das lesões por sobrecarga (tendinites, contraturas e estiramentos musculares) em relação às lesões por acidentes esportivos (contusões). Quanto à gravidade das lesões, a maioria absoluta são leves (implicam afastamento do atleta por 0 a 7 dias da prática esportiva).

Em suma, estudos sobre incidência de lesões em atletas portadores de deficiência visual são importantes para informar atletas e treinadores sobre potenciais riscos, prover informações para equipes de saúde, assegurar atendimento correto das lesões e instituir medidas preventivas para diminuir incidência de lesões no futebol para cegos.

 

*Fernando Peres Amorim Gonçalves é ortopedista e traumatologista, Médico especialista em Medicina do Exercício e do Esporte, CRM – SP 101446 TEOT 9195 TEME 103473 

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