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19/11/2014

Iniciação ao futebol: diversidade esportiva ou especificidade?

O primeiro contato de uma criança com uma bola quase sempre se estabelece nos primeiros anos de vida. Essa relação muitas vezes incentivada pela família aproxima e induz a criança a inserir-se na prática de algum esporte. No caso do futebol, muitos pais colocam seus filhos em escolinhas idealizando a sua formação para futuramente tornarem-se jogadores profissionais. Esse sonho que muitos pais visualizam na figura de seus filhos, em muitas situações acaba virando uma obsessão, sendo que a pressão e cobrança recaem sobre as crianças que prematuramente iniciam na prática esportiva.

O direcionamento para a participação de sessões de treinamento sistematizadas e limitadas ao contexto específico da modalidade acaba por muitas vezes desmotivando e fazendo as crianças desistirem do esporte. Dentre esse contexto, a fase de iniciação esportiva deve propiciar a experimentação de diferentes movimentos em interação com diversos ambientes. A prática de variados esportes na iniciação servirá como eixo de sustentação para a atuação esportiva profissional de alto rendimento, sendo que alguns estudos apontam para essa perspectiva (CÔTÉ, 1999; 2013 IBAÑES, 2010; 2013). 

Disponível em: http://blog.paulomurilo.com/2012/08/10/a-equacao-de-primeirissimo-grau/

O futebol caracterizando-se como um dos esportes mais praticados na esfera mundial ainda apresenta lacunas quando visualizado a partir de seu trato pedagógico de ensino. As propostas em elevada proporção ainda sustentam-se somente pelo conhecimento empírico, sendo que em muitas situações a compreensão do jogo é reduzida as partes e ou ao todo de forma descontextualizada. Nesse propósito, o ensino deve abordar o jogo como um sistema dinâmico, em que seus elementos interagem constantemente na busca de se equilibrar e ao mesmo tempo desequilibrar a estrutura adversária. A compreensão do jogo vai além das peculiaridades de cada esporte, passando pelo reconhecimento da estrutura, das normas e da funcionalidade, que corresponde aos aspectos tático-técnicos do jogo.

Nas figuras apresentadas, nota-se que as situações visualizadas no jogo de basquetebol, futsal e futebol expõem características semelhantes na sua composição estrutural, como ratifica o estudo de Bayer (1994). Essa semelhança não se restringe somente a estrutura situacional (5×5) mostrada nas imagens, mas também aos aspectos funcionais do jogo, ligados aos componentes estratégicos, táticos e técnicos. Essa transferência de experiências de um esporte para outro, amplia o repertório de aprendizagens, sendo que cada esporte apresenta características vinculadas às dimensões sociais, políticas, econômicas e culturais. Nesse propósito, podemos apontar algumas características ligadas aos aspectos técnico-táticos do jogo que podem ser transferíveis de um ambiente para outro.


Disponível em: http://www.boleirosdaarquibancada.com/2012/06/liga-futsal-mesmo-fora-de-casa-e.html

A estrutura similar (5X5) possibilita a tomada de diferentes ações no campo de jogo, no qual essas ações visam fundamentalmente contrapor a ação do adversário. No jogo de basquetebol, o alvo diferencia-se do futsal e do futebol no seu formato, direcionando a proteção do alvo restrita aos atletas de linha, diferente do futsal e futebol que apresentam um jogador mais específico para defender o alvo. A diferença dos jogos no aspecto de manipulação da bola, sendo o basquetebol com as mãos e o futsal e futebol com os pés, induz a diferentes posturas de marcação (1×1), mas que podem se assemelhar no propósito coletivo da defesa, organizando-se com características mais individuais ou zonais. As movimentações na busca por criação de linhas de passe, propiciando situações de superioridade numérica e consequentemente facilitando a finalização apresentam similaridades no aspecto estratégico-tático em ambos esportes coletivos, pois geralmente se utilizam do drible, do passe e da finta como meios técnicos para realização das ações.


Disponível em: http://blogdojuliogomes.blogosfera.uol.com.br/2013/06/17/126/

No caso do futsal e do futebol, a essência de jogo é um eixo preponderante desta relação. No livro de Daniel Coyle “O Código do Talento”, a pesquisa estabelecida em território brasileiro aponta que o Futsal caracteriza-se como a incubadora do Futebol, fomentando a formação de jogadores mais talentosos. Esse suporte que o futsal constitui para consequente atuação no futebol, vincula-se a tomada de decisão em espaços e tempos reduzidos, bem como propiciando que o atleta tenha um maior contato com a bola e interação direta com companheiros e adversários. Nessa perspectiva, destaca-se alguns pontos do jogo que são de suma importância nessa transferência, como, a percepção e comprometimento nos confrontos de “1×1” e a leitura antecipada das ações em nuances de igualdade e inferioridade numérica a partir de desarmes e interceptações de linhas de passe. Portanto, salienta-se que o transfer ou transferência institui-se nos primeiros anos de prática esportiva, no qual a diversidade deve permear com base no cerne ontológico do jogo, reportando-se as diferentes possibilidades no que tange os jogos esportivos coletivos. Dentre esses fatores apresentados e compreendendo a iniciação esportiva como uma fase de diversificação, a limitação do processo formativo a ambientes específicos dificilmente sustentará a atuação em um contexto complexo e dinâmico. Remetendo-se ao futebol, optar por uma proposta de treinamento específico, sem a devida variabilidade no propósito da aprendizagem, possivelmente conduzirá à formação de um jogador esgotado da rotina de treinamento e limitado a atuação em um contexto específico. Para tanto, sinaliza-se que as prioridades se alternam na transição da infância para a adolescência e o futebol pode não ser mais o grande sonho para o futuro.

*Mestrando no Programa de Pós Graduação em Educação Física, Membro do Laboratório de Pedagogia do Esporte – Universidade Federal de Santa Catarina

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