Universidade do Futebol

Rodrigo Azevedo Leitão

12/08/2012

Inteligência de jogo e Cristiano Ronaldo: o desempenho complexo no futebol

No blog “Falemos de Futebol” há uma entrevista, datada de 2009, feita por Nuno Amieiro (um dos autores do livro “Por que tantas vitórias?”) com o professor Vitor Frade, idealizador da “Periodização Tática”. É uma entrevista com pontos bem interessantes para debate.

Separei um trecho dela (abaixo) para que possamos fazer algumas reflexões. Está como aparece no blog, com o “português de Portugal”.

Antes, contudo, vou deixar solta no texto uma pergunta (que retomarei adiante). Vejamos: o que precisa ter um jogador para jogar bem futebol em alto nível?

Agora, ao trecho:

“Nuno Amieiro: Deixe-me pegar agora no exemplo do Cristiano Ronaldo… A generalidade das pessoas está claramente convencida de que o que ele é hoje enquanto jogador se deve em grande parte ao trabalho de ginásio (eu: academia, trabalho com pesos, etc.) que desenvolveu e provavelmente continua a desenvolver…

Vitor Frade: Isso rebate-se com facilidade. O Cristiano tem um morfotipo e joga numa posição que pode permitir que o lado atlético seja um acrescento. Mas eu penso que a juventude dele e o facto de estar a jogar em Inglaterra (eu: na época da entrevista o Cristiano Ronaldo jogava no Manchester United) ainda não o fez dar-se conta do desperdício que é o não uso tão regular da capacidade de drible, de simulação e de engano que ele tinha. E o jogo assente neste padrão atlético em que ele se está a viciar e do qual beneficiam os abdominais e o porte que ele tem, tirou-lhe algo que ele também tinha potencialmente, que era aquele poder de «ginga», que é mais o registo (eu: registro), por exemplo, do Messi.

E eu pergunto, alguém no seu perfeito juízo é capaz de dizer que o Cristiano Ronaldo é melhor do que o Messi? Na melhor das hipóteses dirão que um é tão bom quanto o outro. E o Messi é exactamente o oposto em termos de morfotipo: é pequeno, enfezado,… E é doente, pois tem problemas metabólicos.

Acho que o que é fundamental é que o jogador tenha a capacidade de resistir e de ter força… Mas é importante que se perceba o que eu quero dizer com isto, pois não tem nada a ver com o entendimento comum… Repare na conversa que há pouco estávamos a ter sobre o Fábio Coentrão. O Coentrão, sendo um indivíduo débil, frágil, numa disputa de bola contra dois jogadores matulões do FC Porto, o Cissokho e o Rolando, conseguiu, com uma «ginga», sentar os dois e ir embora com a bola… Isto, para mim, é que é ter força. Ter capacidade de arrancar, travar, voltar a arrancar mas pelo lado contrário…”

Pois bem. Independente do debate que vou propor a partir deste trecho, sugiro a leitura da entrevista na íntegra no blog (que parou de ser atualizado em 2009).

Então, vejamos.

O que você acha do apontamento feito por Vitor Frade, a respeito do desenvolvimento atlético do jogador Cristiano Ronaldo, quando argumentou em sua resposta, que a “aposta” em tal desenvolvimento deprimiu-lhe (tirou-lhe) a “ginga”?

O que você acha da associação feita por ele sobre o fato de Messi ser um jogador muito bom (melhor que Cristiano, ou na melhor hipótese – para o jogador português – “tão bom quanto”) e ter a “ginga” como marca registrada (além de pequeno, fisicamente falando)?

Jogadores de futebol podem alcançar o sucesso no alto nível competitivo, adotando caminhos diferentes, sendo oriundos de culturas diferentes, apresentando características morfológicas diferentes, com distintos comportamentos e distintas formas de jogar.

Seria justo com a Complexidade atribuir, por exemplo, à capacidade de driblar de um jogador, ou à sua potência muscular de membros inferiores, o sucesso do seu jogar (ou usar tais critérios para dizer que o jogador “A” é melhor ou pior que o jogador “B”)?

Não seria o Cristiano Ronaldo da época de Manchester United mais eficiente, perigoso e importante para a equipe, do que em sua época em Portugal? Não seria esse Cristiano Ronaldo, da Inglaterra, o que despertou o interesse do espanhol Real Madrid, e o alçou de vez como um dos melhores do mundo?

Reparem que não estou eu aqui dizendo (ou escrevendo) que o português, é melhor jogador depois que partiu de sua terra natal, em função de um motivo “X” ou “Y”. Estou insinuando apenas que ele melhorou, sem fazer atribuições a motivos específicos.

Isso quer dizer, que não seria simplesmente por “gingar” mais, ou menos, ou estar menos ou mais forte que Cristiano Ronaldo tornou-se um jogador melhor! Isso quer dizer, também, que não podemos julgar, baseado em nossas preferências particulares o desempenho de um futebolista.

O jogador torna-se melhor, mais eficaz, decisivo e determinante conforme aprimora sua capacidade de perceber?interpretar?avaliar?decidir?agir (percebendo aquilo que é importante, interpretando e avaliando corretamente, decidindo melhor e tendo capacidade de agir de maneira condizente com suas decisões), o mais rápido possível e de maneira mais econômica possível (economia complexa).

E, isso tudo, respeitando sua individualidade.

O jogador torna-se melhor, conforme fica mais inteligente para jogar. E então, o que precisa ter um jogador para jogar bem futebol em alto nível?

De certo não é driblar mais, ou correr mais. O que ele precisa, na essência, é expressar em ato, respostas excelentes aos problemas circunstanciais e imprevisíveis, emergentes durante uma partida. Cada jogador a sua maneira econômica, sem estereótipos, sem cartesianismos…

Se o desenvolvimento atlético de Cristiano Ronaldo atrapalhou sua “ginga” eu não sei. Mas que ele é melhor jogador hoje e que faz mais gols do que antes em Portugal, não há dúvidas – os “scouts” estão aí para mostrar.

Viva a Complexidade!

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br
 

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