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Historicamente, a expressão “invasões bárbaras” refere-se aos ataques sofridos por territórios dominados pelo Império Romano no século IV. O termo “bárbaro” era usado de forma genérica para todos os que não tinham capacidade de assimilar a língua e os costumes dos romanos, e vários povos foram atraídos por uma combinação entre terras férteis e defesas insuficientes – o sucesso das incursões dos romanos criou um império vasto, mas dificultou sobremaneira o controle das fronteiras.
O cineasta Denys Arcand tomou a expressão emprestada em 2003, quando lançou o filme “As invasões bárbaras”. A obra acompanha os mesmos personagens de “O declínio do império americano”, até então o longa mais famoso do diretor. Após um hiato de 15 anos, o professor de história Rémy está hospitalizado em Quebec (Canadá). O tratamento de um câncer o reaproxima do filho, Sébastien, e essa retomada de contato serve como estopim para discussões que são cotidianas apenas na primeira camada. Mais do que o estranhamento de parentes distantes, a história reflete um choque de gerações e de culturas.
O futebol brasileiro tem vivido um período de invasões bárbaras. Na última semana, torcedores de Flamengo, Palmeiras, Ponte Preta e Portuguesa entraram nos treinos de seus times e cobraram jogadores. Em alguns casos, a cobrança evoluiu – ou regrediu? – para agressões. O ônibus que levava o elenco alviverde foi apedrejado, e o elenco da equipe de Campinas foi ameaçado.
Em primeiro lugar o absurdo: qualquer profissional, independentemente da categoria, tem direito a um ambiente seguro para trabalhar. Isso influencia na tomada de decisão e no rendimento, e o que os torcedores fizeram em todos os clubes listados só pode jogar contra o desempenho das próprias equipes. A tática do “joga no amor ou joga no terror” não é apenas ultrapassada, mas ineficaz – e que bom que seja, aliás.
Invasões de torcedores em treinamentos não são novidade no futebol brasileiro, infelizmente. São fatos recorrentes, que muitas vezes contam com a conivência da diretoria, da comissão técnica ou de funcionários das equipes. São táticas que muitas vezes refletem acordos espúrios ou que simplesmente servem para eximir algumas pessoas de responsabilidade. Ao abrir o clube e criar um canal direto entre torcedores e atletas, a cobrança passa a ser direcionada.
A invasão bárbara que está em jogo no Brasil atual, contudo, se assemelha mais à guerra tácita do filme de Arcand. Ainda que os torcedores, quase sempre oriundos de organizadas, tenham táticas de terror psicológico e cobrem apenas como ameaça, esses episódios lamentáveis mostram diferenças de perspectivas e a dificuldade que temos para lidar com isso.
Vivemos um momento de polarização atualmente. Uma polarização que é mais bem retratada no contexto político, mas que permeia quase toda a formação de senso crítico. Desde a década de 1990, quando o Google popularizou o uso de algoritmos para identificar o comportamento do usuário e personalizar a experiência web, cresceu constantemente a sensação de que as pessoas vivem em bolhas de ressonância. Diversas pesquisas comportamentais mostram que esse contato limitado a pessoas que concordam com você contribui para aumentar o extremismo. O incremento do extremismo, por sua vez, amplia a busca por opiniões que sejam condizentes com isso. É um ciclo, portanto.
Em sociedades maduras, com grau suficiente para discutir, esse ciclo cria apenas polarização ideológica. No Brasil atual, esse é o cerne do “se não for como eu quero, não pode ser”. Não há ideias ou defesa de posição; há apenas um combate ao que não faz parte da bolha.
Sem querer fazer nenhuma análise sociológica ou extrair da equação os reflexos de anos de desigualdade em diferentes âmbitos, mas o surto de torcedores tem tudo a ver com falta de capacidade de diálogo. Se for analisada apenas como uma ação passional, a invasão é apenas um grito de discordância em relação ao que é apresentado pelos atletas em campo.
Torcedor quer se sentir representado. Treinadores e jogadores cansam de repetir lugares comuns sobre a essência de cada clube ou a necessidade de entregar isso ao público que frequenta as arquibancadas. Mas qual é a forma mais correta para cobrar quando o retorno não acontece?
Está aí a responsabilidade do clube nesse processo. Não é novidade dizer que vivemos num contexto de polarização. Não é novidade dizer que temos histórico paupérrimo de diálogo ou de discussão em alto nível. Não é novidade dizer que o torcedor quer se sentir representado. Por que isso não acontece, então?
Porque os clubes não conseguem criar projetos futebolísticos que retratem sua essência, e aí reside um erro de conceito. Sabemos de cor o estilo do Barcelona e sabemos dizer que isso jamais funcionaria no Real Madrid, historicamente acostumado a ser mais agudo e contundente. E no Flamengo, o que seria mais adequado? Como jogaria o Grêmio dos sonhos? O Cruzeiro ideal trocaria passes ou seria um time de contragolpes?
Para entender a essência ou para medir o retorno do que é apresentado aos torcedores, clubes precisam promover diálogo. Não durante os treinos, não com ar de terror, mas é fundamental ouvir o que os torcedores têm a dizer. Um ambiente de conversa só tem a acrescentar.
Vivemos as “Invasões Bárbaras” de Arcand porque temos choques culturais latentes e não sabemos lidar com isso. Evoluímos em uma série de aspectos – o jogo ficou mais corrido, a medicina tem procedimentos mais precisos e todo mundo tem noções táticas mais claras, por exemplo. Ainda assim, contudo, não soubemos medir se a evolução está ocorrendo no sentido que a essência nos pede.
Afinal, essência é isso: mais do que refletir o que fizemos no passado, diz as rotas mais adequadas para o futuro. E se quisermos conhecer a essência, precisamos conversar mais. Não há necessidade de invasão para isso.

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