Universidade do Futebol

Entrevistas

03/02/2012

Joao Aroso, treinador adjunto da seleçao portuguesa

João Aroso carrega consigo o que considera uma grande responsabilidade. Foi apontado por José Mourinho, a par de Rui Faria, como “o melhor preparador físico português”. Em se considerando, claro, a visão mais complexa e integrada sobre as funções técnicas dos profissionais de campo e como o limiar físico é parte de um todo.

Para desembarcar em sua “praia”, o futebol, Aroso fez um bacharelado em contabilidade e administração e até deu aulas sobre cálculo e aspectos econômicos. Aquele ambiente docente acadêmico, entretanto, apenas seria o estímulo para, mais maduro, concluir o licenciado em Educação Física e Desporto e ingressar no ambiente do esporte coletivo mais popular do mundo.

Primeiro, pelo Boavista, na temporada 2001-02, onde atuou por cinco anos em diversas equipes de base. Depois, passou por um intercâmbio na Grécia – a convite do treinador Fernando Santos. Mas regressou à terra natal logo, para trabalhar no departamento de futebol principal do Sporting Club Lisboa, quando deu início a uma parceria que se estende até hoje com Paulo Bento.

Em 2010, Bento foi contratado para comandar a seleção portuguesa principal no projeto que engloba a qualificação para o Euro 2012 e, posteriormente, à Copa do Mundo de 2014. Com ele, a equipe técnica lisboeta: Ricardo Peres, treinador de goleiros, e os treinadores adjuntos Leonel Pontes e o próprio Aroso.

“O trabalho é profundo, e contamos com uma lista grande de atletas considerados em uma primeira linha de convocação. Depois, um grupo de atletas que não está em condições atualmente, mas podem evoluir e eventualmente participar de um chamado. Isso nos obriga a um trabalho avaliativo permanente”, explica Aroso.

Como basicamente todos os selecionados nacionais, muito por conta do apertado calendário da Fifa, o preparador físico tem de conviver com os “constrangimentos” neste novo molde de trabalho ao qual teve de acostumar – e algo bem diferente do período em Alvalade: muitos poucos treinos à disposição.

“O normal, antes de cada jogo oficial, é termos os jogadores conosco cerca de uma semana. Alguns deles jogam ao domingo, concentram conosco na segunda-feira, mas não têm condições de treinar. Portanto, normalmente, as atividades são limitadas”, revela.

Segundo o profissional, a adversidade se apresenta em dois pilares: primeiro, a sistematização da forma de jogar; segundo, a criação e o desenvolvimento de um espírito de grupo, coletivo, com regras pré estabelecidas.

Para o ajuste de ambas as arestas, o grupo de trabalho comandado por Bento conta com uma renomada estrela, cujo comportamento interno surpreende a quem não o conhece intimamente: Cristiano Ronaldo.

O midiático atleta do Real Madrid, capitão de Portugal, costuma servir como referencial – tanto técnico, quanto na boa gestão do ambiente de trabalho. Os “hábitos” do atacante em seu clube espanhol muitas vezes são usados para auxiliar na definição estratégica da forma lusitana de jogar. Fora isso, Ronaldo é exemplo.

“Ronaldo é capaz de, se um jogador chegar atrasado, chamar a atenção e efetuar uma cobrança positiva. É um líder muito positivo. E sempre se desculpa quando comete algum erro”, sinaliza Aroso.

Além de falar com mais propriedade sobre o compartilhamento de informações técnicas entre equipes que cedem atletas portugueses e a própria seleção, Aroso aborda nesta entrevista à Universidade do Futebol como enxerga o processo de formação de atletas em seu país, a razão pela qual não costuma utilizar jogos em campo reduzido e scout quantitativo e revela qual o jogador mais inteligente com qual trabalhou – e se trata de um brasileiro.

 

Da esquerda para a direita, posando na apresentação oficial da seleção: Ricardo Peres, Leonel Pontes, João Aroso e Paulo Bento

 

Universidade do Futebol – Qual é a sua formação acadêmica e como se deu sua trajetória no futebol profissional?

João Aroso – Sou licenciado em Educação Física e Desporto. Antes deste curso, curiosamente eu estava na área de economia e fiz um bacharelado em contabilidade e administração, algo completamente diferente.

Sentia que não era a minha “praia”. Não me imaginava trabalhando ali, e o futebol é o que me encantava. Queria não ser professor de Educação Física, mas sim trabalhar no ambiente, como preparador físico, ou treinador de categorias de base.

As coisas começaram a andar no segundo ano da licenciatura, quando passei a estagiar em um clube que era importante, o Boavista, então quarta força de Portugal e que hoje passa por problemas. Trabalhei em equipes de formação lá durante cinco anos, desde o sub-10 até o sub-16 nestas faixas etárias.

Terminei o curso de Ed. Física e fui convidado para ser professor na universidade, o Instituto Superior da Maia, uma escola privada, nos arredores do Porto, durante quatro anos – fui docente de futebol, até antes de trabalhar no Sporting Club Lisboa.

Paralelamente fiz meu mestrado na Universidade do Porto. Neste âmbito, conheci um doutor que depois veio a ser meu orientador, ele era médico do Sporting, e meu projeto tinha a ver com fisiologia do treino e estudo do impacto do treino sob formas de jogar. Através desse contato, dei um salto muito grande, que foi ingressar no futebol profissional. Por vezes temos de ter a sorte de estar no lugar certo, na hora certa.

Em 2003-2004, ingressei no Sporting. Primeiro com o Fernando Santos, que hoje é treinador da seleção grega. Depois, na temporada seguinte, com o José Peseiro, que foi para a Grécia; no ano seguinte, trabalhei com o próprio Fernando Santos no AEK Atenas, a convite dele.

Acontece que, um ano depois, o Paulo Bento assumiu o Sporting e me convidou para compor a equipe técnica e voltar para Portugal – curiosamente, ele havia sido “meu jogador” lá, pois ainda era atleta quando eu atuava na base.

Tinha minha família, minha filha pequena, e resolvi voltar. Trabalhei na temporada 2005-06 e depois fiquei com o Paulo Bento até a temporada 2009-10, quando saímos.

Há cerca de um ano, ele foi convidado para ser o selecionador nacional de Portugal, e eu passei a compor novamente a equipe dele.

 

De atleta observado a companheiro no comando técnico da seleção portuguesa principal: convite de Paulo Bento conduziu Aroso da Grécia ao Sporting 

 

Universidade do Futebol – Na prática, a base financeira, de entendimento dos negócios, promoveu um benefício direto para as suas funções como profissional técnico do campo?

João Aroso – Diretamente, não. A não ser na análise de contratos (risos). O grande impacto que penso é que como não me identificava com aquela área, eu acabei me entregando com um empenho, um envolvimento e uma maturidade bem maiores ao curso de Ed. Física e Desporto.

Terminei o bacharelado em contabilidade e passei a dar aulas de cálculo financeiro, contabilidade, etc. Descobri que gostava de ser professor, mas não daquelas matérias. E isso foi importante.

Com 21 anos, outros objetivos do ponto de visto profissional, passei a criar uma relação mais intensa com essa nova esfera que se apresentou. Algo que não tenho certeza de que ocorria se fosse minha primeira opção.

Universidade do Futebol – Atualmente, você é um dos treinadores adjuntos da seleção portuguesa. Poderia explicar um pouco mais sobre essa função e o dia-a-dia de trabalho?

João Aroso – Nossa equipe técnica é constituída por um treinador principal, o Paulo Bento, dois treinadores adjuntos, um treinador de goleiros e dois analistas de desempenho (scoutistas) – um deles proveniente do contato com o professor Júlio Garganta.

Nosso dia a dia é especialmente diferente do trabalho de um clube. Fundamentalmente de observação de atletas potencialmente selecionáveis.

Fazemos muitas observações ao vivo e pela televisão. Mas também temos um serviço à disposição que nos permite ver qualquer canal do mundo, com qualquer tipo de jogo à disposição.

O trabalho é profundo, e contamos com uma lista grande de atletas considerados em uma primeira linha de convocação. Depois, um grupo de atletas que não está em condições atualmente, mas podem evoluir e eventualmente participar de um chamado. Isso nos obriga a um trabalho avaliativo permanente.
 



Confira a entrevista na Universidade do Futebol com Júlio Garganta, Doutor em Ciência do Desportoparte I e parte II

 

Então, distribuímos nossas tarefas. Logo no primeiro dia da semana, após analisarmos todos os jogos, seja ao vivo, ou pela TV, nos reunimos e produzimos relatórios – por escrito, sempre, e também compartilhado, oralmente, aos nossos colegas.

Os constrangimentos sentidos neste molde de trabalho é que temos muitos poucos treinos à disposição. O normal, antes de cada jogo oficial, é termos os jogadores conosco cerca de uma semana. Alguns deles jogam no domingo, concentram conosco na segunda-feira, mas não têm condições de treinar. Portanto, normalmente, as atividades são limitadas.

A dificuldade é grande em dois aspectos: primeiro, sistematizar a nossa forma de jogar com todos os jogadores que passam a maior parte do tempo em seus clubes; segundo, criar e desenvolver um espírito de grupo, com regras, etc.

Muitos trabalham conosco uma vez, e voltam depois de dois, três meses. E entender plenamente as mensagens de comportamento, por exemplo, é difícil de ser aplicado. Temos de constantemente retomar o aviso de determinadas medidas, como treinar com caneleiras, não andar de chinelos pelo hotel, etc.

Depois, muitos jogadores estão envolvidos em campeonatos nacionais e internacionais, como Liga Europa e Liga dos Campeões. Quando são jogos amistosos neste meio tempo, há necessidade de uma sensibilidade na condução dos treinamentos, o que resulta em pouca disponibilidade de treino efetivo, dentro da forma de jogar.

Temos de lidar com essa situação e desenvolver algumas estratégias. Procuramos, dentro das limitações, manter um grupo mais ou menos estável; naturalmente, por conta de lesões, mudanças, novas possibilidades, isso nem sempre é possível. Ao contrario da seleção brasileira, que possui muitos jogadores com muita qualidade selecionáveis. Talvez seja menos difícil para nós neste sentido.

Parece-nos importante que se o jogador estiver sempre conosco – não sei ao certo, mas acredito que tivemos sete ou oito concentrações neste período -, ele estará mais identificado com nossa forma de jogar, com o espírito do grupo, com as noções comportamentais, em uma comparação com aqueles que foram chamados apenas uma vez ou duas vezes.

Outra situação que costumamos realizar é percebermos quais são alguns hábitos que os jogadores têm em seus clubes. Por exemplo: em um escanteio, se tivermos uma ideia clara de onde o Cristiano Ronaldo e o Pepe costumam aparecer para tentar finalizar no Real Madrid, normalmente onde são mais fortes, isso nos dará indicadores importantes para quando nós formos definir nossa estratégia neste momento do jogo. Se isso for importante para nossa equipe, costumamos aproveitar tal “hábito”.

Falando do Ronaldo, que é um exemplo mais midiático, sabemos que ele tem determinados comportamentos do ponto de vista ofensivo, como a tendência para ocupar o corredor central, atrás do centroavante, o que normalmente abre espaço pelas laterais, especialmente para o lateral esquerdo. Como também sabemos que ele não é um jogador muito envolvido na parte defensiva. Na estruturação do Madrid, existe um companheiro próximo a ele para auxiliar nesta tarefa.

O que queremos é compartilhar informações e hábitos práticos para facilitar a estruturação do jogar da seleção portuguesa.

Melhor treinador do mundo de 2010, segundo a Fifa, português Mourinho é canal aberto da seleção lusitana com o Real Madrid

 

Universidade do Futebol – Como é realizada a integração da preparação física com as questões técnicas e táticas do jogo?

João Aroso – Todos somos formados em Ed. Física e Desporto, e o Paulo Bento, que foi jogador, é extremamente receptivo às nossas ideias e a ouvir nossas opiniões em todos os níveis, em especial no que se refere à metodologia e fisiologia de treino.

No início da semana, tentamos pensar, a partir do número de treinos que temos, nos elementos táticos fundamentais de treino, seja nossa forma de jogar, sobretudo o Modelo de Jogo, e o ponto de vista estratégico, referente ao adversário que iremos enfrentar.

Partimos sempre dos objetivos táticos. A partir disso, adaptaremos os mesmos aos exercícios, ao tempo de pausa, esforço, tamanho do campo, etc., com as indicações a cada um dos dias.

Quando trabalhávamos no clube tínhamos uma dinâmica que, numa primeira ideia, teria seu conceito aplicado na seleção. Mas temos sentido que há uma necessidade grande de trabalhar com estrutura completa, ou seja, 11 x 11.

Não estou dizendo que é isso apenas. Mas um trabalho coletivo, mesmo, com objetivos específicos, neste contexto da seleção, visto que temos menos tempo, tende a ser mais eficaz, já que temos de incidir nos comportamentos coletivos, nos grandes princípios. Essa é uma adaptação que vem ocorrendo.

No Sporting, tínhamos normalmente uma dinâmica com objetivos definidos. Na quarta, por exemplo, os treinos eram com espaços mais curtos e intensidades elevadas, com grande exigência muscular; a maior parte dos exercícios como forma de jogada; na quinta, uma sessão por dia.

Percebemos que a intensidade em que normalmente treinávamos resultava em um impacto do ponto de vista do cansaço, e isso atrapalhava a questão dos treinamentos físicos. A ocupação melhor dos espaços e da direção surgia como alternativa.

Na sexta, reduzimos mais os espaços e a direção, a dois dias do jogo, mais em sentido organizacional e estratégico; na véspera da partida, usamos muito o treino “coringa”: se achávamos que era importante trabalhar determinado aspecto tático falho durante a semana, incrementávamos; se sentíssemos que era importante trabalhar bolas paradas, aproveitávamos;

Pontualmente, se os jogadores tivessem trabalhado bem, com grande concentração durante a semana, e sentíssemos a necessidade de relaxar um pouco, do ponto de vista emocional, promovíamos jogos lúdicos, como o tradicional “rachão”.

“Partimos sempre dos objetivos táticos. A partir disso, adaptaremos os mesmos aos exercícios, ao tempo de pausa, esforço, tamanho do campo, etc.”, explica Aroso

 

Universidade do Futebol – Qual o papel dos jogos reduzidos no desenvolvimento do jogar da equipe? Como eles podem ser utilizados e como seus objetivos devem ser definidos? Como é realizado o controle da intensidade nos jogos reduzidos?

João Aroso – No Sporting, durante algum tempo, atuei nesta área de controle de treino, com o frequencímetro sendo usado em alguns atletas – medíamos a intensidade a partir da frequência cardíaca (FC). A avaliação era muito limitada e não fidedigna.

Obviamente, conferia alguns aprendizados – trabalhei com lactatos e outras formas de reconhecer a intensidade do esforço – e fiz esta avaliação com os exercícios em espaços reduzidos. Isso me fez aprender bastante sobre o processo fisiológico associado.

Depois de ter trabalhado com isso na prática, então, senti que a partir de determinada altura eles não eram tão úteis em termos de informação – por isso não costumamos fazer mais controles por FC.

Primeiro porque o impacto determinado por determinado tipo de exercício resulta no jogador; depois porque acreditamos que é mais viável por vezes sentir diretamente junto ao atleta como ele se sente – se está cansado, com dores musculares, etc. E isso pode ser mais importante do que os próprios dados científicos.

Há algumas experiências que fazemos, e a sensibilidade e subjetividade dos próprios profissionais muitas vezes tem mais utilidade.

Praticamente não fazemos uso dos jogos reduzidos. Com todo o respeito às diferentes formas de trabalhar, na nossa forma de ver as coisas, não é algo tão interessante.

Ainda quando estávamos no Sporting, com bastante possibilidade, se fizéssemos, por hipótese, um goleiro mais três contra três mais um goleiro, deveríamos estar pensando em trabalhar não apenas força ou resistência láctica, mas sim partir do subprincípio que queríamos treinar: pressão permanente à bola, como queremos nos posicionar em relação às linhas de passes; do ponto de vista ofensivo, como queremos que os atletas se comportem em termos de mobilidade, etc.

Ao partir do subprincípio tático, se tivermos com ele bem treinado, os demais estarão garantidos por consequência. Esta é nossa visão. Jogos reduzidos, sim, mas integrados dentro da nossa forma de jogar. Depois vamos criar condições para que, em termos de desporto, resulte na forma que consideramos adequada aos dias da semana de trabalho.
 

 

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Universidade do Futebol – Você participou do projeto Escola Academia Sporting. Como foi essa experiência?

João Aroso – É uma escola que fica em Gaia, norte do país, e funciona desde 2007. Sou diretor dela e é algo que faço por gosto.

Mantenho contato direto com a coordenadora técnica e atendemos crianças dos 4 aos 15 anos. Há um programa comum em termos de concepção de treino e de exercícios e que é adotado pelos coordenadores técnicos das diversas escolas, desenvolvido com um embasamento referencial do Sporting.

Temos a preocupação em função do nível de desempenho dos alunos. Os mais “evoluídos” fazem exercícios mais complexos, difíceis, e os que possuem mais dificuldades, realizam tarefas um pouco mais simples, com um suporte. Temos a preocupação de realizar um trabalho diferenciado.

Também proporcionamos competições vinculadas à capacidade deles. Torneios mais exigentes para aqueles que estão em estágio mais avançado, e torneios de iniciação aos demais.

Há um jeito muito especial no tratar com os quase 130 alunos. E esse contato intimista consideramos muito importante, até por conta da concorrência com as diversas escolas de futebol que proliferam por todos os lados.

Trata-se de uma franchising. Provavelmente deve haver umas 30 franquias por Portugal. Há muitos sportinguistas em Lisboa, mas mesmo mais no norte, perto da região do Porto, conseguimos atrair jovens interessados.

O Sporting possui uma marca importante no aspecto de formação de atletas, e acaba chamando a atenção inclusive de filhos de torcedores portistas. Cristiano Ronaldo, Figo, Nani, João Moutinho, Miguel Veloso, Ricardo Quaresma, Simão Sabrosa, etc., são exemplos de atletas formados naquelas categorias de base.

 

 Sporting é referência na formação de novos atletas, como Cristiano Ronaldo, que é protagonista na seleção de Paulo Bento

 

Universidade do Futebol – Como você avalia o processo de detecção e desenvolvimento de talento do jogador de futebol em Portugal? Os grandes clubes formadores sabem exatamente que jogador estão procurando para fazer parte desse contexto?

João Aroso – Há também uma polêmica muito grande, fundamentalmente levada a congressos e universidades, sobre isso. Os clubes cometem muitos erros e fazem coisas absurdas, muitas vezes.

Lembro-me, quando estava no Boavista, de ter assistido a episódios que me deixavam bastante chateado. Certa vez, em grupos sub-13, que é uma fase em que algumas crianças são mais desenvolvidas do que outras, alguns jovens eram mandados embora por serem pequenos. Em detrimento, a manutenção de garotos que resolviam problemas imediatos.

Quando estes chegavam ao sub-17, sub-18, apresentavam muitas falhas e falta de qualidades. E aqueles que cresceram eram muito melhores em diversos sentidos, mas haviam completado o desenvolvimento em outros clubes, com muita técnica e inteligência de jogo. Isso era comum.

No Sporting, conversávamos muito sobre e a ideia era bem diferente. Havia um cuidado com a qualidade técnica, a inteligência de jogo, as capacidades mentais, como força de vontade, espírito de sacrifício, muito mais do que com tamanho e força. Não é por acaso que o Sporting tem a qualidade que tem na formação.

Infelizmente uma coisa que tem acontecido, inclusive lá, é ir buscar muitos jogadores estrangeiros para o sub-18 e sub-19, brasileiros e demais sul-americanos. E acho que não tem problema, se eles forem muitos melhores do que os locais. O que não é sempre o caso. E não nos parece ter dado resultado.

 

Portugal vive problema com o grande número de estrangeiros que compõe as equipes locais; processo atinge também “escalões de formação”

 

Universidade do Futebol – Qual é o peso da grande presença de jogadores brasileiros nas principais ligas de futebol de Portugal? Vê esse intercâmbio como algo positivo, ou é um impeditivo para o desenvolvimento de novos talentos locais?

João Aroso – Essa discussão também é constante. Agora, uma nova direção na Federação Portuguesa de Futebol quer atuar precisamente em encontrar formas de limitar a entrada de jogadores estrangeiros. Não apenas brasileiros. Hoje, há muitos de várias nacionalidades.

O time titular do Benfica não possui nenhum atleta português. O do Porto, apenas dois. Temos mais portugueses na equipe titular do Real Madrid do que nas principais equipes lusitanas.

Não temos a capacidade de ter centenas, milhares de jogadores profissionais com muita qualidade, como Brasil e Argentina, por exemplo, e ao conferir menos espaço aos jogadores portugueses, começa a ser mais difícil ainda surgirem novos talentos.

O fato de Portugal estar na União Européia resulta em um conjunto de constrangimentos que limita o veto ao número de estrangeiros de países deste continente. É difícil restringir, mas é uma preocupação que existe e pode mudar.

No caso das seleções, isso se reflete da mesma maneira. Os grandes clubes têm muitos jogadores jovens estrangeiros. Há pouco, no Mundial sub-20 na Colômbia, Portugal perdeu a final para o Brasil, e o atacante de destaque, que pertence ao Benfica, raramente é convocado para atuar pela equipe principal. Ao contrario do Brasil, em que muitos destes já frequentam com protagonismo as suas equipes nacionais.
 

 

Universidade do Futebol – De modo geral, o que você acha do jogador de futebol português atual em termos técnicos e de inteligência de jogo? E qual o paralelo você faz com o jogador brasileiro?

João Aroso – Sobre o jogador português, fundamentalmente aqueles formados em Benfica, Porto e Sporting, do ponto de vista técnico e tático, eles possuem uma capacidade bem acima da média.

Há cada vez mais uma preocupação com essas partes, e também um trabalho cada vez mais qualificado dos profissionais da formação. É possível se perceber.

No caso do brasileiro, é difícil encontrar um padrão, um rótulo. Vou pegar o exemplo do Liedson, que fez muito sucesso no Sporting e no Corinthians. Os jogadores do Nordeste e do Rio de Janeiro, de modo geral, não possuem tanta capacidade de trabalho como os jogadores de São Paulo e do Sul do Brasil. Mas é uma ideia generalizada.

No Sporting tivemos o Anderson Polga e o Fábio Rochembach. Eram jogadores, cada qual com sua qualidade, que tinham uma capacidade de trabalho que nos parecia diferente. É difícil apresentar um padrão comum.

Do ponto de vista tático, percebemos que normalmente eles têm uma necessidade de aprendizado. O treino ao qual estão acostumados é mais físico, analítico, separado da componente tática. Nós sentimos que depois de treinados na Europa, parece evoluírem mais neste sentido tático. E não quero parecer presunçoso. É mais uma impressão, mesmo, de que a cultura tática do futebol europeu acaba se fixando e agregando valor ao talento e à técnica depois de os brasileiros trabalharem neste contexto.

Confesso que não conhecia o Liedson anteriormente à passagem dele por aqui. Além de ser um grande finalizador, tinha uma capacidade de trabalho defensivo impressionante. Nenhum zagueiro ou goleiro arriscava perante ele. É de fato algo especial. Depois, lembro e cito alguns jogadores que não eram conhecidos no Brasil, como Deco e Hulk. Outro exemplo é do Derlei.

Ele ganhou a Liga dos Campeões com o Porto, ao lado do José Mourinho, e depois atuou conosco, no Sporting. Nunca vi um jogador que conhecesse tanto de futebol quanto ele. Em conversas que nós tínhamos, eu aprendia muito. Ele possuía uma vivência e uma inteligência de jogo incríveis. Algo que para ele parecia óbvio, para nós, profissionais da área técnica, não.

Não sei se aprendeu mais depois de vir para o futebol português. Mas é, sem dúvidas, o jogador mais inteligente taticamente que já vi entre todas as nacionalidades.


 

Universidade do Futebol – O Cristiano Ronaldo é um companheiro exemplar para os outros atletas da seleção? Como reage o grupo ao “planetário mediatismo” dele?

João Aroso – Eu conheci o Cristiano Ronaldo quando ele tinha ainda 18 anos, no Sporting, antes de se transferir para o Manchester United. Foi na primeira temporada em que trabalhei com Fernando Santos.

O que tinha de informação dele é que se tratava de um profissional muito empenhado, que gostava de treinar bastante, e que sempre buscava algo a mais. Tinha uma imagem muito positiva em relação à vontade dele de se superar.

Foi uma surpresa muito positiva no contato mais direto com ele na seleção. Quem não o conhece realmente pode ter uma ideia completamente diferente sobre quem ele é. Mas se trata de um profissional exemplar, cuja conduta de capitão da seleção é irrepreensível, em todos os níveis. Não chega atrasado a uma refeição, a uma palestra, a um treinamento. E sempre se desculpa quando comete algum erro.

Os colegas, diante de todo esse mediatismo, acrescentam a ele uma representatividade ainda maior no quesito idolatria. Ronaldo é capaz de, se um jogador chegar atrasado, chamar a atenção e efetuar uma cobrança positiva. É um líder muito positivo.

É a ideia que temos dele: alguém que está constantemente envolvido com a seleção, com prazer, mesmo que o seu rendimento não seja o mesmo apresentado no clube. Olhamos para ele e vemos aquela áurea – natural, no meu ponto de vista. Ele é respeitado por todos.

 

Universidade do Futebol – Há alguma forma de contato entre os profissionais da equipe técnica de Portugal com os responsáveis pelos atletas selecionados de cada clube?

João Aroso – A preocupação que tivemos quando começamos a trabalhar na seleção foi contatar todos os clubes nos quais atuavam os nossos atletas. Esse trabalho foi facilitado com os clubes portugueses e com o Real Madrid, em especial.

Tínhamos a intenção de perceber algumas rotinas de trabalho, do ponto de vista da compressão, dos trabalhos específicos e tentar, dentro do possível, respeitar o que os selecionados realizam.

Enviamos, inclusive, uma carta ao Corinthians, para saber sobre o tipo de trabalho que o Liedson realizava junto à comissão técnica. Sempre procurando respeitar os ambientes do outro lado, e para que os atletas regressassem aos clubes na melhor condição possível.

No tempo que temos à disposição, diante dos poucos jogos, para as nossas avaliações, costumamos filmar jogos-treinos. Na seleção, como estamos em concentração, isso nos permite avaliar as atividades de modo mais profundo, procurando os aspectos positivos.

Em relação à avaliação de jogos, também. Nos clubes, geralmente, são duas partidas oficiais por semana. Quando fizemos um amistoso contra a Argentina, por exemplo, tivemos condição de estudar equipes em detalhes que tinham se saído bem contra o Barcelona quando o Messi estava em campo. Não que a única preocupação tenha sido ele, ou que apenas aquelas referências importavam. Mas nos serviram de parâmetro para focalizar aquilo que era importante para tentar limitar as ações dele. Não conseguimos totalmente, já que ele deu um passe para gol ao Di Maria e marcou de pênalti.

 

Liedson e Deco, dois brasileiros naturalizado portugueses: o corintiano ainda é alvo de observação e recebeu convocação de Paulo Bento depois da última Copa

 

Universidade do Futebol – Como é realizada a análise de scout pela seleção portuguesa? Há um interesse no scout qualitativo em detrimento ao quantitativo?

João Aroso – As equipes em Portugal e fora, com algumas exceções na Inglaterra, costumam usar sistemas como o da Prozone, da Amisco. Como traba

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