Universidade do Futebol

Entrevistas

08/02/2013

João Burse, técnico do Mogi Mirim sub-20

Apesar da curta carreira como treinador, João Burse já fez história. Conduziu o Mogi Mirim até as oitavas de final da Copa São Paulo de futebol júnior deste ano, fato inédito no clube do interior paulista.

O feito no principal torneio das categorias de base do Brasil, porém, não foi o primeiro dele no comando do time caipira. Burse participou da ilustre campanha do Mogi no Campeonato Paulista sub-15 em 2010, quando a equipe ficou na quinta colocação, além de chamar a atenção pelas 15 partidas invictas do time no ano seguinte.

O "sucesso" repentino gerou um convite para trabalhar na categoria sub-20 do clube, além de atuar como assistente técnico do profissional, funções que ocupa até hoje. Apesar da ascensão meteórica, Burse sabe que, se os resultados em campo não acontecerem, as cobranças podem surgir.

"Eu tenho uma mistura legal, fui jogador e, depois de me aposentar, me preocupei em buscar conhecimento para atuar como treinador. Isso também me dá tranquilidade de não sentir tanto esta pressão por resultados. Sei lidar com estas cobranças, apesar de saber que o Brasil precisa melhorar neste aspecto", diz, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

João Burse atuou como zagueiro e volante em clubes como Nagoya Grampus (Japão), União Barbarense, Corinthians de Alagoas, Mogi Mirim e Universidade Católica do Chile. Foi forçado a encerrar a carreira aos 24 anos devido a uma lesão grave no púbis.

Após a aposentadoria, formou-se em Educação Física em 2011 e agora cursa pós-graduação. Para ele, porém, a busca pelo conhecimento não foi de forma isolada e que a união da teoria com a prática tem sido uma semelhança entre os técnicos que trabalham na formação de jovens jogadores na atualidade.

"Hoje em dia, vemos uma geração de bons treinadores que atuam nas categorias de base no Brasil. Clubes como o Desportivo Brasil Guarani, Ponte Preta, Corinthians, Mogi Mirim, entre outros, são exemplos de bons trabalhos com os jovens. Atualmente, os treinamentos também estão com mais qualidade, estamos conseguindo reproduzir aqui treinos que são feitos lá fora. Isso nos dá bastante otimismo, pois com os profissionais buscando mais conhecimentos, o Brasil só tem a ganhar em um futuro próximo", aponta.

Nesta entrevista, João Burse ainda falou de metodologias de treinamento, da influência do técnico Guto Ferreira na sua nova profissão e a importância das informações táticas aos jogadores em formação. Confira:

Universidade do Futebol – O tempo que se tem para mostrar resultado no futebol brasileiro é extremamente escasso. Como você vê sua atuação profissional diante desta questão que, aparentemente, não irá mudar?

João Burse – Realmente está tudo errado neste cenário. Deste modo, o Brasil não evolui e, por isso, estamos sofrendo para modernizar o futebol brasileiro. Esta maneira de vermos o jogo precisa mudar urgentemente. Porém, no Mogi Mirim eu tenho uma liberdade em relação a isso. Há uma compreensão sobre a demora por resultados dentro de campo e quais os passos a serem dados em cada etapa.

De um modo geral, os dirigentes precisam repensar sobre o que é um trabalho bem feito sem ser em um curto prazo. Acredito que isso deva mudar, principalmente, nas categorias de base do país. Mas, reforço que no Mogi há essa paciência para se realizar um trabalho de formação adequado. Recentemente, subimos seis atletas para o elenco profissional após a disputa da Copa São Paulo. Então, penso que estamos no caminho certo.

Eu tenho uma mistura legal, fui jogador e, depois de me aposentar, me preocupei em buscar conhecimento para atuar como treinador. Isso também me dá tranquilidade de não sentir tanto esta pressão por resultados. Sei lidar com estas cobranças, apesar de saber que o Brasil precisa melhorar neste aspecto.

 

Para João Burse, os treinadores da nova geração estão atualmente mais bem preparados do que antigamente

 

Universidade do Futebol – Em sua opinião, o que deve mudar no trabalho das categorias de base nos clubes brasileiros? De forma geral você acredita que o trabalho é bem feito, pelo menos nos grandes clubes?

João Burse – Por incrível que pareça, acredito que o trabalho está bem parecido em todos os clubes. Hoje em dia, vemos uma geração de bons treinadores que atuam nas categorias de base no Brasil. Clubes como o Desportivo Brasil Guarani, Ponte Preta, Corinthians, Mogi Mirim, entre outros, são exemplos de bons trabalhos com os jovens.

Atualmente, os treinamentos também estão com mais qualidade, estamos conseguindo reproduzir aqui treinos que são feitos lá fora. Isso nos dá bastante otimismo, pois com os profissionais buscando mais conhecimentos, o Brasil só tem a ganhar em um futuro próximo.

 

O treinador do sub-20 do Mogi Mirim aponta que o quanto antes o atleta for introduzido aos aspectos táticos, mais rápido será a sua evolução

 

Universidade do Futebol – Hoje em dia se discute muito a eficácia de se usar uma metodologia de treinamento que parta do modelo de jogo pretendido pelo treinador, ou seja, preparar a equipe (nos aspectos físicos, técnicos, táticos e até psicológicos) a partir das ações táticas, sem fragmentar muito os treinamentos. José Mourinho e André Villas Boas são dois treinadores que adotam esta metodologia. O que você acha dela?

João Burse – Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que cada metodologia é muito particular de cada treinador. Cada um tem o seu modelo de jogo, a sua maneira de treinar, de conduzir as atividades, enfim. Eu tento misturar bastante. Não descarto a parte física, com os trabalhos de força feitos separadamente. Mas, tudo sempre feito no momento certo, na dose certa. Gosto muito de trabalhos com bola e também os aplico com frequência.

Porém, hoje em dia, há uma discussão muito grande sobre os treinos com ou sem a bola. Penso que cada um tem o seu momento. Eu tenho a cabeça aberta. Respeito e admiro muito profissionais como Sandro Sargentim e Antônio Carlos Gomes, que são da parte física separada.

Meu preparador físico, por exemplo, é meu auxiliar e a gente sempre discute quando colocar ou não a bola. Conto também com o Fernando Ziskind, que ajuda na análise de desempenho. Então, sempre procuro buscar tudo o que possa contribuir para o trabalho de campo. Muitos profissionais têm medo de perguntar, mas isso eu não tenho.

 

Os dirigentes no Brasil precisam repensar sobre o que é um trabalho bem feito sem ser em um curto prazo, diz Burse

 

Universidade do Futebol – O que você acha do jogador de futebol brasileiro atual em termos técnicos e de inteligência de jogo? O futebol mudou muito se comparado com a época em que você era jogador?

João Burse – Mudou bastante. A própria situação de não vermos mais aquele futebol de rua contribuiu para isso. Não vejo mais, por exemplo, brincadeiras de rua, como rebatida, que eram importantes dentro deste processo de formação técnica e de inteligência de jogo.

Agora, se nós treinadores não conseguirmos resgatar isso, de alguma maneira, vamos ter sérias dificuldades no futuro. Países como a Espanha é um bom exemplo disso. Formam jogadores com um biotipo não tão bom, mas com uma excelente cultura de jogo.

Acredito que os técnicos do Brasil precisam se preocupar mais com a tomada de decisão dos atletas. Direcionar mais trabalhos para as demandas cognitivas do jogo. Apesar de achar que os treinadores estão atualmente mais bem preparados do que antigamente. Estão tentando implantar um jogo mais de conjunto e não tanto de maneira individual.

 

João Burse atuou como zagueiro e volante em clubes como Nagoya Grampus (Japão), União Barbarense, Corinthians de Alagoas, Mogi Mirim e Universidade Católica do Chile

 

Universidade do Futebol – Como você trabalha a questão da liderança com seus atletas? Você considera que esta qualidade (de liderança) é inata ou pode ser desenvolvida com um trabalho adequado?

João Burse – Acredito que alguns dos meninos que atuam nas categorias de base já têm isso com eles, mas também vejo que esta questão pode ser estimulada ao longo do tempo. Os também clubes precisam estar preparados para ajudar neste aspecto, com a contratação de profissionais como assistentes sociais e psicólogos, que são fundamentais hoje em dia.

Já para o técnico ser um líder perante o elenco, penso que o atleta tem de ver o treinador como um exemplo a ser seguido. Por isso, é preciso ter uma boa postura e que atenda a carência de todos de uma forma satisfatória. Ele [treinador] deve mostrar situações que vão deixar eles [jogadores] mais confiantes para fazer.

Universidade do Futebol – Qual é a importância de o treinador brasileiro receber uma formação especializada para exercer as suas funções no futebol? Como você se preparou para assumir o atual cargo no Mogi Mirim?

João Burse – Sou ex-jogador e me formei em Educação Física em 2011. Agora, estou cursando pós-graduação em Futebol e Futsal: as ciências do esporte e a metodologia do treinamento, em Campinas. Mas, uma coisa que eu sempre costumo falar: não existe uma formação ideal. O que existe é competência.

Hoje é comprovada que boa parte dos treinadores é boleira, que fica neste distanciamento da parte teórica. Mas, isso não pode. Eu, como ex-atleta, preciso buscar uma aproximação desses dois mundos. Tenho amigos que são treinadores e que, de tempos em tempos, fazemos reuniões para trocarmos informações, discutir temas atuais, enfim. Acredito que só assim nós vamos evoluir. Essa junção da teoria e prática é que vai fazer a gente evoluir. Ninguém tem uma verdade absoluta.

O fato de ter sido um atleta da modalidade ajuda em algumas particularidades, que conseguimos transmitir. Eu convivi nos mesmos alojamentos que hoje os meus jogadores vivem. Joguei no Mogi, passei pelo juvenil até o profissional, assim como eles. Então, isso deixa os meninos mais confiantes por eu ter passado por estas situações também. Mas, só isso não é suficiente.

Universidade do Futebol – Como se dá a interação entre você e a preparação física e comissão técnica, departamentos médico e de fisiologia, e com o próprio trabalho realizado com as demais equipes de base do Mogi?

João Burse – Atualmente, o Mogi Mirim está bem servido de bons profissionais. Acredito que esta interação começou com o técnico Guto Ferreira, que me deu essa abertura no profissional quando eu atuava somente na base. Aprendi muito neste período ao seu lado. Na época, ele deu muitos conselhos e muita liberdade para nós, das categorias iniciantes. Inclusive, todas as categorias sob sua gestão jogavam na mesma plataforma de jogo, no 1-4-3-3.

Neste ano, o Dado Cavalcante deu sequência nesta abordagem e, hoje em dia, o Mogi tem categorias bem linkadas. Isso faz muita diferença no processo de formação. A interação com o departamento médico também é muito grande. O fisiologista das categorias de base é o mesmo do profissional. Então, é o nosso desejo seguir a mesma linha em todas as etapas.

 

João Burse aponta o técnico Guto Ferreira, que atuou em clubes como o Internacional e hoje está na Ponte Preta, como uma das suas influências na carreira como treinador

 

Universidade do Futebol – Quais são as dificuldades e peculiaridades de trabalhar em um clube do interior, que fez história no início dos anos 90, com uma plataforma 1-3-5-2. Será que não se poderia recriar uma filosofia de jogo a partir disso?

João Burse – Veja, aqui no Mogi sempre tivemos muita liberdade em relação a isso. Nunca fomos obrigados a implantar determinado modelo de jogo ou plataforma por causa do passado do clube. Eu, particularmente, gosto muito do 1-4-3-3 e sempre me deram total liberdade de formar as equipes assim.

Na época do Guto [Ferreira], ano passado, o infantil e o juvenil também jogavam no 1-4-3-3, assim como o profissional, que foi campeão do Torneio do Interior [do Campeonato Paulista] atuando nesta plataforma. E, agora, com o Dado tem sido da mesma forma.

Universidade do Futebol – Qual é a real importância das informações táticas aos jogadores em formação?

João Burse – Acho que é fundamental. Acredito que o atleta tem sempre de saber o porquê de estar fazendo determinado treino, determinada ação, e o porquê de cada sistema. Assim, ele vai sofrer menos e ajudar mais a equipe. O quanto antes ele for introduzido neste cenário, de aspectos táticos, técnicos, enfim, mais rápido será a sua evolução.

Com o sub-15, por exemplo, gostava muito de dar palestras e trabalhar com eles o aspecto visual. Mas, não podemos engessar. Os atletas em formação precisam passar por algumas outras plataformas, além da qual consideramos a ideal. A base tem de dar repertório para eles, mostrar como se marca, como se posiciona, ou como preenche espaços. Somente assim, o jogador vai saber como se comportar quando chegar ao profissional.

 

Nós, treinadores, precisamos estimular os atletas a errarem nesta etapa de formação, afirma o ex-zagueiro e volante do Mogi Mirim

 

Universidade do Futebol – Como você vê a importância do erro para o processo de ensino-aprendizagem do futebol?

João Burse – Penso que nós treinadores precisamos estimular os atletas a errarem. Quando fui atleta, tive uma experiência muito marcante neste sentido. Eu errava muito passe e, meu técnico à época, me cobrava muito para eu chapar mais o pé quando executasse esta ação no jogo. No entanto, quanto mais ele me cobrava, mais eu errava. Eu não conseguia fazer da maneira que ele queria. Então, como treinador, jamais vou fazer uma coisa deste tipo. Tento sempre fazer com que eles não tenham medo de errar.

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