Universidade do Futebol

Entrevistas

19/07/2013

João Paulo Monteiro, diretor da Social Team Brasil

Há alguns anos, algumas grandes, médias e pequenas empresas do Brasil têm realizado ações importantes de cunho social e até ambiental para melhorar o cotidiano das pessoas e comunidades mais carentes da sociedade.

No entanto, este cenário parece ser bastante distante do futebol brasileiro, no qual ainda pouco se vê projetos, parcerias ou ações que promovam a chamada responsabilidade social.

Por isso, João Paulo Monteiro, após uma viagem à Europa, participou da criação da Social Team Brasil, uma empresa social privada que atua no desenvolvimento de ações sociais utilizando sempre a música, a tecnologia ou o futebol (esporte).

"Acredito que a principal barreira é o desconhecimento sobre o assunto. Existem poucas empresas que fazem isso no nosso país. Além disso, para este tipo de ação, todo mundo fala ‘Ah, eu não tenho tempo’. Por isso, optamos por trabalhar com as personalidades por trás dos projetos sociais. Acreditamos que desta maneira repercute muito mais na sociedade. Então, essas dificuldades são um entrave que nós temos aqui. No entanto, confesso que estamos crescendo acima das expectativas no Brasil", admite o diretor da empresa integrante da Social Team Internacional, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Ele diz que os projetos sociais ainda são vistos como “um gasto a mais” pelos dirigentes brasileiros e que poucos profissionais dentro do futebol já notaram que ações com este perfil valorizam a marca do clube e fortalecem o relacionamento entre o time e a sociedade.

Na Europa, acrescenta Monteiro, há pelo menos 15 anos, os clubes europeus começaram a criar suas fundações "porque sentiam uma necessidade de devolver à comunidade todo o carinho que o povo lhes proporcionava".

"Uma fundação dessa como a do Barcelona gera 10 milhões de euros por ano para os cofres do clube. Para isso, no entanto, é necessário mentalidade e filosofia. Além dos clubes, o próprio atleta pode rentabilizar com este segmento. Já vi um jogador receber 10% a mais em um contrato com uma fornecedora porque ele tinha uma fundação social", lembra.

Há um ano no país, a Social Team Brasil já trabalha com mais de vinte atletas, como o jogador Falcão, do futsal, o atacante Alexandre Pato, o lateral Daniel Alves, e o meia Ronaldinho Gaúcho. Já entre os clubes, o Corinthians é um dos mais avançados no assunto, destaca o profissional com formação na área jurídica.

Nesta entrevista, João Paulo Monteiro falou ainda sobre como o futebol é benéfico para estes projetos, das ações realizadas pelos clubes europeus, e como se pode trabalhar a questão social sem fazer assistencialismo. Confira:

Universidade do Futebol – Por favor, nos descreva como é desenvolvido o trabalho da Social Team Brasil?

João Paulo – A Social Team Brasil é uma empresa social privada integrante da Social Team Internacional. Na Europa, ela já existe há 15 anos, e atualmente tem presença na América Latina, África e Ásia. E, nós, somos o braço no Brasil, que funciona há um ano. E é importante frisarmos que não somos uma ONG, associação ou fundação, somos uma empresa privada. Porém, não visamos apenas o lucro. Estamos em um lugar entre o segundo e o terceiro setor.

Somos um grupo de pessoas focadas na criação e desenvolvimento de negócios sociais para nossos clientes ou parceiros que queiram atuar na melhora dos problemas das comunidades. Criamos soluções inteligentes, viabilizamos projetos, sem depender da Lei de Incentivo. Não aceitamos doações e também não as fazemos. Somos uma agência de Responsabilidade Social. Nosso objetivo é resolver problemas sociais sem fazer assistencialismo.

Somos especializados no setor esportivo, mas a demanda tem feito com que nos tenhamos aproximado também da classe artística. Temos iniciativas ligadas ao Esporte e à Educação e parcerias com institutos como o Maurício de Souza, além de trabalhar com mais de vinte atletas, como o jogador Falcão, do futsal, o atacante Alexandre Pato, o lateral Daniel Alves, Ronaldinho Gaúcho, entre outros. E teremos como embaixador mundial o Messi no projeto Movimento Global pela Igualdade, uma iniciativa que será realizada em diversos países agora no segundo semestre.

Vencemos cinco Copas pelo talento e não pela organização e pela estrutura propiciada pelo governo. Espero que os próximos eventos esportivos sejam um estímulo a mudar este cenário, diz João Paulo

 

Universidade do Futebol – Qual o perfil dos profissionais envolvidos neste projeto? E dos beneficiários?

João Paulo – Somos um grupo de pessoas, não apenas profissionais formados em Harvard ou na USP. Na Social Team Brasil, há lugar para os mestres e doutores. Mas, eles sentam-se na mesma mesa do ex-jogador de futebol que fez apenas o ensino fundamental. Eu, por exemplo, sou um profissional da área jurídica, e conheci o trabalho da Social Team em uma viagem que fiz para a Europa.

Mas, para ingressar na nossa equipe, o que menos importa é a formação de cada um. O que importa é a pessoa e não os pré-requisitos. Todos têm liberdade para criar e tornar a ação em uma prática efetiva. Já em relação aos nossos beneficiários, cerca de 70% a 80% do público que atendemos são jovens e crianças.

O futebol tem tirado milhares de garotos das ruas, da criminalidade, das drogas. Veja o belo trabalho da Gol de Letra, da Fundação Cafu, apenas para citar dois casos. É uma vergonha o investimento que fazemos no esporte por aqui e a estrutura oferecida, aponta

 

Universidade do Futebol – Quais as principais barreiras que um projeto como o da Social Team Brasil enfrenta para obter parceiros e financiamento para suas ações?

João Paulo – Acredito que a principal barreira é o desconhecimento sobre o assunto. Existem poucas empresas que fazem isso no nosso país. Além disso, para este tipo de ação, todo mundo fala ‘Ah, eu não tenho tempo’. Por isso, optamos por trabalhar com as personalidades por trás dos projetos sociais. Acreditamos que desta maneira repercute muito mais na sociedade. Então, essas dificuldades são um entrave que nós temos aqui.

No entanto, confesso que estamos crescendo acima das expectativas no Brasil. Temos sido procurados por muita gente interessada em ajudar, em participar de algum projeto nosso ou mesmo com interesse de criar a sua própria organização social ou torná-la autossustentável. São muitas ações. Somente sob minha coordenação estão 11 projetos. E iniciamos uma agenda nova com o Corinthians e sua divisão de responsabilidade social. Então, no geral, estamos caminhando bem.

Para a Social Team, existem três importantes ferramentas para fomentar a inclusão social: a música, a tecnologia e o esporte

 

Universidade do Futebol – Como funciona esta parceria com o Corinthians? Além dele, existe mais algum clube brasileiro com projeto comandado pela Social Team?

João Paulo – O Corinthians atravessa um momento muito especial dentro e fora de campo. As pessoas que estão hoje conduzindo o clube também merecem muitos elogios pelos avanços nos últimos anos. E o que eu menos quero frisar aqui é a conquista de títulos dentro de campo. Isso, para nós da Social Team, é secundário.

O Corinthians é o único clube, ou melhor, a única marca do futebol brasileiro a figurar na lista da Revista Forbes. Está com um faturamento na casa dos R$ 400 milhões e o valor estimado de sua marca é de R$ 1 bilhão. Isso é resultado de muito trabalho de bastidores, de planejamento, de investimento em tecnologias, marketing e, não podemos esquecer, em responsabilidade social.

O Corinthians é um dos poucos clubes brasileiros que possui um departamento de responsabilidade social estruturado e já algumas importantes ações desenvolvidas. Nós estamos trabalhando em uma agenda integrada, com interesses comuns nos quais a Social Team ajudará o clube a ampliar ainda mais o alcance de seus projetos sociais e valorizar ainda mais sua marca.

O Corinthians é um dos poucos clubes brasileiros que possui um departamento de responsabilidade social estruturado e já algumas importantes ações desenvolvidas, afirma o diretor da empresa social

 

Universidade do Futebol – De que maneira a ideia da responsabilidade social voltada ao futebol se formou dentro da Social Team? O que a instituição busca nesse sentido?

João Paulo – Desde quando a Social Team nasceu. A empresa surgiu de uma privatização do braço esportivo da ONU [Organização das Nações Unidas]. Então, ela já foi criada dentro do segmento esportivo. O primeiro cliente da organização internacional foi o Ronaldinho Gaúcho, que era jogador do Barcelona na época. Desde o começo, percebemos que o esporte é o que mais inclui socialmente e o futebol é muito forte neste processo no Brasil. Mas, ainda sentimos uma série de carências.

Há mais ou menos 15 ou 20 anos, os clubes europeus começaram a criar suas fundações porque sentiam, nessas iniciativas, uma necessidade de devolver à comunidade todo o carinho que o povo lhes proporcionava. Barcelona, Real Madrid e Manchester United são exemplos de sucesso. Atualmente, a Fundação Barcelona, por exemplo, desenvolve projetos até mesmo no Brasil. O nosso país está, portanto, 20 anos atrasado. Nós desembarcamos no Brasil também para mostrar aos principais clubes como as responsabilidades social e ambiental representam um investimento com retorno garantido e não mais uma despesa como muitos ainda pensam.

Aqui sempre se viu essa questão da responsabilidade social como um gasto. Existe um equívoco dos dirigentes esportivos nesta abordagem. Esse é o calcanhar de Aquiles do futebol brasileiro. Vencemos cinco Copas do Mundo pelo talento e não pela organização e pela estrutura propiciada pelo governo. Espero que os próximos eventos esportivos sejam um estímulo a mudar este cenário.

Segundo Monteiro, uma fundação como a do Barcelona gera 10 milhões de euros por ano para os cofres do clube

 

Universidade do Futebol – Quais as características que um esporte como o futebol possui que são mais benéficas para um projeto social?

João Paulo – Atualmente, acreditamos na Social Team que existem três importantes ferramentas para fomentar a inclusão social: a música, a tecnologia e o esporte. O futebol, como esporte mais popular do mundo tem um papel relevantíssimo, especialmente no Brasil.

Se cada garoto pobre que pratica futebol possa ter à disposição também um bom atendimento à saúde, acesso à informação, atendimento psicológico e uma educação de qualidade, certamente, se não for um jogador profissional, coisa que poucos conseguem, será um cidadão melhor, um futuro profissional de outra área.

O futebol tem tirado milhares de garotos das ruas, da criminalidade, das drogas. Veja o belo trabalho da Gol de Letra, da Fundação Cafu, apenas para citar dois casos. É uma vergonha o investimento que fazemos no esporte por aqui e a estrutura oferecida. Há muito que avançar.

Quando fomos criar a Social Team no Brasil não encontramos nenhuma lei específica para a criação de empresas sociais no país, revela o profissional com formação na área jurídica

 

Universidade do Futebol – Como funciona o modelo de fundações sociais de clubes como Real Madrid e Barcelona? É possível construir algo similar nos clubes brasileiros?

João Paulo – Há quase 20 anos, os clubes europeus começaram a criar suas fundações, como já te disse. O Barcelona, por exemplo, por meio da sua fundação, apoia projetos e ações em todo o mundo, até mesmo no Rio de Janeiro. Além dos catalães, Real Madrid e Manchester United também são exemplos de sucesso neste assunto. Esse caminho deveria ser seguido pelos clubes no Brasil. Não tem segredo lá. O que existe é a vontade política em fazer as coisas acontecerem.

Uma fundação dessa como a do Barcelona gera 10 milhões de euros por ano para os cofres do clube. Qual jogador que ganha isso no Brasil? Porém, para se implantar um projeto deste perfil por aqui, é preciso contar com fatores como a seriedade e a transparência, que são inerentes a estas ações.

Na Alemanha, por exemplo, há uma competição em paralelo à Bundesliga, valendo dinheiro e tudo mais, na qual vence o clube que for melhor em questões como a responsabilidade social e ambiental. O campeonato premia quem economiza mais água, por exemplo. Então, essas iniciativas geram uma enorme economia nos clubes em dois ou três anos de participação. Para isso, no entanto, é necessário mentalidade e filosofia.

Além dos clubes, o próprio atleta pode rentabilizar com este segmento. Já vi um jogador receber 10% a mais em um contrato com uma fornecedora porque ele tinha uma fundação social.

Universidade do Futebol – No esporte, de que modo pode-se trabalhar a questão social sem decair no mero assistencialismo?

João Paulo – É difícil. Estimular o empreendedorismo não é fácil. Acredito que é preciso ter mais capacitação profissional nessas associações, pois falta apoio tanto da iniciativa privada quanto do governo. Para você ter uma ideia, quando fomos criar a Social Team no Brasil não encontramos nenhuma lei específica para a criação de empresas sociais no país. Então, não há uma legislação própria para o segmento. Acredito que isso já seria um incentivo do governo para se criar essas fundações fora do assistencialismo. Seria bem diferente do que só dar dinheiro.

Além disso, os principais fundamentos de um negócio social é que seja autossustentável sem depender de doações externas e que gere impacto social positivo. A Social Team não faz caridade, filantropia ou assistencialismo. Nós desenvolvemos e integramos projetos destinados a promover a inclusão social e a melhoria da qualidade de vida daqueles que mais necessitam.

Não pedimos dinheiro, procuramos não contratar com o poder público e, até agora no Brasil, ainda não precisamos receber recursos oriundos de leis de incentivo. Cada integrante da equipe Social Team que tem um projeto sob sua coordenação deve saber que precisa gerar ferramentas ou soluções para seu custeio sem pedir dinheiro. Todos são livres para criar produtos, projetos e campanhas que gerem recursos e tornem a ação autossustentável.

A Social Team Brasil tem iniciativas ligadas ao Esporte e à Educação e parcerias com institutos como o Maurício de Souza

 

Universidade do Futebol – Você acredita que é possível pensar a formação de jovens jogadores de futebol sem a criação de um programa que gerencie o crescimento pessoal, social e profissional de modo interdisciplinar?

João Paulo – Eu acho que isso é fundamental. No Japão, Estados Unidos, e Europa, já há estes tipos de programas. Trabalhos psicológicos, fisiológicos, com as famílias, enfim. Agora, pergunte se os clubes brasileiros estão preocupados com isso?

No Brasil, os clubes estão apenas interessados em formar jogadores de futebol. Porém, jogador da categoria sub-20 já anda com carro de R$ 100 mil e mora de aluguel. Isso é falta de orientação. Essa é a fase que os atletas precisam mais de atenção.

Um departamento de responsabilidade social dentro do clube ajudaria nesse processo. Os clubes deveriam ter essa responsabilidade, de integrá-los em ações de leitura, educação, entre outras. Isso pode até trazer parceiros para o clube. Então, não é gasto, é investimento. E os clubes precisam acordar para isso.

A Associação Pracatum, liderada pelo músico Carlinhos Brow, conseguiu integrar toda a comunidade através da música, relata

 

Universidade do Futebol – Também a partir de sua visão profissional e acadêmica particulares, de que forma o processo da educação auxilia no desenvolvimento do raciocínio, da criatividade e na compreensão dos fatores externos vividos pelas pessoas?

João Paulo – Acredito que totalmente. Nos últimos anos, o governo federal tem lançado no país programas como o Bolsa Família, que conseguiu retirar muitas pessoas da extrema pobreza. Mas, agora é preciso mais. Saneamento, educação, enfim. O Brasil só vai evoluir quando tiver um povo com conhecimento e educado.

Hoje em dia, você tem exemplos como a Coreia do Sul, onde o governo investiu muito em educação e hoje eles são a potência que são. Então, vejo a educação como fator fundamental neste processo de desenvolvimento.

No Brasil, os clubes estão apenas interessados em formar jogadores de futebol. Porém, jogador da categoria sub-20 já anda com carro de R$ 100 mil e mora de aluguel. Isso é falta de orientação, analisa

 

Universidade do Futebol – Em sua opinião, como liberar o potencial de jovens, para que estes fortaleçam suas comunidades, alavanquem o desenvolvimento e promovam mudanças?

João Paulo – Acredito que devemos dar o incentivo. O garoto precisa sentir que há essa oportunidade. Temos um exemplo bastante interessante em Salvador, onde oi criada a Associação Pracatum, liderada pelo músico Carlinhos Brow. Lá, eles conseguiram integrar toda a comunidade, mesmo o bairro sendo antigo e bastante pobre, através da música. E tudo por meio de escolas.

Então, penso que os jovens precisam ter uma oportunidade para desenvolver esse potencial. E o estímulo deve vir do poder público. O povo brasileiro é um dos mais empreendedores do mundo, mas ele precisa ter a chance de realizar o sonho.   

 

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