Universidade do Futebol

Entrevistas

04/02/2004

Joao Zanforlin

Cidade do Futebol - Como começou seu envolvimento com o esporte, mais precisamente com o futebol?               

João Zanforlin – Comecei em 1964 como repórter esportivo da Rádio Difusora de Piraju, cidade localizada no interior do Estado de São Paulo. O Piraju FC disputava a segunda divisão do futebol profissional do Estado. A minha função era a de fazer a entrevista no dia-a-dia e nos dias dos jogos. Também escrevia algumas matérias para dia o semanário ‘Folha de Piraju’.

                       

Cidade do Futebol - Em quais Copas do Mundo o sr. trabalhou?

Zanforlin – Trabalhei em todas as Copas de 1970 até 1998. Estive presente nas Copas de 78 na Argentina, 82 na Espanha, 94 nos Estados Unidos e 98 na França. Nas outras Copas trabalhei nos estúdios da Rádio Bandeirantes e TV Cultura, nas chamadas ‘salas de espera’

 

Cidade do Futebol - De todas essas, qual a melhor equipe brasileira e a melhor mundial que o sr. viu jogar? Qual Copa te agradou mais? Por quê?

Zanforlin – Curiosamente, a melhor equipe brasileira nem chegou às semifinais. Foi a Seleção de 1982. Os espanhóis chamavam-na de ‘seleção de outra galáxia’. Tecnicamente, a melhor Copa do Mundo foi a de 1970. A que mais me agradou foi a Copa da França: organização, interesse, presença de público e aquele charme que só francês sabe fazer. O país sabia que a festa era do futebol, bem diferente da Copa dos Estados Unidos em que americanos perguntavam por quê tinha tanta gente no país. O que estava acontecendo?

 

Cidade do Futebol - O sr. acredita que o Brasil conseguirá sediar a Copa de 2014?

Zanforlin – Acredito. Temos estádios que precisam de algumas reformas. Temos Estados que podem sediar grupos. Enfim, temos a paixão pelo futebol. Basta um pouco de boa vontade das autoridades brasileiras. O Brasil tem estádios melhores do que aquele onde a seleção foi desclassificada pelo Paraguai. Apenas para lembrar aquele estádio de Valparaíso foi sede do Grupo do Brasil na Copa de 62.

 

Cidade do Futebol - Na sua opinião, qual será a repercussão nos clubes e no futebol brasileiro como um todo do fiasco da seleção pré-olímpica?

Zanforlin – Nos clubes não haverá nenhuma repercussão. Pelo contrário. Eles nem queriam ceder os jogadores. No futebol quase nenhum efeito, pois a CBF já está dizendo que não pôde levar a melhor seleção. Kaká não foi liberado pelo Milan. O zagueiro Luisão também não e outros que tinham o lugar de titular. O maior prejuízo foi dos jogadores que estiveram lá. Voltaram desvalorizados e de cabeça baixa.

 

Cidade do Futebol - E seu envolvimento com o Direito, quando começou?

Zanforlin – Foi em 1972. Ainda não era formado e já comecei a defender alguns clubes e jogadores no Tribunal Desportivo da Federação Paulista de Futebol. Como se sabe não havia necessidade de ser advogado para advogar na Justiça Desportiva. Hoje, já é mais difícil, pois a OAB/SP pede ao Tribunal que dê preferência aos advogados habilitados. Em 1975 terminei o curso de direito e aí virei defensor diplomado.

 

Cidade do Futebol - Hoje em dia, como um dos mais atuantes advogados na área desportiva, o que o sr. pode nos dizer, de modo geral, sobre nossa legislação desportiva?

Zanforlin – É um samba do crioulo doido. Dêem uma olhada no site do Senado Federal e vejam quantas vezes a lei 9.615/98 (lei Pelé) foi modificada. Nenhuma legislação em qualquer lugar do mundo suporta tanta modificação, sem perder a sua essência. As últimas modificações foram absurdas. Criaram despesas sem receitas. Jogaram clubes na marginalidade sem respeitar a Constituição e o Código Civil. Tiraram o vínculo do atleta com o clube e o transferiram para os empresários. Elitizaram as despesas e popularizaram as receitas. Tiraram o poder dos dirigentes, mas não privilegiaram o saber.

 

Cidade do Futebol - As diversas e recentes modificações como o Estatuto do Torcedor e a chamada Lei de Moralização vieram para melhorar ou para atrapalhar?

Zanforlin – Foi coisa de quem sofre de furor legiferante. A lei do Estatuto do Torcedor é uma peça de ficção, a ponto de merecer uma charge num jornal gaúcho em que um torcedor que não gostava de futebol, queria ir ao campo para se proteger da violência e para consultar um médico, pois o Estatuto lhe garantia proteção policial e assistência médica, coisas impossíveis de acontecer nas ruas e nos hospitais. Nada disso era preciso. Bastaria recorrer ao Código de Defesa do Consumidor, vez que a lei Pelé já equiparava o torcedor ao consumidor. Hoje, os legisladores deveriam explicar aos torcedores o porquê do ingresso custar 20 reais. Forçosamente, teriam que dizer que neste preço estão embutidos os preços da segurança, dos orientadores nos estádios, das ambulâncias, dos médicos, das enfermeiras, dos alugueres dos banheiros químicos, da limpeza dos banheiros, do custo do ingresso, do custo da venda antecipada etc. E continua tudo igual. O guardador de carro cobra 10 reais para ‘olhar’ o seu carro. Quem não paga corre o risco de encontrar o carro com pneus vazios, lataria amassada ou arranhada e outras barbaridades. Lei de moralização. Toda lei que tem adjetivo, apelidada está. Por isso, não deve ser levada à serio.

 

Cidade do Futebol - E o novo Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), qual a sua primeira impressão sobre suas inovações?

Zanforlin – Tem coisas boas, como a tipificação dolosa dos delitos, como a punição severa do ‘cai-cai’, como a punição rigorosa dos usuários de doping, a eliminação da multa ao atleta (antes o atleta era multado, mas o clube é quem pagava), a conversão de penas em pagamentos de serviços e bens à sociedade. Mas, tem coisas ruins, como o valor das multas, o poder absoluto que tem o auditor de frequentar todas as dependências do estádio. Já tem auditor interpretando que tem livre acesso aos vestiários. Tem que ficar claro que o seu ir e vir é no local reservado às autoridades. Senão vai ter muita pancadaria, pois os seguranças que ficam nas portas de vestiários primeiro batem, depois perguntam.  Felipe, como diria um repórter, é o que há!

 

04/02/04

 

Comentários

  1. Tadeu disse:

    Gostaria de saber se tem como recorrer de uma partida, onde o trio de arbitragem chegou 55 minutos após o limite máximo de tolerância. Como seria pra elaborar um recurso e anular a partida? Muito Obrigado!!!

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