Geaf

28/08/2014

Jogo em circulação x Jogo direto

Uma das grandes discussões nos dias atuais do futebol e um dos dilemas enfrentados pelos treinadores no futebol de base é referente ao defensivismo motivado pela sensação equivocada da necessidade de resultados, pela insegurança na aplicabilidade de se jogar em passes curtos em circulação de bola e pela falsa sensação de segurança ao estimular os "chutões" em situações de pressão no campo defensivo, dando-lhe a equivocada alcunha de jogo direto.

Deixando de lado um pouco as questões referentes à aprendizagem e cognição (como se fosse possível), a segurança percebida pelo treinador de base, ao coibir qualquer tentativa de saída de bola com circulação (pé em pé), no momento em que o adversário pressiona desde a saída de bola, implica em sensação de insegurança, pela possibilidade de erro do jovem atleta. Este por sua vez passa a entender que a alternativa para não ser "cobrado" ou "julgado culpado" por uma possível falha seja o "chutão" com intuito de "passar a responsabilidade" para outrem, seja adversário ou colega de equipe.

O chutão, neste sentido, não pode ser confundido com o jogo direto. O jogo direto se caracteriza como uma estratégia definida de buscar o campo ofensivo com passes longos direcionados, seja no espaço vazio ou mesmo para o atacante central de costas para os defesas. Sendo assim, jogar em circulação é o jogo em passes curtos ou médios em que se busca encontrar as falhas no sistema defensivo adversário em um jogo predominantemente em amplitude. Vejam bem, não disse obrigatoriamente.

A partir deste contexto, como devemos pensar o processo de formação?

No torneio sub 17 "Future Champions", na edição 2010 em Belo horizonte, duas equipes chamaram a atenção, tanto o poderoso Barcelona, quanto o sul-africano Mamelod Sundowns, mesmo com marcação pressão, não abdicaram do jogo em circulação desde sua meta defensiva, sem mostrando bem confiantes ao saírem das referidas situação-problema. Em momento algum, seus treinadores demonstraram o desespero presente em muitos treinadores de base aqui no Brasil, muito perceptível quando suas equipes são pressionadas e demoram a "passar a responsabilidade".

Referente a isto, podemos e precisamos entender que o "como ganhar" faz toda diferença no processo de formação. Entender o jogo para poder vencê-lo é fundamental, mas os caminhos que tomamos para executá-lo define qual o perfil de atleta que queremos, qual a "qualidade" do jogo que pretendemos para nosso futebol de base e, com certeza, para o futebol profissional.

Ainda podemos mencionar que no processo de formação o erro precisa ser permitido, aceito, tolerado mas não como motivo de acomodação. Errar um passe no campo defensivo não pode ser motivo de gritos ou "xingamentos", mas oportunidade de aprendizado, de entendimento do jogo, seus conceitos, e para aquisição de princípios pertinentes no desenvolvimento do jogar a que pretende o treinador para a equipe. Claro, não podemos nos confundir, o modelo não pode ser maior que o jogo. O modelo é de jogo, pelo jogo e para o jogo. Assim, e reforçando, o entendimento do jogo é a matriz de todo o processo para entendimento do modelo de jogo, mas é no desenvolvimento deste modelo que colocamos nossas intenções de adaptação aos atletas.

Sendo assim, estimular a saída curta, os passes curtos mesmo em situação de pressão, pode ser um valioso incremento na autoconfiança desportiva, nas aquisições cognitivas e com certeza na formação de um atleta de alto nível para o futebol.
 

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