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18/02/2019

Jogo não é guerra

“Joguei sem saber como estava a minha família. Minha esposa e minha filha vieram ao jogo, e eu não sabia se estava tudo bem. Precisamos minimizar essas coisas para o bem do esporte”.

A declaração de Danilo Barcelos, autor do gol da vitória do Vasco por 1 a 0 sobre o Fluminense no último domingo (17), é o melhor resumo do clima que permeou o clássico decisivo da Taça Guanabara, equivalente ao primeiro turno do Estadual do Rio de Janeiro. Não havia ambiente para um jogo decisivo: o que existia entre os cariocas era um misto de tensão, medo, guerra e reações exacerbadas por uma sequência de decisões e declarações. O futebol perdeu, e isso é extremamente representativo para o atual momento do Brasil.

A celeuma em torno do clássico começou na sexta-feira (15), quando Fluminense e Vasco tiveram reunião na Ferj (Federação Estadual do Rio de Janeiro) para debater o plano de ação para a decisão. Houve um sorteio, e os cruzmaltinos ganharam o mando de campo da partida.

Com base nisso, o Vasco pediu para ficar no lado azul do Maracanã, área que sua torcida ocupou de 1950 a 2013. Desde então, como o consórcio responsável pela gestão do estádio fechou apenas com Flamengo e Fluminense, o time tricolor estabeleceu em contrato que o uso do estádio estava condicionado à primazia de usar o setor.

A diretoria do Fluminense, portanto, recorreu ao contrato de gestão do estádio e rechaçou o pedido do Vasco. No entanto, os responsáveis pelo Maracanã alegaram que a equipe das Laranjeiras tem atrasado pagamentos – e descumprido o contrato, por consequência –, e deram razão aos cruzmaltinos, com quem ainda tentam alinhavar um novo acordo.

No sábado (16), véspera da partida, o Fluminense conseguiu uma vitória na Justiça: uma determinação para que o clássico fosse realizado com portões fechados, sem que nenhuma das equipes ocupasse o setor azul. A decisão liminar motivou outra reunião entre clubes e Ferj, e o Vasco, apoiado pela Polícia Militar, assumiu o risco de pagar uma multa para fazer o clássico com portões abertos – mais de 20 mil ingressos haviam sido comercializados, afinal.

A menos de uma hora do início da partida, contudo, a Justiça ignorou a postura do Vasco e emitiu nova determinação para que os portões fossem fechados. E os torcedores que já tinham ingressos, em meio a essa guerra de liminares, se aglutinaram nas imediações do estádio.

A situação gerou revolta entre torcedores que estavam perto do Maracanã e tinham ingresso. Houve confrontos envolvendo a polícia, e cerca de 30 pessoas tiveram de ser atendidas por médicos de plantão no estádio – a maioria por efeito de gás lacrimogêneo.

Diante da confusão, o Jecrim (Juizado Especial Criminal), que havia bancado o fechamento dos portões, resolveu concordar com o parecer da Polícia Militar e permitir a entrada do público. Tudo isso sem que os torcedores do Fluminense estivessem presentes, é claro, e depois de uma parte considerável dos vascaínos ter desistido.

Todo o processo de batalha nos bastidores foi acompanhado por declarações extremamente infelizes dos presidentes dos dois clubes. Pressionados internamente, Alexandre Campello (Vasco) e Pedro Abad (Fluminense) nada fizeram para aplacar a animosidade gerada. Em vez disso, jogaram apenas mais gasolina.

“O Pedro Abad chamou a torcida para a guerra, e isso foi sanguinário”, disse André Valentim, procurador-geral do TJD-RJ (Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro), em entrevista ao UOL Esporte.

Também em contato com o portal, o ex-presidente do Atlético-MG e atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (Podemos), afirmou que “estádio é para rico”. “Pobre assiste pela televisão. Isso é discriminação? Não. Eu fui assistir ao futebol americano num estádio que não era coberto, que se estivesse chovendo eu estava molhado, num frio de 1ºC, e paguei US$ 500. Não tinha lugar para uma mosca sentar”, completou.

A lógica de gentrificação de Kalil é apoiada no conceito de que a receita de match day é um pilar importante no faturamento de uma instituição esportiva. Portanto, é melhor ter o estádio cheio de gente que pague muito para entrar e que tenha condição de consumir no interior. Funciona em grandes ligas esportivas pelo mundo, como a NBA (basquete), a NFL (futebol americano) e até as principais competições de futebol da Europa.

Kalil esquece, entretanto, de algumas características bem específicas do mercado brasileiro. O futebol, para começo de conversa: trata-se de uma seara extremamente popular em âmbito nacional, e historicamente funcionou como um ambiente para ignorar diferenças de classe que o país não conseguia reduzir.

O futebol no Brasil sempre foi um bem do povo. É isso, aliás, que justifica tanto investimento público na modalidade ao longo das últimas décadas. Atletas, clubes, federações e confederação sempre tiveram respaldo de políticas voltadas ao bem-estar social porque sempre foram parte fundamental da sociedade – e não apenas de uma parcela.

Outro ponto é que o futebol brasileiro, como produto dentro e fora de campo, não está preparado para atender o segmento premium. Não é que o pobre ou que o consumidor com menos condição tenha de receber um tratamento pior, mas essa estrutura atual, com tanta desorganização e a violência que muitas vezes decorre da própria estrutura viciada, acaba atraindo um tipo muito específico de público. E o elã desse público específico não é a vontade de consumir produtos oficiais no interior do estádio ou o desejo de curtir um bom programa cultural com família ou amigos.

Para ser um produto “de rico”, o futebol brasileiro precisa entender com quem concorre. Não adianta olhar apenas para a estrutura de jogos em outros países, mas para a realidade local: o esporte perde público para o cinema, para o teatro e para outras atrações culturais, como shows e outros eventos. O orçamento das famílias é limitado e não comporta todas as opções existentes.

O futebol também concorre com o conforto de casa e com a profusão de produtores de conteúdo – Amazon Prime, Globoplay e Netflix, apenas para citar alguns. E todos eles cobram menos do que o ingresso de uma grande partida.

Kalil tem razão apenas em um aspecto: é imprescindível que o futebol brasileiro tenha uma estratégia clara para captação de público, e esse planejamento não precisa ser “para o estádio” ou “para a TV”. Ao contrário: é fundamental que os clubes trabalhem para cativar diferentes perfis de público, com diferentes hábitos de consumo de informação.

Contudo, nada disso vai acontecer enquanto os próprios dirigentes se sabotarem. Nada disso vai acontecer enquanto o futebol brasileiro não tiver o mínimo, que é a capacidade de organizar partidas e de entender o que realmente é relevante. A maior vergonha de toda a história da decisão entre Fluminense e Vasco é saber que pessoas correram risco real apenas por causa de um setor de estádio. Se isso não é sinal de maturidade em um nível assustador, não sei o que poderia ser.

 

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