Universidade do Futebol

Alcides Scaglia

17/05/2009

Jogos para o ensino do futebol na iniciação I

Quando ainda estava na graduação, lembro-me das brigas contra os “livros de receita”. Livros de receitas, para quem não sabe, são obras que se preocupam apenas em levantar certa quantidade de jogos para serem aplicados no ensino de algum esporte.
 
Sendo assim, muitos livros que eram (e ainda são) lançados com títulos como “1003 jogos para ensino do futebol”… Esses livros marginalizados pela academia eram excluídos de qualquer bibliografia de disciplina que se dizia séria e renovada.
 
Hoje, mais do que antigamente, entendo os motivos da repulsa a esse tipo de livro técnico. Contudo, deixando o academicismo um pouco de lado, apesar de entender, não concordo plenamente.
 
E isso acontece pelo simples fato de que alguns exemplos podem facilitar o entendimento sobre como aplicar a pedagogia do esporte renovadora, pois ao se propor uma ruptura total com o método tecnicista (até então o único utilizado), é preciso mostrar por onde começar; como dar os primeiros passos, ou seja, as primeiras aulas seguindo uma nova metodologia.
 
Ou seja, é preciso na educação física e nos esporte (em que o futebol está incluído) se iniciar um processo de facilitação da aprendizagem. Para que se possa mais facilmente se visualizar a teoria em prática.
 
Portanto, abaixo listarei alguns jogos que podem ser aplicadas ao longo do processo de iniciação. Esses jogos são organizados a partir dos fundamentos (temas de aula) do jogo de futebol.
 
Não se esquecendo que o jogo de futebol não é feito apenas de fundamentos (movimentos técnicos) – a relação com a bola é uma das competências essências do jogo. Desse modo, o professor precisa ao desenvolver esses mesmos jogos se preocupar em facilitar a aprendizagem da estruturação do espaço e da comunicação na ação, tratando-as na perspectiva das competências gerais em sua periodização do processo de iniciação.
 
Outro ponto que não pode deixar de ressaltado é o fato de que os jogos de bola com os pés apresentam a necessidade de utilização de mais de um fundamento do jogo; logo estes podem ser utilizados para o desenvolvimento de mais de um fundamento contextualizado no jogo, ficando a cargo do professor dar mais ênfase ao fundamento que deseja desenvolver a cada momento de seu planejamento e periodização (valorizando as competências gerais).
 
Porém, é exatamente nesse momento que o conhecimento mais aprofundado sobre o método vai mostrar que com apenas uma matriz de jogo posso criar inúmeras variações, de modo a atingir plenamente os objetivos de diversidade do processo de iniciação.
 
Assim a metodologia de esportes desenvolvida por meio de jogos contextualizados exigirá muita criatividade do professor na elaboração de mais variações, adaptando-se, por exemplo, brincadeiras de rua (ou mesmo do rico universo de nossa cultura lúdica mais ampla) para o contexto da aula e do futebol, o que mostra que as “receitas” de jogos prontos apenas ajudarão no inicio, pois todo o mais dependerá do professor, e sua interação com seus alunos e suas necessidades.
 
Depois dessa importante reflexão, vejamos alguns exemplos de jogos pertencentes à família dos jogos de bola com os pés, os quais foram coletados já há algum tempo para a realização de uma das minhas monografias de graduação:
 
Finalização:
 
Gol a gol: atividade em que dois alunos ficam nos gols e tentam marcar gol um no outro chutando de longe, pois, além de tentar fazer o gol, o aluno deve proteger o seu. Variações: podem ser feitas no tocante ao número de alunos no jogo, dois ou no máximo três em cada gol. Se o professor só tem à sua disposição um campo, ele pode se valer de estacas ou cones para construir pequenos campos, para que todos os alunos participem da brincadeira, sem ficar nenhum aluno esperando vez.
 
Controle: os alunos, no máximo seis em cada gol, devem controlar a bola três vezes antes de poder chutá-la ao gol, ou seja, os alunos sem deixar a bola cair no chão trocam passes sendo que depois do terceiro chuta-se ao gol, também sem deixar a bola cair. Variações podem ser realizadas aumentando-se o número de controles, ou mesmo diminuindo e permitindo um quique no chão se o grupo de alunos não possuir ainda muita habilidade referente ao controle aéreo da bola.
 
Rebatida: jogam-se dois contra dois, sendo que dois alunos ficam no gol e os outros chutam. Os que estão chutando têm direito de efetuar três chutes cada, depois troca-se; os goleiros vão chutar e os chutadores vão para o gol. Se o goleiro der rebote, ou a bola bater na trave, os chutadores podem pegar a bola e tentar fazer o gol driblando os goleiros. Variações podem ser feitas determinando valores, pontos extras, para as rebatidas, por exemplo: bola na trave (lateral) vale três pontos, bola no travessão (superior), cinco pontos, escanteio, dois pontos, rebatida do goleiro, dois pontos, vértice das traves, 10 pontos, gol direto, um ponto.
 
Saída com atraso: formam-se duas filas, uma um pouco à frente da outra. A bola fica na fila que está mais à frente, o aluno sai conduzindo a bola em direção ao gol, outro aluno sai sem bola, da fila que se posicionou mais atrás, procurando alcançar o aluno com bola para tentar desarmá-lo, desse modo cria-se uma situação de jogo 1 X 1 mais o goleiro; ao final, os alunos trocam de fila. Variações podem ser feitas aumentando-se a distância entre as filas, aumentando o atraso.
 
Passe
 
Bobinho: forma-se um círculo e no meio fica um aluno, o bobo; este deverá tentar roubar a bola dos alunos que estão no círculo, enquanto eles trocam passes. Variações podem ser efetuadas determinando-se números limites de toques na bola, três, dois, um (de acordo com o desenvolvimento e estágio que os alunos se encontram); ou não deixar que o círculo abra; o bobinho encostou na bola já sai (não precisando dominar a bola), etc… O objetivo deve ser facilitar o jogo para o bobo e dificultar para os que estão na roda, exigindo uma maior organização (estruturação do espaço e comunicação na ação), além de precisão na execução do passe (relação com a bola).
 
Passe dez: dividem-se os alunos em dois times; um time fica com a bola e tenta trocar dez passes, enquanto que o time adversário tentar impedir e roubar a bola. Cada dez passes consecutivos efetuados um ponto é marcado. Se a equipe adversária roubar a bola, ela passa a tentar alcançar os dez passes.
 
Inúmeras são as variações, as quais podem ser feitas aumentando ou diminuindo o número de passes, e as limitações de toque, bem como a dimensão do campo. Este é um das mais importantes matrizes de jogo, que podem com as variações possível originar inúmeras outras situações para o aprendizado e aperfeiçoamentos das competências essenciais dos jogo, tanto na sua manifestação geral quanto na específica.
 
Passe cruzado: dois alunos, um de frente para o outro com uma bola, começam a trocar passes; outros dois alunos com outra bola, também de frente um para o outro, tentam interceptar a bola dos alunos que estão efetuando os passes com outra bola, ou seja, os quatro jogadores ficam dispostos na forma de cruz e o jogo necessita de duas bolas. Dois trocam passes e outros dois tentar acertar a bola no meio do caminho, fazendo as bolas se chocarem. Variações podem ser feitas contando-se o número de passes que os alunos conseguem realizar sem que os outros acertem sua bola.
 
Controle de bola
 
Campeonato de embaixadas: cada aluno com uma bola fica tentando realizar um número máximo de embaixadas; o que conseguir mais, vence. Variações podem ser realizadas aumentando ou diminuindo o tamanho da bola, ou mesmo construindo campeonato por equipes, onde se vai somando a quantidade que cada aluno consegue executar.
 
Fut-volei ou tênis-bol: jogo de vôlei adaptado para o futebol (com a rede mais alta) ou mesmo jogo de tênis adaptado para o futebol (com a rede mais baixa), onde os alunos não podem deixar a bola cair no seu campo e devem fazer a bola passar para o campo adversário por sobre uma rede. Variações podem ser feitas aumentando ou diminuindo o tamanho da bola, do campo, e dos jogadores.
 
Desafio de toques: os alunos são divididos em pequenos grupos e, sem deixar a bola cair no chão, efetuam trocas de passes aéreos. Uma variação possível (além do tamanho da bola) acontece quando os alunos devem na primeira rodada fazer a bola passar por todos os alunos, efetuando-se apenas um toque na bola; depois, na segunda rodada, dois toques, na terceira, três, e assim sucessivamente, até o máximo que o grupo conseguir.

Cestobol: com cestos de lixo ou similares, constroem-se alvos que devem ser acertados pelos alunos. As cestas e os alunos devem ser distribuídos no campo, para que um não atrapalhe o outro e todos possam realizar muitas tentativas. Variações podem ser obtidas através do uso de bolas com pesos e tamanhos diferentes.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

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