Universidade do Futebol

Artigos

19/07/2015

Jogos reduzidos: uma possibilidade a se explorar

No âmbito do futebol, a metodologia de treinamento torna-se algo determinante para a melhoria do desempenho em relação à parte técnica, tática e física, na qual sua aplicação sistematizada possibilita diversos benefícios para alcançar objetivos bem definidos. Por isso o conteúdo de treinamento tem sido um fator muito exigido no meio esportivo atual, pois sua importância remete a uma visão ampla e complexa, permitindo uma elaboração metodológica criativa e estruturada.

Sendo assim os jogos reduzidos caminham como algo interessante em relação ao futebol, é um método bastante utilizado pelos técnicos e preparadores físicos brasileiros e estrangeiros, pois sua finalidade é proporcionar um jogo mais dinâmico e elaborado, criar situações inteligentes de ataque e defesa, permitir um contexto mais estruturado, priorizar o pensar, e não restringir a técnica somente à execução perfeita de um movimento específico para o jogo, mas ao conjunto dos modos de fazer que se faz necessário à sua prática; e a tática não se reduz ao sistema de jogo definido, mas as razões do fazer que orientam as ações exigidas pela própria situação. A técnica não existe sem a tática e vice-versa. O que deve ser feito em uma situação de jogo (a técnica) é demandado pelas exigências da situação (a tática) define Garganta, (1995).

Nesse contexto Garganta (1995) destaca quatro fases de desenvolvimento das habilidades essenciais do jogo que devem nortear o processo de aprendizagem dos alunos: 1) anárquica, 2) descentração, 3) estruturação, e 4) elaboração; No qual as mesmas dependem não somente do nível técnico dos praticantes, mas de três variáveis indissociáveis: a) a comunicação entre os jogadores, b) a estruturação no espaço de jogo, e c) a relação com a bola. Assim a forma mais simples de jogo, a anárquica, faz com que os praticantes se aglutinem em torno da bola, não utilizem de maneira adequada os espaços do campo, movimentem-se apenas em torno da bola e comuniquem-se de forma verbal para solicitá-la. Através dos jogos pode-se fazer com que os alunos compreendam suas fases e características a fim de executar ações mais inteligentes.

Ainda Garganta (1995) define a forma mais elaborada de jogo que é citado como a última fase de seu processo, prevê praticantes com melhor relação com a bola, os quais, mesmo sem a posse dela, se movimentam taticamente pelo espaço de jogo, sem tanta necessidade da linguagem verbal quando se trata de pedir a bola. A comunicação e a movimentação inteligente não só de jogador para jogador, mas do grupo como um todo. Além disso, Bayer (1994) sistematizou a ideia de esporte coletivo a partir de suas invariantes que contribuem bastante aos jogos, sendo seis princípios operacionais, três de ataque e três de defesa, são eles: situação de ataque 1) conservação da posse de bola; 2) progressão da bola e da equipe em direção ao alvo adversário; 3) finalização em direção ao alvo; situação de defesa 1) recuperação da posse de bola; 2) contenção da bola e da equipe adversária em direção ao próprio alvo; 3) proteção do alvo.

Para Bayer (1994), os praticantes sempre realizam um ou mais princípios, e existem vantagens dentro de sua perspectiva, onde a primeira evita a especialização precoce em uma modalidade esportiva, buscando o conhecimento da estrutura de todas elas, e a outra estimula os praticantes a compreender a dinâmica tática do jogo, procurando ações mais inteligentes para a solução das situações-problemas que surgem no jogo. Para realizar com êxito os princípios operacionais, Bayer define as regras de ação, ou seja, as necessárias à consecução de determinados objetivos. Por exemplo: a fim de fazer a bola progredir ao ataque, e chegar mais próximo ao alvo adversário, os praticantes devem criar ações de circulação da bola, para que esta chegue rapidamente ao ataque, além de tentar com essa circulação, confundir a marcação da defesa adversária. Para fazer a bola circular rápida e objetivamente, os jogadores também precisam de uma movimentação inteligente, não somente em direção à localização da bola, mas prevendo onde ela estará nas jogadas seguintes.

Para tanto há também a participação dos jogos reduzidos na preparação física, onde os mesmos podem gerar movimentações mais intensas e com infiltrações no meio da marcação com vantagem numérica do ataque e marcação forte dos defensores no 2X2, 3X3, 4X4, 3X2 4X3 etc. Com isso, podemos trabalhar o deslocamento coletivo de ataque e defesa para outras áreas demarcadas, enfocando a transição e apoio em relação ao homem da posse de bola no 3X1, 4X1, 5X2, priorizando intensidades elevadas e pausas relativas a uma partida.

Entretanto não podemos nos restringir ao desenvolvimento desses aspectos supracitados apenas aos jogos reduzidos, é necessária também para a parte técnica a utilização dos métodos tradicionais, ou melhor, à aplicação do modelo analítico (treino descontextualizado do jogo) onde as ações isoladas possibilitam desenvolver a biomecânica adequada de um gesto técnico, seja na inclinação do tronco para trás ou frente para uma recepção no peito, no uso dos membros superiores para uma disputa aérea de bola, nos deslocamentos laterais e costas para alcançar a bola, visando sempre uma maneira correta dos movimentos e melhora postural específica do praticante do futebol, porém com muita atenção e cuidado, pois muitas vezes não recebemos a bola sem a pressão da marcação, não a recebemos “redondinha” e parado para dominar na coxa, peito ou cabeça. No contexto da preparação física devem-se existir os trabalhos sem a bola para desenvolvimento da potência, com a utilização dos métodos intervalados, caracterizados por estações específicas, tais como: a utilização do treinamento pliométrico, trabalho tracionado, método complexo, levantamento de peso olímpico e movimentações de frente, trás e lateral específicas do futebol que priorizem a aceleração e desaceleração. Em relação à organização tática, pode se destacar a elaboração de um contra-ataque, uma jogada de bola parada, um trabalho de finalização e entre outros aspectos que não são contemplados nos jogos reduzidos.

Portanto devemos destacar os jogos reduzidos como uma possibilidade de melhor atuação no futebol, principalmente para melhorar a aplicação no desenvolvimento e aprofundamento dos três fatores que fundamentam o jogo: a técnica, a tática, e a física. Há também uma grande contribuição dos jogos em relação a criar situações inteligentes de defesa e ataque, as quais têm como principal característica o pensar para se jogar. Contudo vale ressaltar que os jogos reduzidos não serão o “santo milagreiro”, o “super-herói” no futebol, mas podemos incluí-lo para ações complexas em certas situações de uma partida, principalmente quando se possibilita ações de compreensão e estruturação de jogo, onde a movimentação e ocupação dos espaços vazios se dão com e sem a bola, de maneira individual e coletiva, para assim conseguir atingir um objetivo proposto de ataque (fazer o gol) e defesa (não levar o gol).

Referências bibliográficas:

BAYER, Claude. O ensino dos desportos colectivos: Dinalivros, 1994.
GARGANTA, Júlio. Para uma teoria dos jogos desportivos colectivos. In: OLIVEIRA, Júlio; GRAÇA, Amândio. O ensino dos jogos desportivos. 2. Ed. Porto: Universidade do Porto, 1995.
GRECO, Pablo J. (Org.). Iniciação esportiva universal: metodologia da iniciação esportiva na escola e no clube. Belo Horizonte: UFMG, 2007.volume 2.

Comentários

Deixe uma resposta