Universidade do Futebol

Entrevistas

23/10/2009

José Melquíades Ursi, filósofo

Tentar explicar como são concebidos os maiores representantes do esporte bretão e oferecer algumas lições que nos fazem viver melhor promovidas pela apaixonante modalidade: essa é a proposta do livro “Como nascem os Deuses da Bola”, do professor José Melquíades Ursi.

Nascido na cidade de Jaguatipã, região norte do estado do Paraná, o escritor possui formação em Filosofia Pura, Ciências Sociais e Pedagogia. Um pouco de cada habilidade nessas áreas específicas, agregada à condição de futebolista semi-profissional – no ano de 1969 foi jogador do Jandaia E.C, por quem conquistou o Campeonato Paranaense da segunda divisão -, renderam à Ursi a condição de traduzir em palavras algumas de suas sensações em relação ao futebol.

“A nossa mistura racial proporcionou a alegria e a criatividade, e não levamos em conta isso muitas vezes para observar a forma como nosso jogo é concebido. O brasileiro geralmente improvisa ou dá um jeito de refazer uma situação quando se vê em dificuldade”, explicou o filósofo nesta entrevista à Universidade do Futebol.

Ele se aventurou a publicar a obra em 2006, ano em que foi disputada a última edição da Copa do Mundo, na Alemanha. Mas a fertilidade de um ambiente por conta desse evento esportivo, a qual promove um emaranhado de produções literárias tendo como foco central a bola, não colocou em xeque a qualidade do produto final. Muito pelo contrário. Justamente por não se tratar de um “aventureiro de plantão”, Ursi recebeu o aval de Juca Kfouri, jornalista que assina o prefácio.

Editor do jornal bilíngue Informativo Unicon – primeiro jornal de Itaipu, criado em 1978 -, do primeiro ao último número, Ursi ainda efetuou publicações voltadas à moral e ao civismo, além de ter composto crônicas e poemas. Seu encantamento, entretanto, é conduzido mesmo pela paixão futebolística.

Em “Como nascem os Deuses da Bola”, todas as histórias oferecem a representação da vida, sob um ponto de vista mais lúdico, plástico, sem fugir da responsabilidade. Amparado pela Filosofia, o autor expressa essa vivência a partir do olhar para as circunstâncias, associadas aos lugares por onde cada indivíduo passou e à forma como o mesmo vivencia o tempo. Dessa forma, atingem-se os níveis mais densos de elevação humana e espiritual.

“A história de vida de uma pessoa influencia na forma de ela jogar. Para alguns, você não pode pressionar, senão ele se esconde. Já para outros, há uma reação sob críticas da imprensa, da comissão técnica. É muito relevante o conhecimento de cada integrante. E é algo muito profundo. Tanto que os grandes treinadores são os que têm essa capacidade de compreensão humana”, argumentou Ursi.

Universidade do Futebol – Fale um pouco sobre sua formação acadêmica e o ingresso dentro da esfera futebolística, por gentileza.

José Melquíades Ursi – Eu sou formado em Filosofia Pura, em Ijuí-RS (Unijuí), e em Ciências Sociais e Pedagogia, na Faculdade de Jandaia do Sul, no Paraná.

Trabalhei em Itaipu durante dez anos, quando fiz o jornal bilíngue Informativo Unicon, do primeiro ao último ano da produção.

Também fui professor em uma escola estadual no Paraná até 1988 e me afastei após um episódio do governador da época, o Álvaro dias, que me chateou*.

Em meados de 1969, quando tinha por volta de 20 anos, atuei como atleta pelo Jandaia E.C, time da cidade que disputava a segunda divisão do Campeonato Paranense, e até fui convidado para me profissionalizar pelo Grêmio Maringá, mas não tive interesse e segui em minha trajetória acadêmica.

*Os professores estaduais estavam em greve desde o dia 5 do mês de agosto de 1988 e reivindicavam o respeito ao piso de três salários mínimos. Tal direito fora conquistado na greve de 1986, mas havia uma recusa por parte do governo Álvaro Dias (na época, PMDB). Para forçar uma solução rápida, a categoria ocupou a Assembléia Legislativa no dia 15.

Em 30 de agosto daquele ano, então, foi realizada uma imensa passeata de professores, pais e alunos até o Centro Cívico de Curitiba para tentar a abertura das negociações. Lá, os manifestantes foram impedidos de entrar na praça Nossa Senhora de Salete com carro de som. Em seguida, os grevistas armavam barracas para formar um acampamento, as quais foram desmontadas pela polícia.

A revolta do movimento com o inicio dos confrontos levou os professores a se concentrarem em torno do elevado na frente da Assembléia Legislativa. Em meio às palavras de ordem, lideranças foram chamadas por representações do governo para iniciar negociações. No momento em que o comando de greve deixou o elevado, houve uma repressão da PM, que expulsou os demais manifestantes – cavalaria e bombas de efeito moral foram utilizadas.

No dia seguinte, por medida judicial, os grevistas retiraram-se da Assembléia Legislativa. A greve perdurou por mais vinte dias pelo mês de setembro. Até hoje a data é relembrada como o ‘Dia de Luto e Luta dos Trabalhadores da Educação Pública’.

Universidade do Futebol – O título do seu livro contém uma representação atribuída ao jogador de futebol brasileiro. Como nasceu essa expressão?

José Melquíades Ursi – Eu vi uma entrevista do Shevchenko [Andriy, atacante da seleção ucraniana e do Dynamo de Kiev], quando atuava pelo Milan**, e ele elogiava muito na época a qualidade do Ronaldinho Gaúcho, perguntando-se que país era aquele, em referência ao Brasil, que gerava um craque atrás do outro.

Foi aí que me recordei naquele momento de uma história contada por um amigo meu que trabalhava em uma grande empresa italiana. Seria feito um jogo entre funcionários no campo do Milan, o San Siro, e nessa empresa os funcionários trabalhavam de terno e gravata.

Naquele dia específico, por conta da ocasião festiva e esportiva, esse meu amigo foi mais à vontade, de bermuda e camiseta, e ficou se “escondendo” do chefe. O diretor da empresa, então, dirigiu-se a ele minimizando esse fato, e falou a seguinte frase: “você pelo jeito vai ver o jogo dos brasileiros. Eu vou ver também, porque nós, italianos, somos bons de bola, mas os deuses são vocês”. E assim nasceu o título.

**Schevchenko teve duas passagens pela equipe italiana. A primeira, entre os anos de 1999 e 2006, período referido pelo autor, e depois na última temporada, após defender o Chelsea, da Inglaterra.

Com a camisa rubro-negra, anotou 127 gols em 225 jogos.


Andriy Schevchenko: “Ronaldinho Gaúcho é um gênio. E eu me pergunto: que país é esse que produz um gênio atrás do outro?”

Universidade do Futebol – O senhor chegou a atuar em um clube paranaense pela segunda divisão estadual. E diz na contracapa de seu livro que foi preciso começar a escrever para sentir mais de perto alguns encantos do futebol que te passaram despercebidos. Por que?

José Melquíades Ursi – A minha impressão é de que estamos tão habituados a observar a forma de o jogador brasileiro atuar que não prestávamos a devida atenção em alguns detalhes particulares do mesmo. No momento em que houve uma saída em grande número de atletas, especialmente jovens, para outros países, tudo ganhou uma nova dimensão.

Eu via uma forma de ressaltar a criatividade do brasileiro em todas as áreas, esfera que muitas vezes não é muito valorizada. No discurso do presidente Lula, em Copenhague [durante a confirmação da vitória da candidatura do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016], ele comentou sobre esse “DNA universal” do Brasil, algo que eu também cito na obra.

A nossa mistura racial proporcionou a alegria e a criatividade, e não levamos em conta isso muitas vezes para observar a forma como nosso jogo é concebido. O brasileiro geralmente improvisa ou dá um jeito de refazer uma situação quando se vê em dificuldade.

Em Itaipu, inclusive, no meu trabalho, percebi isso. Havia caminhões fabricados nos Estados Unidos e na Suécia, e eles eram dirigidos pelos funcionários. E um dos técnicos suecos que trabalhavam lá se disse impressionado com o fato de em seu país haver a necessidade de um curso para efetuar esse procedimento. Enquanto os brasileiros, “naturalmente”, subiam nas máquinas e as dirigiam de prontidão.

No livro, também apresentei uma passagem sobre uma entrevista de uma brasileira que se mudou da Rocinha, no Rio de Janeiro, e foi morar na Alemanha. Ela presenciou que havia discriminação contra os negros e imigrantes e resolveu se candidatar a vereadora após a naturalização. E comentou o grande aprendizado que teve na própria comunidade, motivo pelo qual concorreu ao cargo político: “para o brasileiro, o impossível não existe”.

“Aprendi na Alemanha que quase tudo é impossível por aqui [na Alemanha]. É da educação deles não valorizar o que os filhos fazem de bom e de diferente. Então os filhos tomam tudo como difícil, o que para nós pode parecer brincadeira a resolver. Aprendi com isso que para nós brasileiros não existe a palavra impossível, tamanha as dificuldades e os desafios que enfrentamos em nossa vida” – trecho retirado do capítulo “Liberdade e opressão, um contraponto gerador”, do livro “Como nascem os Deuses da Bola”.

Universidade do Futebol – Em uma visão mais maniqueísta dessa situação, podemos considerar bom ou ruim o fato de o brasileiro muitas vezes se utilizar do improviso, em detrimento de um planejamento prévio?

José Melquíades Ursi – Eu acho que é uma virtude, só que essa virtude, se for acompanhada pelo planejamento, é ainda mais ressaltada e ganha uma dimensão ainda maior.

Se você tomar essa iniciativa como um fenômeno positivo, claro, associada a uma gestão coerente, e isso tem de ser feito, os resultados serão muito melhores. Não tenho dúvidas disso.

Universidade do Futebol – Tal qual Gilberto Freyre em “Casa Grande e Senzala”, o senhor voltou a si próprio para compreender o que é ser um jogador de futebol brasileiro. Por que ele é diferente de todos os demais? E por que razão, como identificou o jogador ucraniano Schevchenko, citado no livro, esse país “produz um gênio atrás do outro”?

José Melquíades Ursi – Quando eu estava em Itaipu, houve um jogo entre o time de funcionários da obra contra um outro, que atuava na segunda ou terceira divisão do futebol da Alemanha. Até nessa situação, em um duelo entre amadores brasileiros e uma equipe cuja formação já possuía uma certa organização, percebíamos a diferença do traquejo do nosso jogador.

Após um domínio de bola, os brasileiros já gingavam, enquanto os alemães eram mais programados, duros. Há uma questão de história de vida nisso tudo, também.

Quando um treinador de futebol observa isso na carreira do seu atleta, obterá melhores resultados ainda com ele. Tomarei como exemplo minha trajetória. Estudei durante dois anos em um seminário de padres católicos, e tudo era muito disciplinado. Antes de jogar no Jandaia, fiz um teste no Palmeiras, convidado pelo Julinho Botelho, mas acabei não me adaptando à realidade paulistana e regressei ao Paraná.

Quando eu fui jogar no Jandaia, encontrei com pessoas que tinham vindo de favelas e outros ambientes completamente mais libertários do que onde eu convivi. Quando terminava o treino, por exemplo, eu sempre saía andando rápido, enquanto os outros jovens colocavam seus chinelos e iam caminhando lentamente pela avenida, gingando.

Percebi que precisava adaptar o meu passo ao deles, da descontração, da liberdade, e isso para mim era uma virtude que eles tinham, e eu não. Algo que iria promover uma certa peculiaridade na hora de jogar.

Creio que o treinador tem de ser muito mais um terapeuta do que um estrategista. Entender a história, a forma de vida e a forma de jogar de cada um a partir de uma influência do passado, dos lugares por onde passou e das relações sociais que cada um teve.

Isso fará com que cada atleta possa render mais, se compreendido, ajustado e harmonizado com os outros companheiros. Em relação a isso, tive uma compreensão muito grande dos meus colegas e da comissão técnica. Aprendi a me descontrair e a me soltar mais. Nesse ponto que Gilberto Freyre me chamou a atenção.

No sentido de que ele diz que a mistura racial no Brasil e o negro, especialmente, amenizaram a rigidez dos colonizadores. A língua brasileira foi “adocicada” com essa interação com o negro; a religião também ganhou contornos de sincretismo e isso fez com que o brasileiro se tornasse mais plástico.

“Havia interesse de clubes maiores pelo meu futebol, mas parei porque precisava sobreviver. Minha cabeça já estava direcionada demais para me arriscar no futebol. Fora educado para cumprir uma carreira sem me aventurar. Comecei a dar aulas num colégio estadual. E ficou para trás meu sonho de jogar ao lado do ‘Divino’ Ademir da Guia” – trecho retirado do capítulo “‘Brinquei’ de jogar bola”.


De branco, em ação no ano de 1969, pelo Jandaia: saudades da família e rendimento baixo fizeram Ursi desistir do sonho de se tornar jogador profissional


Universidade do Futebol – E qual a relação que existe entre as raízes do samba e o desenvolvimento de alguns dos principais talentos do futebol brasileiro?

José Melquíades Ursi – Eu conto no livro que o técnico iugoslavo, Milan Miljanic***, ficava observando a forma de o brasileiro jogar, gingando, e ele cismou que era o samba a principal influência nessa forma. Então, pediu para que fossem comprados discos, à época, de samba brasileiro para levar aos jogadores iugoslavos. Não deu em nada, pois não era uma música intrínseca da cultura desses europeus. Ele estava enganado.

Não era só o samba. Havia uma série de outros fatores que produziam essa forma de o brasileiro jogar, como a própria descontração. E o samba contribui nesse sentido de formação, tanto é verdade que nos principais momentos de tensão às vésperas e nos jogos da seleção brasileira, por exemplo, os atletas vão tocando e cantando um samba no ônibus da delegação, algo que promove esse sentimento.

***Comandou a seleção da Iugoslávia nas Copas do Mundo de 1974 e 1982

Universidade do Futebol – O cineasta italiano Pasolini disse que o futebol europeu é prosa e o brasileiro é poesia. O futebol moderno consolidado tira um pouco dessa linguagem utilizada com fins estéticos? Os principais atletas das principais agremiações pelo mundo não são muito “parecidos” uns com os outros, incluindo-se aí os brasileiros que saem do país muito jovens e vão atuar no Velho Continente?

José Melquíades Ursi – Eu acho que aí você toca em um ponto nevrálgico. Considero um crime levar jogadores de 11, 12 anos para fora do país. Se a forma de o brasileiro jogar se ajusta à nossa cultura, esses aspirantes a profissionais vão começar a ser enquadrados dentro de um rigor ao qual não estão acostumados. Certamente vão perder algumas das qualidades próprias do jogador brasileiro.

Isso explica muito que o número de craques habilidosos é menor do que em décadas passadas. Mas continuamos nos encantando quando aparece um deles, como o Ronaldo, o Ronaldinho Gaúcho.

Já o Kaká, por exemplo, tem algumas características de jogador brasileiro, e outras não. Aí se insere novamente na história de vida dele. É muito importante se levar em conta as mudanças sofridas na trajetória de cada um.

Ele é uma pessoa que convive com outras, que vieram de ambientes distintos do dele. Do ponto de vista de visão de vida e cultural, não penso como o Kaká. Mas mesmo ele tendo uma religiosidade que, para mim, é meio conservadora, uma formação mais rígida, certamente sofre influência do meio no qual ele atua.

Universidade do Futebol – Tostão e Sócrates são dois ex-jogadores que possuem colunas impressas na mídia e têm grande número de seguidores, sendo considerados por muitos como os melhores textos dessa área. É uma sensibilidade própria de quem entrou em campo simplesmente, ou se dá pelo fato de ambos terem sido genais naquela função?

José Melquíades Ursi – Eu acho que o fato de eles terem sido craques é uma base que eles têm para entender melhor o futebol. Mas no caso deles e de alguns outros jogadores, desenvolveram um senso crítico que não é comum nem no meio futebolístico, nem no meio social, como um todo.

Além da vivência como atletas, básica e fundamental, efetuaram diversos questionamentos ao longo da carreira. Como o Tostão em relação à ditadura, pós-Copa do Mundo de 1970, e o Sócrates, sendo um dos principais líderes da Democracia Corinthiana.

Essa capacidade de pensar através da experiência de vida faz com que a pessoa tenha um senso crítico bem desenvolvido, até fazendo florescer o talento da escrita. Assim como há inúmeros outros ex-jogadores que se tornaram comentaristas e apenas reproduzem chavões e lugares-comuns.

“Os jogadores se entrosam, entre outros fatores, quando suas características se completam. E isso acontece imediatamente, porque um tem aquilo que o outro não tem. Há uma troca de informações técnicas, como se fosse um computador de altíssima velocidade. Só com o olhar, com um gesto, um consegue transmitir ao outro o que pretende fazer” – trecho retirado do capítulo “Só vale esquema de jogo se for combinado”, em referência a uma entrevista concedida por Tostão.

Universidade do Futebol – O que pensa sobre a presença de um filósofo inserido no trabalho da comissão técnica de um clube de futebol? Tal procedimento seria mais relevante em categorias de base?

José Melquíades Ursi – Creio que contribuiria de uma maneira fundamental. É até um sonho meu. Hoje existe uma terapia chamada de Filosofia Clínica, desenvolvida por um brasileiro chamado Lúcio Packter****. Ele lê os filósofos no original.

A atividade funciona através do respeito à história individual de cada ser humano. Ele chegou à conclusão que não há seres humanos iguais, nem mesmo os gêmeos univitelinos. Portanto, utilizar tipologias para enquadrar seres humanos diferentes dentro do mesmo processo de neurose era algo que afrontava o bom senso e até a ética, pois não se respeita a particularidade.

Ele sistematizou, então, a terapia na qual a história de vida de cada um é levada em conta e tratada dentro das características que esse ser humano apresenta. Se o tempo desse individuo é cronológico ou é subjetivo, a interferência das relações que houve, algum acontecimento especial, enfim, sempre é ouvido primeiramente a história da pessoa.

Ele chama o paciente de cliente, de partilhante, por isso digo que a historia de vida de cada jogador tem de ser levada em conta unicamente.

Pela imposição, um treinador consegue obter resultados ao longo de um período. Mas há prazo de validade, pois depois se perde o controle da situação. Nesse aspecto, creio que o Telê Santana era um grande terapeuta. Como no caso do Cafú, ao perceber que esse atleta tinha uma condição física diferenciada, mesmo com limitações técnicas para efetuar um cruzamento, por exemplo.

O Telê sabia qual era a alma daquele jovem, por intermédio de um conhecimento da história de vida dele.

A filosofia ajuda até como teoria. Mas é possível utilizarmos ela como prática de terapia. Não acho que seja dificultosa a implementação. A dificuldade está nos dirigentes em compreender e aceitar isso. Alguns têm uma visão mais retrógrada, que pode representar um entrave. Aí que entra a necessidade de uma organização e de um planejamento.

Precisaríamos de um tempo para ouvir a história de cada jogador, sendo tratada a partir da trajetória de vida própria. E como os atletas ficam cada vez menos tempo nos clubes, e há uma motivação por resultados, majoritariamente, esse procedimento se apresenta complicado para ser efetivado.

Respeitar essas diferenças é fundamental para obter resultados dentro de campo. Os treinadores geralmente estabelecem uma plataforma tática, desconsiderando muitas vezes as características básicas do grupo.

O próprio Tostão já comentou sobre a parceria natural e imediata que se deu com o Pelé. Havia uma sintonia e uma respeitabilidade mútua da forma de jogar de cada um, e as vitórias apareceram durante a Copa de 70.

Há o caso de um sobrinho meu, que atuava no Paraná, e era muito mimado, com a mãe dele fazendo até o prato de comida dele. E eu o questionei: “quando você estiver em campo, para realizar uma jogada – um passe ou o chute a gol -, você irá olhar para a arquibancada e perguntar para sua mãe o que deve ser feito?”.

A história de vida de uma pessoa influencia na forma de ela jogar. Para alguns, você não pode pressionar, senão ele se esconde. Já para outros, há uma reação sob críticas da imprensa, da comissão técnica. É muito relevante o conhecimento de cada integrante. E é algo muito profundo. Tanto que os grandes treinadores são os que têm essa capacidade de compreensão humana.

****Criada no fim da década de 1980 pelo psicanalista e filósofo gaúcho Lúcio Packter, a Filosofia Clínica “direciona e elabora, a partir da metodologia filosófica, procedimentos de diagnose e tratamento endereçados a questões existenciais encontradas em hospitais, clínicas, escolas e ambulatórios. Técnicas que diferem dos métodos e fundamentos da Psicologia, da Psiquiatria e da Psicanálise: não existe o conceito de normalidade, de patologia; não existem concepções a priori como ‘o homem é um ser social’, ‘o homem busca a felicidade’.

Tudo parte da historicidade da pessoa atendida, percorrendo-se desde o logicismo formal até a epistemologia nas questões focadas no diagnóstico dos problemas. A fundamentação das questões consta da Filosofia acadêmica, inteiramente, com seus escritos e autores. Está baseada no Logicismo, na Epistemologia, na Fenomenologia, na Historicidade, no Estruturalismo e na Analítica da Linguagem, entre outras abordagens” (PACKTER, Lúcio. Filosofia Clínica: propedêutica. 3ªed. Florianópolis: Garapuvu,2001).


“Imcompatíveis”, Pelé e Tostão realizaram jogadas mágicas pelo olhar e protagonizaram momentos de brilho durante a Copa do Mundo de 1970
 

Universidade do Futebol – Historicamente, o brasileiro lê muito menos do que argentino, por exemplo. Você nota uma evolução nesse aspecto?

José Melquíades Ursi – Eu acredito que já está havendo uma mudança. Para mim, o problema da educação em geral é o do não-desenvolvimento do espírito crítico. E aí falta preparo aos próprios professores.

Só aprendemos na vida quando nos perguntamos, e não quando temos respostas decoradas. E essa capacidade argumentativa tem de ser desenvolvida na escola para você até se servir da internet e fazer uma reflexão critica.

É um problema do processo educativo brasileiro como um todo. Talvez a razão de terem inserido Filosofia no ensino médio passe por aí*****.

Durante a ditatura, no Governo Médici, falava-se em fechar os cursos de Filosofia, pois era onde se efetivava a reflexão da situação política do país. E é evidente que os argentinos são mais bem formados e leem mais, muito por conta do sistema educacional e da justificativa crítica proeminente. Lá, se o pão cai com a manteiga virada para o chão, já se tomam as ruas para protestar.

*****No dia 2 de junho de 2008, o então presidente em exercício, José Alencar, sancionou projeto de lei que torna obrigatório o ensino de Filosofia e Sociologia nos três anos do ensino médio.

Em 1971, as disciplinas deixaram de ser lecionadas nas salas das escolas de ensino médio por determinação da ditadura militar. Em 2001, o Congresso Nacional aprovou a inclusão das duas matérias, mas o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vetou.

Desde 2006, o Conselho Nacional de Educação (CNE) tem resolução que torna obrigatório a Filosofia e a Sociologia nas escolas de ensino médio. As redes estaduais tiveram um ano para se adaptar. O parecer não determinava, entretanto, a implantação nas três séries do ensino médio, como prevê a nova lei.

Universidade do Futebol – O futebol é uma paixão nacional. Como poderíamos explorá-lo para que nossas crianças aderissem ao hábito da leitura de uma forma gostosa e lúdica? Ele poderia ser um agente? Já existem iniciativas nesse sentido? Como poderíamos unir os clubes e o governo em ações nessa direção?

José Melquíades Ursi – Acredito que nos interessamos por um texto quando ele é uma alegoria lúdica da vida. E faltam livros nesse sentido sobre o futebol. Não só uma descrição do que ocorreu num passado dessa modalidade, mas uma tentativa de traduzir o que é o futebol dentro e fora do campo em termos de representatividade.

A reflexão pode ser lúdica. Você jogar com as imagens lúdicas da própria criança, e creio que falta uma ação nessa direção.

Na TV, hoje, reproduz-se muito a imagem, algo que não carece de reflexão. Você assimila aquilo passivamente e não vê estimulado um debate.

Poderia ser feito um trabalho de desenvolvimento da criatividade pelos clubes na base, sem dúvida. Os recursos técnicos para se preparar um jogador não exigem tanta criatividade. Creio que está faltando dizer aos meninos para continuarem brincando e perguntar a eles o que os agrada quando estão jogando futebol.

Muitos deles, pela história de vida, não terão facilidade para falar. Mas essa expressão pode ser feita por intermédio da escrita, do desenho, da apresentação de algum objeto que ele tenha em sua casa, etc.

“Um gênio da bola tem uma intuição lépida da relatividade e, provavelmente, seu tempo não é cronológico, não é o tempo do relógio. Vamos tomar como exemplo um jogador atual: o Robinho. Ele parece entender que o tempo está relacionado ao lugar que ocupa ou decide de repente ocupar em campo. Ao mudar repentinamente de posição e rumo, não só ganha tempo para desenvolver uma jogada, como desorganiza o tempo que os adversários programavam para detê-lo” – trecho retirado desse último capítulo

Universidade do Futebol – A Copa no Brasil pode contribuir de que forma para a disseminação de produções literárias voltadas para o futebol? Ou, na contramão, pode se tornar um ambiente fértil para “oportunistas”?

José Melquíades Ursi – Quando eu lancei meu livro, foi perto da Copa do Mundo de 2006, da Alemanha. E lembro de um comentário feito pelo Juca Kfouri em relação a essa banalização na produção de livros voltados ao futebol num período de evento esportivo.

Consegui um e-mail de contato do Juca, a quem considero um jornalista ético, um idealista, e perguntei se poderia passar os originais da minha obra em questão. Na segunda resposta, ele mandou anexado o prefácio. Eu sequer o conheço pessoalmente, e gostaria de aproveitar o espaço para agradecê-lo novamente por isso.

Fiquei muito grato, pois depois me avisaram que o Juca disse que não gostava de fazer prefácios, pois era uma responsabilidade muito grande. E recebi o meu. Prova de que é possível usufruir do momento apresentando produções de qualidade.

Universidade do Futebol – O mercado literário dá sinais de que pode ser tornar algo rentável para todos os envolvidos na cadeia produtiva?

José Melquíades Ursi – Em termos de benefícios comerciais, não tive praticamente nada. Mas se “Como nascem os Deuses da Bola” serviu para melhorar a vida de alguma pessoa e produziu algum crescimento, no sentido de elevação humana, já fico feliz.

No momento, estou escrevendo um livro sobre uma cadela Pinscher que tem comportamentos de representação humana e se vê pela primeira vez num espelho caído num pé da árvore deixado por um pescador. Ela começa a questionar o próprio tamanho das orelhas.

Mas voltando ao questionamento, o mercado literário é muito ruim no Brasil. Quem ganhou dinheiro com isso no país? Jorge Amado, o Paulo Coelho, creio que o Érico Veríssimo faturou um pouco. Os livros didáticos vem em uma outra esfera, mas também não possibilitam grandes rendimentos aos autores.

Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação sobre a produção de obras literárias tendo o futebol como foco central?

José Melquíades Ursi – Creio que essa área de reflexão do futebol em si e sobre as influência da modalidade, que vende a imagem do Brasil, está começando a ser melhor percebida. Mas nesse sentido, faltam obras. Seria interessante se fazer uma reflexão da importância do futebol e do papel dele na sociedade, não apenas algo de descontração e de lazer, mas também de inserção. Imagina se a nossa sociedade representasse o que é o povo em uma arquibancada.

Os torcedores avaliam a atuação do árbitro, que representa o Judiciário, e isso não é protelado como ocorre com a Justiça comum. Ali vai ser feita uma avaliação imediata sobre a atuação daqueles que representam o espetáculo. É uma democracia fenomenal sobre a qual há necessidade de reflexão.

O significado de democracia que está ali dentro, os rituais totalmente mutáveis manifestados, isso tudo carece de um aprofundamento ideológico. Se você inserir os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ali no campo de jogo, durante uma partida com uma arquibancada cheia, poderíamos tirar lições fundamentais para entender o que o povo cobra deles.

A justiça tem uma feição de casta e uma responsabilidade muito grande. Se ela cumprisse seus papeis, poderia melhorar as outras ações. É tudo muito lento e elitizado. Já no futebol, tudo é resolvido rápida e coletivamente.

“Juntem-se os tons e matizes das peles de todos eles e se verá que a cor que os une e os tons que os diferenciam num só povo é a do mestiço, o mais autêntico mestiço de toda a terra, o que talvez tenha contribuído para evitar conflitos tão sangrentos quanto de outros lugares do mundo. A mistura não só produziu o angu das raças e das cores, mas especialmente a sobremesa da tolerância para com as diferenças que cada cultura trouxe para a formação do mesmo povo” – trecho retirado do capítulo “As cores dos brasis”.

Universidade do Futebol – Com a expansão da plataforma virtual e seus produtos e serviços, já temos movimentações de grandes players, como o Google, por exemplo, na digitalização de obras literárias e outros acervos. Qual a opinião do senhor a respeito e quais as tendências para o mercado literário em um futuro breve, em se considerando que a internet já é uma realidade?

José Melquíades Ursi – Vejo que a tecnologia em geral obriga o ser humano a ser ético. Qualquer órgão da mídia que dê uma informação falsa ou a omita, em instantes esse fato já estará na rede, sendo pauta em blogs e fóruns de discussão.

Nesse aspecto, a literatura tem um papel fundamental, pois promoverá também a reflexão. As pessoas leem pouco, pois muitas vezes entendem ser penoso refletir. Mas quando você cria o hábito, o faz de uma forma espontânea, e na medida em que os textos são facilitados pela internet, a reflexão também se tornará mais comum e natural.

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