Universidade do Futebol

Entrevistas

02/01/2009

José Paulo Florenzano (parte 2)

Nesta sexta-feira, a Cidade do Futebol publica a segunda parte da entrevista realizada com o professor José Paulo Florenzano, graduado, mestrado e doutorado em Ciências Sociais pela PUC-SP, e que possui larga experiência na área de Antropologia do Esporte.
Autor do livro “Afonsinho e Edmundo – a rebeldia no futebol brasileiro”, Florenzano focaliza a produção do jogador-disciplinar exigido pela modernização do futebol nacional a partir dos anos 1960.

“O Edmundo se recusa a ser aquilo que a estrutura hoje impõe para o atleta: um jogador visto com bons olhos, que cultiva uma imagem comercial para ser explorada, vinculada a uma série de produtos. O Ronaldo é um bom moço, o Ronaldinho Gaúcho também, o Kaká, e uma série de outros atletas. O Edmundo, realmente, se recusou a desempenhar esse papel”, aponta.

Além disso, traça um paralelo entre o futebol-força e o futebol-arte, o movimento social das torcidas organizadas – e a relação transfigurada entre elas, ao longo dos tempos, no contato com a imprensa -, a simbologia de uma Copa no Brasil e de que forma se sustenta atualmente a espetacularização do jogo.
Confira a seguir:
Cidade do Futebol – Tendo como base a contratação do Ronaldo pelo Corinthians, como você vê a mitificação de um atleta que está parado há tanto tempo, e qual é a sua análise sobre a espetacularização do futebol e do próprio personagem? Esse aspecto evoluiu para chegarmos ao ponto em que estamos atualmente, no qual a modalidade e os seus protagonistas são vistos com forte apelo midiático, algo bem recebido pela população?
José Paulo Florenzano – De certa maneira, sempre houve a figura do herói, do ídolo. Eu não entendo isso como um corte radical na história do futebol, como um fenômeno recente. É claro que, a partir da década de 1970, com a entrada cada vez mais decisiva da televisão, em particular, que vai modificar muito a maneira como o futebol é transmitido, percebido e interpretado, tem-se uma dimensão maior por parte desses atores (heróis, ídolos), figuras que acabam tornando-se lendárias dentro da modalidade. Mas o futebol sempre se alimentou disso. Ele é um campo propício para o surgimento dessas personagens.
Mais especificamente no caso do Ronaldo, o que está acontecendo reflete uma sociedade que tem necessidade de heróis e que busca essas personagens dentro dela mesma. O futebol é um campo privilegiado para criar essa figura, e há de se levar em conta a entrada do Ronaldo em um clube sui generis. O Corinthians se distingüe dos demais, graças à sua história bastante particular, a sua inserção dentro da metrópole, a maneira como ele se identifica com determinados seguimentos dessa sociedade, etc.
Então, pela história particular do Corinthians e por tudo aquilo que o Ronaldo construiu ao longo do tempo, esse encontro foi explosivo, no sentido de ter projetado um o outro de uma maneira tão intensa e muito além dos limites do futebol brasileiro.
Cidade do Futebol – Em contrapartida à carreira de sucesso de imagem do Ronaldo como atleta, tem-se o caso do Edmundo, que anunciou, ao que parece, que de maneira definitiva, a sua aposentadoria do futebol. Por conta do talento, pensa-se que ele poderia ter chegado muito além de onde chegou. Mas razões de comportamento acabaram por fazer que ele não ocupasse espaços que o Ronaldo, por exemplo, pôde experimentar. Qual a sua análise da figura de Edmundo e o paralelo entre ele e Afonsinho, marco no futebol nacional por conta de seu engajamento no processo de extinção do passe?
José Paulo Florenzano –
Quando pensamos na trajetória do Edmundo e afirmamos que ela não foi tão bem sucedida quanto ela poderia ter sido pelo potencial técnico e físico que ele tinha, temos que tomar o cuidado de deixarmos em que ponto de vista nós nos situamos. Se estivermos na perspectiva que só enxerga no futebol, o resultado, e avalia tudo na modalidade a partir dos critérios de se foi ou não campeão e se deu ou não lucro, de fato pode-se afirmar que o Edmundo não foi o que poderia ter sido.
No entanto, se você se interessar pela produção de significados, O Edmundo foi muito bem sucedido, porque, literalmente, ele bagunçou o coreto, ele saiu do script e transformou o futebol naquilo que ele deve ser: um espaço bom para pensar uma série de coisas que acontecem na sociedade: relações sociais, autoritarismo, a dualidade normal-patológico. Tudo isso o Edmundo problematizou, colocando em questão à medida que ele desenvolvia uma ação que escapava ao controle daquelas pessoas que, no futebol, são encarregadas de regular a vida dos atletas.
Portanto, de um ponto de vista materialista, da lógica que prevalece no futebol, a avaliação é essa: ele não foi tão longe quanto poderia ter ido. A simples comparação com o Ronaldo mostra essa distância. Agora, do ponto de vista da produção de significados, ele foi muito bem sucedido. O Edmundo é um personagem importantíssimo na história do futebol brasileiro, e ele merecia uma despedida com mais atenção, por tudo o que ele representa dentro da história da modalidade, sobretudo no campo da rebeldia.
Dentro de uma mesma categoria, poderíamos colocar o Edmundo ao lado do Afonsinho, mas antes é importante deixarmos bem claro o que é a rebeldia. Ela pode ser definida, no futebol, em três critérios. Em primeiro lugar, a rebeldia se constitui numa luta contra o mecanismo jurídico da Lei do Passe, que agora não existe mais. Mas a rebeldia vai se definir nesse contexto da luta contra essa lei.
Além disso, a rebeldia se choca contra a produção do corpo-máquina, a idéia de que se pode reduzir o atleta a uma peça movida por uma engrenagem. Em terceiro lugar, o rebelde, no futebol brasileiro, é aquele que também vai se levar contra uma concepção hegemônica de futebol que despoja o jogo da sua fantasia, da sua dimensão lúdica.
Se tivermos em mente essa definição, podemos perceber qual é a real contribuição de cada um desses atletas nessa luta. O Afonsinho é aquele que consegue estabelecer o vínculo entre esses três combates. Já o Edmundo se destaca contra a segunda questão, que é a produção do corpo-máquina e o desdobramento dela, que é a normalização da conduta do atleta: o bom moço no futebol.
O Edmundo se recusa a ser aquilo que a estrutura hoje impõe para o atleta: um jogador visto com bons olhos, que cultiva uma imagem comercial para ser explorada, vinculada a uma série de produtos. O Ronaldo é um bom moço, o Ronaldinho Gaúcho também, o Kaká, e uma série de outros atletas. O Edmundo, realmente, se recusou a desempenhar esse papel.
Cidade do Futebol – Atualmente, existe muito a utilização do futebol como meio de difusão de mensagens ligadas a outros ramos da vida da sociedade, como, por exemplo, aquilo que acontece por meio dos chamados “atletas de Cristo”. Como e por que o futebol é utilizado para a divulgação da religião e qual é o vínculo que existe entre essas duas atmosferas?
José Paulo Florenzano –
O futebol, na realidade, se presta como um veículo de difusão das mais diferentes idéias, das mais diversas identidades coletivas. Então, a modalidade projeta, por exemplo, na história brasileira, o valor do negro na nossa sociedade. Mais recentemente, ele se torna um espaço de afirmação ou da redefinição das relações de gênero. Daí, fica claro a situação do futebol feminino.
O futebol se difunde nos mais distintos canais: o futebol profissional, o de várzea, o de fábrica, etc. Ele traz para o campo de jogo, significados, de acordo com os sujeitos que participam dessa prática. Então, quando a mulher entra nesse cenário, ela traz novas questões, quando o negro começa a participar desse esporte no Brasil, ele também vai trazer questões ligadas a esse grupo étnico, para citar alguns exemplos.
No caso religioso, então, não existe somente o “atleta de Cristo”. Tem-se também o futebol como difusor do catolicismo, das religiões afro-brasileiras, como veículos de expressão das mais diversas ideologias.
Qual é o sucesso dessa parceria: futebol profissional e o movimentos dos “atletas de Cristo”? Ao que parece, o ethos protestante da disciplina, do auto-controle, de uma conduta moral que vai condenar os prazeres da carne, vai se coadunar com aquilo que a preparação física e a medicina esportiva exigem do atleta de futebol: que ele se enquadre em uma programação que implica em não beber, não fumar, ter uma vida sexual regrada, boa alimentação, entre outros tópicos.
Portanto, existe essa convergência daquilo que se estabelece como estilo de vida dentro desse movimento, ao mesmo tempo, daquilo que se espera de um atleta de auto-rendimento.
Cidade do Futebol – O futebol, na sua origem, era tido como um esporte exclusivo das elites. No entanto, com o passar dos anos, várias mudanças aconteceram na modalidade e ela tornou-se muito popular. Como se deu essa transformação, tendo em vista de que, pelo menos no Brasil, muitos dos grandes craques vieram das camadas mais baixas da sociedade?
José Paulo Florenzano –
Nós podemos perceber perfeitamente como o futebol vai se resignificando ao longo do tempo. No caso brasileiro, a modalidade surge como uma marca refinada e restrita, a identidade do “sportman”, que é o indivíduo que pertencia à juventude endinheirada do Rio de Janeiro e de São Paulo. Porém, isso dura por pouco tempo.
Logo em seguida, existe um rompimento com essa marca elitista e forma-se uma marca da nacionalidade. Vai ser no futebol que o Brasil vai experimentar o sentimento da nacionalidade, do que é efetivamente ser brasileiro.
Portanto, a partir do momento em que ele amplia o símbolo pelo qual as pessoas se reconhecem, então ele incorpora trabalhadores, pobres e negros. Então, tem-se um longo caminho percorrido por esse segmento dentro das classes populares, que é o jogador negro, o qual vai reafirmar essa identidade no conjunto da identidade coletiva brasileira. É o papel que o Pelé desempenha junto a tantos outros antes e depois, como Arthur Fredenreich e Leônidas da Silva, e Paulo Cesar lima e Vladmir, respectivamente, além de outros que militaram em favor de uma igualdade racial no Brasil.
Cidade do Futebol – Qual é a importância da figura do Fredenreich para o estabelecimento das relações das classes mais abastadas com as mais populares, e qual é o seu papel dentro da construção da metrópole São Paulo?
José Paulo Florenzano –
A figura do Fredenreich pode ser vista como a de um mediador cultural no sentido da definição de uma maneira de se jogar futebol em São Paulo. Logo, ele transita pela esfera da cultura popular, jogando bola na rua, interagindo com as praticas culturais das camadas populares e, por outro lado, um atleta que atuava de acordo com um modelo implantado no futebol pelos grupos aristocráticos.
Cidade do Futebol – A questão da ginga, bastante característica no futebol brasileiro, principalmente, nos atletas negros, pode ser entendida como algo inato do jogador, ou isso tem algum tipo de contexto histórico que pode explicar a facilidade e a maneira de jogar do atleta negro?
José Paulo Florenzano –
Nós podemos encadear o raciocínio sobre essa questão da seguinte forma: o que distingue o futebol brasileiro? O fato de que ele é reconhecido no mundo como futebol-arte. Qual é a participação do negro na elaboração dessa concepção do futebol? Ela também é reconhecida amplamente dentro e fora do Brasil.
Então como podemos interpretar a recriação do futebol no Brasil como arte? Seria algo inato a essa parcela da sociedade? Não. A ginga é uma técnica corporal construída em um contexto histórico marcado por profundas desigualdades, por relações de dominação extremamente adversas a esse segmento. Portanto, o entendimento do que é a ginga não pode de forma alguma buscar a sua explicação no biológico, mas, ao contrário, em uma tradição que é passada socialmente, que é construída na história e que se apóia em um outro repertoria de práticas culturais.
Dessa maneira, pode-se identificar, dentro da cartografia cultural brasileira, de que maneira práticas como a capoeira, o samba e mesmo o candomblé interagem ou, pelo menos, trazem elementos para a incorporação dessa ginga, dessa técnica corporal. Logo, o que é o futebol-arte? Ele é uma técnica corporal, uma prática de liberdade. As duas coisas estão a serviço dos diversos clubes.
Cidade do Futebol – Seria possível estabelecermos uma relação entre a questão racial do futebol no Brasil com o que aconteceu com dois movimentos marcantes, em âmbito racial, nas culturas de EUA e Jamaica:  o jazz e o reggae?
José Paulo Florenzano –
É importante sabermos o que há em comum entre o jazz nos EUA, o reggae na Jamaica e o futebol-arte no Brasil. Em primeiro lugar, eles são produto da diáspora, isto é, todos se desenvolvem no âmbito de uma esfera cultural que o Paul Gilroy denomina de “Atlântico negro”. Nesse sentido, eles trilham um caminho muito semelhante, do ponto de vista de que eles são símbolos, sobretudo o reggae, o jazz e o samba, antes de falarmos no futebol. Todos são ligados a um grupo étnico e que, em um curto espaço de tempo, convertem-se em um símbolo da nacionalidade. O jazz nos EUA como um elemento do “American Way of Life”, o reggae na Jamaica, e o samba no Brasil.
Tem-se associada a essas três expressões, a questão da negritude, da afirmação desse grupo nessas sociedades. Além disso, pode-se perceber uma dinâmica cultural semelhante. O jazz é fruto dessa interpenetração de práticas culturais. Quais são as raízes do jazz? São elas: o blues, os “gritos do campo”, as “canções do trabalho”, a busca religiosa, o teatro e uma série de elementos que vão se fundir na condução do jazz. O reggae também possui esse aspecto. Ele dialoga com a religião-culto rastafári, e o Bob Marley tinha um interesse muito especial pelo futebol.
Voltando ao caso do futebol-arte, nós encontramos a mesma dinâmica cultural, reunindo elementos de diversos patrimônios simbólicos. Então, tem-se a capoeira, o samba, o candomblé e outros elementos que contribuem para a sua formação.
Especificamente no relação do jazz e do futebol como arte, o grande elemento em comum entre essas duas expressões culturais é o espaço que ambas concedem para a improvisação. O jazz, segundo Eric Hobsbawm, define-se por romper com a produção em série da música, com a padronização, e privilegiar a improvisação. Há um grande espaço para que a individualidade do músico possa se manifestar.
A principal característica do futebol como arte é mesma. O espaço que essa concepção de futebol concede para que o atleta possa transformar a sua vida em uma obra de arte, para que ele possa singularizar a sua performance em relação a um padrão estabelecido de comportamento.
Cidade do Futebol – Quais são as perdas que existem com esse padrão atual de futebol, que privilegia o porte físico e a condição biológica do atleta, em detrimento à parte mais lúdica e técnica?
José Paulo Florenzano –
Nós não podemos criar uma dicotomia entre futebol-força e futebol-arte. A arte não prescinde da força e nem a força exclui a arte. A questão é, em cada contexto, analisar qual é o princípio que domina a concepção de futebol e confere sentido a essa totalidade.
Hoje, nós vivemos o privilégio do princípio da força, que não é só a força física individual, mas também, uma concepção que coloca em primeiro lugar a força do conjunto e em segundo plano o espaço do talento. Essa concepção da engrenagem, cujas peças o técnico substitui e move com todo o poder que lhe é atribuído, também prevê um espaço para a tática, a técnica e o talento. No entanto, é um espaço subordinado a esse princípio.
Inversamente, no Brasil, no período em que prevaleceu a concepção do futebol como arte, é claro que o atleta preocupava-se com a sua preparação física. Mas me parece que nesse contexto, eu me refiro basicamente aos anos 1960, privilegiava-se o talento, em detrimento da força física, e hoje acontece o contrário.
Cidade do Futebol – Por que a Copa de 1966 foi um marco importante para a modernização do futebol? Como isso se dá após esse torneio, principalmente no Brasil, que na época era estava muito bem, mas teve nessa competição um dos seus piores desempenhos? O que mudou na relação do atleta com o clube e como as mudanças proporcionadas desde então são encaradas atualmente?
José Paulo Florenzano –
A Copa de 1966 pode ser considerada um divisor de águas, uma ruptura na história do futebol brasileiro, porque não se pode pensar essa história como uma evolução contínua, sempre na direção do aprimoramento, da melhora e do progresso. Não é essa visão que se deve ter da história.
Uma questão que suscita no mínimo uma reflexão é a de que o Brasil, durante quase 10 anos, de 1958 a 1966, desfrutou da hegemonia no campo do selecionado, bicampeão mundial, e mesmo no que se refere aos clubes, com o Santos bicampeão da Libertadores e do mundo, e o próprio Botafogo do Garrincha excursionando pelo planeta e exibindo a arte do atleta brasileiro.
Então, a questão que se deve colocar é a seguinte: como em um curto espaço de tempo, que é o da realização da Copa de 1966, quando o Brasil é eliminado na primeira fase, todo o quadro que exaltava a figura do atleta brasileiro vem abaixo e esse jogador é colocado no banco dos réus e sobre ele pairam as acusações de que está ultrapassado, de que ele não está mais a altura da concepção que surgiu nos campos ingleses.
É nesse momento que se afirma a expressão “futebol-força”, a idéia de que os europeus finalmente encontraram a fórmula capaz de neutralizar a arte do atleta brasileiro. Portanto, o ano de 1966 desencadeia internamente um discurso que coloca como imperativo produzir um jogador moderno no Brasil. É quase que zerar a história, aquilo que ele representava fica para trás, e recomeçar do zero a modernização capaz de recolocar o Brasil em pé de igualdade com os europeus.
Nelson Rodrigues expressa essa ruptura de maneira brilhante. Quando ele ouve esse discurso, ele comenta: “E de repente, o duplo título (1958 e 1962) parece ficar para trás, obsoleto, espectral, como se isso não significasse mais nada”.
É nesse momento que se identifica uma reordenação de forças no futebol que vai transferir o poder do coletivo de atletas para a comissão técnica. Vai ser na segunda metade da década de 1960 que essa comissão técnica se amplia, ganhando espaço a figura do preparador físico e do médico. O resultado disso pode ser observado hoje: quase que um hospital girando em torno do atleta de alto rendimento.
Essa necessidade de produção do jogador moderno capaz de atuar na concepção do futebol como força, gera o seguinte quadro. Imperativo físico: o atleta deve reunir velocidade, resistência e massa muscular; imperativo tático: simultaneamente, o jogador deve atacar e defender; prevalência do conjunto sobre o indivíduo; e conduta moral.
Para que se tenha um atleta capaz de cumprir com todas essas exigências, se estabelece um plano moral para esse jogador. Assim, a partir do momento em que você exige que o atleta tenha uma alimentação estabelecida pelo clube, que ele adquira hábitos compatíveis com a performance que lhe é exigida, torna-se inevitável o processo de extensão da disciplina.
Não existe mais uma preparação em que se exige somente no campo, no espaço de treino, mas sim algo que vai alcançar o atleta na sua vida privada. A partir daí tem-se uma disputa em torno da linha que demarca o limite da influência do clube na vida privada do jogador e até onde o atleta pode reivindicar a soberania a respeito dos seus atos, das suas opções de lazer, e do seu estilo de vida.
Logo, há um jogo de forças dentro desse modelo que se impõe na segunda metade dos anos 1960, opondo a classe dirigente e a comissão técnica, e o atleta de futebol.
Cidade do Futebol – Os torcedores também desempenham um papel bastante interessante dentro do futebol mundial, pois eles são parte importante dessa máquina que é o futebol atualmente. Levando-se em conta os grupos que vieram a formar as torcidas organizadas, como esses movimentos se transformaram ao longo do tempo para chegarem naquilo que eles são hoje?
José Paulo Florenzano –
O fenômeno torcedor é bastante dinâmico também. Esse processo de formação dessa figura que se tem atualmente passa de um modelo baseado na imagem das torcidas uniformizadas, como a Charanga, do Flamengo, ou a TUSP, do São Paulo, as quais são emblemáticas dessa época, quando elas contavam com o apoio da grande imprensa, em uma fase em que esses grupos não tinham qualquer ligação com o exercício da violência. Aqui, é importante ressaltarmos que, ao contrário do que se pensa, a violência estava presente nos estádios, mas eram manifestações de caráter meramente passional e espontâneo, ligada aos resultados e à própria dinâmica do jogo. Esse modelo prevalece até a década de 1960.
A partir daí, acontece o surgimento de um grupo que talvez seja a principal torcida organizada, que é a Gaviões da Fiel, em 1969. Esse movimento traz uma nova prática nas arquibancadas. Em primeiro lugar, ela possuía um caráter político, pois ela foi fundada com o objetivo de findar com uma ditadura que se eternizava no Corinthians, com o Wadih Elu.
Outro aspecto que influencia o movimento da Gaviões da Fiel é a sua inserção no contexto do regime militar, que será determinante para definir o rumo que tanto ela como outras torcidas organizadas nascidas no período vão tomar.
Ela também espelhou a violência que percorreu a sociedade brasileira, seja ela política, social, fruto da desigualdade. E, finalmente, também há um paradigma exercido pelo hooligans, o qual irá influenciar outros países da Europa, e também o Brasil.
Sendo assim, a transformação pela qual passa uma torcida organizada remete a todos esses fatores: uma lógica interna, um contexto histórico, uma influência externa, e penso ser muito simplista reduzir-se o fenômeno das torcidas organizadas ao mero desencadear da violência.
Cidade do Futebol – Sabendo-se que existe a influência de movimentos de outros países na formação e nos ideais das torcidas organizadas brasileiras, o que as diferencia do hooligans e de outros grupo importantes de outros países?
José Paulo Florenzano –
Quando falamos que existem algumas influências, não podemos pensar que é uma mera reprodução do que acontece na Europa, aqui no Brasil. Existem algumas diferenças. A principal delas é a aproximação que algumas torcidas hooligans da Inglaterra estabelecem com partidos de extrema direita, e a ausência desse vínculo no caso brasileiro. Ou seja, não existe, no Brasil, o entrelaçamento de torcidas organizadas e partidos conservadores.
Outro aspecto que deve ser levado em consideração é a razão de ser desses grupos. Aqui, o futebol tem uma importância determinante para esses grupos, o que não acontece com alguns movimentos ingleses em que a modalidade não é o mais importante, e o que prevalece é a lógica de guerra, o confronto com a torcida rival.
Outros elementos que podemos acrescentar referem-se à permeabilidade das torcidas brasileiras a outros movimentos como, no caso da Gaviões da Fiel, com o samba.
Cidade do Futebol – Como, ao longo das décadas, ocorreu uma mudança tão radical na relação entre as torcidas organizadas e a imprensa? Por que e como houve essa transformação na imagem desses movimentos?
José Paulo Florenzano –
Isso tem a ver com a maneira como a sociedade lê os conflitos. Há uma briga entre os torcedores do Santos e da Portuguesa, na final de uma Taça São Paulo, no final dos anos 1970. Nessa ocasião, a cobertura da imprensa sobre o fato apontava como as principais razões para essa ação a crise econômica, a desigualdade social, enfim, a busca de uma explicação sociológica para a explicação do conflito. Isso tem uma inteligibilidade naquele momento, em que havia a luta contra o regime militar, em que se buscava uma compreensão desses fenômenos sociais.
Desde então, eu penso que existe uma intolerância muito grande em compreender as razões profundas desse fenômeno, aliado à idéia da culpabilização. A par desse processo, existe a reconfiguração do estádio de futebol, com uma nova elitização em curso no Brasil. Isso prevê um outro torcedor. Alguém que é um consumidor, um cliente, com poder para consumir dentro do estádio, o que se percebe pela simples análise da linha de produtos que o departamento de marketing cria para encorpar o caixa do clube. Então, tem-se uma mudança de clube, pelo menos no ideal dos organizadores. Não que ela tenha de fato se realizado.
Nesse sentido, a violência dos grupos organizados dá munição para o discurso excludente e elitista que, visando às torcidas organizadas, atinge o conjunto das classes sociais populares, as quais estão cada vez mais postas de lado nos projetos de novos estádios. Eles não são concebidos para esse público.
Cidade do Futebol – Em 2014, teremos uma Copa do Mundo no Brasil. Para isso, existem diversos projetos de estádios, os quais têm como modelo as grandes arenas européias. Aliado a isso, há pouco tempo, o Robinho afirmou que os torcedores na Europa assistem aos jogos como se estivessem em uma peça de teatro. Você acha que essas novas arenas, que vão dar gastos aos clubes e vão precisar de mais recursos para ser mantidas, podem acarretar em uma mudança na torcida que vai aos estádios, fazendo com que a grande massa de pessoas das classes sociais mais baixas abandone esses ambientes? E o que a realização de uma competição desse porte no Brasil pode representar simbolicamente?
José Paulo Florenzano –
O que efetivamente pode ser moderno no Brasil? Você levar conforto para o torcedor para que ele seja tratado com respeito, para que ele tenha todas as condições necessárias para que ele possa acompanhar um jogo com tranqüilidade e segurança. Mas esse torcedor precisa ser o das camadas populares. Isso que seria revolucionário no Brasil.
Eu sinto muito, mas é um atraso modernizar um estádio para uma elite, pois a história por aqui sempre foi essa: as camadas mais endinheiradas sempre tiveram bons espaços, conforto e segurança.
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