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“Se dependesse de mim, daria a José Pekerman um contrato pela vida toda”. A frase de Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina há 27 anos, mostra o prestígio que o comandante da seleção na Copa de 2006 possui no país sul-americano. Com anos de experiência em categorias de base, o treinador representa um novo paradigma de comando e é um dos principais responsáveis pela renovação dos argentinos (dos 23 jogadores que disputaram o Mundial deste ano, 19 eram estreantes).
 
Sem ser prolixo, Pekerman mantém sempre o tom calmo e a fala nada concisa. Apesar disso, o treinador deixa claro a cada resposta que seu trabalho sempre foi orientado pela determinação e pautado por projetos concretos. Por conta disso, aliás, o treinador não saiu frustrado pela eliminação precoce na Copa do Mundo de 2006 (assim como o Brasil, a Argentina caiu nas quartas-de-final).
 
“Tem uma frase que eu repito sempre: êxito é conseguir o que desejamos, mas felicidade é gostar do que conseguimos. Não conseguimos êxito na Copa e eu sei que a história é muito cruel quanto a isso, mas saímos felizes porque fomos fiéis a um projeto. A Argentina tem tudo para colher os frutos no futuro”, disse Pekerman em entrevista exclusiva à Cidade do Futebol, que foi concedida durante a terceira edição do do Fórum Internacional de Futebol – Football Technology Convention (Footecon), no Rio de Janeiro.
 
Nascido em 1949, Pekerman começou a carreira de jogador no Argentinos Juniors, em 1970. Como meia-direita, o agora treinador disputou 134 partidas pela equipe e marcou 12 gols. Em 1974, Pekerman migrou para o Independiente de Medellín (Colômbia), time que defendeu 101 vezes (com 15 gols marcados).
 
Como treinador, Pekerman sempre esteve ligado às categorias de base. Ele conquistou os títulos sul-americanos sub-20 de 1997 e 1999 com a seleção argentina. Além disso, venceu o Mundial da categoria em 1995, 1997 e 2001 (um feito impressionante, já que a Argentina só havia sido campeã dessa competição em 1979).
 
Os títulos conquistados entre os jovens levaram Pekerman à seleção principal. Ele foi contratado em 2006 para substituir Marcelo Bielsa e ficou até depois da Copa do Mundo deste ano (foi substituído por Alfio Basile).
 
Longe da seleção, Pekerman ainda acredita no sucesso da atual geração da Argentina. Sobretudo no atacante Messi, que defende o Barcelona. O treinador pediu um pouco mais de paciência com o jogador para os próximos anos.
 
Além disso, Pekerman falou sobre o trabalho de treinador e a importância da definição de um objetivo. Sempre claro quanto a isso, o argentino colocou como fundamental a participação de toda a comissão técnica para que uma equipe consiga atingir as metas traçadas e manter um trabalho equilibrado.
 
Cidade do Futebol – Existe um fator que seja mais importante que outros para o sucesso de um treinador?
José Pekerman – O conhecimento é a base de tudo, mas o fundamental mesmo é o diagnóstico. Chegamos a uma seleção ou a um time de ponta porque temos conhecimento acumulado ao longo de anos de trabalho e estudo, mas fazemos sucesso nesses lugares por acertarmos o diagnóstico. Esse é o erro mais comum dos profissionais ligados ao futebol. Diagnosticar o problema é importante para o treinador saber de que forma trabalhar para fazer a equipe evoluir. Um diagnóstico bem feito é a base para o segundo degrau em um time de futebol, que é o projeto. Você precisa saber onde está e determinar onde quer chegar.
 
Cidade do Futebol – E quais são os critérios de definição desse projeto?
José Pekerman – Existem três pontos decisivos no futebol: diagnóstico, meta e caminho. Depois que você conhece os problemas e virtudes da sua equipe e sabe onde quer chegar, precisa trabalhar para percorrer a distância até esse ponto. Sem ambição e antecipação não dá para queimar etapas. E aí fica complicado chegar a qualquer ponto. Os títulos mundiais da Argentina são um exemplo de um projeto bem realizado.
 
Cidade do Futebol – Como assim?
José Pekerman – A Argentina sempre teve grandes nomes individuais, mas nós sempre precisamos lembrar aos jogadores que isso não é suficiente para vencer uma Copa do Mundo. O máximo que se consegue apenas com talentos é ser o time ‘campeão moral’ ou o que joga mais bonito. Nós tínhamos perdido duas Copas, em 1970 e 1974, com excelentes equipes. Com isso, montamos um projeto em 1974 para formar um time campeão em quatro anos. O primeiro passo foi perguntar: po que temos jogadores tão bons e não somos campeões? Chegamos à conclusão de que o nosso problema era uma deficiência física em comparação com os rivais. Faltava treinamento e faltava um equilíbrio maior entre qualidade individual e doação coletiva.
 
Cidade do Futebol – Mas como a Argentina fez para mudar essa cultura?
José Pekerman – Trabalhamos desde a formação dos atletas para que eles se tornassem mais dedicados ao jogo coletivo e menos preocupados com o talento individual. O resultado foi uma nova geração e um salto de qualidade. Tanto é que o caráter do trabalho segue o mesmo até hoje.
 
Cidade do Futebol – Você chegou à seleção argentina de base antes dos profissionais. Como foi sua participação na formação do caráter dessa nova geração?
José Pekerman – Em 1994, a Associação de Futebol da Argentina criou um concurso para eleger um projeto de atuação nas categorias de base. Eu fui escolhido e pude realizar um desejo antigo, que era trabalhar com garotos. Pude criar uma metodologia de treino, mas tive muita dificuldade. Os jogadores saem cada vez mais cedo da Argentina e a formação fica cada vez mais debilitada e longe dos nossos ideais.
 
Cidade do Futebol – Qual é essa característica do futebol argentino que os jogadores que saem precocemente do país estão perdendo?
José Pekerman – Não é só uma questão de passarem por um projeto diferente de formação, mas de perderem identidade. Os jogadores que saem cedo do país têm menor afeição ao que é o futebol argentino. Nós sempre nos preocupamos, por exemplo, em não ter um biótipo definido para cada posição. Sempre procuramos dar aos jogadores uma capacidade de adaptação a vários setores do campo. E o prioritário sempre foi fazer os jogadores atuarem com fome pela bola. A exigência do futebol é muito grande.
 
Cidade do Futebol – Você foi convidado a ser treinador da seleção argentina em 1998, mas preferiu indicar o Marcelo Bielsa e assumir a direção
geral de seleções. Você acha que fez uma boa escolha?
José Pekerman – O Bielsa imprimiu um método de trabalho muito mais dinâmico à seleção. Ele colocou os jovens para trabalhar com os profissionais, como se fossem sparring. Mas a maioria usou isso como experiência e acabou chegando muito mais preparada à Copa de 2006. Tanto é que eu levei 19 jogadores que disputaram um Mundial pela primeira vez. Foi uma renovação muito grande.
 
Cidade do Futebol – Essa experiência que os jogadores tiveram na seleção durante a época do Bielsa fez diferença durante a sua gestão?
José Pekerman – É evidente que sim. Eles aprenderam desde cedo a importância da persistência e da vontade de chegar à seleção. Gostar do futebol e ter vontade de jogar é um elemento vital para qualquer atleta. Além disso, a maioria já conhecia o nosso projeto quando chegou ao profissional. Nós temos três etapas e uma organização própria para cada uma delas. Os passos são roubar a bola, organizar o jogo e controlar a bola nos nossos pés.
 
Cidade do Futebol – Ideologicamente isso até pode ser um bom caminho. Mas e se o adversário tiver uma filosofia similar?
José Pekerman – O controle da bola é fundamental para o jogo. E para isso, o time precisa de movimentação intensa e triangulações. É difícil passar isso para os jovens, mas precisamos ensinar que um passe para trás nem sempre é uma maneira de recuar o jogo. Às vezes, usar os zagueiros é importante para abrirmos o campo.
 
Cidade do Futebol – Em 2004, você foi convidado novamente para ser treinador da seleção argentina e aceitou. Por que a mudança de postura?
José Pekerman – Com a saída do Bielsa, pela primeira vez em 30 anos um treinador deixou a Argentina antes de completar um ciclo com a Copa. Com isso, houve uma carga traumática e surgiu uma pressão muito grande. Estávamos na metade das Eliminatórias para a Copa de 2006 e eu achei que esse era o momento certo para imprimir algumas coisas que eu acredito na seleção.
 
Cidade do Futebol – E você conseguiu isso?
José Pekerman – Acredito que sim. Eu cheguei e encontrei a seleção jogando em um 3-3-1-3 muito fixo. Mantive a base no início, apostando principalmente em atletas que viviam momentos favoráveis. Nem todos tinham história na seleção, mas todos estavam em boas fases. Aí comecei a colocar algumas alterações em prática e fiz as convocações sem saber se o elenco se adaptaria a essas novidades. Mas acho que tudo acabou se ajeitando.
 
Cidade do Futebol – Você gosta de centralizar as decisões nas equipes que comanda ou prefere delegar, até por ter sido diretor-geral da seleção argentina e do Leganés?
José Pekerman – Essas experiências me deram uma visão mais abrangente sobre o futebol. Hoje eu sei que o sentido da evolução no futebol está claro. Não adianta só montarmos comissões técnicas interdisciplinares, mas precisamos buscar uma afinidade total entre os profissionais e suas disciplinas. Muitas vezes o trabalho de um profissional especializado em outra área direciona as escolhas do treinador.
 
Cidade do Futebol – Qual foi a principal dificuldade para trabalhar com o grupo antes da Copa do Mundo?
José Pekerman – A falta de confiança. Qualquer resultado negativo não diminuía apenas a idéia dos jogadores sobre nossa ida ao Mundial. Na cabeça deles, um desempenho abaixo da média complicava a participação deles no grupo. Por isso, muitos tinham medo de errar e acabavam ficando inibidos.
 
Cidade do Futebol – Isso também aconteceu na Copa?
José Pekerman – A Copa é outra história. O Mundial é definitivo para a carreira de qualquer um. Até por isso, resolvemos reunir o grupo na Argentina para que eles sentissem o astral do povo. Mas é claro que o trabalho psicológico precisou continuar. O Messi nunca fez um jogo sequer como titular em uma equipe profissional da Argentina, mas apareceu e em um ano virou titular da seleção. Isso mexe com a cabeça do garoto.
 
Cidade do Futebol – O Messi ainda pode explodir no futebol mundial?
José Pekerman – É claro. Quando tinha a idade do Messi, o Maradona não foi nem convocado para a Copa do Mundo de 1978. E também não foi bem em 1982, quando tinha 22 anos. Ele só foi brilhar em 1986, quando já estava com 26. Não estou comparando os dois, mas precisamos ter paciência para rotular qualquer atleta.
 
Cidade do Futebol – Então você não saiu frustrado da Copa do Mundo?
José Pekerman – Tem uma frase que eu repito sempre: êxito é conseguir o que desejamos, mas felicidade é gostar do que conseguimos. Não conseguimos êxito na Copa e eu sei que a história é muito cruel quanto a isso, mas saímos felizes porque fomos fiéis a um projeto. A Argentina tem tudo para colher os frutos no futuro.

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