Entrevistas

07/07/2017

Júlio Santos – zagueiro campeão pelo Novo Hamburgo

Atuando no futebol brasileiro desde 2010, o zagueiro percebeu algumas deficiências táticas e comportamentais e que precisava rever conceitos

Júlio Santos, 35, conhece bem as oscilações que o futebol profissional pode proporcionar a um jogador. Formado no São Paulo, desfrutou do status de promessa e chegou a ser titular de uma das equipes de maior orçamento do país, com direito a convocações para seleções de base. Depois, perambulou por uma série de clubes até chegar ao Novo Hamburgo, onde foi um dos líderes em campanha que culminou com um inédito título estadual.

Entre uma realidade e outra, jogou fora do país (defendeu o Tours na França e o Mazembe no Congo) e entendeu que precisava rever conceitos. Quando saiu do Brasil, percebeu deficiências táticas e comportamentais que o país natal admitia como inerentes à cultura futebolística de seus atletas.

A experiência mudou muito o estilo de Júlio Santos. Em campo, o zagueiro não tem mais a velocidade que o auxiliava desde os tempos de futebol na rua e precisa compensar com posicionamento, comunicação e antecipação. Fora, o defensor possui atualmente um entendimento maior do que o jogo representa e está mais preparado para atender a essas necessidades.

Em bate-papo com a Universidade do Futebol, Júlio Santos falou sobre essas mudanças e mostrou como a experiência pode contribuir para moldar um profissional. Mesmo para um jogador que, como ele, começou no topo da cadeia.

Universidade do Futebol – Para você, o que é um atleta inteligente?

Júlio Santos – Que saiba ler o jogo, que consiga decifrar o momento certo de defender e atacar, que saiba o ponto fraco e o ponto forte de seu adversário e que saiba dar bons exemplos dentro e fora de campo.

Universidade do Futebol – Quanto o futebol de rua contribuiu para sua formação como jogador?

Júlio Santos – Foi fundamental. Vivia na rua o tempo todo jogando e não existiam escolinhas como as de hoje. Isso foi importante porque eu brincava de futebol. Não era algo forçado como acontece hoje com muitos pais, que levam seus filhos para centros de formação e querem que eles virem o novo Neymar.

Eu jogava com amigos de todas as idades: mais velhos, mais fortes. Fazíamos competições de rua contra rua, e isso me deu um amadurecimento muito rápido sobre como sair de situações ali exigidas. Eu não podia ir pela força, e sim pela inteligência. Uma das minhas armas era a tabela com a guia da rua: tocava e pegava do outro lado. Como eu era mais jovem, era um dos mais leves. Esse treinamento diário me fez aprender a pensar antes do outro.

Universidade do Futebol – Na sua opinião, o que é imprescindível para uma equipe ser vitoriosa?

Júlio Santos – Acreditar que tudo é possível é fundamental. Depois vêm Deus, trabalho e montagem de um grupo forte dentro e fora de campo.

Universidade do Futebol – Que treinamentos um atleta de futebol precisa fazer para alcançar o mais alto nível competitivo?

Júlio Santos – Hoje em dia, aqui no Brasil, há uma preocupação muito grande com porte e físico dos atletas. A qualidade vem por último.

Para um jogador alcançar o alto nível, é preciso que esteja acompanhado de pessoas que acompanhem a evolução dele no futebol. Trabalhar fisicamente é muito importante, mas o pensamento rápido e a parte tática são essenciais para que o jogador saiba ler a partida, trabalhe o raciocínio em decisões rápidas e entenda os momentos certos para defender e atacar. Isso faz a diferença entre um atleta de várzea e um profissional de alto nível. Não existe um treino certo: cada atleta reage de forma diferente, mas acredito que os atletas evoluem mais se as atividades forem mais próximas do que acontece nas partidas.

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Crédito: Arquivo Pessoal

Universidade do Futebol – Na sua posição, quais são as características fundamentais que um jogador deve ter com e sem a bola?

Júlio Santos – Acredito que para ser um bom zagueiro é fundamental ter boa leitura e falar bastante. Vendo o jogo lá de trás fica mais fácil impedir que a bola chegue facilmente às zonas de perigo. Muitos gols sofridos atualmente acontecem por erros ou falhas de comunicação. Depois vem o bom tempo de bola para se tomar as decisões certas, a firmeza na marcação e a qualidade com a bola nos pés, que ajuda na saída de jogo.

Universidade do Futebol – Quais são seus pontos fortes em aspectos como técnica, tática, físico e psicológico? Qual a relação entre essas virtudes?

Júlio Santos – Acredito que a experiência que conquistei jogando ajuda muito em campo. Não sou veloz como era aos 20 anos, mas sou muito atento e me posiciono melhor. Quando era mais jovem, me preocupava muito em correr sem pensar. Hoje eu penso muito mais do que corro.

Universidade do Futebol – Quem foi o melhor treinador que você já teve? Por que ele foi o melhor?

Júlio Santos – Tive vários treinadores ao longo da carreira, alguns bons e outros ruins, mas o que mais me marcou foi o Daniel Sanchez, um turco com passaporte francês. Ele me ensinou a jogar o futebol de verdade e corrigiu erros que eu nunca havia reparado aqui no Brasil. Me ensinou a valorizar a bola, não me desfazer dela e me mostrou que a posse é muito importante no futebol. Aqui no Brasil os treinadores mandam o zagueiro tirar e chutar para onde o bico está virado, e lá ele me ensinou que o defensor também pode ser uma peça essencial na construção ofensiva.

Universidade do Futebol – Para você, quais são as implicações de atuar em diferentes sistemas táticos? Qual você prefere e por quê?

Júlio Santos – Cada esquema depende do jogador para ser bem feito. Adoro todos os sistemas, mas o que eu mais gosto é o 4-4-2. É um modelo mais sólido e mais fácil de cumprir, e se um time for bem treinado nesse sistema é difícil a outra equipe entrar no seu campo.

Universidade do Futebol – Atualmente você defende o Boa Esporte Clube. Comente, por favor, como era o comportamento da equipe do Novo Hamburgo nas seguintes situações: com a posse de bola, quando perde a bola, sem a posse, assim que recupera a bola e em bolas paradas.

Júlio Santos – Fomos campeões gaúchos jogando num 4-1-4-1. Nosso treinador pedia para atuarmos longe do gol, em linha alta, de forma compacta, fazendo com que o outro time não tivesse tanto espaço para armação. Quando não conseguíamos, porque isso desgasta bastante, abaixávamos um pouco a linha. Com isso, jogávamos no erro do adversário, dando espaço para transição rápida de contragolpe, que foi uma das nossas grandes armas na campanha. Outro fator predominante foi nossa bola parada: marcamos muitos gols em jogadas ensaiadas, e isso mostra como o futebol atualmente é decidido em detalhes.

Crédito: Arquivo Pessoal
Crédito: Arquivo Pessoal

Universidade do Futebol – O que você conversa em campo com outros jogadores quando algo não está dando certo?

Júlio Santos – A conversa é essencial em tudo na vida, e dentro de campo não pode ser diferente. Pedimos sempre o que foi feito nos treinos, mas às vezes acontece algo diferente ou um time vem de forma que não imaginávamos. Geralmente cobramos atenção para cumprir sua função em campo – só assim o time pode sair vitorioso.

Universidade do Futebol – Como você avalia seu desempenho nos jogos? Faz uma reflexão para entender melhor o que aconteceu? Espera a comissão técnica dar um retorno?

Júlio Santos – Costumo sempre fazer uma autoanálise depois das partidas: o que eu fiz de bom e o que eu fiz de ruim, por exemplo. Passo horas da noite querendo saber por que foi tomada essa ou aquela decisão. Depois, vejo o vídeo mais detalhado da comissão técnica e tenho mais certeza.

Universidade do Futebol – Para você, quais são as principais diferenças entre o zagueiro brasileiro e o zagueiro europeu? Por que existem essas diferenças?

Júlio Santos – Primeiramente, a mentalidade é o principal: o brasileiro não aceita e às vezes não quer melhorar, acha que sabe tudo. Depois vêm os treinamentos: voltei ao Brasil em 2010 e só agora vejo atividades que tive na França há sete temporadas. Fora a intensidade do jogo, que não se compara ao nosso. Acredito que precisamos entender que o futebol mudou, que não somos mais os melhores do mundo. Hoje o jogo virou coletivo: se o time não for bom, dificilmente vai dar resultado. Precisamos trabalhar o que vai ser feito nas partidas – vejo muito treino sem objetivo de jogo, e nós precisamos aproximar uma coisa da outra. A base é essencial para essa mudança: precisamos ter treinadores e não técnicos de futebol.

Universidade do Futebol – Quais foram os principais desafios do Campeonato Gaúcho até a conquista do título?

Júlio Santos – O principal deles foi fazer com que nossos jogadores de frente entendessem que eram marcadores e que quando não tivéssemos a bola eles teriam de trabalhar muito para que o adversário não criasse. Depois disso, seria fácil jogar quando tivéssemos a posse. O segundo fator foi conseguir que a imprensa falasse de nós: fomos líderes o tempo todo, mas não valorizavam nosso trabalho. Precisamos ganhar do Grêmio e do Internacional para que os jornalistas falassem. Começamos como uma equipe cotada para rebaixamento e fomos contra tudo: imprensa, federação, times grandes.

Universidade do Futebol – Como você se mantém atualizado em sua área de atuação? Você já possui um planejamento de carreira após a aposentadoria como jogador?

Júlio Santos – Sempre que posso eu leio ou faço cursos voltados ao futebol. Vejo muitas matérias de futebol no mundo todo e hoje estou cursando o segundo semestre de educação física, algo que pretendo levar para minha vida. Pretendo encerrar a carreira assim que me formar, e a minha meta é contribuir para o futuro de alguns com um pouco do que aprendi em quase 20 anos de carreira.

Crédito: Arquivo Pessoal
Crédito: Arquivo Pessoal

*Revisão: Guilherme Costa

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Sobre a Universidade do Futebol

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