Universidade do Futebol

Geraldo Campestrini

24/12/2014

Lições do exterior – Parte 3

Para fechamento do relato das experiências vivenciadas no Curso de Esporte nos EUA, promovido pela UNISUL entre os dias 06 e 20-dez, reservo uma reflexão que considero importante para a evolução dos negócios do esporte no Brasil.

Primeiro que os aprendizados vindos de países mais maduros em termos de esporte enquanto plataforma de negócio é sempre válido, mas devem vir invariavelmente acompanhados de uma reflexão profunda sobre a cultura e os costumes locais para poderem ser replicados em outras realidades. Ouvi e sempre tive como referência o esporte dos EUA. Mas só a vivência prática (ainda que breve), permite ver de perto os costumes e a forma como outras pessoas lidam e se relacionam com os diferentes segmentos de mercado.

E é justamente neste aspecto que somos imensamente diferentes. Assim como somos dos europeus, um mercado que tive a oportunidade de vivenciar e aprender de forma mais holística. O fato é que precisamos encontrar O NOSSO MODELO.

O que aí está não suporta uma convivência em comunhão entre as entidades esportivas, na sua maioria geridas de maneira arcaica, com as necessidades do mercado (empresas, mídia, patrocinadores etc.) e das pessoas. A divisão de quem faz o que precisa ser melhor estruturada: aqui no Brasil, segundo a opinião pública, parece que todas as entidades têm que fazer tudo sempre. Isso é impossível.

Nos EUA pude perceber que essa premissa está muito clara e a divisão de atividades fica evidenciada pelo papel e gênese de cada organização. Ligas Profissionais (e respectivas franquias), se não tiverem dinheiro para pagar seus atletas e suas despesas, vão a falência. Escolas e universidades tem o papel de formação dos atletas e administram seus próprios recursos de acordo com suas características (ou seja, fazem suas próprias escolhas com os recursos que possuem em mãos para todas as atividades – ensino, pesquisa, extensão, cultura, lazer, estrutura física… até o esporte). Federações de Esportes Olímpicos simplesmente selecionam suas equipes para a disputa de Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos e devem, naturalmente, trabalhar para a promoção e o desenvolvimento das respectivas modalidades.

No Brasil, Federações, ONGs, Clubes, Poder Público, Sistema S, Empresas, Universidades, Escolas, Associações, Agências e Mídia se sobrepõe nas atividades umas das outras. No final das contas, como a entrega fica pulverizada, a qualidade também não é das melhores e o resultado é aquilo que todos nós conhecemos.

Outras duas premissas importantes que são muito bem trabalhadas lá na terra do Tio Sam e que aqui ainda precisaremos alicerçar projetos consistentes para o alcance de resultados:

(1) O poder público contribui vez por outra com projetos de instalações esportivas, desde que alinhadas aos interesses dos parceiros privados (ligas e/ou franquias), no âmbito do esporte de alto rendimento; e investem em escolas e universidades, que administram seus recursos para reservar uma parcela que considerem importante para a aplicação no esporte. Em suma, desde o processo de formação de atletas até as atividades de esporte profissional, a intervenção do governo é mínima, tal e qual a característica do país – mercado autorregulado. Não considero para esta análise o esporte de participação/lazer, que não foi plenamente estudado.

(2) O clientelismo. A distância que temos para a realidade dos mercados lá fora é impressionante. Desde os pequenos detalhes, que vem desde a sinalização das instalações a cortesia de atendimento em bares e lanchonetes; até o relacionamento de patrocinadores e das próprias equipes com os consumidores, além, é claro, do cuidado com o cenário e a entrega do produto. Ainda cabe mencionar a qualidade dos produtos licenciados, a quantidade de alternativas de consumo da marca, a presença da marca em toda a cidade (bares, lanchonetes temáticas, lojas etc.), sonorização, atrações para o público, diversificação de alternativas de lazer, atividades antes do jogo (…). Na teoria, parece redundância falar em “tratamento especial aos clientes”, de tão óbvio que são seus pressupostos. Mas na prática, quando olhamos para o que acontece no nosso mercado, é preciso ensinar o básico ainda para poder começar a dialogar.

Enfim, é cada vez mais claro que o esporte brasileiro necessita de uma rediscussão de seu modelo. É necessário acabar com algumas distorções se quisermos realmente falar em negócios e mercado de esporte de alto rendimento. E é preciso fazer isso urgentemente!!!

Leia mais:
Lições do exterior – Parte 2
Lições do exterior – Parte 1 

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