Entrevistas

01/12/2017

Lucas Khodor Silvestre – Auxiliar Técnico do São Paulo F.C

Não é raro escutar de jogadores que trabalharam com o técnico Dorival Júnior, 55, relatos de pequenas confusões em treinamentos. Muitos atletas, quando ouvem a voz ou veem de longe o auxiliar Lucas Khodor Silvestre, 29, acham que estão lidando com o comandante. Afinal, o membro do estafe é o filho mais velho do treinador e ex-jogador.

As semelhanças entre Lucas e Dorival vão muito além do físico ou do tom de voz. O auxiliar é parte preponderante na construção do trabalho do técnico, a quem acompanha há pelo menos três anos. Formado em educação física pela Unisul, tem vários cursos de aprimoramento e um alto grau de entrosamento com o técnico. Prova disso é que Lucas jamais usa a primeira pessoa do singular quando se refere ao trabalho da comissão. Quando expõe opiniões sobre o que acontece nos clubes ou conta detalhes sobre o que o pai pensa, sempre troca o “eu” pelo “nós”.

Essa simbiose, contudo, pode não ser longeva. Lucas pensa em trilhar um caminho próprio e pretende trabalhar como treinador. Em um espaço de dez ou 15 anos, espera ter chances para liderar sua própria comissão e construir uma carreira que o leve até o futebol europeu. Para isso, pensa também em estudar e tirar licença que seja aceita na Uefa, entidade que gerencia a modalidade no Velho Continente.

Enquanto espera, Lucas trabalha prioritariamente com jovens e se espelha em nomes como Guardiola, Simeone, Carlo Ancelotti, Tite e José Mourinho. Também tenta se adequar à cultura imediatista que ainda está colocada no cenário nacional.

Universidade do Futebol – Existe algum profissional que sirva como inspiração para você em sua área? Qual?

Lucas Khodor Silvestre – Treinadores como Guardiola, Simeone, Carlo Ancelotti, Tite e José Mourinho. Procuro observar o que cada um tem de melhor (nas minhas modestas visão e opinião) e o que consigo adequar ao meu dia a dia de trabalho.

Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas do seu trabalho?

Lucas Khodor Silvestre – Periodização tática, treinamento estruturado, neurociência e pedagogia do esporte. Tiramos o que mais se adequa de cada autor, que são as referências para montarmos nossa metodologia.

Universidade do Futebol – Há algum modelo de jogo com o qual você se identifica mais? É o mesmo que você aplica?

Lucas Khodor Silvestre – Existem alguns modelos que nos agradam, e nós buscamos tirar o melhor de cada um deles para criar nossa maneira de jogar. O que mais nos identificamos é com ataque posicional com troca de passes dinâmica. Buscamos adaptar diversas situações para a nossa equipe.

Universidade do Futebol – Que avaliação você faz sobre o nível de jogo do futebol brasileiro atualmente?

Lucas Khodor Silvestre – Após a Copa do Mundo, os brasileiros se viram na necessidade de buscar conhecimento. Os treinadores procuraram esse aprimoramento, e hoje vejo que os jogos melhoraram bastante taticamente – principalmente de três anos para cá. Mas nossos melhores jogadores ainda estão fora do país, e a cultura de resultado imediatista ainda pesa muito na qualidade. Um treinador na Europa dificilmente deixa de encerrar o ano em seu clube, fazendo com que tenha segurança para colocar seu modelo de jogo durante a temporada. Aqui muitas vezes o medo de perder acaba mudando algumas convicções.

Outro problema que vejo é o número de jogos de cada atleta. Isso faz com que dificilmente estejam em sua capacidade máxima nas partidas.

Universidade do Futebol – Qual é o perfil de atleta que mais agrada a você?

Lucas Khodor Silvestre – Jovens com vontade de aprender, que gostem de saber o que estão fazendo e por que estão fazendo. Assim o entendimento fica mais fácil.

Universidade do Futebol – Como você avalia a disponibilidade de talentos no futebol brasileiro atual?

Lucas Khodor Silvestre – O Brasil continua sendo um grande produtor no quesito qualidade de talentos. Apesar de não viver o dia a dia de categorias de base, nos dois últimos clubes em que eu trabalhei, que foram Santos e São Paulo, ambos possuem uma grande quantidade de atletas com potencial absurdo. O Brasil continua colocando um número enorme de jogadores em diversos clubes do mundo, e a cada ano surgem novos talentos por aqui. Porém, trabalhando no profissional e muitas vezes distante do que acontece nas categorias de base, vejo que muitos ascendem com muitas deficiências técnicas e táticas. Devido à cultura brasileira de resultados imediatos, instalada até nas equipes amadoras, algumas etapas do processo de formação estão sendo negligenciadas.

Universidade do Futebol – Como você lida com essas limitações dos jogadores por deficiências no trabalho de formação?

Lucas Khodor Silvestre – Os atletas acabam subindo com diversas dificuldades de compreensão tática e de parte técnica. Quando detectamos isso, buscamos ensinar e corrigir em trabalhos individuais e coletivos. Mesmo sabendo que devido à cultura brasileira de resultados imediatos você talvez não consiga utilizar esse atleta, damos uma atenção especial para isso, já que o mais gratificante é você ver o crescimento profissional desses garotos.

Universidade do Futebol – Na sua opinião, quais são as responsabilidades de um treinador de futebol?

Lucas Khodor Silvestre – Desenvolver os atletas individualmente e coletivamente para que se tornem não apenas melhores no esporte, mas seres humanos melhores. E também deixar para o clube algo melhor do que encontramos na nossa chegada.

Universidade do Futebol – Qual é a relação que você tem com categorias de base nos clubes em que trabalha?

Lucas Khodor Silvestre – Muito próxima. Tenho a preferência de trabalhar com jovens devido à vontade de ensinar e a vontade que eles têm de aprender. Busco conhecer todos os jogadores por nomes, assistindo a treinamentos e jogos da base e chamando atletas para treinamentos esporádicos do profissional. Para isso é necessário ter proximidade entre as comissões técnicas, buscando informações diárias sobre os atletas.

Universidade do Futebol – Na sua concepção, existe um modelo ideal para a transição de jogadores da base para o profissional?

Lucas Khodor Silvestre – Para não queimar etapas, é importante que o atleta vivencie o profissional sem deixar de ser da base. Treinamentos no time de cima são importantes, mas também é importante ele atuar em sua categoria. Assim ele pode vivenciar questões do dia a dia e colocá-las em prática nos jogos.

Universidade do Futebol – A criação de times sub-23 pode ajudar nesse processo de afirmação dos jogadores?

Lucas Khodor Silvestre – Há discordâncias sobre isso até dentro dos clubes. Vejo equipes sub-23 como algo muito importante, mas só se tiverem duas finalidades: terminar a maturação e a formação de atletas e segundamente, no caso de surgir um possível talento em um clube de menor expressão que chame atenção da comissão técnica, terminar sua formação. Foi assim no caso do Vitor Bueno, que jogou conosco no Santos. O São Paulo não possui ainda essa categoria, mas há possibilidade de iniciar.

Universidade do Futebol – Qual é a importância de os times de base terem modelos similares ao que é usado no profissional? Você acredita na unificação de sistemas de jogo, por exemplo?

Lucas Khodor Silvestre – Primeiramente devemos questionar o que é o modelo de jogo do profissional. No Brasil, se o Guardiola for contratado por um time e demitido dois meses depois, o nome mais cotado para assumir no lugar dele pode ser o do José Mourinho. Dois modelos totalmente diferentes, e os clubes não avaliam o que querem – pensam apenas no nome mais badalado entre os que estão desempregados. Na minha opinião, mais importante do que o modelo do profissional é o atleta vivenciar diversas situações e entender o porquê de cada uma.

Universidade do Futebol – Quais são seus objetivos profissionais?

Lucas Khodor Silvestre – Quero fazer um curso que seja válido na Uefa. Vejo que no Brasil o preço cobrado está fora dos padrões, além de os certificados não serem válidos por lá. Quero ser treinador e um dia trabalhar na Europa.

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