Universidade do Futebol

Entrevistas

13/05/2011

Lucas Oaks, fisiologista do Ceará Sporting Club

O Ceará que entrou em campo na última quarta-feira, no estádio Presidente Vagas, para o duelo diante do Flamengo, valendo uma vaga para as semifinais da Copa do Brasil, apresentava média de idade próxima dos 30 anos. Esse simbolismo é reflexo do grupo experiente, cuja base está montada desde 2009, quando a equipe alcançou o acesso à primeira divisão do Campeonato Brasileiro. De lá para cá, cabe a Lucas Oaks a aplicação dos conceitos fisiológicos nos atletas e o auxílio à comissão técnica principal.

Formado na Universidade Federal de Minas Gerais em Educação Física, o jovem profissional já acumula em sua carreira um estágio no Cruzeiro Esporte Clube, assistido pelo professor Emerson Silami, que coordenava o Laboratório de Fisiologia do Exercício daquela instituição de ensino e era o fisiologista da equipe celeste à época. Antes de finalizar a graduação, recebeu o convite para compor o staff do Atlético Goianiense, a partir do treinador Paulo César Gusmão, o mesmo que o levaria ao Ceará, meses depois.

Atualmente, mantém um bom relacionamento com Vagner Mancini. O diálogo é ligado às cargas de treinamentos aplicadas nas sessões passadas e no planejamento das atividades futuras, de olho na sobrecarga correta para cada atleta.

O alvo é evitar lesões musculares e potencializar as características predominantes dos atletas, minimizando as características não predominantes. “Desde 2009 iniciamos um trabalho preventivo que passa pela fisioterapia e o treinamento específico dentro do campo. Criamos situações de treinamentos funcionais para fortalecer musculaturas profundas que se inserem no quadril”, explicou Lucas.

A partir daí, a busca é por um controle rígido das cargas de treinamento e um bom programa de musculação desenvolvido e controlado pelos preparadores físicos do clube, chefiados por Djalma Neto.

“Conseguimos no ano passado, após 87 partidas oficiais, divididas entre Estadual, Copa do Brasil, Copa do Nordeste e Brasileirão, ter apenas oito lesões musculares, mesmo mantendo praticamente em toda primeira divisão a mesma base de atletas, chegando ao fim do ano com esse grupo jogando em média cinco mil e setecentos (5.700) minutos, ou seja, quase 64 partidas na temporada”, revelou Lucas, que enalteceu a conduta profissional dos atletas fora do campo.

Com um grupo heterogêneo, a peculiaridade do Ceará na disputa da principal competição nacional do segundo semestre é a posição geográfica do próprio estado em relação ao eixo das partidas. O grande desafio da comissão técnica e do departamento médico será acelerar o processo de recuperação e auxiliar a direção no planejamento de uma logística de viagens.

“Creio que somos um dos times da Série A que mais atuaram nessa temporada – já foram 32 jogos, incluindo o segundo jogo contra o Flamengo pela Copa do Brasil, e ainda restam os 38 jogos da Série A e a Copa Sul-Americana. Mais do que nunca temos que controlar efetivamente e eficientemente os treinamentos e a recuperação dos atletas”, sinalizou o fisiologista de 25 anos.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Lucas revelou que está terminando de montar o departamento de fisiologia da forma que ele julga ser ideal. Hoje, o clube já conta com monitores cardíacos para todos os atletas, GPSs, lactímetros, foto-células, plataforma de contato, reflotron e está prestes a adquirir um dinamômetro isocinético e modernizar a academia.

“Além disso, claro, queremos transferir para o campo todo trabalho realizado desde 2009, em forma de conquistas regionais e nacionais”, completou. O 40° troféu do Campeonato Cearense já está na galeria. E o sonho de triunfo na Copa do Brasil segue vivo.


 

Universidade do Futebol – Como foi seu ingresso e a trajetória profissional no futebol?

Lucas Oaks – Como a maioria das crianças brasileiras, eu tinha o sonho de me tornar jogador de futebol profissional, porém com o tempo percebi que não apresentava o necessário pra realizar tal sonho, e então decidi estudar Educação Física.

Sabendo o quão fechado é o mercado do futebol, percebi que deveria cursar a faculdade em uma cidade onde havia clubes de expressão dentro do cenário brasileiro, pois assim aumentariam as chances de um estágio. Foi aí que em 2005 fui aprovado no curso de Educação Física da Universidade Federal de Minas Gerais. Após um ano e meio como bolsista no Laboratório de Fisiologia do Exercício (LAFISE), tive a oportunidade de ingressar em agosto de 2007 no Cruzeiro Esporte Clube, por meio do professor Emerson Silami, que coordenava o LAFISE e era o fisiologista da equipe principal à época.

Depois de quase dois anos de estágio, em que tive a oportunidade ímpar de trabalhar com técnicos de ponta, podendo vivenciar o dia-a-dia de um grande clube do futebol brasileiro, recebi a partir do Paulo César Gusmão o convite no início de março de 2009, ainda no oitavo período da graduação, para compor a comissão técnica do Atlético Goianiense como fisiologista.

Iniciava nesse momento minha trajetória como profissional no futebol. Depois do Atlético Goianiense, o PC Gusmão foi para o Ceará Sporting Club, e mais uma vez fui convidado, agora para avaliar o grupo e apresentar ao presidente do clube um projeto de implementação do departamento de fisiologia.

No fim de agosto recebi o convite oficial do Ceará para montar o departamento e assumir o cargo de fisiologista do exercício do clube, função que ocupo até o presente momento.



Aos 25 anos, Lucas iniciou trajetória no Cruzeiro, passou pelo Atlético-GO e desde 2009 atua como fisiologista do Ceará

 

Universidade do Futebol – Sua monografia abordou o controle de treinamento de uma equipe profissional de futebol durante o macrociclo de treinamento. Poderia falar um pouco sobre o processo de desenvolvimento desse trabalho?

Lucas Oaks – Esse trabalho surgiu da necessidade de descrever como ocorre a distribuição dos componentes da carga em um time de futebol profissional. Muitas vezes não conseguimos aplicar onde trabalhamos os modelos de periodização encontrados nos livros. Daí tive a ideia de abordar essa distribuição com ênfase no controle da carga de treinamento.

Após autorização, primeiro do meu tutor, o professor Emerson, depois do preparador físico que estava na equipe, o mestre José Mário Campeiz, coletamos os dados em praticamente todas as sessões de treinamento do Cruzeiro no ano de 2008. Consegui, a partir desses dados, gerar uma visualização de como funciona a distribuição das cargas nas diferentes valências, usando a metodologia apresentada por Gomes (2002).

Foi um trabalho muito prazeroso de ser realizado, pois sabia que poderia contribuir para quem não tinha acesso à estruturação de um macrociclo em uma equipe de futebol profissional.

Universidade do Futebol – O PC Gusmão é um profissional que, como preparador de goleiros, passou por Corinthians e Palmeiras, além de ter sido treinador de Cruzeiro e Figueirense. O Mancini, da mesma forma, estabeleceu-se em uma metodologia de trabalho diferenciada no Paulista, de Jundiaí, e viveu a realidade de clubes estruturados e referenciais, como Santos, Vitória e Grêmio. Como foi o contato com o primeiro e de que maneira está sendo integrado o trabalho com o último?

Lucas Oaks – O contato com o PC Gusmão foi muito proveitoso na minha formação. Era minha primeira experiência como fisiologista principal de um clube de futebol – no caso, o Atlético Goianiense. Por mais que tinha a confiança do meu professor e principalmente do Adilson Batista, na época técnico do Cruzeiro, não tinha as mesmas responsabilidades de um fisiologista dentro de um time de futebol.

O PC teve paciência comigo, e foi me ensinando, corrigindo falhas quando necessário e mostrando que o conhecimento teórico é tão fundamental quanto a vivência do futebol. Sou muito grato a ele, pois além da primeira oportunidade de trabalho profissional, foi por ele que cheguei ao Ceará e vivi a maior emoção até o momento no futebol, que foi o acesso à Série A do Campeonato Brasileiro, no mesmo ano de 2009.

Com o Mancini, tenho um ótimo relacionamento e liberdade para realizar o meu trabalho. Ele me dá abertura e sempre mantemos uma linha de comunicação de dois sentidos.

Conversamos sobre as cargas de treinamentos aplicadas nas sessões passadas e planejamos as sessões futuras, visando a sobrecarga correta para cada atleta, evitando, assim, lesões musculares. Além disso, potencializamos as características predominantes dos atletas e minimizamos as características não predominantes. Também sou grato ao Mancini, pois foi com ele que conquistei meu primeiro título estadual com o Ceará.


PC Gusmão comemora gol com Sérgio Alves, ídolo da torcida do Ceará; treinador foi o responsável pela chegada de Lucas ao clube nordestino

 

Universidade do Futebol – Até 2007, não havia um departamento médico no Ceará. Desde 2009, o clube passou a contar até com um centro específico de Fisiologia do Exercício. Quais são os próximos passos para que o clube se firme como uma das referências nordestinas – e nacionais – nessa área?

Lucas Oaks – Sem dúvida a mudança na estrutura física e administrativa já nos credencia como uma das referências nordestinas, no que diz respeito à estrutura de trabalho.

Estamos terminando de montar o departamento de fisiologia da forma que julgo ideal. Hoje, temos monitores cardíacos para todos os atletas, GPSs, lactímetros, foto-células, plataforma de contato, reflotron, nos quais dosamos marcadores bioquímicos. Nossos próximos passos são a aquisição de um dinamômetro isocinético e a modernização de nossa academia.

Além disso, claro, queremos transferir para o campo todo trabalho realizado desde 2009, em forma de conquistas regionais e nacionais.

 

Entrevista: Paulo Vasconcelos, diretor do DM do Ceará S.C
 

 

Universidade do Futebol – A monitoração dos trabalhos no futebol deve considerar o tipo de exercício intermitente, no qual períodos curtos de alta intensidade são entremeados com períodos mais longos de recuperação ativa ou passiva. Como você atua nesse sentido e controla as variáveis apresentadas na programação de treinos do Ceará?

Lucas Oaks – Todo trabalho de controle de carga e direcionamento de treinamento ocorre após os diversos testes físicos que realizamos no início da temporada, para diagnosticar o estado físico dos atletas e também a característica individual. Após a coleta desses dados, traçamos direções de treinamento juntamente com o nosso preparador físico, Djalma Neto. Dessa forma, ele cria e executa situações que abrangem a demanda motora que indicamos, juntamente com a demanda fisiológica que precisamos melhorar nos atletas.

Sempre acompanho a sessão de treinamento para saber qual demanda motora foi exigida dos atletas. Após os treinamentos, faço relatórios, nos quais verifico a intensidade relativa a cada atleta naquela sessão. Utilizo como parâmetro de controle das cargas de treinamento tanto a intensidade relativa à frequência cardíaca máxima e do limar de lactato, volume de treinamento, como duração e distância percorrida, marcadores bioquímicos CK, e um feedback dos atletas, através de uma tabela de percepção subjetiva de cansaço e dor.

Creio que com essas variáveis conseguimos prevenir a síndrome do overtraining, minimizando as chances de lesões musculares e de queda de desempenho.

Depois de apresentar tal relatório ao preparador físico e ao treinador, traçamos juntos a sessão de treino seguinte, respeitando o calendário de competições e as necessidades de treinamento definidas pelo Mancini.

Lucas realiza atividade em Porangabussu com os atletas; trabalho integrado com Mancini e comissão técnica vem rendendo bons frutos, como o título estadual desta temporada

 

Universidade do Futebol – Em alguns estudos científicos foi constatado que os pequenos jogos podem ser usados de uma forma efetiva de treinamento de resistência para jogadores de futebol. Esse tipo de atividade em campo reduzido é implementada pela comissão técnica do clube, sob a sua orientação?

Lucas Oaks – Sem dúvida utilizamos treinamentos em pequenos jogos com o objetivo de melhorar não apenas a resistência lática ou alática, dependendo de como o Djalma varia os componentes da carga, mas também como meio de melhoria técnica e das ações táticas individuais. Mas essa definição já fica mais a cargo do Mancini.

Procuro orientá-los sobre tempo da sessão de treinamento e da duração de cada estímulo de campo reduzido para os atletas.

 

A ciência dos pequenos jogos

 

Universidade do Futebol – O atual elenco do Ceará, com uma base que se estende desde a disputa da Série B de 2009, possui uma faixa etária média de aproximadamente 28 anos. Entretanto, são poucos os casos recentes de lesão muscular. Há uma explicação genérica para isso, deve-se mesmo ao perfil diferenciado de cada um ou já é reflexo do trabalho que está sendo realizado?

Lucas Oaks – Creio que é um somatório dos fatos. No Ceará, desde 2009 iniciamos um trabalho preventivo que passa pela fisioterapia e o treinamento específico dentro do campo. Como? Criamos situações de treinamentos funcionais para fortalecer musculaturas profundas que se inserem no quadril.

O segundo momento é ter um controle rígido das cargas de treinamento e um bom programa de musculação desenvolvido e controlado pelos preparadores físicos do clube, sempre chefiados pelo Djalma. Costumo falar que o que causa mais lesões não é o método de treinamento, e sim o controle efetivo dos componentes da carga.

Conseguimos no ano passado, após 87 partidas oficiais, divididas entre Estadual, Copa do Brasil, Copa do Nordeste e Brasileirão, ter apenas oito lesões musculares, mesmo mantendo praticamente em toda primeira divisão a mesma base de atletas, chegando ao final do ano com esse grupo jogando em média cinco mil e setecentos (5.700) minutos, ou seja, quase 64 partidas na temporada.

Porém, não resta dúvida de que tão importante quanto o nosso trabalho realizado, é a conduta profissional dos atletas fora do campo.


Trabalho de coretraining realizado por jogadores experientes, como Iarley (primeiro plano): trabalho preventivo é efetivo somente por conta do comprometimento do grupo

 

Universidade do Futebol – O Ceará, inclusive, possui alguns atletas que já ultrapassaram a barreira dos 30 anos em seu elenco principal. Há um trabalho específico com esses atletas?

Lucas Oaks – Realizamos um trabalho direcionado especial para cada atleta acima dos 30 anos. Como entendemos que é esperado um tempo maior para recuperação desses atletas, priorizamos os treinamentos específicos às características principais, potencializando-as. Dessa forma, conseguimos diminuir o volume total e treinando com maior intensidade em suas potencialidades, visando sempre um menor desgaste da musculatura.


Aos 37 anos, Geraldo é o capitão do Ceará desde 2009; jogador foi destaque na campanha do acesso à Série A e, mais recentemente, no duelo contra o Flamengo, pela Copa do Brasil

 

Universidade do Futebol – Com a temporada em andamento, quais serão os seus principais desafios frente à fisiologia? E qual a importância de uma intertemporada para o andamento do trabalho da comissão técnica?

Lucas Oaks – Devido à posição geográfica do nosso estado em relação ao eixo das partidas no Campeonato Brasileiro, nosso maior desafio será acelerar o processo de recuperação e auxiliar a direção no planejamento de uma logística de viagens.

Creio que somos um dos times da Série A que mais atuaram nessa temporada – já foram 32 jogos, incluindo o segundo jogo contra o Flamengo pela Copa do Brasil, e ainda restam os 38 jogos da Série A e a Copa Sul-Americana. Porém, no Estadual, os jogos são muito próximos, o que pode refletir em um desgaste maior dos atletas durante o Brasileiro.

Mais do que nunca temos que controlar efetivamente e eficientemente os treinamentos e a recuperação dos atletas.

Uma intertemporada durante o ano tem a mesma sensação de um oásis no meio do deserto. Seria o momento de diminuirmos a carga de treinamento, reavaliarmos para direcionar o restante da temporada e, assim, realizarmos treinamentos direcionados em cima dessa nova avaliação.

Uma intertemporada no nosso calendário seria fundamental para diminuir o desgaste dos nossos atletas, favorecendo também a comissão técnica no planejamento para pontecialização dos atletas.


Ceará encara Grêmio e Inter em Porto Alegre, no Brasileirão-10: distância geográfica faz com que comissão técnica se preocupe com aspectos de logística e de recuperação física

 

Universidade do Futebol – A potência aeróbia reflete a qualidade de funcionamento dos sistemas respiratório, cardíaco e muscular esquelético – pré-requisito para uma boa performance esportiva. A construção de uma base aeróbia boa se inicia no departamento de formação de atletas? Se um atleta se apresenta com déficit na categoria principal, que tipo de trabalho deve ser realizado com ele?

Lucas Oaks – Sem dúvida a formação das bases de toda valência física deveria focar nas equipes menores. Na categoria principal muitas vezes não temos tempo hábil para minimizar um déficit do atleta.

Caso um atleta apresente esse quadro, devemos inicialmente diagnosticar qual é a valência que necessita de atenção especial e de quanto é esse déficit. Em um momento seguinte, um profissional qualificado deve ficar com toda atenção voltada para este atleta – dessa forma conseguimos diminuir o tempo para que ele atinja o nível desejado e estipulado pelo fisiologista e pelo preparador físico.

Universidade do Futebol – Qual a real importância dos marcadores sanguíneos na indicação de nível de lesão, estado de hidratação, condição de fadiga e desgaste muscular de um atleta de futebol?

Lucas Oaks – Não resta dúvida de que tais marcadores são extremamente úteis, porém devem ser interpretados com muita atenção. Existem variações individuais para certos marcadores, como a concentração de Creatina Kinase (CK).

Os fisiologistas e preparadores físicos devem prestar atenção nesses números, que não são mágicos. Por exemplo: diagnosticar que a concentração de CK de certo atleta está alta não significa que o mesmo terá lesão durante um jogo, e nem podemos afirmar que caso essa concentração esteja baixa o risco de lesão muscular é inexistente. No entanto, os marcadores bioquímicos nos dão um respaldo maior sobre o estado de fadiga e desgaste muscular do atleta.

Estado de hidratação é outro meio muito útil para evitar a perda de desempenho. Nosso país é predominantemente quente e úmido, e as partidas são realizadas muitas vezes em ambientes que não favorecem a termorregulação, aumentando o índice de sudorese e consequentemente a desidratação.

Devemos nos atentar em relação à quantidade de líquido que nossos atletas ingerem nas sessões de treinamento e jogos, monitorando-os desta maneira para que não percam desempenho.

Todas essas informações são úteis quando utilizadas de maneira correta e, adicionalmente, a sensibilidade do preparador físico e do treinador muitas vezes se torna tão importante quanto esses dados. E nada adianta se o treinador não utiliza tais números e não tem sensibilidade. A ausência desses atributos por parte do treinador só contribui para aumentar a chance de lesão muscular.


Sucesso do trabalho de Lucas está atrelado ao conhecimento e à liberdade conferida pelo staff: “nada adianta se o treinador não utiliza números e não tem sensibilidade”

 

Universidade do Futebol – No pós-jogo ou treino, você utiliza a técnica da crioterapia com os atletas, ou crê que a imersão em água gelada possui benefícios apenas subjetivos?

Lucas Oaks – Ainda não há um consenso sobre a efetividade da imersão em água gelada na recuperação dos atletas. No Ceará deixamos os atletas bem à vontade quanto a realizar ou não a crioterapia. Nem sempre conseguimos, e podemos mudar a rotina de atletas que sempre se recuperam de jogos com essa técnica.

Tais mudanças ocorrerão em longo prazo, mas creio que os benefícios sejam muito mais subjetivos do que em termos de recuperação efetiva da musculatura.

 

Utilização da crioterapia no futebol: mitos e verdades
 

 

Universidade do Futebol – Em se respeitando todas as especificidades de região para região, como você, que atua em um clube do Nordeste, enxerga as principais carências em termos de atualização e capacitação aos profissionais locais? Há seminários, congressos, e o que é necessário para um maior intercâmbio nesse sentido?

Lucas Oaks – Graças a Deus a globalização e a internet existem. E sendo assim, há facilidade de obter conhecimento aqui no Nordeste, como no Norte, no Sul, e em outras regiões do nosso país.

Quando cheguei no Ceará encontrei profissionais atualizados e extremamente competentes. O que falta para nossos times é se firmarem no cenário nacional, sem oscilar entre as Séries A e B do Campeonato Brasileiro. Creio que mantendo essa regularidade de desempenho, os profissionais locais serão cada vez mais valorizados.

Nosso preparador físico, Djalma Neto, prata da casa, é extremamente competente, domina conceitos e é muito criativo com o comando. Não tenho dúvidas de que em pouco tempo será um dos grandes nomes em preparação física dentro do país. Depende dos títulos que ganharmos e da manutenção do Ceará na primeira divisão. Para corroborar tal informação, basta ver nosso desempenho físico nos jogos disputados no Brasileiro de 2010 e nos jogos nacionais desse ano.

Infelizmente, a mentalidade de muitos profissionais do futebol brasileiro é retrógrada e ultrapassada. Necessitamos de mais trocas de informações, sobre meios de treinamento e controles de carga.

Os profissionais do futebol precisam entender que não é o fisiologista ou preparador físico que ganham os jogos. Damos suporte para nossos atletas desenvolverem o máximo de sua capacidade física. As partes tática e técnica, inerentes ao atleta, são o pequeno, mas importante detalhe, que determinam os jogos e os campeonatos.

Precisamos de mais congressos, simpósios, seminários e mesas redondas entre os profissionais, para debatermos em termos científicos nossos treinamentos. Creio que se aumentarmos o intercâmbio de conhecimento, o nível de profissionais melhorará bastante, e quem tem a ganhar é o futebol brasileiro, além da nossa profissão.

Universidade do Futebol – A Uefa possui uma associação que estuda as principais causas de lesões em atletas, com um grande banco de dados. Recentemente, foi criada no Brasil uma associação de médicos ligados ao futebol (a CBMF) para a montagem de algo semelhante ao que é feito por lá. É esse o caminho para que haja uma melhor prevenção no futebol? Já houve alguns frutos efetivos?

Lucas Oaks – Certamente esse é o caminho. Entender o que está sendo feito na preparação física no Brasil é o primeiro passo para visualizarmos nossos erros e procurar soluções.

Nosso chefe do departamento médico, o doutor Gustavo Pires, já conversou comigo sobre as iniciativas da CBMF e já tentamos colocar em prática os resultados das discussões científicas oriundas desse órgão.

Universidade do Futebol – Atualmente, pode-se dizer que a fisiologia do esporte aplicada ao futebol ultrapassou as ações laboratoriais e tem atuação direta no cotidiano das agremiações? Qual é o novo papel do fisiologista?

Lucas Oaks – Hoje em dia, o fisiologista deixou de ser o profissional que faz apenas os testes físicos nos atletas durante a pré-temporada. Passou a ter uma atuação direta na elaboração de planejamentos anuais, programações de viagens, de treinamentos, e tudo que envolve o treinamento e a recuperação dos atletas.

Nossa profissão tem que atuar diretamente em uma via ampla e aberta com treinador, preparador físico e diretoria.

Cabe aos fisiologistas direcionar “o quê”, “quando” e “quanto” será treinado, sendo no microciclo ou no meso-ciclo. Os preparadores físicos têm que “sentir a falta” de um profissional que os indique o que treinar.

O futebol evoluiu bastante em níveis de exigência física, e o controle de carga bem gerenciado pelo fisiologista auxilia o preparador físico no treinamento dos atletas visando o máximo de desempenho sem os expor a lesões musculares.

Também vejo como função do fisiologista moderno uma intersecção com a fisioterapia atuando no momento de transição entre departamento médico e preparação física, evitando a reincidência, muitas vezes precoce, de lesões musculares.

Devemos atuar juntamente ao nutricionista do clube, traçando metas para atletas que necessitam de atenção especial para a composição muscular, seja no aumento de massa magra ou na perda de massa gorda.

Creio que esses papéis de atuação, e principalmente a relação sincera e de confiança com o preparador físico e o treinador, darão ao fisiologista condições de desempenhar um excelente trabalho no time em que estiver.

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