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03/07/2014

Mané explica Garrincha

E uma nova Copa do Mundo está em curso. Singular oportunidade para o torcedor de arquibancada acompanhar o auge dos astros do futebol num mesmo torneio. Momento propício para publicação de tratados, resenhas, artigos, matérias, reportagens e textos em microblogs sobre edições e jogadores do passado.

Especialistas de outrora já revisitaram a esmo a trajetória do personagem principal desta narrativa, nos muitos períodos pré-copas. No entanto, a ideia é alterar levemente o jeito de exibir o assunto. Costurar a linha do tempo de um dos mais emblemáticos e espetaculares jogadores que o planeta viu atuar – guiado por sua própria retórica.

Nasceu Manoel Francisco dos Santos. Um costume infantil avalizou o apelido curioso. “Sempre cultivei o hábito de caçar passarinhos. Existia um que sucessivamente caía em minhas armadilhas. Observando isso, o meu irmão decidiu me rebatizar com o nome da espécie: Garrincha (Troglodytes musculus). O apelido pegou e sou Garrincha desde então”, revelou.

Quem era Garrincha? Um gênio incompreendido, perverso em boemia, ou um homem acanhado, que nunca deixou de viver a inocência da infância, na qual o purismo lhe fugia pelos poros? Ele realmente era aquela molecagem em pessoa, que magnetizava plateias com seus gols, fintas e lances mágicos, conforme escreveu Nelson Rodrigues? Com a palavra, Zagallo:

Eterna criança

“Ele era um adulto com mentalidade de uma criança de 12 anos”. A despretensiosa revelação do Velho Lobo traz à tona uma provável explicação sobre a personalidade retraída e o vasto repertório de peripécias do “Anjo das pernas tortas”, tanto nos gramados quanto na vida. Distrofia física essa – desnível de seis centímetros da direita com relação à esquerda – que o próprio, um dia, disse desconhecer.

“Quando eu era criança e jogava bola lá na minha cidade, Pau Grande (distrito de Magé, Rio de Janeiro), nunca havia notado nada sobre esse negócio de perna torta. Quando cheguei ao Botafogo foi que as pessoas me avisaram que eu tinha um certo ‘defeito de fábrica’”, gargalhava com o assunto.

Garrincha incorporou esse jeito humilde, simples e despreocupado de um menino interiorano por toda a vida. Certo dia, horas antes de a seleção enfrentar a Áustria, em partida amistosa, perguntou a um colega: “viemos de tão longe para enfrentar o São Cristóvão?”.

Em campo nunca se amedrontou com nenhum adversário. Todo marcador, fosse de seleção ou de várzea, era sempre um ‘João’ a mais. A irreverência, quase que irresponsável, o acompanhou na gangorra que marcou negativamente a sua carreira e a vida social. Era um moço de gestos intuitivos, mas atrevidos.

O primeiro ‘João’

Nem Nilton Santos escapou de suas molecagens. Em 1953, ao ser testado no Botafogo, passou a bola entre as pernas daquele que era conhecido com a ‘Enciclopédia do Futebol’, já consagrado no time da Estrela Solitária.

“Contratem logo esse torto, é melhor jogar a favor do que contra”, solicitou à diretoria. Tempos depois, Nilton Santos admitiu orgulhoso ter sido o primeiro ‘João’ de Mané. Ficaram amigos. Garrincha o chamava de ‘compadre’.

Garrincha foi um dos ícones da época romântica do futebol. Jogava por prazer. Sentia-se bem dentro das quatro linhas. Ali, era feliz. Em 1978, pouco antes da Copa do Mundo da Argentina, perguntado sobre a qualidade do selecionado brasileiro daquele ano, deu a entender que os jogadores brasileiros tinham medo dos adversários.


Destemido

“O negócio é o seguinte, precisamos enfrentar todos os adversários com a mesma disposição. Temos um jogo contra a França, e daí? A França é a França e nós somos nós. Temos que ir lá e jogar pra vencer, qual é o problema de enfrentar a França?”, questionou. “Em campo nunca tive problema, nunca me apavorei com nada. Sabia que quando pegasse a bola teria que fazer alguma coisa. Era partir para cima deles e jogar o meu futebol”.

E prosseguiu: “Muita gente não pensa assim. Tem jogador que antes das partidas difíceis se amedrontam. E não tem nada disso. Não podemos entrar já com o pensamento de perdedor. Ora, perder ou empatar é natural, mas temos que jogar para ganhar. Se o Brasil entrar com esse pensamento, a gente não perde nunca, mas não perde mesmo. Eu duvido”, analisou.


Único drible?

O melhor jogador da Copa do Mundo de 1962 foi um cidadão de contrastes. Enquanto seu vocabulário era curto, se esquivava de perguntas dos jornalistas (certo dia se enrolou para responder se era um jogador polivalente), a quantidade de jogadas numa partida beirava o excepcional, provenientes de um drible característico – verdadeiro veneno na veia dos brucutus de plantão.

Mané Garrincha utilizou a deficiência de suas pernas como suporte para entrar na história do futebol mundial. “O drible nasceu comigo, não foi nada estudado. Acho que foi por causa da minha perna torta. Eu firmo com a perna esquerda, a mais forte, e driblo com a direita e desta maneira eu conseguia passar sempre”, esclareceu.

Alguns especialistas da época ousaram classificá-lo como jogador de um drible só, que todo mundo conhecia. Porém, mesmo muito utilizado, esse recurso nunca era interrompido. Mané sempre humilhava o “João” que se apresentava na sua frente. Isso, em um estilo de jogo que independia de orientações alheias.

“Claro que você tem uma orientação do treinador. Mas no meu pensamento, na minha maneira de jogar, sempre obedeci a mim mesmo. Porque eu tinha uma jogada certa e tinha certeza que todo mundo gostava daquela jogada. E era perigo para os adversários, então, o treinador não tinha nada que falar comigo”, filosofava.


Louco em potencial

O saudoso Fiori Gigliotti narraria desta maneira: “Abrem-se as cortinas torcida brasileira… e lá vem Garrincha, partiu pela direita, dribla um, passa pelo segundo, o terceiro já ficou para trás, vai em direção ao gol da Fiorentina, o goleiro, atônito, permanece imóvel na linha de gol. Vai marcar Mané… opa, ele parou, pisou na bola, não acredito, torcida brasileira, é isso mesmo que ele vai fazer? Garrincha está esperando outro defensor para também driblá-lo, sensacional, passou pelo último e é goooooooooooooooool do Brasil!!!!”.

Essa bucólica jogada de Garrincha foi magistralmente realizada em um amistoso preparatório para a Copa de 1958. O lance cinematográfico enfureceu a comissão técnica da seleção e, por conta disso, os médicos da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), hoje CBF, o “diagnosticaram” como louco. Por pouco, Garrincha não passou aquela copa inteira no banco de reservas.

“Eu fui fintando os beques, esperando para driblá-los novamente. Parei a bola dentro do gol e saí com ela debaixo dos braços e coloquei no meio de campo para o recomeço da partida. Eles me chamaram de maluco, alegaram que não reunia condições psíquicas de jogar futebol.

Quem disse foi um psiquiatra do Brasil. Falou que eu era louco… acredito que foi esse o motivo de a comissão técnica não me botar para jogar na Copa do Mundo de 1958 desde o início”, reconheceu.

O técnico Vicente Feola cedeu ao apelo do restante do selecionado nacional e o colocou como titular na vitória sobre a União Soviética por 2 a 0, gols de Vavá. Sobre esse jogo, em 1982, num encontro entre os dois, realizado pela revista Placar, Pelé disse à Garrincha: “Você enlouqueceu os russos. De cara, logo na primeira bola, entortou três: o lateral (Voinov), o quarto-zagueiro (Kusnetsov) e o cara do meio-campo (Tsarev). Dali em diante, só deu você”.

À fama de louco, o neurologista Melo Reis, em entrevista à revista Veja (janeiro de 1983), deu um parecer diferente. Revelou que Garrincha "usou isso em proveito próprio. Era uma maneira de escapar das ordens dos técnicos e, também, de cultivar uma imagem de desamparado, que agrada as pessoas”.


Explicando 62 e Pelé

Para a excepcional participação na Copa de 62, Mané reservou duas explicações: “primeiro, eu estava com a saúde e o preparo físico em completa harmonia. Mas a saída do Pelé facilitou e muito o meu desempenho. Porque quem joga na ponta fica muito preso, com espaço restrito, sem muita liberdade, e jogando mais para o restante do time”.
“Ele (Pelé) fez muita falta. Dizem que em 70 o meu espírito encarnou no Jairzinho e ele fez aquela ‘miséria’. Comigo, em 62, foi ao contrário. Foi o espírito do Pelé que veio em mim. Eu ia para o meio e tudo dava certo, a bola vinha na minha cabeça e eu marcava, fiz gol de perna esquerda, também fiz miséria. Então, acho que foi o Pelé que estava junto comigo ali. Foi uma necessidade. Tive que ir, ‘alguém’ me levou. Fiz tudo certinho e fui feliz, o Brasil foi feliz e levantamos a taça”, folclorizou.

Mais sensato, disse: “em 62, apesar de trabalhar para os outros, eu aproveitei o espaço deixado por Pelé no meio. Então, as bolas que proporcionalmente sobrariam para ele, sobraram para mim e acabei marcando os gols, foi apenas isso, nada mais”, desdenhou.


Um dia de ‘João’

Acostumado a entortar os “joões” europeus, Garrincha sofreu do próprio veneno naquela copa. No segundo tempo do jogo contra a Inglaterra, de repente, um cão adentrou ao gramado. Mané corre para agarrá-lo, mas virou o ‘João” do insólito momento, arrancando risadas dos adversários. “Aquele cachorro foi uma parada séria. Eu não consegui pegar e foi até bom, porque só assim fui o artilheiro da Copa do Mundo. Se o tivesse pegado, talvez, isso não me daria sorte. O gringo pegou e entrou bem. Não o peguei e ganhamos de 4 a 2”, contou Garrincha, que ganhou o cão e o trouxe ao Brasil, doando para familiares posteriormente.

Já com a carreira encerrada, não demonstrando nem um resquício daquele magistral Mané, Garrincha – muito debilitado por conta do alcoolismo – sem dinheiro, jogava por alguns trocados no Milionários, time formado por ex-atletas e anônimos, da várzea paulistana. O jogador passou por problemas financeiros no final da vida, mesmo sendo um dos maiores fenômenos que o futebol já presenciou. Tanto na seleção, quanto no Botafogo, clube por qual atuou ao longo de 15 anos, e assinava contrato em branco, tamanha a sua inocência para lidar com as partes importantes do cotidiano.

“Eu assinava meus contratos com o Botafogo em branco, não tinha a mínima noção de quanto ganharia. Ficava sabendo apenas dois, três dias depois. Nesse aspecto, fui um jogador muito amador. Nunca soube ser profissional”, lamentava. “Ao contrário do Pelé, nunca fui orientado por ninguém. O que tinha muito era gente para me levar para o mau caminho, principalmente no clube que mais joguei”, disparou contra o Botafogo.


Nunca reclamou

“Fora do campo, no meu clube, ou em outras áreas da minha vida, nunca reclamei de nada, mesmo sabendo que estava sendo prejudicado. Mas isso não me abatia. Podia me descontrolar às vezes, mas nada de ficar cabisbaixo, pois tinha certeza que Deus existe e que me faria recuperar o que me havia sido tomado. E graças a Deus eu recuperava cada centavo”, revelou o espetacular Mané Garrincha, o eterno garoto das pernas tortas, que sempre será lembrado em momentos pré-copas e para toda a vida deste esporte instigante chamado futebol.

P.S. Garrincha, “A alegria do povo”, faleceu no dia 20 de janeiro de 1983, um feriado, e seu velório foi realizado no palco em que realizou as mais belas jogadas que o futebol um dia promoveu: o Maracanã.
– Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho –

Carlos Drummond de Andrade


Referências bibliográficas, videográficas e áudiográficas

– Áudios históricos da Rádio Jovem Pan, São Paulo – (Acervo)
– Programa Vox Populi, da TV Cultura, entrevista concedida em maio de 1978
– Entrevista à TV Tupi em 1972
– Programa Plantão de Domingo (apresentado por Milton Neves), entrevista concedida em agosto de 1982
– Entrevista concedida à TV Record, em 1982 (ao jornalista Flávio Prado)
– Revista Placar, acervo de 1982
– Crônica “Garrincha, passarinho apedrejado” – Livro “Nelson Rodrigues, A pátria de chuteiras”, compilação de crônicas feita por Aldo Rebelo, Ministro dos Esportes, lançado em dezembro de 2013, editora Ediouro.
– Citação de Carlos Drummond de Andrade, extraída de crônica publicada no Jornal do Brasil, em 19 de janeiro de 1983
– Especial “O mágico sai de campo”, revista Veja, 26 de janeiro de 1983
 

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