Universidade do Futebol

Entrevistas

30/01/2015

Marcelo Antonelli, mestre em Educação na Saint Francis University

O “soccer”já é uma realidade nos Estados Unidos há algumas temporadas. Principal esporte por lá em número de praticantes no Ensino Médio, o processo para manter os principais estudantes focados nesta modalidade passa por uma “intervenção gringa”.

“Os jogadores estrangeiros, assim como a população recente de imigrantes, que trazem com eles uma forma de paixão diferente pelo esporte, são muito importantes para fortalecer o nível da liga profissional, tanto dentro de campo como nas arquibancadas”, explica Marcelo Antonelli, brasileiro que atua fora do país natal há mais de uma década.

Depois de se formar em Educação Física na Unicamp, jogou profissionalmente por cinco anos futsal na Itália. Bacharel em treinamento esportivo, partiu para a terra do basquete e do futebol americano para fazer um mestrado em Educação na Saint Francis University, na Pennsylvania. Além disso, fez os cursos residenciais da National Soccer Coaches Association of America (NSCAA, a associação americana de treinadores de futebol).

“Enquanto eu cursava Educação Física na universidade e era treinador da equipe de futebol e futsal feminino do Guarani, várias de nossas atletas foram jogar nos Estados Unidos. Isso despertou a minha curiosidade de ir também, fazer um mestrado e experimentar as oportunidades como treinador de futebol”, relembra o brasileiro.

Nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol, durante seu Premier Diploma da NSCAA, Antonelli falou sobre as grandes diferenças culturais entre o local onde vive e o local onde nasceu – algo que se reflete no tratamento de todas as ligas esportivas, profissionais ou não.

Segundo ele, quando se fala em esporte nos Estados Unidos, é importante deixar claro que o esporte universitário, apesar de amador por lei (da própria confederação universitária), muitas vezes atrai quase tanta mídia quanto o esporte profissional.

“Muitos americanos possuem raízes muito fortes com as universidades e preferem seguir as equipes universitárias tanto quanto as equipes profissionais”, completa Antonelli, que ainda dá dicas para os brasileiros que queiram ingressar neste mercado.

Universidade do Futebol –
Marcelo, fale um pouco sobre sua formação acadêmica e o início de sua trajetória no futebol.

Marcelo Antonelli – Cresci jogando futsal e futebol ao mesmo tempo: inicialmente futsal na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB) e campo na escola de futebol Chuteira de Ouro, ambas em Campinas (SP). Durante o ensino médio jogava futsal no campeonato paulista pelo Guarani Futebol Clube e pela seleção de Campinas, representando a cidade nos Jogos Regionais e Abertos. Ao mesmo tempo jogava campo pela AABB. Já durante a faculdade eu era o goleiro da seleção de futebol da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e, simultaneamente, era o treinador da seleção de futsal da mesma instituição. Além disso, jogava a liga de futebol de campo amadora de Campinas pelo Bela Vista. Após a universidade, passei cinco anos jogando futsal profissionalmente na Itália. Joguei por três anos no norte do país, um ano próximo a Roma e um ano na Sicília; o que foi, sem dúvida, uma experiência muito importante na minha vida.

Academicamente, fiz processamento de dados no Colégio Técnico de Campinas (COTUCA) e, em seguida, me formei em Educação Física na UNICAMP: bacharel em treinamento esportivo. Nos Estados Unidos (EUA) fiz meu mestrado em Educação na Saint Francis University, na Pennsylvania. Além disso, fiz os cursos residenciais da National Soccer Coaches Association of America (NSCAA, associação americana de treinadores de futebol).

Universidade do Futebol – Como é a formação do treinador de futebol nos Estados Unidos e de onde surgiu o convite para atuar nesta área de gestão técnica?

Marcelo Antonelli – Nos Estados Unidos duas organizações são as principais responsáveis por pela formação dos treinadores: a NSCAA e a U. S. SOCCER (a confederação americana de futebol).

Cada uma dessas duas organizações possui os próprios cursos e certificados. Os certificados da U. S. SOCCER são as licenças oficiais e boa parte da ênfase está nos testes, enquanto a NSCAA possui um caráter mais educacional.

Enquanto eu cursava Educação Física na universidade e era treinador da equipe de futebol e futsal feminino do Guarani, várias de nossas atletas foram jogar nos Estados Unidos. Isso despertou a minha curiosidade de ir também, fazer um mestrado e experimentar as oportunidades como treinador de futebol. Assim, após a universidade, o meu plano era tentar jogar futsal profissionalmente na Europa (eu já tinha cidadania italiana, o que ajudou muito no processo) e seguir a carreira como treinador nos Estados Unidos após o período como jogador. Felizmente os planos têm dado certo e, após meus anos jogando na Europa, estou há sete anos e meio trabalhando como treinador nos Estados Unidos.


Na convenção anual da NSCAA, na Filadélfia, mais de dez mil treinadores estiveram presentes – entre eles, Antonelli

 

Universidade do Futebol – De que maneira você avalia a evolução da modalidade nos Estados Unidos e que importância têm os treinadores e jogadores estrangeiros nesse processo de profissionalização?

Marcelo Antonelli – O futebol já é bem profissional nos Estados Unidos. Até mesmo, minha opinião pessoal é que a Major League Soccer (MLS) ? a liga profissional americana de futebol ? é bem mais organizada do que o Campeonato Brasileiro. No entanto, o número de equipes profissionais no Brasil é muito maior, assim como também existe uma diferença salarial considerável entre os jogadores de elite dos dois países (devido ao teto salarial estipulado nos Estados Unidos).

O futebol é o principal esporte dos Estados Unidos em número de praticantes até o ensino médio. A partir daí, o nosso futebol perde espaço para os esportes tipicamente “americanos”: american football, basketball, baseball, ice hockey etc.).

Apesar de participarem dos mundiais há muito tempo, a seleção americana de futebol masculina não tem uma história de muito sucesso. Em um país no qual a maioria da população é apaixonada por outros esportes nos quais os Estados Unidos são umas das principais potencias mundiais, fica difícil, durante o final do processo de iniciação, manter os principais atletas no futebol.

Os jogadores estrangeiros, assim como a população recente de imigrantes dos Estados Unidos, que trazem com eles uma forma de paixão diferente pelo esporte, são muito importantes para fortalecer o nível da liga profissional, tanto dentro de campo como nas arquibancadas.
 

 

 

Como a mentalidade fixa ou a de crescimento pode ser o fator decisivo para o sucesso ou fracasso de um jogador?
 

 

 

Universidade do Futebol – É possível se dizer que já há uma "escola estadunidense de futebol", assim como há um modelo de jogo tipicamente inglês, italiano, brasileiro e argentino, por exemplo? Ou acredita que a globalização estabeleceu parâmetros e aproximou esses estilos?

Marcelo Antonelli – Essa pergunta é bem interessante e complexa. Como recebi as perguntas durante meu Premier Diploma da NSCAA, resolvi repassar essa pergunta e a próxima para dois ícones do futebol nos Estados Unidos, que foram meus instrutores durante o curso.

Para responder com a perspectiva do futebol masculino, repassei as perguntas para Schellas Hyndman (mais de 20 anos como treinador universitário e treinador da equipe profissional FC Dallas por cinco anos). Schellas passou ainda um ano trabalhando como treinador no Brasil.

Para responder a pergunta se referindo ao futebol feminino, repassei também essa pergunta (e a próxima) para Nancy Feldman (por 20 anos treinadora da Boston University). Nancy claramente tem um papel de referência muito importante, principalmente, para jovens treinadoras de todo o país que buscam seguir nesta profissão numericamente dominada pelos homens.

Schellas: “Devido à variedade de lugares de onde nossos atletas vêm, nós não temos um estilo claro de jogo americano. Pessoalmente, acredito que encontrar e seguir um estilo próprio seria importante para o futebol nos Estados Unidos. Apesar de não termos um estilo definido, é importante ressaltar que, no início dos anos 70, quando os EUA contrataram Dettmar Cramer (ex-treinador do Bayern de Munique) para ser o treinador da nossa seleção nacional, ele teve grande influência no desenvolvimento do estilo de treinamento no país, incluindo uma grande influência na nossa metodologia de ensino no futebol.”

Nancy: “Os Estados Unidos não têm uma escola de futebol definida. Algumas das razões são o tamanho do país, a forma como o esporte se espalhou e as diferenças culturais de cada estado. Por exemplo, em Massachussets a influência portuguesa foi muito grande; em Nova Jersey a influência maior foi a italiana; no sul da Califórnia a grande influência foi latina; na Philadelphia a influência alemã foi muito grande.
Quando o esporte começou a ser praticado por garotas, muitos pais que não eram imigrantes não tinham nenhum conhecimento do futebol, e usavam sua base de outros esportes (em geral tipicamente americanos) para dar treinos. Isso gerou, desde o início, uma distância grande entre os estilos praticados pelo país.

A diferença só aumentou considerando-se o estilo “free marking society” dos Estados Unidos: o futebol começou a ser visto como uma boa oportunidade de negócios e diferentes comunidades começaram a “vender” o próprio estilo para montar equipes, clubes, e ganhar dinheiro.”


Treinador brasileiro com Schellas Hyndman e Nancy Feldman, durante o Premier –  Diploma da NSCAA, na Flórida

 

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual é o perfil atual do jogador de futebol dos Estados Unidos?

Marcelo Antonelli – Schellas: “O perfil do jogador americano é o do jogador físico. Forte, veloz, de chegada firme na bola. A mentalidade é aquela de nunca desistir, de dedicação, empenho, coragem. Nós queremos adicionar o componente técnico. Temos alguns dos melhores goleiros do mundo. Se tivéssemos que ranquear, nossa melhor área é a física, seguida da psicológica. As partes técnica e tática ainda precisam evoluir para competir contra as melhores seleções do mundo.”

Nancy: “A típica jogadora de ponta americana tem um ótimo físico, é forte, de classe social média ou média alta e joga com muita garra. A seguir, algumas frases que podem definir um pouco da mentalidade da jogadora americana:

Work for what you want (se empenhe para conseguir o que deseja).
Go get it (vá atrás do que você quer).
If you work hard, you will achieve (se você trabalhar duro, você irá conseguir).

Universidade do Futebol – Os Estados Unidos têm uma tradição secular de organização desportiva e tratamento profissional de suas ligas. De maneira geral, como é estruturado o futebol nos Estados Unidos? Há uma diferenciação muito grande entre a categoria profissional masculina e feminina?

Marcelo Antonelli – Existe uma diferença cultural muito grande entre os Estados Unidos e o Brasil, que se reflete no tratamento de todas as ligas esportivas, profissionais ou não. Um simples exemplo: nós agendamos os jogos da minha equipe universitária em média dois anos antes da partida, enquanto no Brasil tantas decisões são feitas de última hora.

Quando falamos em esporte nos Estados Unidos, é importante deixar claro que o esporte universitário, apesar de amador por lei (da própria confederação universitária), muitas vezes atrai quase tanta mídia quanto o esporte profissional.

Muitos americanos possuem raízes muito fortes com as universidades e preferem seguir as equipes universitárias tanto quanto as equipes profissionais.

A liga profissional americana de futebol masculina está melhorando a cada ano, aumentando números como a média de público. Segundo o site “Sporting Intelligence” (www.sportingintelligence.com), a liga americana é a sétima melhor do mundo, a frente de países como Holanda, França, Argentina e Portugal.

Um importante fator a ser considerado é que a liga americana se mantém relativamente equilibrada, com o sistema de teto salarial e “draft” (divisão dos jogadores). Por outro lado, esse sistema não atrai muitas das grandes estrelas mundiais, que não poderiam ganhar nos Estados Unidos o que ganham em outras ligas do mundo. As únicas exceções são os limitados números de jogadores que cada equipe tem direito que não necessitam atender ao teto salarial.

O futebol feminino também possui atualmente uma liga profissional. Após tentativas fracassadas de criar e manter uma liga profissional com salários altos e jogando em estádios grandes (que têm aluguel muito caro), os organizadores reformularam o campeonato, com cifras muito mais modestas e jogando em estádios menores. A intenção é fazer o campeonato mais viável e procurar dar continuidade a ele durante os anos seguintes.


Treinadores participam de atividade prática durante o Premier – Diploma da NSCAA 

 

Universidade do Futebol – Qual é o papel dos pais na prática esportiva e, particularmente, do futebol nos EUA? Que diferenças existem em relação ao Brasil?

Marcelo Antonelli – Existem mais de mil equipes universitárias de futebol nos Estados Unidos (considerando todas as confederações, divisões e ambos os sexos). Centenas de milhares de americanos e americanas sonham em jogar futebol universitário, seja pelo status, pela paixão pelo esporte ou principalmente pela busca de bolsa de estudos que ajudam a pagar os caros estudos universitários nos Estados Unidos.

Em grande parte, o papel dos pais é o de tentar oferecer ao filho ou filha a oportunidade de se preparar e se expor para o processo de recrutamento. Isso gera um mercado muito grande, que envolve milhares e milhares de clubes de futebol, “camps” e grandes torneios chamados de “showcases”. Sem falar em hotéis, materiais esportivos etc. É um processo semelhante ao que ocorre com outros esportes universitários.

Universidade do Futebol – Como você vê o "espírito de competição" dos jovens norte-americanos? Eles praticam esporte para ganhar ou apenas praticam como um meio de educação, lazer e/ou saúde?

Marcelo Antonelli – Os americanos são extremamente competitivos! E o fato de, desde cedo, terem a mentalidade de competir para conseguir as bolsas de estudos, faz com que às vezes nem se divirtam tanto jogando durante a adolescência. Muitos encaram quase como uma obrigação, um trabalho. Eu diria que, em geral, eles jogam de forma mais dura que no Brasil, no entanto os brasileiros discutem mais. É só olhar, no Brasil, uma pelada na esquina, cedo ou tarde uma discussão deverá começar… Nos Estados Unidos é um pouco mais raro ocorrer. Claro que depende muito do local. Por exemplo, em Miami tem ligas recreativas quase só formadas de estrangeiros e as partidas são “bem quentes”.

Apesar de serem, em geral, muito competitivos, vale mencionar que se sairmos do ambiente competitivo de elite, muitos jovens americanos, por serem mais “mimados” do que brasileiros que cresceram em ambientes “menos protegidos”, não possuem o mesmo grau de motivação. Acredito que o mesmo ocorra atualmente com parte das gerações brasileiras mais novas de classe social média alta.

Universidade do Futebol – E o mercado de trabalho para profissionais do futebol brasileiro que queiram trabalhar nos EUA? Quais são os principais desafios e dificuldades a serem superados?

Marcelo Antonelli – Eu trabalho no esporte universitário. Claro, considerando os números de posições, o esporte universitário tem muito mais oportunidades que o profissional. Os clubes (equivalentes às escolas de futebol no Brasil) oferecem ainda mais oportunidades, devido ao grande número de clubes de futebol existentes nos Estados Unidos.

Cada uma dessas áreas necessita de um profissional de perfil diferente.

Para trabalhar com esporte universitário aqui nos Estados Unidos, o inglês precisa ser muito bom, e a pessoa tem que ter (na grande maioria dos casos) ensino superior e, se possível, um mestrado. Cerca de 20 a 30% do tempo dedicado ao trabalho, é dentro de campo, dando treinos ou dirigindo a equipe durante os jogos. O resto do tempo é trabalho de campo ou escritório, relacionado à equipe.

Provavelmente, a forma mais fácil de se entrar no mercado de trabalho é estudar por aqui. Um caso típico é o de quem vem fazer faculdade e jogar, e depois começa a trabalhar. Outra forma é o meu caso: vim para os Estados Unidos fazer um mestrado como graduate assistant coach (GA), ou seja, uma posição part-time, onde eu ganhava meu mestrado e uma ajuda de custo em troca de auxiliar no treinamento da equipe.

Esta posição como GA, em geral, dura dois anos (a duração do mestrado) e rende à pessoa o visto para trabalhar por um ano na área de estudo. A partir daí, se a pessoa for contratada poderá conseguir o visto de trabalho, que em geral é de três anos e pode ser renovado por outros três. Existem outras formas para conseguir trabalho e outros tipos de visto, mas as que descrevi estão entre as mais comuns (não considerando quem veio para os Estados Unidos ainda jovem com os pais).

Em resumo, os principais desafios são: o inglês, compreender o sistema por aqui, e conseguir e manter os vistos.

Existem muitas oportunidades, mas o mercado também está muito concorrido, com pessoas do mundo inteiro tentando vir trabalhar nos Estados Unidos. Vale lembrar que a NSCAA é a maior associação de treinadores de futebol do mundo, com dezenas de milhares de treinadores atualmente associados.
 
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