Marcelo Martins, preparador físico do Bayern de Munique

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A participação brasileira no título do Bayern de Munique na Liga dos Campeões deste ano foi além das quatro linhas. Além dos defensores Dante, Luiz Gustavo e Rafinha, um profissional nascido no Rio de Janeiro e radicado em Brasília também fez parte da campanha vitoriosa na principal competição europeia.

Marcelo Martins, desde 2008, integra a equipe de preparação física do clube alemão e já trabalhou com técnicos como Jupp Heycnkes, Louis van Gaal e Jürgen Klinsmann, quem o indicou para o atual cargo.

E, depois de cinco anos, a experiência adquirida no primeiro e único grande clube que trabalhou já lhe rendeu uma visão convicta sobre o futuro da sua profissão.

"O preparador físico sempre fez parte da comissão técnica e creio que isso não deva mudar no futuro. Mas, eu acho que, durante muitos anos, este profissional sempre esteve muito concentrado no desenvolvimento de certas qualidades físicas e motoras sem prestar muita atenção na qualidade do movimento. Se a mecânica do atleta for deficiente, esse tipo de trabalho pode estar predispondo o mesmo a certas lesões. Então, no futuro, acredito que a análise do movimento dos atletas por parte dos preparadores físicos venha a ser uma parte fundamental na programação dos treinamentos", aponta Martins, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

O modelo de jogo e a intensidade apresentada pelo Bayern de Munique, principalmente, nos dois confrontos diante do Barcelona também surpreendeu a elite do futebol mundial.

Para o preparador físico, no entanto, o fato de o elenco do time da Alemanha estar se destacando fisicamente neste ano não é somente por causa do seu trabalho. Ele argumenta que as atividades não têm sido muito diferentes dos últimos anos e que as vitórias aconteceram, entre outros fatores, por causa da vontade dos jogadores.

"A equipe tem um plantel excelente, com praticamente dois jogadores de alto nível pra cada posição, facilitando a rotação dos jogadores durante a temporada, sem a perda do nível de jogo. Outro ponto importante é o fato de, na temporada passada, termos ficado em segundo lugar nas três competições que disputamos e termos perdido o título da Liga dos Campeões para o Chelsea em casa. Isso ficou entalado na garganta dos jogadores e acredito que trouxe uma motivação extra para essa temporada", analisa.

Apesar do sucesso conquistado na curta carreira, Martins deixará a Europa ainda neste mês e não terá a oportunidade de trabalhar com Pep Guardiola, novo comandante do conjunto alemão. Ele voltará ao Brasil para cuidar do seu pai, doente.

Antes de fazer as malas, no entanto, concedeu esta entrevista por email diretamente de Munique. O profissional ainda falou sobre como é realizada a integração da preparação física com as questões técnicas e táticas do jogo e detalhou como faz a recuperação pós-jogo com os atletas de elite. Confira:

Universidade do FutebolConte-nos como foi sua trajetória profissional até chegar ao Bayern de Munique.

Marcelo Martins – Depois que terminei um mestrado nos Estados Unidos, comecei a trabalhar em uma companhia chamada Athlete’s Performance [considerado um dos melhores centros de treinamento nos Estados Unidos para homens e mulheres]. Essa companhia trabalha com atletas e times profissionais e não-profissionais. Uma das minhas ocupações era trabalhar na performance da equipe Chivas USA, da MLS [Major League Soccer], na qual trabalhei com o assistente técnico Martin Vasquez.

No ano anterior, essa mesma companhia foi contratada pra cuidar da performance da seleção alemã e continua com eles até hoje. Quando o [Jurgen] Klinsmann assumiu o Bayern, eu estava trabalhando no Qatar e recebi um telefonema dele me convidando a fazer parte da comissão.

Como ele queria ter na equipe dele alguém com a mesma filosofia de trabalho da Athlete’s Performance e, como eu já havia trabalhado com o Martin Vasquez (que na época foi o assistente técnico do Klinsmann), surgiu essa oportunidade.

Nós usamos um sistema de GPS. Com ele, nós conseguimos quantificar, de certa forma, a intensidade dos treinamentos, revela Marcelo Martins

 

Universidade do FutebolQual e como é a participação da Federação Alemã no processo de qualificação dos profissionais e no atual momento do futebol no país?

Marcelo Martins – Infelizmente, eu não sei quase nada a respeito. Apenas tenho conhecimento que, para dirigir um time em qualquer uma das três primeiras ligas do futebol alemão, o treinador tem de fazer um curso no Hennes-Weisweiler-Akademie [escola de formação de treinadores que pertence à Federação Alemã de Futebol], que fica em Colônia.

O preparador físico afirma que procura manter o relacionamento com os jogadores da maneira mais profissional possível, sem muito envolvimento pessoal. Para ele, esta maneira facilita um bom relacionamento com todos eles

 

Universidade do FutebolVocê passou por algum tipo de atualização profissional promovido pela Federação Alemã ou pela Uefa?

Marcelo Martins – Nunca fui contatado ou tive qualquer envolvimento com a Federação Alemã de Futebol ou com a Uefa.

Universidade do FutebolNo Bayern de Munique, como é realizada a integração da preparação física com as questões técnicas e táticas do jogo?

Marcelo Martins – Eu diria que 85% dos nossos treinamentos são com bola. Existem alguns componentes que tentamos encaixar em uma programação semanal, mas, que estão sempre sujeitos a uma avaliação e decisão do treinador.

De qualquer forma, as questões técnicas e táticas são integradas com a parte física através de exercícios de passe com diferentes distâncias. Jogos de posse de bola com diferentes dimensões e posições específicas para determinados jogadores. E jogos nos formatos 4×4 até 11×11, com certas variações nas regras dependendo do objetivo programado.

Existem também certos tipos de trabalhos que são necessários e podem ser realizados com ou sem a bola. Como exemplo, posso citar os trabalhos de sprint (RSA), onde tentamos reduzir o tempo d
e recuperação entre um sprint e outro.

Além disso, há os trabalhos de velocidade, agilidade e coordenação, nos quais, além de tentarmos desenvolver essas capacidades físicas e motoras, focamos o trabalho na qualidade do movimento. Normalmente, esses treinamentos são realizados sem a bola.

Os jogadores alemães são mais disciplinados com relação a certas regras e horários. Já os jogadores sul-americanos são mais descontraídos, mais brincalhões, difere o brasileiro

Universidade do FutebolQuais são os métodos que você utiliza para dimensionar e controlar as cargas de treino dos atletas?

Marcelo Martins – Nós usamos um sistema de GPS chamado Inmotio. Com esse sistema, nós conseguimos quantificar, de certa forma, a intensidade dos treinamentos.

E, mais importante, ajustar a necessidade de certos jogadores a determinados métodos de treino utilizados, pois recebemos em tempo real informações como a distância percorrida, a velocidade e o batimento cardíaco.

Estamos trabalhando com este sistema na tentativa de aperfeiçoar os valores recebidos quanto à aceleração, o que nos possibilitaria quantificar melhor a carga muscular dos treinamentos.

Marcelo Martins, desde 2008, integra a equipe de preparação física do clube alemão e já trabalhou com técnicos como Jupp Heycnkes, Louis van Gaal (foto) e Jürgen Klinsmann

Universidade do FutebolComo é a relação pessoal e profissional entre o preparador físico e os atletas no Bayern de Munique? Existe algum tipo de trabalho que busca unir as questões psicológicas, motivacionais e físicas?

Marcelo Martins – Eu procuro manter o meu relacionamento com os jogadores da maneira mais profissional possível, sem muito envolvimento pessoal, o que facilita um bom relacionamento com todos eles.

Tentamos, sempre, fazer um trabalho de educação, no qual os jogadores possam entender a importância do trabalho desenvolvido e os benefícios que o mesmo possa vir a trazer-lhes. E, de uma certa forma, esse processo educativo auxilia nas questões psicológicas e motivacionais.

Eu diria que 85% dos nossos treinamentos são com bola. Então, as questões técnicas e táticas são integradas com a parte física através de exercícios de passe com diferentes distâncias, explica

 

 

Universidade do FutebolNo trabalho diário, existe alguma diferença entre o perfil dos jogadores dos diferentes países? Qual a influência da cultura no trabalho de campo?

Marcelo Martins – No trabalho de campo, eu não vejo muita ou quase nenhuma diferença cultural. Todos trabalham com bastante seriedade e sabem que têm de dar o melhor de si em cada treinamento, pois a concorrência é forte. Lógico que sempre há um ou outro insatisfeito por não estar jogando, mas, isso é independente da nacionalidade.

Fora do campo, normalmente, os jogadores alemães são mais disciplinados com relação a certas regras e horários. Os jogadores sul-americanos são mais descontraídos, mais brincalhões. E, logicamente, existem também os grupos que se formam por afinidades.

Segundo ele, o fato de o time ter ficado em segundo lugar nas três competições que disputaram e terem perdido o título da Liga dos Campeões para o Chelsea em casa trouxe uma motivação extra para essa temporada

 

 

Universidade do FutebolSabe-se hoje que um dos principais trabalhos dos preparadores físicos é a recuperação pós-jogo. Como funciona esta vertente no Bayern? Quais os principais métodos e estratégias utilizadas?

Marcelo Martins – Logo após o jogo, os jogadores ingerem um shake que consiste de uma mistura de proteínas e carboidratos, no intuito de começar o mais rápido possível o processo de recuperação. Também, logo após o jogo, utilizamos a imersão em água fria (mais ou menos a 12 graus) por cerca de 5 minutos.

No dia seguinte após os jogos, fazemos uma sessão regenerativa que consiste em três partes. A primeira parte consiste de um trabalho aeróbio que pode ser uma corrida (de 20 a 30 minutos) ou bicicleta (de 30 a 45 minutos). Se jogarmos um jogo por semana, optamos pela corrida. Agora, se jogarmos dois ou mais jogos em uma mesma semana, optamos pela bicicleta. Este trabalho pode ser feito na sala de musculação ou saímos e pedalamos em um parque perto do centro de treinamento do clube.

Na segunda parte, utilizamos "trigger points" com uma bola de massagem na tentativa de aliviar dores causadas por minúsculos nós na musculatura e "foam rolls" (self-myofascial release) na musculatura dos membros inferiores.

E, na terceira parte, novamente utilizamos a imersão em água fria, como opcional. Também no dia seguinte, todos os jogadores que jogaram 70 ou mais minutos têm de marcar um horário com um dos fisioterapeutas para fazerem um controle da musculatura.

Outro fator importante no processo de recuperação é o dia livre. Quando jogamos um jogo por semana, a maioria dos jogadores tem um dia de folga, alguns deles podem ter até dois dias. Com dois ou mais jogos por semana, os dias de folga são concedidos baseados na análise, pela comissão técnica, das necessidades individuais.

Existem também certos tipos de trabalhos que são realizados sem a bola. Como exemplo, ele cita os trabalhos de sprint (RSA), onde a equipe da preparação física do Bayern de Munique busca reduzir o tempo de recuperação entre um sprint e outro

 

 

Universidade do FutebolHoje em dia, diversos treinadores e preparadores afirmam que a fadiga cognitiva influencia tanto quanto a fadiga f
ísica. O que você acha desta visão? Costuma trabalhar estas questões no treinamento?

Marcelo Martins – Não creio que seja muito simples fazer uma distinção entre os dois tipos de fadiga. Mas, acredito que ambas podem influenciar negativamente o rendimento dos jogadores.

Na época do [técnico] Louis van Gaal, nós tínhamos um psicólogo no time e, a cada duas semanas, era enviado via email, para cada jogador, um questionário com perguntas referentes à qualidade do sono, alimentação, humor, relacionamento familiar, etc. E somente o psicólogo e o treinador tinham acesso às respostas.

Essa era uma maneira de tentar detectar e avaliar certos padrões e tendências que pudessem, de alguma forma, influenciar negativamente a performance dos jogadores.

Universidade do FutebolVocê segue algum modelo de periodização específico? Quais os principais métodos de treino utilizados?

Marcelo Martins – Não seguimos nenhum modelo de periodização. Às vezes, utilizamos na pré-temporada, dependendo do tempo disponível e da quantidade de jogos preparatórios.

Acredito que, quando um certo nível de condicionamento é alcançado, ele tem de ser mantido sem grandes variabilidades durante a temporada porque cada jogo o time joga para ganhar.

Nós, na preparação física, somos três preparadores: um encarregado dos jogadores lesionados e dois que atuam com o restante do time. E realizamos um trabalho intensivo em cima da mecânica do movimento do jogador.

Fazemos um teste chamado Functional Movement Screen (FMS), no qual podemos observar certas assimetrias ou disfunções que podem diminuir a performance ou predispor certos jogadores a um maior risco de lesões.

Pelo menos duas vezes por semana, na sala de musculação e na maioria dos aquecimentos no campo, fazemos um trabalho de mobilidade e estabilidade. Nos treinamentos sem bola, como nas sessões de velocidade, agilidade ou coordenação, colocamos bastante ênfase na qualidade do movimento.

Nos treinamentos sem bola, como nas sessões de velocidade, agilidade ou coordenação, colocamos bastante ênfase na qualidade do movimento, revela

 

Universidade do FutebolEm sua opinião, a que se deve a intensidade observada no jogo alemão? Como isto poderia ser aplicado no Brasil?

Marcelo Martins – Acredito que você esteja se referindo à seleção alemã. O treinador Joachim Löw tem mantido, em parte, o mesmo grupo de jogadores desde que assumiu a seleção com o Klinsmann, adicionando alguns jovens talentos ao time como Marco Reus, Götze, Draxler, entre outros.

A base da seleção é formada pelos dois melhores times da Bundesliga, que são também, na atualidade, dois dos melhores times da Europa, Bayern de Munique e Borussia Dortmund.

Talvez tenha também alguma relevância o fato de que 17 dos 18 treinadores da Bundesliga sejam alemães e hoje, para dirigir qualquer equipe seja da primeira, segunda ou terceira divisão, os treinadores têm de passar pela Hennes-Weisweiler-Akademie, em Colônia, para conseguir a licença de treinador.

Com relação ao Bayern, o time também tem mantido a mesma base de jogadores durante várias temporadas, o que facilita o entrosamento dentro e fora de campo.

Hoje, a equipe tem um plantel excelente, com praticamente dois jogadores de alto nível pra cada posição, facilitando a rotação dos jogadores durante a temporada, sem a perda do nível de jogo.

Outro ponto importante é o fato de, na temporada passada, termos ficado em segundo lugar nas três competições que disputamos e termos perdido o título da Liga dos Campeões para o Chelsea em casa. Isso ficou entalado na garganta dos jogadores e acredito que trouxe uma motivação extra para essa temporada.

Não sei como isso poderia ser aplicado no Brasil, pois a nossa realidade é completamente diferente.

Marcelo Martins também aponta que outro fator importante no processo de recuperação é o dia livre. "Quando jogamos um jogo por semana, a maioria dos jogadores tem um dia de folga", detalha

 

Universidade do FutebolHoje, na Alemanha, como o futebol brasileiro é visto?

Marcelo Martins – O Brasil é o único país pentacampeão mundial e o único que participou de todas as Copas do Mundo. E isso tem de ser respeitado. Mas, os alemães sabem que a realidade do futebol brasileiro já há algum tempo não é mais a mesma.

Atualmente, os alemães estão em segundo lugar no ranking da Fifa e, apesar de reconhecerem um certo favoritismo do Brasil por estar jogando em casa, eles continuam trabalhando sério e visando alcançar o topo do ranking no Mundial do ano que vem.

Universidade do FutebolConsiderando-se a integração dos trabalhos físicos e táticos aplicados, nessa perspectiva, como você vê a inserção do preparador físico na comissão técnica daqui a alguns anos?

Marcelo Martins – O preparador físico sempre fez parte da comissão técnica e creio que isso não deva mudar no futuro.

Mas, eu acho que, durante muitos anos, o preparador físico sempre esteve muito concentrado no desenvolvimento de certas qualidades físicas e motoras sem prestar muita atenção na qualidade do movimento.

Um trabalho de força e velocidade, por exemplo, pode ser muito importante para alguns jogadores. Mas, se a mecânica do atleta for deficiente, esse tipo de trabalho pode estar predispondo o mesmo a certas lesões.

O movimento de um atleta é como se fosse a fundação de uma obra (uma casa, por exemplo). Tem de ser sólida e estável para poder se construir. Com isso, eu quero dizer que, no futuro, acredito que a análise do movimento dos atletas por parte dos preparadores físicos venha a ser uma parte fundamental na programação dos treinamentos. 

 

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