Universidade do Futebol

Entrevistas

26/10/2018

Marcelo Paz – Presidente do Fortaleza Esporte Clube

“Futebol não pode ser tratado de forma amadora”

 

Sentado na cadeira da presidência do Fortaleza Esporte Clube há quase um ano, Marcelo Paz, de 35 anos, sonha alto. Não à toa, contratou Rogério Ceni para comandar o Tricolor no ano do centenário – comemorado neste 18 de outubro – e disputa o título da Série B do Campeonato Brasileiro, conquista nacional que seria inédita para o clube. Fora de campo, o dirigente também optou pela ousadia: aposta na profissionalização do clube para melhorar a gestão e obter mais receitas para, no fim, investir mais no futebol e ter sucesso nas quatro linhas.

Para movimentar as finanças do Leão do Pici, o mandatário aposta em dois setores: marketing e licenciamento da marca. O primeiro, para divulgar a imagem do clube; o segundo, para capitalizar a imagem do clube e a marca própria, a Leão 1918 – os produtos oficiais vão de picolé, cerveja e vinho aos próprios uniformes da equipe. Com dinheiro em caixa, segundo Paz, é possível formar um time competitivo, que terá resultados positivos, incentivará o torcedor a comprar mais produtos, ir aos jogos e se associar e possibilitará novas receitas, o que viabilizará novos investimentos na equipe e no clube. Mas, inicialmente, é necessário ter ousadia para montar um elenco qualificado para depois o torcedor dar a resposta, na visão do presidente.

No Tricolor desde 2015, Marcelo Paz já foi diretor de futebol e vice-presidente. Em novembro do ano passado, assumiu o comando do clube. Adotou medidas por uma gestão mais moderna e profissional, como a contratação de uma empresa de consultoria – o dirigente é formado em Administração e proprietário de uma escola na capital cearense, da qual se licenciou para se dedicar ao novo cargo. Com as finanças em dia, o presidente aponta as dificuldades, como dívidas antigas, mas destaca a autossustentabilidade do clube e ressalta a necessidade de responsabilidade na administração.

No departamento de futebol, priorizou a montagem de um elenco com condições para disputar o acesso à Série A, após oito anos na Terceira Divisão nacional. Exalta o perfil vitorioso do ex-goleiro e agora técnico Rogério Ceni, mas admite a pressão pela mudança no comando em momentos de turbulência na temporada, algo corriqueiro no futebol brasileiro, e diz que é preciso ter convicção no momento de escolher o treinador.

Graduado em Gestão Técnica no Futebol pela Universidade do Futebol, Marcelo Paz enxerga avanços na gestão do futebol brasileiro, mas reconhece que é necessário avançar e cobra mais oportunidades para qualificação dos dirigentes, também por meio das Federações e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Marcelo Paz e Muricy Ramalho. (Créditos: Divulgação/Fortaleza EC)

 

Confira a entrevista completa:

Universidade do Futebol: Qual a importância da profissionalização da gestão das diversas áreas do clube?

Marcelo Paz – Eu entendo que a profissionalização é uma obrigação, uma necessidade. Quando você trata o futebol como um “negócio, que movimenta milhões e paixões, ele não pode ser tratado de forma amadora, apenas com o tempo disponível da pessoa, quando der. A necessidade de profissionalização de um clube de futebol de massa é premente porque só vai funcionar assim. E mesmo se estiver tudo profissionalizado, ainda é difícil ganhar, porque futebol é difícil. Um clube de futebol é uma grande empresa, que emprega pessoas, paga impostos, tem um serviço social com a comunidade, está sujeito à legislação e penalidades esportivas e fiscais, então os diversos setores precisam estar profissionalizados, não só o futebol, mas também a administração, a contabilidade, o marketing, para fazer bom uso da imagem para captar recursos, o jurídico, porque muitos clubes sucumbem por contratos mal feitos, distratos mal feitos, passivos trabalhistas… Então tudo isso tem que ser olhado com muito profissionalismo. Se isso funcionar, vai ajudar a bola entrar.

Universidade do Futebol: O Fortaleza pensa em profissionalizar e remunerar os cargos de diretoria ou presidência e vice-presidência?

Marcelo Paz – Eu acho que tem que atingir essa condição, porque não é justo que as pessoas saiam dos seus trabalhos, das suas empresas, do seu dia a dia, dediquem-se ao clube e não sejam remuneradas. E o estatuto do Fortaleza já permite isso, porém tem que ser aprovado junto ao Conselho (Deliberativo) quando você vai lançar o orçamento anual. E eu acho que no dia em que isso for lançado, vai ter alguma rejeição de algumas pessoas mais conservadoras que entendem que quem está como dirigente tem só que servir e não pode ser remunerado. Mas é um contrassenso, né? Você pede profissionalismo, mas não remunera quem se dedica ao clube. É algo que tem que ser avançado politicamente. Alguns clubes já partiram na frente, fazem a gestão assim e têm tido sucesso.

Universidade do Futebol: Algum dos dirigentes atuais é remunerado?

Marcelo Paz – Não. Dirigente estatutário, presidente e vice-presidentes eleitos, ninguém é remunerado.

Universidade do Futebol: No início da sua gestão, o clube contratou uma empresa de consultoria para definir diretrizes de gestão. O que já foi realizado até agora e o que já há planejado para o seu próximo mandato?

Marcelo Paz – Muito foi realizado com a ajuda deles, porque a gente traçou um planejamento estratégico e faz um acompanhamento dele. Nós temos reuniões periódicas, já tivemos quatro, em que nós vemos o planejamento e fazemos a checagem do andamento desses pontos. Não vou lembrar de cabeça, mas foram 32 itens, alguns foram concluídos, outros vão estar sempre em andamento e alguns não andaram. Por exemplo, nós tínhamos a ideia de fazer aqui, no Pici, uma visita guiada, que seria uma forma de gerar receita. O clube está em reforma, talvez ainda não esteja tão atrativo e ainda não foi feito, mas foi definido no planejamento estratégico e a gente não executou. É um exemplo do que pode vir a ser feito, assim como muitas outras coisas já foram executadas.

Universidade do Futebol: Já é possível ver avanços e resultados em algumas áreas profissionalizadas do clube, como marketing e licenciamento da marca?

Marcelo Paz – O marketing do Fortaleza, hoje, é uma referência até a nível nacional, com números crescentes de seguidores em redes sociais, estando entre os principais do Brasil, em termos de engajamento estamos entre os principais da América, já tivemos comercial premiado até fora do país. Então, está a olhos vistos que o caminho da profissionalização gerou resultado para o clube como um todo. No licenciamento, hoje temos mais de 10 mil produtos licenciados e todos geram receita para o clube de alguma forma, nem que seja um pouquinho em cada. E nós temos que caminhar mais, porque licenciamento é um mundo. Todos os produtos que existem podem ser licenciados. Uma geladeira, por exemplo, pode ter a marca do Fortaleza. Um copo, um lápis, até um carro, se for o caso. O que não pode é usarem a marca do Fortaleza sem a nossa autorização. E nós temos combatido isso, não necessariamente brigando, mas trazendo para dentro, fazendo o licenciamento para realizar a venda de forma legal. São dois setores que já estão trazendo resultados e bons exemplos de que a profissionalização vale a pena.

Universidade do Futebol: Como o Fortaleza cuida da marca própria, a Leão 1918?

Marcelo Paz – Eu digo que o Fortaleza produz futebol e paixão. Isso é o que a gente produz. Na parte de camisas, a gente até tem um controle maior, porque nós compramos toda a produção da fábrica para revender aos lojistas para que o clube tenha um lucro maior. Nós desenvolvemos o layout da camisa e quem produz é a fábrica. Nós não temos uma fábrica de camisas aqui dentro, porque não é o nosso foco, nosso core business. Dos demais produtos, a empresa traz o produto no padrão que irá vender com a marca do Fortaleza, nós aprovamos e ela inicia a venda autorizada, tendo o nosso controle através dos selos que certificam que o produto é oficial. O cuidado que nós temos é de formalizar em contrato, muitos com garantia mínima de produção e retorno financeiro, e o controle através do selo. O Fortaleza não produz, mas licencia a marca, que é o principal ativo e é o que as pessoas amam. Se em um supermercado tiver um vinho sem a marca do Fortaleza e outro com a marca do Fortaleza, eu tenho certeza que o nosso torcedor vai preferir comprar com a marca, pelo menos a primeira vez, para provar. Se for bom, ele vai comprar mais vezes.

Universidade do Futebol: Quais as dificuldades de fazer futebol com finanças menores que os grandes clubes do Brasil, mas com despesas altas para a realidade do clube?

Marcelo Paz – A primeira forma de encontrar esse equilíbrio é não assumir despesas tão altas. É preciso ter cuidado com o que vai assumir. Por outro lado, se você for extremamente conservador, sem ousadia, você não vai formar um time competitivo, não vai ter uma comissão técnica competitiva. Tem que achar esse equilíbrio entre a hora que é preciso realmente investir e a hora em que tem que dar uma segurada. Por exemplo, nesse ano mesmo, na Série B, chegou um momento em que nós vimos que tínhamos chances de subir, e eu disse: ‘A hora de investir é agora. Vamos contratar mais para não faltar peças lá na frente’, aí trouxemos mais quatro jogadores para dar ao Rogério (Ceni) toda a condição. E aí é um investimento, porque você arrisca. Se o time conseguir subir, o dinheiro volta. O gestor tem que ter a coragem e a habilidade de fazer essa aposta e trabalhar para que dê certo. É o tempo todo nesse limite, mas a bola entrando facilita muito. Mas a bola só vai entrar se tiver um time bom e só vai ter time bom se apostar antes. Então, primeiro, você acredita e aposta, o time passa a ser competitivo – não é uma regra, mas é o ideal que seja – e depois o dinheiro passa a entrar, com venda de camisas, sócio-torcedor, estádio cheio, e isso faz o círculo ser virtuoso.

Universidade do Futebol: Esse é o melhor caminho?

Marcelo Paz – Esse é o caminho. Você pode ter a melhor gestão do mundo, o maior profissionalismo, todo mundo remunerado, um bom trabalho no marketing, administrativo, em todos os setores…mas se a bola não entrar, o dinheiro vai ficar mais escasso. O torcedor não vibra com o balanço (financeiro) do clube, ele vibra com o balanço da rede. Quando a bola entra na rede, aí ele vibra, consome, participa. Nós temos que ter muita responsabilidade com as finanças do clube, mas a bola tem que estar entrando. Isso é um fator determinante. Quando ela não está entrando e você tem um clube organizado, demora mais para a coisa ficar complicada. Então, o clube tem que estar organizado sempre. E quando está entrando e o clube é organizado, o dinheiro também vai entrar, porque as pessoas têm o que e como consumir.

Universidade do Futebol: Hoje, o Fortaleza é autossustentável com as próprias receitas?

Marcelo Paz – Hoje, o Fortaleza funciona só com as receitas próprias. Uma vez ou outra, a gente precisa fazer uma antecipação do sócio-torcedor, que é receita do clube, para um mês que teve um custo a mais, mas sempre com receitas próprias. Temos algumas doações ainda? Temos. Pequenas, dentro do todo que já foi, mas muito úteis. Às vezes não são valores, mas um equipamento. Você precisava daquilo, mas a prioridade era pagar a folha, aí alguém dá o equipamento. Que bom, porque senão só seria comprado daqui a dois ou três meses. São coisas que fazem parte de um clube de futebol, porque o torcedor também tem o prazer de poder ajudar. Mas hoje, com muita dificuldade, o Fortaleza é autossustentável, e a gente precisa avançar mais nisso.

Universidade do Futebol: O Fortaleza está com as finanças equilibradas? 

Marcelo Paz – As finanças estão equilibradas e em dia. Pagamos alguns débitos anteriores existentes, mas é no aperto. Eu preciso muito que nos próximos quatro jogos (em casa, pela Série B) entre um bom dinheiro no clube, para equilibrar as contas do final do ano.

Marcelo Paz (Créditos: Divulgação/Fortaleza EC)

Universidade do Futebol: Há muitas pendências de gestões passadas? 

Marcelo Paz – Têm algumas. O Fortaleza não é um clube que tem tantas dívidas, não, mas tem algumas. Se não tivesse seria melhor, porque esse dinheiro sobraria para agora. Mas faz parte, não cabe aqui criticar. Todo mundo que esteve aqui deu o seu melhor e buscou contribuir. Não é algo que chega a assustar. Quando aparece (dívida antiga), atrapalha, mas não chega a assustar.

Universidade do Futebol: Quais os critérios do clube para a contratação de um técnico de futebol?

Marcelo Paz – Primeiro de tudo, honestidade. No futebol, a gente consegue colher informações. Tem que ser honesto. É fundamental ser trabalhador. Não gosto muito daquele treinador espetaculoso, nem daquele perfil enérgico demais, porque isso tem prazo de validade e depois não tem tanto resultado. Eu gosto de quem estuda adversário, estuda o seu time, usa dados e estatísticas, e isso é importante porque te mostram algumas coisas. Eu gosto do perfil mais moderno de treinador de futebol. Aí, sim, eu declaro essa preferência por treinador mais jovem, que estudou, entende a importância de dados da fisiologia e preparação física, a importância da logística de viagem, da alimentação. São fatores que fazem a diferença. E, sobretudo, tem que ter o perfil vencedor. O Fortaleza é um clube que sempre entra para brigar para ganhar, então o perfil tem que ser vencedor, e esse foi um dos grandes pontos para trazer o Rogério Ceni. Embora como treinador ainda não tivesse uma carreira vitoriosa, ele foi tão vitorioso como jogador que não se permite ser diferente como treinador. E esse perfil tem sido interessante para o clube.

 

Universidade do Futebol: Em uma cultura resultadista como a brasileira, quais os desafios para se manter o técnico e a comissão técnica ao longo da temporada, principalmente nos momentos adversos?

Marcelo Paz – É difícil. Uma vez, eu estava conversando com uma psicóloga, e ela me disse que futebol é um drama. Todo drama tem um mocinho e um vilão. Eu já fui vilão no Fortaleza há um tempo. Às vezes, o vilão é o treinador. Como é um drama, o público quer uma cabeça e é a do treinador, mas não é o melhor a se fazer naquele momento. Como dirigente, você tem que tomar a frente, levar porrada. Eles vão bater no treinador, mas se o dirigente não tomar atitude, eles passam a bater em você. Aí, você tem que ter convicção de que está fazendo o melhor pelo clube e que o melhor é a continuidade. A troca de comando técnico mexe muito com o clube. Quando chega um novo treinador, se tiver tempo para contratar, ele vai querer contratar; alguns atletas que estão lá, talvez ele vá querer dispensar; o prepador físico que chega vai fazer um trabalho diferente do anterior, e o corpo do atleta é um só. Muda muita coisa. Então, o ideal é que se faça uma escolha muito bem feita para que não precise trocar no meio do caminho. Mas, às vezes, a troca também é necessária. Eu já tive, como diretor de futebol, situações em que foi necessário trocar e a mudança fez bem ao clube. Mas o ideal é você pensar bem e escolher bem para ter uma continuidade

Universidade do Futebol: O que você pensa sobre os atuais dirigentes do futebol brasileiro, tanto em termos de CBF quanto de clubes?

Marcelo Paz – Eu acho que a gente está evoluindo. O futebol brasileiro, em linhas gerais, tem tido clubes com melhores gestões. Em um passado muito recente, você via clubes com três, quatro meses de salário atrasado. Hoje, eu ouço muito pouco isso. Ainda tem um ou outro, mas diminuiu demais. Antes, era quase uma regra, hoje é uma exceção. Vejo os presidentes mais preocupados com orçamento, muitos com boas ideias. Não vou aqui criar um choque de gerações. O Grêmio, por exemplo, é um clube muito bem administrado, pelo que tenho de conhecimento, e o presidente (Romildo Bolzan Júnior) é um cara mais velho. O que existe é capacidade de gestão no futebol. Às vezes, você tem um grande gestor em outra área e ele assume um clube de futebol, mas não consegue fazer uma grande gestão. Acho que os clubes, hoje, estão bem geridos, porém tem muito o que se avançar ainda e acredito que falta capacitação, através da CBF e das Federações, porque aí ganha o futebol como um todo.

Universidade do Futebol: Algum deles serve como referência para você?

Marcelo Paz – Eu gosto muito do modelo do Flamengo, porque é um gigante que durante muito tempo teve problemas de gestão, com dívidas, e o modelo implantado pelo Bandeira (Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo) foi espetacular, porque hoje o clube é altamente superavitário, entendeu o tamanho da sua marca, capitalizou a marca, entendeu o peso da camisa e capitalizou isso, entendeu a importância da categoria de base, investiu, revelou talentos e vendeu jogadores, entendeu a importância de estrutura física e fez um CT maravilhoso. Então, são muitos avanços no Flamengo. E o futebol foi muito beneficiado pelos avanços dessa gestão, porque desde que essa gestão entrou, o clube pode até não ter tido conquistas espetaculares, mas nunca mais foi motivo de vergonha para o seu torcedor, porque está sempre brigando lá em cima nas competições.

Universidade do Futebol: Qual a importância do presidente ou gestor de um clube se capacitar e realizar cursos?

Marcelo Paz – A importância é máxima. Isso é formação continuada e serve para qualquer setor. Todos são diferentes. Se eu for administrar uma padaria, eu vou ter dificuldade, porque eu não entendo de padaria, qual o ponto do pão, que horas o padeiro chega, qual horário o cliente prefere comprar, quais produtos precisa ter, a localização… Todo segmento é diferente. A confecção é de um jeito, a escola é de outro, a padaria, a borracharia, o shopping… E o futebol também. Então, para estar no futebol, você tem que ter vivência esportiva, o traquejo, a lida dos problemas do futebol, e aí a capacitação é fundamental, porque é como você pode aprender muito, trocar experiências, fazer networking. É algo que eu acho muito necessário. Fiz curso na Universidade do Futebol, de Gestão Técnica do Futebol, e sempre que tem palestra ou algo parecido eu procuro estar presente para estar aprendendo.

 

*Colaboração especial

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