Universidade do Futebol

Entrevistas

08/04/2005

Márcio Faria Corrêa, professor e preparador físico

Um dos principais segredos do sucesso da carreira do preparador físico Márcio Faria Corrêa, está nos cuidados com que executa o seu trabalho e a atenção aos detalhes, no momento de planejar e executar as cargas de treinamento. Envolvido com a organização do Congresso Internacional de Preparação Desportiva, que acontecerá no mês de maio, em Porto Alegre, o professor Corrêa concedeu entrevista à Cidade do Futebol, onde fala um pouco de sua carreira e revela aspectos importantes na preparação física de atletas de futebol.

Cidade do Futebol – Quais as dificuldades que você encontra para desenvolver seu trabalho adequadamente?
Corrêa Em alguns clubes ainda há dificuldades de novas tecnologias e mentalidade, mas independentemente de qualquer limitação, temos que raciocinar cientificamente e com muita coerência adaptarmos nossos atletas a uma metodologia que dê plenas condições de manter um ótimo rendimento durante toda a temporada.

Cidade do Futebol – Como deve ser a programação de treinamentos?
Corrêa – Os programas semanais precisam ser cuidadosamente equilibrados entre os aspectos técnicos, físicos, psicológicos e táticos. Atualmente a responsabilidade do preparador físico cresceu. Não podemos cuidar somente dos exercícios e sim de toda a quantificação da preparação integral, ou seja, o volume e a intensidade das cargas de trabalho em todas as áreas que compõe o treinamento. Devemos acompanhar o desenvolvimento da ciência do treinamento desportivo e da medicina para que possamos fundamentar com competência nossos métodos de trabalho. Um exemplo disso é o equilíbrio entre as cargas de treino e a recuperação dos atletas após essa etapa. Devemos ter prudência na hora de equilibrar todos nossos exercícios, para que o atleta melhore sua condição e não ao contrário disso, decaia de rendimento. Por exemplo: Numa etapa de competição, não deveremos priorizar treinamentos de longa duração e resistência, pois os jogos serão às quartas e domingos. Nesse período é preciso dar ênfase aos treinos técnico-táticos, de força e velocidade, pois as cargas de resistência especial serão adaptadas com os próprios jogos. Devemos preparar atletas para serem os melhores nos jogos e não somente nos treinos.

Cidade do Futebol – Como trabalhar a individualidade biológica num grupo heterogêneo, caso específico do futebol?
Corrêa – Na maioria dos esportes coletivos encontramos grupos heterogêneos e o futebol não foge à regra. Temos atletas de várias idades, aptidão física diferenciada, posições diferenciadas, tempo de recuperação diferentes, enfim, necessidade de treinamentos individualizados em certos momentos. Para que esse processo ocorra de maneira correta, devemos ter em mãos o maior número possível de dados sobre avaliações físicas e controle diário do rendimento. São de extrema importância os dados dos testes atuais e de temporadas passadas. Somente desta forma poderemos identificar as necessidades de cada jogador para a melhora de seu rendimento e que cuidados devemos tomar em relação a cada um deles. Respeitar o potencial fisiológico de cada um é importante para que os excessos não ocorram. Os resultados coletados devem ficar sempre armazenados para que possamos comparar a evolução desses atletas a curto, médio e longo prazos.

Cidade do Futebol – Como deve ser a metodologia de treinamento? Corrêa – O nosso treinamento diário está baseado nos espaços e ações executadas durante os jogos. Através da tecnologia, temos à disposição, vários trabalhos que demonstram detalhadamente o que ocorre fisiologicamente dentro dos 90 minutos de uma partida de futebol. A partir dessa análise criamos a metodologia adequada para o desenvolvimento de uma ótima condição competitiva. A reposição energética, através da alimentação ideal e o repouso contribuem de forma muito importante na performance dos atletas. Deve haver equilíbrio entre a alimentação, o repouso e a carga de treinamento. Onde houver a quebra de um desses fatores, o trabalho pode ficar comprometido negativamente.

Cidade do Futebol – Você acha que a preparação física está mais valorizada nos dias de hoje?
Corrêa – Até há algum tempo o torcedor não via o trabalho da preparação física, que passava despercebido até pela mídia. Hoje isto mudou e várias equipes demonstram superioridade nessa questão e a valorização deste trabalho dá-se também aos profissionais da preparação física que buscam o conhecimento. Sem um bom nível de preparação física não há equipe que possa dar boas respostas técnicas e táticas durante uma partida.

Cidade do Futebol – Conte um pouco sobre sua carreira profissional no futebol.
Corrêa – Atuo na área de preparação física desde 1991. Trabalhei em 15 clubes, entre eles o Sport Club Internacional de Porto Alegre e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Obtive destaque em minha passagem de quatro anos pela Arábia Saudita, onde fui campeão de uma das principais competições do mundo árabe, a “King Cup”, junto ao Al Shabab Club, da capital, Riyadh. Este clube foi dirigido no passado pelos técnicos, Luiz Felipe Scolari e Vanderlei Luxemburgo. Depois, trabalhei no Al Riyadh Club por duas temporadas e outra temporada no Al Etiifaq Sport Club. Fui atleta amador e profissional, atuando como jogador somente até os 24 anos, quando concluí o curso de Educação Física. Vivi o futebol como atleta desde as categorias de base, estive do lado prático, busquei em minha formação acadêmica uma maneira de aliar o lado empírico que pratiquei, ao lado cientifico, que busco desde então para dar cada vez mais qualidade ao maior esporte do planeta.

08/04/05

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