Universidade do Futebol

Entrevistas

23/05/2014

Márcio Schmidt, diretor geral do Rondonópolis-MT

O palco era Cuiabá. O evento, uma seletiva de meninas para jogar futebol. Para Ana Vitória, uma oportunidade de realizar um sonho. Aos 13 anos, ela foi uma das escolhidas pela treinadora da seleção feminina sub-17, Emily Lima, e seu assistente técnico, Luiz Antonio Ribeiro, para ingressar no grupo verde-amarelo. Você leu bem: sub-17.

Por intermédio do diretor do Rondonópolis Esporte Clube, Márcio Schmidt, onde atua ao lado de meninos, a meia-atacante ficou sabendo do processo que seria realizado a 200 quilômetros de seu quintal.

No dia marcado, Ana viajou acompanhada de seu pai, Waldemar Nestor. O teste realizado era para servir à sub-15, mas Ana Vitória foi convocada para a última etapa de treinamento da equipe sub-17 antes do Sul-Americano, das quais seriam selecionadas as meninas que disputariam a competição.

“Isso representa a confirmação de um raro talento em potencial e também vem a consolidar nosso trabalho de identificar, desenvolver e promover jovens com aptidão para o futebol. Ela é exemplo de uma menina determinada, talentosa e inteligente que desde os 8 anos de idade treina e joga entre meninos, conseguindo destaque e mantendo a evolução de forma surpreendente”, diz o orgulhoso Márcio.

A história, comum à alagoana Marta, maior jogadora da história da modalidade e que estreou profissionalmente aos 14 anos, já tem seus primeiros capítulos escritos. Entre as mais de 130 meninas de todo o estado, Ana Vitória foi destaque absoluto desta que foi uma das 14 seletivas realizadas pela CBF em diversos estados pelo Brasil.

Nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol, Schmidt fala sobre as peculiaridades de Ana Vitória, a estrutura do Rondonópolis e em que patamar se encontra o futebol no Mato Grosso.


A sorridente Ana Vitória ao lado da treinadora Emily Lima e do assistente Luiz Ribeiro
 

 

Universidade do Futebol – Fale um pouco mais sobre a história da Ana Vitória e o que representa uma menina de 14 anos ser convocada para uma seletiva de atletas de 17 anos?

Márcio Schmidt – Na realidade, a Ana Vitória foi convocada e disputou o Sul-Americano sub-17 em 2013, no Paraguai, com apenas 13 anos.

Mesmo sendo a atleta mais jovem da competição, ela conseguiu destaque e terminou a competição como titular da seleção brasileira.

Hoje, com apenas 14 anos, ela já acumula seis convocações entre a sub-15 e a sub-17, fatos estes que para nós representa a confirmação de um raro talento em potencial e também vem a consolidar nosso trabalho de identificar, desenvolver e promover jovens com aptidão para o futebol.

Além disso, é exemplo de uma menina determinada, talentosa e inteligente que desde os 8 anos de idade treina e joga entre meninos, conseguindo destaque e mantendo a evolução de forma surpreendente.
 

 

 

Emily Lima, treinadora da seleção brasileira sub-17
 

 

 

Universidade do Futebol – Que tipos de barreiras existem ainda no futebol feminino para chegarmos a um patamar minimamente ideal?

Márcio Schmidt – A única menina que trabalha conosco em nível competitivo é a Ana Vitória, embora eu não tenha muita experiência em futebol feminino, sempre gostei de acompanhar, e apenas em virtude do trabalho com ela é que passei a me aprofundar no assunto.

Mas acredito que no Brasil as barreiras estão diminuindo e seja necessário melhorar a imagem do esporte e encaminhar o profissionalismo.

 


"Ela é exemplo de uma menina determinada, talentosa e inteligente que desde os 8 anos de idade treina e joga entre meninos", diz diretor

 

 

Universidade do Futebol – Você acredita que a formação de novos jogadores e jogadoras está condicionada à melhora na formação de bons treinadores?

Márcio Schmidt – Cada vez mais acredito que sim. Com a evolução do esporte em todos os aspectos e a proporção e a representatividade que ele atinge as pessoas, a exigência de quem participa desse processo é cada vez mais abrangente e determinante, e os treinadores são uns dos principais componentes.

Universidade do Futebol – De maneira resumida, o que é um atleta de futebol inteligente?

Márcio Schmidt – Acredito que seja aquele que tem facilidade de absorver as informações e colocá-las em prática e que possua uma percepção apurada do jogo e do contexto dele.

Universidade do Futebol – Como o Rondonópolis trabalha em relação à prospecção, seleção e formação de talentos?

Márcio Schmidt – O Rondonópolis é um clube com apenas sete anos de existência que tem como identidade trabalhar com formação de atletas, com o objetivo de identificar, desenvolver e promover talentos em potencial.

A prospecção geralmente tem início na nossa escolinha e de escolas do município nas categorias menores, onde iniciamos com uma transição para a base com as crianças de 11 e 12 anos.

Elas são selecionados e inseridos no sub-11, no sub-13 e no sub-15 e passam pelo processo de desenvolvimento, com trabalhos mais direcionados e disputando mais competições em nível regional e nacional.

Nas categorias sub-17 e sub-19 ocorre uma sazonalidade, muito em virtude da falta de competições no calendário, então geralmente focamos nas conquistas das vagas para a Copa Rio, eventualmente, e Copa São Paulo.

Nestas situações, utilizamos atletas que já estão conosco de bom nível. Captamos primeiramente dentro do estado, onde temos parceiros e avaliamos no próprio campeonato ou trazemos para testes e somados a estes, através de uma boa rede de contato e certo conhecimento, buscamos atletas de outros estados, geralmente com boas parcerias pela visibilidade e confiabilidade.


Rondonópolis é um clube com apenas sete anos de existência e que tem como identidade trabalhar com formação de atletas
 

 

Universidade do Futebol – Fale sobre a estrutura do clube e quais são as peculiaridades do futebol no Mato Grosso.

Márcio Schmidt – O clube possui uma boa estrutura física, considerada funcional para nossos padrões, com três campos oficiais, academia, vestiários, rouparias, auditório, refeitório e alojamento com capacidade para 40 atletas.

O futebol do Mato Grosso tem se caracterizado nos últimos anos pelo domínio dos clubes do interior, como referências de trabalhos, principalmente do Luverdense, hoje na Série B do Brasileiro e com boas campanhas na Copa do Brasil entre os profissionais.

Além disso, o Rondonópolis, na base, já conta com vários jovens atletas locais encaminhados para grandes clubes, como São Paulo, Internacional, Grêmio, Cruzeiro, Atlético-PR, Fluminense ,Palmeiras entre outros, e disputou as últimas quatro edições da Copa São Paulo e fez história, sendo o único clube do Estado, em 45 edições, a avançar de fase – em 2012, chegou nas oitavas de final e revelou o artilheiro da competição, Valdívia, hoje destaque no time principal do Internacional.

Universidade do Futebol – O futebol feminino ainda encontra dificuldades para expandir-se e atingir a grande mídia. Isso se deve a quê? Como evoluir diante desse cenário?

Márcio Schmidt – Tem que existir um projeto de médio a longo prazo. Vejo que seria um processo gradativo, que passa, primeiramente, por melhorar a imagem do produto, criar um novo contexto.

É primordial atrair a mídia de forma bastante positiva: quem quer acompanhar, assistir e patrocinar o futebol feminino certamente busca algo bem diferente do masculino, então junto a isso entra a capacitação e a conscientização das pessoas, profissionalização e obviamente intensificar e disseminar trabalhos de base, nos clubes e nas escolas


Aos 14 anos, Ana Vitória treina com meninas de até 17 anos na seleção: um fenômeno
 

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