Universidade do Futebol

Entrevistas

18/02/2011

Marquinhos Santos, da seleçao sub-15 e da base do Coritiba

Quando Ney Franco foi escolhido para assumir a seleção sub-20 e a recém-criada coordenação das categorias de base na CBF (Confederação Brasileira de Futebol), uma sinalização foi dada: o trabalho de formação do futebol brasileiro passaria por uma mudança estrutural e de filosofia.

A partir do novo conjunto de trabalho criado, estabeleceu-se que o desenvolvimento entre as comissões técnicas e o grupo de jovens que atua no departamento de futebol profissional dos seus respectivos clubes seria conduzido por um período mais consistente. E Ney apostou em dois representantes conceituados na área para organizar as equipes nacionais sub-15 e sub-17.

Emerson Ávila, com larga experiência no processo de formação de atletas, trabalhava nas categorias de base do Cruzeiro e deixou o cargo para assumir o elenco juvenil. Já a direção do infantil ficou a cargo de Marquinhos Santos.

O treinador seguirá com os selecionáveis até que eles sejam eventualmente promovidos para o sub-17. E o mesmo processo ocorrerá com Ávila, atualmente à frente dos talentos nascidos entre 93 e 94 – posteriormente, ele passará a treinar a categoria anterior. Diante desse novo plano executivo, os jogadores devem criar uma identidade atuando com o mesmo comandante por um período de quatro anos até chegar ao patamar mais elevado.

“Com todos caminhando na mesma direção, a possibilidade de se fazer um resultado é maior. Que os adversários sejam somente os outros e que nós busquemos os melhores objetivos. Vamos iniciar uma fase decisiva e todos sabem o que viemos buscar aqui”, discursou Mano Menezes, comandante da seleção principal, integrado em todo o processo.

Graduado em Educação Física e especialista em Treinamento Desportivo, Marquinhos Santos desembarcou no futebol paranaense em 2004, proveniente de uma escolinha da modalidade ligada ao Atlético-PR. Na agremiação rubro-negra, pródiga no aporte à base, trabalhou em quase todas as categorias.

No time sub-20 atleticano, Marquinhos foi vice-campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2009, quando recebeu o convite do principal rival de seu então empregador: tornou-se o treinador do sub-20, referenciado pelo coordenador do departamento de formação coxa-branca, Mario André Mazzuco.

 

Mario André Mazzuco, coordenador das categorias de base do Coritiba

 

“O Marquinhos, hoje, é o melhor treinador de categorias de base do País. Precisávamos de alguém com perfil inovador, que ajudasse na integração técnica entre a base e o profissional. Ele tem um trabalho de formação e assistência dentro e fora de campo”, explicou, à ocasião, Mazzuco.

Os resultados práticos não demoraram. Na metade do ano passado, o time júnior do Coritiba conquistou a Taça BH, superando justamente o Atlético-PR na decisão. Nos meses finais de 2010, o convite para trabalhar novamente com Ney Franco, campeão paranaense e da Série B do Campeonato Brasileiro pela equipe alviverde, agora na seleção brasileira. Mas Marquinhos também seguiu vinculado ao Alto da Glória.

“São dois projetos diferentes, porém dentro de um mesmo processo que é a formação, e por conta disto estarei servindo a seleção nos períodos de preparações ou competições internacionais e fico monitorando e coletando observações e informações sobre atletas do Brasil inteiro na categoria sub-15. Paralelamente ao trabalho na CBF, permaneço como treinador do sub-20 e do sub-23 do Coritiba, dando continuidade ao processo de término de formação de atletas do clube”, explicou o treinador, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

Entre outros temas, Marquinhos falou sobre o processo de detecção e desenvolvimento de talento do jogador de futebol no Brasil, sua relação com Marcelo Oliveira, substituto de Ney Franco no Coritiba e o método tecnicista arraigado nos clubes.

“Pelo processo de evolução no futebol que se tem nos dias de hoje, é importante implementar situações táticas de treinamentos, mas objetivando principalmente na atividade o exercício e o aperfeiçoamento técnico, claro, respeitando a individualidade biológica, os conceitos e os conteúdos para cada categoria ou idade a serem aplicados”, apontou.

Dudu, no alto com a bola, participou da campanha vitoriosa do Brasil no Sul-Americano sub-20: conhecimento de Ney Franco, em contato com Marquinhos Santos 

 

Universidade do Futebol – No fim do ano passado, você recebeu o convite do Ney Franco, coordenador das categorias de base da seleção e ex-treinador do Coritiba, para assumir a equipe nacional sub-15. Mas permaneceu vinculado ao clube coxa-branca. De que maneira as ações são conduzidas conjuntamente?

Marquinhos Santos – São dois projetos diferentes, porém dentro de um mesmo processo que é a formação, e por conta disto estarei servindo a seleção nos períodos de preparações ou competições internacionais e fico monitorando e coletando observações e informações sobre atletas do Brasil inteiro na categoria sub-15.

Paralelamente ao trabalho na CBF, permaneço como treinador do sub-20 e do sub-23 do Coritiba, dando continuidade ao processo de término de formação de atletas do clube.

Universidade do Futebol – Como se dá a interação entre você e a preparação física e comissão técnica, departamentos médico e de fisiologia, e com o próprio trabalho realizado com as demais equipes de base da seleção brasileira? E no caso do Coritiba, há o Marcelo Oliveira, que atuou durante anos no departamento de formação do Atlético-MG. Como é o contato?

Marquinhos Santos – Bom, primeiro quanto à interação entre, comissão técnica, departamentos médicos e de fisiologia e eu, ela se dá da melhor maneira possível, pois entendo que todo este processo faz parte da formação como um todo, o que chamamos de formação por excelência. E meu contato é praticamente diário.

Quanto ao processo realizado com as demais equipes de base da seleção brasileira, acontece da melhor maneira possível, também, pois o professor Ney Franco faz contato semanalmente com os profissionais das comissões. Sem contar as reuniões que acontecem para que se possa tratar de assuntos referentes a planejamentos, desempenho de atletas e desenvolvimento de trabalho entre as categorias de base da seleção.

E no caso do Coritiba, o professor Marcelo Oliveira é um excelente profissional, seguindo uma mesma filosofia que havia com o Ney e por isso não está havendo dificuldades quanto ao acesso de informações deste trabalho de transição entre base e profissional.

Por conta de o Marcelo ser oriundo da base, ele sabe qualificar e classificar muito bem o trabalho que vem sendo realizado para a formação de jovens e novos atletas.


 Com passagem pelo futebol mineiro, Marcelo Oliveira hoje é o treinador principal do Coritiba: relação com Marquinhos Santos é positiva e contato, diário

 

Universidade do Futebol – De maneira geral nos departamentos de formação dos clubes brasileiros, há uma real preocupação didática do profissional que se responsabiliza por essa área em explicar e discutir os treinos? Como os atletas jovens podem desenvolver esse processo de autonomia e participar da construção de uma atividade?

Marquinhos Santos – Os clubes hoje passaram a se preocupar mais com a base e entendo ser este o caminho para o futuro deles. Os mesmos estão profissionalizando este processo, no qual qualificam seus profissionais da área ou buscam profissionais qualificados para tal.

Creio que o processo precisa ser uma via de duas mãos, em que o atleta possa ter liberdade e saber se expressar quanto à realização de um treino ou uma atividade. Desta maneira, você estará formando um jogador diferente para o mercado, sendo muito mais criterioso, estimulando sua curiosidade e criatividade, podendo, assim, minimizar os erros que se tem dentro do departamento de formação.

Universidade do Futebol – O jogo de futebol não é feito apenas de fundamentos, movimentos técnicos, sendo a relação com a bola apenas uma das competências essenciais dessa prática. Como desenvolver esses mesmos jogos facilitando a aprendizagem da estruturação do espaço e da comunicação na ação?

Marquinhos Santos – As capacidades do jogo são varias, porém o desenvolvimento de uma partida se dá em dois momentos: quando está com a bola e quando está sem a bola.

Há variações de ações que chamamos de táticas, podendo ser elas sistemas, esquemas ou estratégias. E o desenvolvimento deste processo deve ser de forma gradativa, planejada e conceitual, pois não se pode ministrar um treinamento para atletas de uma equipe sub-15 com conteúdos para atletas de uma equipe sub-20, por exemplo. Os conceitos são diferentes.

Universidade do Futebol – Pode-se dizer que o método tecnicista ainda está fortemente arraigado no inconsciente coletivo dos profissionais de futebol? Há uma grande dificuldade em compreender como é possível ensinar e aperfeiçoar a técnica dentro do contexto de jogo, ou como se teoriza, ensinar a técnica por meio da ação tática?

Marquinhos Santos – Realmente, o método tecnicista permanece fortemente dentro do processo de futebol, porém é necessário que se entenda que o futebol evoluiu e hoje o atleta com 18 anos precisa estar formado para o profissional.

O mercado para a profissionalização destes atletas está cada vez mais precoce, mas alguns valores e conceitos não podem se perder, como o treino de destreza técnica executada pelas repetições, que levam a correções técnicas, mecânicas de movimento e conhecimento do movimento.

Pelo processo de evolução no futebol que se tem nos dias de hoje, é importante implementar situações táticas de treinamentos, mas objetivando principalmente na atividade o exercício e o aperfeiçoamento técnico, claro, respeitando a individualidade biológica, os conceitos e os conteúdos para cada categoria ou idade a serem aplicados.


 

Universidade do Futebol – Em uma entrevista recente à Universidade do Futebol, o Rafael Vieira, analista de desempenho da seleção brasileira, citou que a montagem dos treinamentos do Mano Menezes segue aquilo que ele tem como modelo de jogo, ou seja, de acordo com as necessidades da equipe. E na categoria sub-15, como se dá essa funcionamento?

Marquinhos Santos – Como falei anteriormente, conseguimos aplicar os treinamentos de destrezas de aperfeiçoamento técnico com suporte e elementos táticos conforme a ideia e o modelo de jogo necessários para a seleção brasileira, que é jogar um futebol para frente, buscando o gol.

Estimulamos os atletas da seleção sub-15 para realmente jogarem o futebol de qualidade, enaltecendo a criatividade e a individualidade do drible, da finalização, do futebol solto e moleque, dentro de um processo que chamamos de “futebol moderno com conceitos táticos”.
 

 

Rafael Vieira, analista de desempenho da seleção brasileira principal 
 

 

Universidade do Futebol – Como você avalia o processo de detecção e desenvolvimento de talento do jogador de futebol no Brasil? Os grandes clubes formadores – Atlético-PR e Coritiba são dois deles – sabem exatamente que jogador estão procurando para fazer parte desse contexto?

Marquinhos Santos – É muito importante este processo, pois é á partir daí que se inicia a base de formação, na qual os cuidados para observação e avaliação têm que ser pelo processo de sequência de objetivos e perfil de atletas e clubes.

Como normalmente estas captações são feitas nas categorias menores, o processo deve ser conduzido pela qualidade do jogador, e não pelo nível maturacional, pois pode correr o risco de o atleta ser um fenômeno com 12, 13 ou 14 anos, e a partir dos 16, 17 anos o mesmo não mais desenvolver e render dentro da expectativa almejada.

Primeiro, é importante avaliar o menino como jogador de futebol, para depois avaliá-lo como atleta. Grandes equipes já desenvolvem este projeto e estão alcançando resultados satisfatórios em nível de formação, e posso dizer que sinto enorme prazer de ter realizado este processo pelo Atlético-PR e agora venho desenvolvendo o mesmo caminho junto ao Coritiba.

O objetivo é ajudar a colher frutos já neste processo com atletas que estão integrados ao profissional, correspondendo à expectativa do clube. E isto credencia o trabalho do profissional, pois assim sei que a filosofia e o projeto implantados estão dando certo e seguindo um caminho de evolução.


 

Universidade do Futebol – E mais: os processos de formação estão bem organizados e estruturados, com conteúdos bem definidos para serem desenvolvidos, com as equipes tendo claros os objetivos finais do processo de formação? A questão vale tanto para os clubes brasileiros, de maneira geral, quanto para a realidade da seleção.

Marquinhos Santos – Não posso responder quanto às outras equipes por não fazer parte e por não conhecer o dia a dia destas, mas pelo que venho acompanhado, há, sim, uma evolução dentro deste processo.

Não seria ético de minha parte julgar o trabalho ou a competência de outros profissionais desconhecendo a realidade diária e a dificuldades dos clubes.

A seleção tem um projeto de formação bem definido, planejado e estruturado pelo professor Ney Franco, o qual passa por mim e pelo professor Emerson Ávila, que se trata de um excelente profissional e de uma excelente pessoa, com a qual venho aprendendo muito e que vem realizando um grande trabalho à frente da seleção brasileira sub-17.


Ávila, Marquinhos, Mano e Ney: trabalho integrado entre seleção principal e base é aposta da CBF em momento de transição do futebol brasileiro

 

Universidade do Futebol – O fato de as crianças não brincarem mais tanto de futebol, desenvolvendo essa atividade majoritariamente em escolinhas ao comando de um professor muitas vezes tecnicista, pode acarretar em uma perda da identidade brasileira ao longo do tempo?

Marquinhos Santos – Pela violência que se encontra hoje, principalmente nos grandes centros, perdemos um pouco da cultura futebolística que era o de jogar em campinhos, praias, ruas ou várzeas e acabamos ficando sem muitas oportunidades para a prática. Mas aqui no Brasil dizemos que o talento não nasce, e sim estreia, por sempre estarem surgindo grandes jogadores.

Por esse motivo, acredito que sempre deva estar se renovando a geração de grandes talentos para o futebol brasileiro. Talvez não na mesma quantidade de antes, mas ainda assim estaremos sempre revelando e formando craques do futebol.

Universidade do Futebol – Alguns estudiosos ligados às Ciências do Esporte colocam o sub-15 como um dos grandes desafios das categorias de base no futebol. A influência do processo maturacional, a iniciação à sistematização dos treinos, a iniciação ao ambiente do futebol de alto nível e o afastamento dos pais e responsáveis, são alguns dos pontos de destaque aos jovens dessa faixa etária. Poderia comentar sobre isso?

Marquinhos Santos – Como falei anteriormente, a profissionalização precoce no futebol tem acontecido cada vez mais cedo, pois cito aqui que muitos anos atrás, o jogador muitas vezes só iria estrear pelo profissional com 20, 21, 22 e às vezes até 23 anos. Havia a categoria de aspirantes, mas hoje o jogador de 19, 18 e até 17 anos tem que estar preparado para subir ao profissional.

Acontece, porém, que alguns atletas podem até estarem maduros, física, técnica e tática, mas não psicologicamente. Temos exemplos de várias promessas que sumiram ao longo do tempo e às vezes voltam a aparecer muitos anos mais tarde, passando por equipes menores e amadurecendo emocionalmente. Lá, eventualmente alcançam a preparação necessária para ser um atleta de futebol.

Por isso é necessário que principalmente para esta idade e categoria se faça um planejamento de trabalho com conceitos e treinamentos aplicados para tal – o futebol de performance vai ser sempre visando ao resultando, porém nem sempre o campeão do sub-15 vai ser o craque do sub-20.

Há de se tomar muito cuidado neste processo para não perder um talento. O foco nesta idade tem que ser formação; título é consequência de trabalho, organização, competência e planejamento.


 
Para Marquinhos, foco no sub-15 tem de ser apenas a formação; “título é consequência de trabalho, organização, competência e planejamento”.

 

Universidade do Futebol – Qual o papel dos jogos reduzidos no desenvolvimento do jogar da equipe? Como eles podem ser utilizados e como seus objetivos devem ser definidos?

Marquinhos Santos – Classifico o papel dos jogos reduzidos como extremamente importantes dentro deste processo de formação, pois é um elemento técnico e tático do treinamento que faz com que os atletas desenvolvam mais vezes o contato com a bola.

Sempre digo que o brinquedo de traquinagem do menino tem que ser a bola, e quanto mais contato tiver, mais estimulado e motivado ele estará para evoluir.

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Alceu Neto, criador do projeto Futebol de Rua
Anderson Gôngora, técnico-adjunto do sub-17 do Paulínia
Élio Carravetta, coordenador de preparação física do Internacional
João Carlos Bouzas, professor da UFV 
Klauss Câmara, coordenador de captação do Atlético-PR
Adriano Silva Soares, preparador de goleiros da base do Atlético-MG
Enderson Moreira, técnico do time B do Internacional 
 

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