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03/01/2018

Mas o que são as tais linhas de 4?

Muito se fala hoje em dia das tais linhas de quatro. Na onda do pos 7×1, o futebol brasileiro está na ofensiva para se modernizar taticamente e encurtar a distância que o separa de nações europeias e até sul-americanas (vide o desempenho de treinadores sul-americanos em clubes europeus). Clubes e federações estão envolvidos nesse movimento. Notadamente, o intercâmbio com profissionais estrangeiros aumentou consideravelmente. A CBF intensificou o desenvolvimento dos seus cursos para treinadores de futebol e está empenhada em obter o reconhecimento e equiparação/equivalência desses cursos com os oferecidos pela UEFA. Os treinadores de futebol em particular têm sido protagonistas nesses processos, buscando elevar seu conhecimento e capacidade tática por meio dos cursos da CBF (entre outros) e intercâmbios internacionais (em alguns casos na verdade há um sério erro de nomenclatura, já que assistir alguns treinos por alguns dias não se constitui em um intercâmbio – mas de qualquer forma a intenção é louvável). O resultado prático desse processo, ou seja, a modernização tática do futebol dentro dos campos de futebol, das séries A,B e C do Campeonato Brasileiro, não é perceptível instantaneamente, leva tempo. Porém, algumas facetas dessa modernização tática (e/ou adequação a um modelo tático europeu) já estão bem presentes dentro de campo. Uma delas é a marcação por zona e as linhas de quatro defensivas. Mas, afinal, o que são as tais linhas de quatro tão comentadas por treinadores e cronistas esportivos?

Antes de definir propriamente a linha de quatro, faz-se necessário um breve comentário sobre os tipos de marcação no futebol: marcação por zona x marcação individual. Independente do tipo, seja por zona ou individual, a bola e a posição dela em relação ao gol que se está defendendo, é o ponto de princípio para a ação defensiva. O objetivo é o mesmo: aplicar pressão sobre o jogador adversário em posse da bola com o intuito de rouba-la ou impedir que ela se movimente em direção ao gol que se está defendendo. A maneira como se movimentam os jogadores da equipe sem a posse de bola ao redor do jogador pressionando o adversário em posse dela, é o que diferencia a marcação por zona da marcação individual. Resumidamente, na marcação por zona o jogador mais próximo da bola é responsável por aplicar pressão, enquanto os outros jogadores são responsáveis por defender um setor ou uma área específica do campo. Marcar aquele setor ou área é sua função primária. Sua função secundária, é marcar um ou mais jogadores adversários que estiverem dentro daquele setor ou área.

O uso de linhas de quatro é uma alternativa tática dentro de uma marcação por zona. No caso das tais “linhas de quatro”, treinadores e comentaristas se referem as duas linhas especificamente, uma linha de quatro composta por zagueiros e laterais e a outra composta por meio campistas e atacantes laterais (de beirada, pontas ou “wingers”). Ou seja, cada linha se refere a um setor. Evidentemente, fica a critério do treinador a composição dessas linhas. Linhas de quatro jogadores são mais utilizadas, porém na marcação por zona existem variações táticas onde as linhas são compostas por cinco ou três jogadores. É importante ressaltar que essas linhas de quatro se referem a formação tática utilizada defensivamente, ou seja, quando a equipe perde a posse da bola. Ofensivamente equipes podem e geralmente têm uma composição diferente. Vejamos como exemplo o 4-2-3-1, formação tática possivelmente mais utilizada hoje em dia por treinadores do mundo todo, defensivamente a formação se torna um 4-4-1-1. Assim como o 4-3-3, também muito utilizado, geralmente se transforma em um 4-1-4-1 quando a equipe perde a posse da bola. Nesse caso, porém, é comum que o treinador opte por ter um jogador meio-campista (volante) posicionado entre as linhas de quatro, ou forme uma linha de cinco no meio campo (ou uma combinação das duas opções). Mas quais as funções dos jogadores dentro da linha de quatro?

Individualmente numa linha de quatro (seja ela a primeira ou a segunda linha), um jogador aplica a pressão (P) enquanto os outros três oferecem cobertura (C) e/ou equilíbrio (E). O termo cobertura se refere ao jogador (X) ou jogadores (na linha de quatro) mais próximos do jogador aplicando a pressão. O termo equilíbrio se refere ao jogador ou jogadores (na linha de quatro) mais distantes do jogador aplicando a pressão. O objetivo da cobertura e equilíbrio, é uma compactação desses jogadores dentro da linha com a finalidade de impedir a penetração do adversário em posse da bola (o), seja através do drible/condução da bola, passe ou chute. Essas são as possíveis configurações dos jogadores na linha de quatro e suas respectivas funções (diagrama).

P       C       E       E

          X      X       X

X   

o

C       P      C       E

X                X       X

          X   

          o

E        C      P       C

X        X               X

                   X        

                   o

E        E       C      P

X        X       X

                            X        

                            o

Quando se usa o termo linha é natural que se pense em uma reta, afinal uma linha frequentemente é uma reta. Porém, para que uma linha de quatro defensiva seja efetiva, ela não pode ser uma reta. Para que a linha defensiva potencialize seu objetivo de evitar a penetração do adversário em posse da bola, é preciso que os jogadores na função de cobertura e equilíbrio estejam necessariamente posicionados atrás do jogador, aplicando pressão na bola. Distâncias e ângulos propícios entre os jogadores da linha, são a essência do seu bom funcionamento (esses podem variar dependendo das características individuais dos jogadores compondo a linha). E qual e a relação entre essas duas linhas? Os jogadores devem estar compactados dentro da linha de quatro (ou 5…) mas da mesma forma, para que as linhas funcionem eficientemente, as duas linhas defensivas devem estar próximas ou compactadas. E isso, independente da altura das linhas. Treinadores podem optar por uma marcação alta (pressionar a saída de bola do adversário) ou baixa (permitir a saída de bola do adversário), porém qualquer que seja a alternativa escolhida, a eficiência da marcação por zona depende fundamentalmente da distância entre as linhas. Assim, a distância dentro da linha bem como a distância entre elas, são o segredo do sucesso.

Existem elementos importantes que são próprios de cada linha. O principal deles é o fato da primeira linha (composta por meio campistas e atacantes laterais) operar com a existência de uma segunda linha na sua retaguarda enquanto a segunda linha (composta por zagueiros e laterais) ter apenas o goleiro na sua retaguarda. Esse fato especifica a natureza de algumas de suas funções. Dentro dessas funções específicas da primeira linha, por exemplo, estão as atribuições de volantes e atacantes laterais no caso da equipe adversária conseguir a penetração entre as linhas. No caso da segunda linha, estão as atribuições de zagueiros e laterais na utilização da regra do impedimento como recurso defensivo.

Como se vê, o conceito das linhas de quatro não é nenhum mistério. Porém, a sua aplicação efetiva e duradoura é uma qualidade ainda longe de ser dominada por equipes brasileiras. Na historia recente do nosso futebol brasileiro, as equipes que chegaram mais próximas dessa excelência defensiva foram: o Corinthians do Tite (de 2011-2012 e 2015) e o Corinthians do Carille (do primeiro turno do Brasileirão desse ano). Felizmente, nossa seleção nacional segue o mesmo caminho desde o momento em que Adenor Bachi, Tite, e sua competente comissão técnica passaram a comanda-la. Não precisa ser um gênio para constatar a forte correlação entre a capacidade de executar com excelência a marcação em linhas e a capacidade de ganhar jogos. Afinal, não permitir que o adversário chegue ao seu gol é metade do caminho (a metade mais fácil… fazer os gols é infinitamente mais difícil no que se refere a capacidade do treinador de influenciar o jogo). Tite é exceção, assim como um grupo muito pequeno de treinadores brasileiros.

É ate comum ver equipes fazendo uso eficiente das linhas de quatro, mas na grande maioria das vezes a eficiência se perde no decorrer da partida, principalmente nos últimos 15 minutos de cada tempo. Com o cansaço físico e mental, a pressão aplicada no jogador adversário na posse da bola vai ficando mais fraca, a distância entre os jogadores compondo a linha aumenta, assim como a distância entre as linhas. O gol adversário é consequência natural dessa deterioração tática. Acredito que muitos dos treinadores que falam das tais linhas de quatro, não sabem exatamente como elas deveriam funcionar, e se compreendem o seu funcionamento, certamente não tem a capacidade de passar esse ensinamento para seus jogadores. A capacidade de “coaching” desses aspectos do futebol é uma arte, e essa arte infelizmente não esta a venda nas melhores lojas do ramo…

 

*MBA

Licença UEFA “A”

Comentários

  1. ILTON disse:

    Realmente as duas linhas de 4 tem uma grande eficiência. Podemos perceber bem essa eficiência no Brasil x Argentina, onde a Argentina esbarrou na forte marcação das linhas de 4 impostas pelo grande TITE. Ficou notório que a eficiência das linhas tem que existir para existir um equilíbrio e balanço defensivo.

  2. Marcelo Barbosa da Silva disse:

    O jogo entre Brasil e Inglaterra demonstrou nitidamente o bom funcionamento defensivo de ambas seleções, onde tivemos um jogos com poucas chances de gol, com forte marcação e grande concentração do jogo no meio campo. As duas seleções jogam de forma bem parecida, com linhas definidas.

  3. AURI disse:

    ESTE ARTIGO MELHOROU E MUITO OS MEUS CONHECIMENTOS: TIPO: P(PRESSÃO) E(EQUILIBRIO) E C(COBERTURA) E TAMBÉM AS DISTÂNCIA ENTRE AS LINHAS E ENTRE ELAS. MUITO BOM MESMO

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