Universidade do Futebol

Entrevistas

07/07/2014

Mauana Simas, coordenadora do projeto de narração audiodescritiva

A “Copa das Copas” não necessariamente é a “Copa de Todos”. Com frequência, pessoas cegas ou com visão subnormal são excluídas de muitos eventos culturais e desportivos aos quais a maior parte da sociedade tem acesso. Mas o Mundial de 2014, no Brasil, que está se encaminhando ao fim, teve um diferencial: a narração audiodescritiva.

O serviço garante que torcedores com deficiência visual tenham uma melhor compreensão do jogo in loco, sendo capazes de se divertir ao lado de outros espectadores. No país, a Urece, sob a coordenação de Mauana Simas, esteve à frente da empreitada.

A audiodescrição é semelhante à narração de rádio, mas com ênfase na experiência do palco da partida. Além disso, o narrador especialmente treinado fornece uma descrição adicional de todas as informações visuais significativas, como linguagem corporal, expressão facial, entorno, lances, uniformes, cores e qualquer outra coisa importante para transmitir a aparência e o ambiente, além do que está acontecendo efetivamente em campo.

“Recebemos a metodologia desenhada, adaptamos algumas coisas, mas foi algo bem próximo ao desenvolvido na Eurocopa. O povo brasileiro tem uma relação diferente com o futebol do que os europeus. E os cegos não poderiam ser diferentes”, explica Mauana, que é formada em Jornalismo na PUC, do Rio de Janeiro.

Segundo ela, os nossos fãs demandam mais emoção e vibração enquanto ocorre a narração. Houve, então, a necessidade de adaptar a audiodescrição, para não causar um estranhamento àqueles acostumados com o rádio. Uma experiência diferente, cujo objetivo é fazê-la ser estendida depois da grande final do torneio da Fifa.

Durante o Mundial, os estádios de Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo contaram com os locutores especializados, e a intenção é que as instalações sejam mantidas para um público que é especial e deve ser tratado desta forma.

“Nós temos três ‘Uruguais’ de cegos e surdos no Brasil. É muita gente para simplesmente ignorarmos sabendo que existe esta barreira de comunicação com estas pessoas”, avalia Mauana.“As propostas de inclusão são sempre pensando nisso: nestas pessoas que são cidadãos, eleitores, consumidores e precisam fazer parte do todo. Não porque somos ‘bonzinhos’ ou ‘compramos a vaga no céu’. Se trata de um trabalho sério, profissional, para que elas fiquem mais críticas”, completa.

A coordenadora do projeto relembra a história de um garoto de nove anos, que tem hidrocefalia, e foi pela primeira vez ao Mineirão, em Belo Horizonte, durante a Copa. O pai precisou levar um amplificador para que ele pudesse ouvir melhor a narração. O feedback dele foi singelo: “Eu adorei isso, papai, queria que tivesse isso em todos os lugares”.

Para Mauana, o jovem vai ficar muito mais crítico em relação às propostas de acessibilidade e inclusão do que deficientes com 30, 40 anos, acostumados ao “jeitinho”.

“É legal saber que este garoto teve acesso a isso e vai ser exigente, sabedor que as coisas podem ser bem feitas e ele pode fazer parte daquele espaço físico e – mais do que isso – metafórico. É importante saber exatamente como o lance ocorreu, como o Neymar comemorou o gol, etc”, finaliza.

Ouça na entrevista na íntegra concedida por ela à Universidade do Futebol.

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